Lados e Escolhas
22 Uma Nova Era em Hogwarts
Notas iniciais
“Once upon a time I was falling in love
Now I'm only falling apart
There's nothing I can do
A total eclipse of the heart”
Depois de uma bateria exaustiva de aulas, Gargamel a esperava sentado ereto com o rabinho de escova para cima em seus novos aposentos; os antigos aposentos de seu padrinho também. Cordélia passou distraidamente uma mão pela sua cabeça dura, de pelos macios, e ele se inclinou na direção de sua palma. Com um feitiço, ela acendeu a lareira; àquela época do ano já estava frio o suficiente para tal, e então, finalmente se deixou cair numa poltrona de couro de dragão resgatada do salão comunal da Sonserina, a sala toda iluminada pela fraca luz amarelada, que criava mais sombras do que iluminação de fato nas cortinas verde-escuras e no carpete.
Ela mal havia cruzado as pernas, os olhos no fogo, pensativos, quando um toque em sua porta, três batidas curtas, a avisou que sua irmã estava entrando.
Lucy havia crescido nos últimos tempos, subitamente. Como se, em seu aniversário de quatorze anos, tivesse de repente se tornado uma adolescente. Era agora quase tão alta quanto Cordélia, e seu rosto havia perdido as bochechas gorduchas, deixando-a mais séria.
Cordélia desviou o olhar dela. Desde que chegara a Hogwarts, a irmã vivia em seu pé, a pedindo favores. Cordélia havia ajudado a Ordem da Fênix, mas não achava que devia ajudar a Armada de Dumbledore. Não porque a causa não fosse justa, mas porque eram adolescentes se arriscando terrivelmente; e ela não achava que apoiar era uma boa ideia. Mesmo assim, produzia incontáveis poções para dor, Wiggenwelds para os machucados e Esquelesce para os ossos quebrados pela Cruciatus.
—Vá embora. –Cordélia pediu quando Lucy entrou. –Já passou da hora do toque de recolher.
Sua irmã encolheu os ombros, indiferente.
—Não querem derramar muito sangue puro. –Observou. –E eu sou relacionada com o diretor.
Cordélia abriu um esgar que podia ser um sorriso, mas provavelmente era outra coisa.
—Eu sou relacionada com o diretor. –Observou, sem crueldade. –E não se agarre ao argumento de sangue-puro. Afinal, Slughorn tinha sangue-puro e influências, mas eu estou aqui ele... onde está? –Isso tirou o sorriso confiante do rosto de sua irmã mais nova, que era o objetivo de Cordélia. Então ela continuou. –O que quer?
Lucy não adentrou mais o aposento e Cordélia quase se sentiu culpada por deixar a irmã tão desconfortável assim; mas nada do que ela dissera era mentira, e isso a consolava. Cordélia levantou-se da cadeira e se dirigiu a uma mesa no canto, onde ela guardava penas e anotações, fingindo ler a lombar de um livro e dando espaço para Lucy organizar em sua cabeça os argumentos para convencê-la de fazer o que quer que fosse.
—A Armada de Dumbledore tentou roubar a Espada de Gryffindor. –Disse ela, finalmente. –Gina Weasley, Neville Longbottom e Luna Lovegood vão ser punidos pelos Carrow.
O sangue de Cordélia esfriou. Ser punido pelos Carrow significava maldição cruciatus e coisas tão sombrias quanto isso. Eles a haviam pedido que elaborasse uma poção chamada Gole do Aqueronte, que fazia a vítima reviver seus piores arrependimentos e memórias, além de induzir desespero. Era uma das piores poções mágicas que ela conhecia. Cordélia correra, como uma criança, para debaixo das asas do padrinho, que disse aos Carrow que eles não poderiam usar a poção nas crianças e, portanto, Cordélia não a faria.
A professora deixou escapar um suspiro infeliz e fechou os olhos para não ter que olhar a irmã.
—Vocês tinham mesmo que fazer isso? –Perguntou. –Qual o ponto?
Lucy parecia agonia, remexendo nas mãos, mas Cordélia não se apressou. Se a notícia só havia chegado a ela agora, era porque eles haviam sido pegos recentemente, então ainda estariam sendo punidos e não precisariam de suas poções até a punição acabar.
—Dumbledore deixou a espada para Harry Potter. –A mais nova respondeu. –Achamos que era direito dele tê-la.
—A espada não era de Dumbledore para começo de conversa, mas da escola. –Cordélia respondeu automaticamente. –Além disso, Potter está sumido, provavelmente fugindo.
—Não acho que seja o caso. –A irmã rebateu duramente, por um segundo tomada pela urgência de aplacar o ceticismo da mais velha. –Você precisa falar com o diretor Snape, pedir uma punição mais branda.
Cordélia teria rido, não tivesse ficado tão surpresa.
—Para Longbottom e Weasley? –Ela questionou, incrédula. –Você não está falando sério.
—Eles não foram pegos pelos Carrow, mas por Snape. Ainda estão levando gritos na sala do diretor. –Ela contou, afobada. –Não deixe que ele os entregue para os Carrow.
A sonserina olhou nos olhos azuis suplicantes da irmã apenas um segundo, antes de murmurar “fique aqui”, e sair sala afora, tão rápido que deixou seu casaco lá para enfrentar os corredores frios do castelo à noite.
Cordélia havia esquecido algo sobre os corredores de Hogwarts em seu tempo longe: eles eram como que amaldiçoados; quanto mais pressa se tinha, mais pareciam longos e infinitos, e cheios de escadas, que se moviam exatamente na direção oposta à pretendida. Mais de uma vez, ela teve de mudar seu caminho porque uma escada se desviou do destino ou porque uma porta havia decidido que estava de mal com o mundo e não abriria para ninguém naquela noite. Quadros olhavam para ela de seus retratos como se ela tivesse interrompido seus sonos, e um deles, um particularmente bondoso homem em armadura medieval, a indicou o caminho menos obstruído.
Quando chegou à sala do diretor, tão parecida com o modo que era quando Dumbledore a ocupava que Cordélia sempre sentia arrepios ao se aproximar, como se estivesse com dezessete anos de novo, prestes a descobrir exatamente a forma como Cedrico morrera no Torneio Tribruxo, Cordélia entrou sem bater. Seu padrinho estava de costas para a mesa do diretor e para a entrada, virado para um grande quadro de um velho bruxo, que o olhava com um tipo de olhar acalentador.
Snape, os cabelos oleosos escorrendo dos dois lados do rosto lívido, se virou como se fosse gritar com ela. Quando viu que era sua afilhada a entrar, e não outra pessoa, franziu os lábios, contendo-se, mas sem deixar de parecer irado.
Cordélia concluiu que era tarde demais, mas decidiu perguntar mesmo assim.
—Onde eles estão? –Perguntou. –Já com os Carrow?
Cordélia não sabia porque se importava tanto. Talvez porque, como Lucy, Gina Weasley fosse a irmã caçula de alguém, e alguém que conhecia. Talvez porque, tendo passado os meses anteriores fazendo pequenos trabalhos para a Ordem, tivesse pego a maneira como eles se importavam, como uma doença infecciona. Só sabia que de repente era muito importante que as três crianças estivessem bem. Afinal, era isso que eram; crianças, colocadas numa situação em que tinham que agir como adultos.
Seu padrinho perscrutou seu rosto com frieza. Ela sabia que ele não gostaria que ela se importasse tanto, menos por maldade do que com preocupação com a própria Cordélia. Era uma das coisas que ela estava disposta a fazer sem pensar muito na moral envolvida; aceitar trabalhar em Hogwarts sob proteção de Snape. Ele oferecera proteção, ela aceitara. Não importava muito a ela que ele houvesse matado Dumbledore. Dumbledore era velho, e estava morrendo de qualquer forma. A Ordem que a julgasse se quisesse, mas nem isso podia fazer realmente, já que, sem Snape como pocionista, precisavam de sua ajuda.
De seu quadro, Dumbledore também olhava para os dois, parecendo satisfeito. Cordélia se recusou a olhar de volta para ele. Nunca tivera nada contra o diretor, como alguns de seus colegas sonserinos, mas não gostava particularmente dele também. Ele a fazia se lembrar de uma citação de Paraíso Perdido de John Milton: "Embaraçado o Diabo ficou, E sentiu como bem é opressor".
—Se você se refere aos alunos Longbottom, Weasley e Lovegood, estão de detenção. –Ele disse cruelmente. –Com Hagrid.
Cordélia parou, estupefata. Até ela sabia que sair com Hagrid e estar em detenção eram duas coisas diferentes. Não disse isso ao padrinho, porém. Algo em seus olhos a dizia que ele sabia o que estava fazendo. Ele também, ela se lembrou, fora professor da escola antes de Voldemort retomar o poder. Minerva, Filius e Pomona certamente achavam que eram os únicos protegendo os alunos, mas estavam enganados.
—Nesse caso. –Cordélia se recompôs. –Vejo que minha vinda foi um equívoco.
Seu padrinho levantou as sobrancelhas.
—Acho que foi.
Mas já que estava ali, Cordélia pigarreou, se demorando na porta mesmo depois de seu padrinho tê-la dado as costas para mexer em papéis em cima de sua mesa. Cordélia pigarreou para chamar sua atenção e ele a olhou pelo rabo do olho, seus olhos negros nela.
—Por que você chamou a mim e não a Greta para ser professora? –Perguntou, como queria fazer já há algum tempo.
Ele franziu a testa, como se não entendesse o propósito de sua pergunta.
—Por que eu convidaria a Srta. Lestrange? –Perguntou de volta, indiferente. –Por que isso agora?
Cordélia nem hesitou, ignorando a segunda pergunta.
—Porque ela gosta de você, e seria uma oportunidade para passarem mais tempo juntos.
—Por isso, então, não a convidei. –Ele respondeu. –Não preciso passar mais tempo com Lestrange.
—Está sendo covarde. –Cordélia apontou, insatisfeita. –Na sua idade, não é todo dia que uma menina bonita está determinada em ter sua atenção.
—Você está sendo insolente. –Ele disse, em tom de aviso. Então estendeu a mão na direção da porta, a convidando a se retirar. –Boa noite, Cordélia.
Por pirraça, ela não o cumprimentou de volta antes de ir embora, dando-os as costas com um girar de olhos.
Se Cordélia tinha esperanças de que sua vida melhoraria ao longo daquela semana, teria logo ficado decepcionada. Ficara o sai seguinte de orelhas em pé, mas Longbottom aparecera em sua aula na tarde seguinte parecendo inteiro e furioso, o que significava que as coisas deviam estar indo bem. Cordélia ainda não era bem-vinda na sala dos professores, que a olhavam de esguelha como se ela fosse uma espiã de seu padrinho, então a menina passava a maior parte de seu tempo sozinha, ou com Snape, exceto quando sua irmã tinha tempo livre e ia visita-la.
Os alunos estavam cada dia mais esquivos, especialmente porque depois da tentativa frustrada de roubo da Sala do Diretor, Snape lançou um decreto proibindo formação de grupos com mais de quatro pessoas, além dos times de quadribol, que precisaram de permissão especial para continuar funcionando. O decreto era claramente seletivo; Olívia Weasley, a garota americana, fora reprimida por se juntar a um grupo que já continha Gina Weasley, Luna Lovegood, Neville Longbottom e Simas Finningan, mas Draco Malfoy, Blaise Zabine, Pansy Parkinson, Theodore Nott e Dafne Greengrass continuavam andando juntos sem serem incomodados.
Mais de uma vez, Lucy tentou mantê-la atualizada dos projetos da Armada, como se, por ser ainda muito jovem aos vinte e um anos, Cordélia fosse fazer parte do grupo também. A caçula logo desistiu; não era que Cordélia não queria saber, era que ela achava que seria melhor se não soubesse. Além disso, duvidava que outros membros apoiariam a tentativa de sua irmã. Gina Weasley podia confiar nela, afinal, estivera lá quando Cordélia ajudara Grace Moore com o julgamento da Comissão de Registro dos Nascidos-Trouxas, mas muitos outros desconfiavam; ela era uma ex sonserina, afilhada do diretor Comensal da Morte.
Ainda assim, alguns dias mais tarde, ela recebeu uma visita dos Carrow enquanto dava aula para a turma do sexto ano. Aleto, que era alta, magra, nariguda e ossuda, bateu em sua porta, entrando na frente, logo seguida pelo seu irmão igualmente ossudo e narigudo. Os dois usavam as capas dos comensais, ao invés das roupas comuns e compostas que Cordélia usava para lecionar, e ficavam assustadores debaixo das luzes esverdeadas de seu laboratório.
—O que fazem aqui? –Perguntou com mais insolência do que teria ousado se não tivesse sido pega de surpresa. –Estou no meio de uma aula.
Se eles notaram que ela andou estrategicamente para o ponto do púlpito onde ficava entre eles e os alunos, não demonstraram.
Amico Carrow abriu um sorriso ligeiramente desdentado para ela. Cordélia reprimiu uma careta de novo; evitava o máximo que podia se aproximar dos irmãos Carrow, e aquilo era o mais próximo que jamais estivera deles. Desejou que ele não desse um passo para mais perto.
—O Ministério –com “Ministério, Cordélia entendia que ele queria dizer “Lorde das Trevas” –deseja que nos façamos inspeções nas salas dos professores. Para garantir que não sejam rebeldes, entende?
Cordélia ficou em seu lugar, o cérebro trabalhando furiosamente para decidir se ela tinha alguma pista comprometedora ou não. Havia feito as poções de enganação sanguínea do laboratório particular de seu pai, em casa. As poções de cura que ela vinha fazendo para alunos feridos eram contra as novas regras, que decidiam que se curar sem magia também era parte do castigo, mas ela duvidava que os Carrow pudessem descobrir isso.
Ainda assim...
—Eu quero falar com o diretor Snape.
Aleto fez uma expressão de desagrado.
—Temos permissão oficial do Ministério. –Ela coaxou, a voz masculina. –E do professor Snape.
—Quero ouvir da boca dele. –Cordélia insistiu, desejando que seu padrinho aparecesse para ajudá-la.
—Se não tem nada a esconder, não vai se importar.
Ela tinha razão, a questão é que Cordélia tinha coisas a esconder. Mas duvidava que mesmo seu padrinho pudesse contrariar uma ordem do Lorde das Trevas. Ele provavelmente pensava que ela tinha bom-senso o suficiente para não se envolver em nenhuma encrenca.
Cordélia se perguntou se devia manter os alunos na sala. Talvez, conjecturou, eles ficassem do seu lado caso algo fosse descoberto. Não sabia do que isso adiantaria na prática, mas talvez eles pudessem ganhar tempo o suficiente criando confusão para que ela escapasse e buscasse seu padrinho. Mas mesmo enquanto pensava nisso, sabia que devia mantê-los longe de posições de risco; eles sozinhos já pareciam estar assumindo riscos o suficiente.
—Entrem, então. –Decidiu, e se virou para os alunos, pegando sua varinha na mesa. –Estão dispensados.
Com os olhos, ela tentou dizer, sumam daqui.
Os irmãos trocaram sorrisos jocosos enquanto entravam na sala como cobras. A maioria dos alunos saíram como raios; tinham bastante medo dos Comensais, mas outros ficaram para trás, se demorando, como Gina e Olívia Weasley, Luna Lovegood e Astória Greengrass, que estavam sentadas numa mesma mesa. Cordélia, que achava saber o que estavam fazendo, se aproximou discretamente, enquanto os outros dois professores abriam potes, cheiravam e faziam feitiços de rastreamento.
—Vão. –Cordélia insistiu.
—Estou arrumando minha mochila. –Gina respondeu cinicamente.
Cordélia fechou os olhos verdes, a paciência escorrendo dela, gasta.
—Você realmente acha, Weasley, que é uma boa ideia ficar aqui, comigo, quando apenas na semana passada você e Lovegood tentavam roubar a espada de Gryffindor?
Gina piscou, como se Cordélia a tivesse agredido. Mas então levantou o queixo, determinada.
—Estaremos esperando do lado de fora. –Determinou finalmente, decidida. –Grite se precisar de ajuda.
Cordélia quis gritar de frustração com a sua teimosia, mas não disse nada, tentou transmitir tudo com o olhar. As quatro meninas se esgueiraram para fora da sala, mas Cordélia ainda podia ver a sombra de seus pés por de trás da porta. Ela se voltou para os Comensais, cruzando os braços e empinando o nariz.
—Isso é um ultraje. –Afirmou com arrogância. –Meu padrinho saberá disso; que vocês se forçaram em minha sala no meio de uma aula.
Aleto estreitou os olhos para ela.
—Não podemos nos permitir traidores no coração da formação das futuras mentes bruxas. –Ela disse em tom de ameaça.
—Traidores? –Cordélia fingiu ultraje. –Como ousa? Sou neta de Astérope Black, bisneta de Nerissa Gaunt. –Então, para alfinetar terminou. –Quem são vocês, com um sobrenome tão banal como Carrow? São sequer realmente sangues-puros?
Amico puxou a varinha com tanta força que Cordélia teve certeza de que ele a mataria, e se agarrou na mesa atrás de si, esperando o golpe. Ao invés disso, ele riu dela, de sua expressão assustada, de seus olhos verdes arregalados. Cordélia tentou se recompor, mas era tarde demais.
Aleto não ria. Ela olhava para Cordélia como se de fato pudesse amaldiçoa-la. A menina segurou sua varinha com força em mãos. Passou pela sua cabeça que a raiva contida da mulher era mais perigosa do que a raiva leviana do outro. Aleto passou a mão em sua prateleira, derrubando todos os potes e frascos de vidro naquela altura. O barulho de vidro estilhaçando soou pelo ambiente por um segundo, mas, ao invés de se concentrar nos comensais, Cordélia torceu para que as meninas do lado de fora não corressem em seu socorro.
O corredor ficou mais silencioso do que estava antes, mas ninguém entrou na sala, que lentamente adquiria um odor característico que duraria semanas antes que ela conseguisse se livrar completamente dele. Aleto olhava para ela, seus pequenos olhos escuros estreitos, sem se preocupar com a sujeira que quebrara sobre seus pés. Cordélia não a encarou de volta.
—Vocês vão limpar? –Perguntou. Mesmo Amico parecia surpreso com a atitude da irmã. Nenhum deles respondeu. Subitamente, Cordélia estava irritada. Desejou ter uma marca negra, porque isso faria dela, na hierarquia, por conta de seu sobrenome, mais poderosa do que eles. –Saiam.
Ela disse isso com tal intensidade, que eles se fato saíram. Ela foi até a porta, e notou que as meninas estavam ainda no corredor. Sua raiva passou subitamente, sendo substituída por um cansaço.
—Já que estão aqui. –Sorriu para elas com suas covinhas. –Acho que podem me ajudar com uma coisa.
A semana ainda não havia acabado; e, portanto, também não haviam cessado as surpresas. Cordélia não se lembrava de toda aquela agitação quando era aluna de Hogwarts, mas, depois que pensou melhor, lembrava, sim. Dementadores no sexto ano, Torneio Tribruxo no sétimo. Só que agora era como se todas essas coisas, e pior, estivessem ocorrendo ao mesmo tempo.
Sua sala de aula seguia fedendo a ingredientes de poções e água de conversar e bezoar, por isso ela movera suas aulas para o seu laboratório pessoal em seus aposentos –que os Carrow não tentaram revistar, talvez por não saberem que existia; o mínimo que seu padrinho podia fazer depois do que ela passara era manter esse pequeno segredo por ela. Os seus ingredientes ainda estavam majoritariamente em falta, mas ela havia escrito para o apotecário Mullpeppers fazendo o pedido de tudo.
Ela estava justamente fazendo revisão de uma caixa de ingredientes que sobraram quando alguém bateu na porta. Por um segundo, Cordélia, cansada, se perguntou se seria sua irmã para pedir algum favor num momento em que ela não estava muito disposta a conceder favores, mas, quando foi até a porta pesada, abri-la, de varinha em mão apenas no caso de ser mais um dos Carrow para torrarem sua paciência, era a pessoa mais inesperada possível.
Cordélia olhou para Minerva com surpresa.
Ela e Minerva nunca haviam se dado particularmente bem quando Cordélia estudara em Hogwarts. A sonserina não era muito boa em Transfiguração, chegando quase ao ponto de precisar de monitoria, e era da casa rival mais forte da Grifinória. Na semana seguinte à morte de Cedrico, Minerva havia sido compreensiva a deixando faltar suas aulas sem receber ônus por isso, e uma vez havia conversado com ela sobre perda, mas não era nada mais que isso.
—Olá, professora Mcgonagall. –Cordélia abriu espaço para que ela entrasse. –O que posso fazer pela senhora?
Se ela tivesse prestado atenção antes, teria notado que a professora estava terrivelmente pálida, o pescoço sujo com algo pegajoso que, numa análise mais atenta, Cordélia percebeu ser sangue.
—Eu achei que encontraria você aqui, srta. Bloxam. –Minerva afirmou, com eficiência. –Venha comigo, por favor, estamos indo para a ala hospitalar.
Mesmo quando colocada diante da cena, Cordélia demorou a absorver o que via. Primeiro, haviam alguns estudantes lá: Draco Malfoy, as duas meninas Greengrass, irmãs mais novas de Edmundo, e Olívia Weasley. Madame Pomfrey estava lá, mas tudo em sua expressão corporal indicava que ela se sentia de mãos atadas. Afastava da cama, observava, então Cordélia se juntou a ela.
Uma garota sangrava sobre a cama, com a parte de cima de sua roupa retirada, com três talhos sangrando sobre o seu peito. O sangue parecia infinito.
—Como isso aconteceu? –Cordélia perguntou, notando a enfermeira tentar, sem sucesso, conter a hemorragia. Os adolescentes saíram da beira da cama para dar a ela algum espaço. Então notou o brasão no uniforme dela. –Onde está o diretor da Sonserina?
Minerva pigarreou.
—Sem Slughorn e Snape, acho que esta é você, Bloxam.
Cordélia passou a mão na cabeça, como se houvesse sido colocada sobre ela algo pesado.
—Alguém me diga o que aconteceu.
Foi a mais velha das Greengrass que deu um passo à frente.
—O irmão dela, Peter Busltrode, está sumido, se escondendo dos Comensais. –Explicou, sem saber que Cordélia estava ciente daquele fato, apenas não conhecia a garota. –Achamos que os Carrow fizeram isso para puni-lo.
Uma massa quente de raiva cutucou o peito de Cordélia mais uma vez, muito como se fossem agulhas. ´Pensou em Lana, se perguntando se a amiga seria a próxima a ser atacada por ter relação com Peter; mas ao menos, pensou, aquilo significava que ele ainda não havia sido morto. Ela se virou para madame Pomfrey com eficiência.
—Precisamos de Poção de Reposição de Sangue. –Disse à enfermeira. Então se voltou para os meninos. –Alguém ouviu qual foi o feitiço?
—Não-Verbal. –Respondeu Draco em voz baixa.
Cordélia não pôde deixar de se perguntar o que o grupo fazia ali; de sua época de Hogwarts ela se lembrava dele como um bocado de crianças desagradáveis, mesmo, por vezes, até Dafne, que havia sido criada numa família não tão preconceituosa.
—Você tem alguma ideia do feitiço, professora? –Minerva se virou para ela, o rosto magro e envelhecido parecendo muito velho. Ela parecia ter sido tirada da cama às pressas. Provavelmente ela e os outros professores estavam em uma guarda séria para proteger aquelas crianças; ela parecia aflita, o rosto repuxado sobre os ossos.
Cordélia tinha algumas ideias, uma pior do que a outra.
—Vão lá para fora, vocês. –Disse aos adolescentes. Quando eles saíram, fechando a porta atrás deles, ela se virou para a professora. -Pode ser um Sectumsempra; ela está sangrando o suficiente para que seja, mas tem algo errado.
O Sectumsempra não teria deixado aquelas marcas violentas. Eram cortes limpos. As marcas pareciam quase mastigadas, a pele ao redor dos machucados era irregular. Cordélia deu as costas à professora, agora só as duas junto ao leito, para tentar o Vulnera Sanentur. Assim que ela disse as palavras com a varinha em cima do corpo da menina, seus olhos viraram para dentro das órbitas, convulsionando.
Os seus feitiços diagnósticos queimavam com uma fumaça preta agourenta por cima da menina, que continuava a torcer e sacudir, como se ligada a uma corrente elétrica. Minerva havia corrido para procurar a enfermeira de Hogwarts, deixando-a sozinha. Cordélia quis pedir que não fizesse isso, mas não tinha tempo.
Quando as duas bruxas mais velhas voltaram, a menina havia parado de se mover, as convulsões abandonando seu corpo flácido, os olhos virados, os lábios entreabertos num roxo escuro e o peito, imóvel.
Madame Pomfrey a empurrou de lado, tentando uma série de feitiços reanimadores, enquanto Minerva a pegava por trás, segurando-a pelos dois braços, como que para mantê-la de pé. Cordélia não fez nenhum movimento para se livrar da outra professora e se juntar à menina; a experiência a dizia que era uma causa perdida.
Muito mais tarde, quando elas limparam o corpo, o sangue e mandaram os adolescentes de volta para suas camas, Cordélia se arrastou de volta para os seus aposentos nas masmorras. Ela não tinha certeza de que seu coração estava batendo; havia um oco enorme em seu peito e o único som que ouvia era o de seus passos no corredor vazio.
Não havia ninguém em seus aposentos quando ela entrou neles; mesmo o seu gato havia saído na noite para andar. Ela não sabia o que havia esperado; que talvez seu padrinho estivesse lá para explicar o que acontecera, como ela deixara a irmã caçula de um colega morrer, como qualquer uma daquelas coisas pudesse acontecer, especialmente em Hogwarts.
Mas aí, ela se lembrou, essas coisas já haviam acontecido em Hogwarts antes.
Cordélia se livrou de suas roubas, jogando-as na lareira acesa, e preparou um banho para si mesma. Estava suja de sangue; debaixo das unhas, como terra, e manchando a pele. Encheu a banheira com a sua varinha de água quente e ficou debaixo d’água, pensando, boiando com apenas o rosto para fora e, como sabia que aconteceria, voltou ao seu sétimo ano, quando Cedrico morrera. Naquela ocasião, não houvera sangue. Parecera quase pacífico, embora na época ela entendesse como grande violência.
Era curioso, como a morte podia ter faces tão diferentes. Silenciosa e sorrateira como a de Cedrico, sangrenta como a de Emília... Cordélia nem soubera o nome dela até que estivesse morta e Minerva fosse escrever para os seus pais. Cordélia nem perguntou o que ela diria. Um acidente, talvez? Uma magia que dera errado? Elas não acharam os Carrow em lugar algum do castelo; Cordélia achou que Minerva os mataria se tivesse achado... e Snape também estava fora.
Quando saiu do banho, a água quente a havia dado uma nova determinação. Cordélia colocou sua capa de viagem e foi saindo do castelo, pela entrada principal, que estava aberta, embora provavelmente não devesse. Pensou que talvez desse de cara com algum dementador, e não sabia se teria forças para produzir um patrono, mas, na escuridão, cortada apenas pelo brilho da lua no Lago Negro e pelos olhos curiosos na Floresta Proibida, ninguém interrompeu sua caminhada.
Uma vez fora do castelo, desaparatou.
Os primeiros raios de sol se infiltraram pelas frestas da janela fechada, e os sons da cidade funcionando a mantiveram acordada a noite toda. Na cama, Viktor arrastava os dedos frios pela sua nuca em pequenos círculos, descendo e voltando, igualmente desperto. Ela chegara na noite anterior cheirando à noite, e ele, surpreso, abrira a porta. Viktor não ficara satisfeito que ela fosse para Hogwarts logo quando eles haviam começado um relacionamento, ela achava que por medo de que as lembranças do castelo a envolvessem com o fantasma de Cedrico novamente, mas a abraçara com força quando ela chorara em desespero contra seu peito na noite anterior.
—Querria poder parrar o tempo agora. –Ele murmurou em sua pele.
—Eu também. –Cordélia respondeu.
Queria outras coisas. Queria segurança, voltar para casa, seja lá o que aquilo significasse; queria fugir. Ela fechou os olhos verdes, naquela manhã cercados por círculos escuros.
—Preciso voltar para Hogwarts.
Alguém teria que dar explicações aos alunos. Ela se perguntou se Minerva tomaria essa tarefa para si também, ou se deixaria seu padrinho mentir. Parte dela não queria saber. Queria não ter presenciado a noite anterior para poder acreditar em qualquer mentira que seu padrinho contasse. Não sabia mais se ter ido para Hogwarts fora a decisão certa; achara que ficar ao lado de seu padrinho significaria segurança para ela, que ficaria protegida dos Comensais, que eles a deixariam em paz, mas haviam diferentes tipos de segurança.
Ela se perguntou porque Draco, que todos sabiam ser um Comensal, não ficara ao lado dos Carrow, mas correra para socorrer a colega com as Greengrass, e o que Olívia Weasley estava fazendo com todos aqueles sonserinos.
Cordélia se levantou. Se aquilo não era esperança, ela não sabia o que seria.
“Once upon a time there's a light in my life
But now there's only love in the dark
Nothing I can say
A total eclipse of the heart
A total eclipse of the heart”
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