Lados e Escolhas
23 Um Natal Congelante
Notas iniciais
“Because I dropped your hand while dancing
Left you out there standing
Crestfallen on the landing
Champagne problems”
Grace olhou ao redor da sala de estar da Toca com um sorriso cansado, mas agradecido. Era uma noite fria de inverno, e um vento frio entrava por cada fresta aberta da casa, mas Fred havia conjurado flocos de neve brilhantes que caiam do teto e, paradoxalmente, esquentavam o ambiente com uma luz quente. A sala estava cheia de pessoas que Grace conhecia e com quem se importava e, em sua opinião, estava muito bonito cheio das bugigangas que os Weasleys guardavam desde seus primeiros natais juntos.
Se a situação fosse outra, não faltariam razões para não sorrir. Porém, Gui e Fleur não estavam lá, e a Sr. Weasley não parava de olhar pela janela como se os esperasse chegar, até que Fred fosse até ela, a abraçasse por trás e a trouxesse de volta para a festa. Tonks estava enorme, com uma grande barriga de grávida, e Lupin, menos abatido do que no casamento, parecia feliz conversando com George e Angelina em um canto.
Também sentiam falta do caçula Weasley. Embora Olívia, a Weasley americana, estivesse sentada no lugar dele do jantar, Grace não podia pensar no sofrimento de seus pais em não terem notícias dele desde agosto. Mais de uma vez, a sra. Weasley pressionou Remus para que os dissessem o que os garotos estavam fazendo, mas ele afirmava, e Grace acreditava ser verdade, não saber.
Fred estava falando com Arthur num canto, e Grace sabia sobre o quê; haviam descoberto há pouco que o nome “Voldemort” era um tabu; ou seja, amaldiçoado para soar como um alarme para o lado das trevas quando qualquer um o falasse. Uma jogada de mestre, segundo Fred, pois apenas opositores do partido das trevas ousavam falar o nome. Na semana anterior, Kingsley havia quase sido pego, escapando por um triz, e agora estava foragido. Lupin era o único que tinha contato com ele, por questões de segurança, era seu fiel do segredo, e também era quem passava notícias.
O ruivo estava com uma expressão concentrada que ele só tina quando fazia algo que considerava completamente digno de sua atenção; calculando, fazendo mágica ou beijando, por exemplo. Ele olhou para cima como se conseguisse sentir o olhar de Grace nele, e sorriu para ela.
Grace estava orgulhosa dele. Ele e George haviam fechado a loja há algumas semanas, por causa dos Comensais que seguiam rondando e fazendo ameaças. Eles haviam querido mantê-la aberta, mas Grace, Molly e Angelina se juntaram para convencê-los do contrário. Não que Fred houvesse ficado ocioso; ele ao invés disso, tomara participação mais ativa na Ordem, como sua participação no Observatório Potter, e ajudando Remus e Tonks nas noites de lua cheia.
Além disso, ele havia praticamente se mudado para o seu apartamento. Dormia lá quase todas as noites e pagava metade das contas. Ele havia trocado seu dinheiro bruxo por trouxa no Gringotts para isso, e Grace ficara tão orgulhosa que nem conseguira expressar o quanto. Apenas lembrando-se disso tinha vontade de se levantar para abraça-lo, mas a cabeça ruiva de Gina estava em seu colo.
Gina não chorava com facilidade, mas Grace havia descoberto que ela sabia assumir uma expressão chorosa. Sua amiga Luna havia sido sequestrada no trem de volta da escola, tão discretamente que ela nem percebera, e agora se culpava. Além disso, com a morte de uma aluna no início do ano letivo, os pais a haviam proibido de retornar à Hogwarts para o segundo semestre, e agora ela estava irritada também.
A ruiva mais nova parecia ter se aproximado bastante da prima americana, mas Grace não tivera nenhum tempo de conhecer Olívia; ela era muito direta, de um jeito que os britânicos não eram, e havia ajudado Molly o dia inteiro na cozinha para preparar as comidas de natal; por conta dela, havia strudel, tart e millefeuilles para a ceia. Ela também havia sido proibida de voltar a Hogwarts; a primeira coisa que perguntara foi se seria mandada de volta para a America, então. Ao contrário de Gina, não brigara e discutira, mas assumira um ar distante e pensativo.
Grace queria conversar com as meninas; perguntar se Draco estava de volta a Hogwarts, mas não podia, não com Fred sempre junto. Ela desconfiava que a resposta seria “sim”, mas talvez não fosse ser capaz de ouvir o ponto de vista negativo sobre o garoto que as meninas Weasley certamente teriam, então não perguntava.
Quando levantou os olhos, a garota Olívia a encarava com curiosidade, mas Grace não encarou de volta. Ao invés disso, deu uma tapinha do ombro de Gina, indicando que se levantaria, e se afastou para o lado de fora, deixando que flocos de neve enfeitassem seu cabelo quando ela se inclinou sobre a casa. Ela ouviu a porta de fechando logo depois dela, e Fred deu um passo para perto.
O garoto atravessou a distância entre eles com um passo determinado, e a beijou. O corpo de Grace respondeu imediatamente, mas foi automático. Sua boca se moveu com a dele no ritmo familiar, mas seu coração seguiu batendo no mesmo ritmo de sempre. Fred, pelo contrário, a segurava como se cada vez fosse a última. Em resposta, Grace apoiou sua mão enluvada na bochecha dele até que se separassem para respirar.
—Uau. –Ela disse, espanando neve de seus ombros. –As músicas de Celestina Warbeck tiveram um efeito em você, não?
—Me deixe viver esse momento. –Ele pediu a ela, os olhos semicerrados.
—Que momento é esse? –Ela perguntou, olhando ao redor; a neve que caia sobre todo o terreno e os montes ao redor, o jardim congelado, todos os gnomos nas tocas, se protegendo do frio. –O momento em que nos escondemos de sua família na ceia de natal?
Fred não respondeu. Ao invés disso, a levantou pela cintura e a sentou no batente de uma janela fechada como se ela não pesasse nada. Ele tinha uma expressão séria, e se inclinou para beijá-la mais uma vez.
—Fred. –Ela chamou. O coração dela estava finalmente acelerado. Ele se inclinou para beijá-la, e Grace foi inclinada contra a janela de madeira, com medo de que esta se abrisse e os revelasse para toda a casa, então seriam a piada de natal de George pelos próximos anos.
Ele ergueu os olhos esverdeados para ela; Grace sentiu como se suas costelas doessem quando ela respirava.
—Você é meu coração. –Ele disse com firmeza. –Você sabe disso.
Ela não respondeu. Tinha a impressão de que qualquer coisa que dissesse, verdade ou mentira, levaria a noite toda ladeira abaixo. Ela tinha certeza, ela havia tido, mas agora não tinha mais tanta. Ela o havia escolhido vez após vez, sempre. Era o que podia garantir.
—Eu escolhi você, sempre você. –Ela disse de volta.
—Então você aceita? –Ele perguntou.
—Aceito o quê?
—Se casar comigo. –Ele disse. –Se case comigo, Grace.
O chão pareceu sumir. Ela hesitou, só por um segundo, mas pareceu uma eternidade. Ela não precisou responder. Alguém abriu a porta e um garoto alto de cabelos ruivos colocou a cabeça para dentro. Fred não desviou os olhos dela.
—Eu perguntaria se você não sabe bater, mas obviamente não sabe. –Ele disse. –Estamos ocupados.
—É uma emergência. –George pontuou. –Mamãe vai servir a comida.
—Me parece que pode esperar. –Fred insistiu.
Do lado de dentro, a sra. Weasley chamou todos os filhos presentes para ficarem junto dela. Sua voz parecia chorosa.
—Talvez não. –Fred cedeu, e ajudou Grace a descer do batente, e os dois entraram de volta na casa.
Ela sabia que não estava livre, que fora apenas um adiamento, e que precisaria dar aquela resposta assim que os dois estivessem sozinhos. Passou pela sua cabeça outras coisas além do fato de que simplesmente não queria dizer “sim”. Eles eram jovens, e estavam em guerra. Eram bem mais novos que Gui e Fleur, por exemplo. Se a sra. Weasley havia se oposto a eles, o que dizer de Grace e Fred?
—Grace. –Fred a chamou, os dois na cama uma hora mais tarde, depois de todos irem se deitar. –Você não está prestando atenção em mim.
—Você é como um gato. –Ela afundou as mãos nos cabelos ruivos dele. –Se eu deixar de prestar atenção em você, você vem se esfregar em mim para que eu coce suas orelhas ou algo assim.
O sorriso dele se aprofundou.
—Não seriam minhas orelhas que eu...
—Não diga isso. –Grace bateu em seu ombro. –Eu sou uma dama muito decente. Posso desmaiar.
Ele rolou os dois na cama, o peso dele girando para cima dela tão rápido que Grace não pôde fazer nada além de fechar os olhos e se deixar levar. Quando os abriu de novo, Fred estava por cima dela, a cabeça apoiada em um braço com seu peso, para não esmagá-la.
—Eu reanimaria você. –Ele disse, se inclinando para dar pequenos beijos em seu pescoço.
—Me beije. –Disse ela.
Houve um lampejo de surpresa no rosto dele com a brusquidão do pedido, mas durou apenas um segundo antes que ele se inclinasse mais uma vez em sua direção. Ele segurou o rosto dela entre as mãos e a beijou.
No fim da noite, seu colar pulsou, como não fazia há meses agora. Grace levou a mão à esmeralda, o coração aos pulos como se tivesse levado um choque. Na ponta dos pés, se levantou, rolando dos lençóis grossos que a sra. Weasley os havia oferecido para a noite e saindo do quarto de Gui –onde estavam dormindo, enquanto George ficava com o antigo quarto dos gêmeos.
A casa toda estava apagada, mas Grace havia aprendido o suficiente dela para encontrar seu caminho no escuro. No pé das escadas estavam suas galochas de neve vermelhas com feitiços que impediam que a neve congelasse nas solas e a fizesse escorregar. Ela então correu para a porta e colocou o rosto de fora; seu nariz imediatamente começando a congelar no vento cortante.
Ela se enrolou em um grande cachecol macio e saiu na neve quando sentiu alguém atrás de si. Grace girou, derrubando o cachecol no chão gelado.
Era Draco.
—Sinto muito por ter assustado você.
Seu coração estava aos saltos.
—Tudo bem. –Ela se agachou para pegar o cachecol na neve.
—Na verdade, não sinto muito. –Ele deu um passo para mais perto. –Vale a pena para ver você.
Grace não se afastou, mas não tentou se aproximar também. Fred não pedira sua resposta naquela noite porque estivera claramente cansado, e dormira assim que deitara, mas ela teria que dar a resposta, e Draco estar ali não a ajudava nisso.
—Como sabia que eu estava aqui? –Perguntou, as mãos bem juntas para se aquecer.
Draco pareceu como se quisesse ajuda-la com o calor, mas não tentou se aproximar mais.
—O colar. –Ele respondeu imediatamente. –Eu sinto a presença dele. Olívia também disse a Theo que você estaria aqui.
A lufana se lembrou do estranho olhar no rosto da menina ruiva quando falava com ela, de curiosidade. Queria questionar a Draco qual a relação entre eles, mas não tinha tempo para isso. Fazia tempo demais, e o céu acima deles parecia valer um milhão de galeões com as suas estrelas brilhantes como diamantes, mesmo com toda a neve.
—Você não devia estar na sua mansão?
O olhar de Draco foi sombrio. A boca dele se contraiu e ela viu algo quebrar no seu olhar; um esgar de dor.
—Mal pode esperar para se livrar de mim?
—Não. –Ela abraçou o cachecol e olhou para as mãos dele, sem conseguir olhá-lo nos olhos. Os dedos esguios eram marcados e lindos, com uma listra branca onde usa o anel Malfoy no indicador direito. O desejo de tocá-lo era tão forte que ela queria soltar os cobertores e gritar. — Quero dizer, não, não é isso. Eu não te odeio, Draco.
—Eu também não te odeio. –Ele disse, com tom de obviedade. — Gostaria de conseguir odiá-la. — disse ele. A voz era suave, a boca curvada em um meio sorriso despreocupado, os olhos doentes de tristeza. — Quero odiar. Tento odiar. Seria muito mais fácil se odiasse. Às vezes acho que odeio, e depois quando te vejo e eu...
As mãos de Grace estavam dormentes com a força que ela agarrava o cobertor.
—Não é fácil para mim também. –Sussurrou tão baixo, que pensou que ele havia ouvido mais a vibração de suas palavras do que o som delas.
Eles se encararam em silêncio, a frieza cinza dos olhos dele versus os castanhos quentes dela. Neve caía em flocos sobre eles; sua pele estava dormente e fria, como se não fosse pele, mas outra coisa. Draco tirou algo de dentro do casaco.
—Eu trouxe algo para você. –Ele estendeu para ela a caixa.
Grace hesitou, mas deu um passo à frente, fechando a distância entre eles, e pegou o objeto. Antes de abrir, ela corou.
—Eu não tenho nada para você.
—Talvez deva me dar um beijo então.
Ele disse isso tão rapidamente, como se estivesse na ponta da língua, que ela levantou os olhos para ele, desesperada para que fosse verdade. Ele estava muito sério para que ela assumisse que brincava, e Grace queria tanto, se sentir desfazendo-se nos lábios dele. Ela estava furiosa com seu corpo por trai-la, por querer Draco da forma como deveria querer Fred, por se recusar a dar ouvidos à sua insistência de que era terminantemente proibido.
Sem nem abrir o seu presente, Grace se inclinou para ele, que era pelo menos uma cabeça mais alto, e teve de se inclinar na sua direção de volta. Ela havia sonhado muitas vezes com esse beijo, e ei-lo, de desejado para a vida. Em outro mundo, seria apenas isto: uma garota pressionando suavemente seus lábios contra os lábios de um garoto.
A neve salpicava à volta deles, levantando borrifos de um pó branco e fazendo com que os galhos de árvores em torno deles se contorcessem. Na neve, tudo cheirava a essas montanhas no inverno: folhas de carvalho e campos de feno, ozônio e terra revirada, e beijar Draco parecia como estar em Hogwarts, como estar segura, embora devesse ser o extremo oposto disso.
O que deveria ser não fazia diferença nenhuma quando eles se beijavam.
—Grace? –A voz soou tão clara que por um segundo ela temeu estar ao seu lado, deixando o cachecol cair mais uma vez na neve. Mas o tom sonolento vinha de cima, da janela que dava vista exatamente para o jardim da casa. Draco a soltou como se ela o houvesse queimado, e deu um passo para trás, ficando invisível na sombra da casa, enquanto deixava Grace sozinha na luz, o que era uma metáfora perfeita para a situação deles.
A cabeça de Fred apareceu na janela, e ele olhou para baixo.
—O que está fazendo aí embaixo? –Ele se inclinou na amurada. –Está frio, Grace. O que é isso?
Grace olhou para baixo, para a caixa de veludo preta que segurava ainda nas mãos. Ela nem havia tido a oportunidade de abri-la.
—Correio. –Grace pigarreou, olhando para cima de novo. –Uma coruja deixou isso aqui.
O sorriso de Draco no escuro era enviesado.
Fred pareceu não entender ainda porque ela estava no frio.
—É melhor subir para se aquecer. –Sugeriu.
Grace assentiu olhando para ele e fez um gesto de quem estava indo. Fred tirou a cabeça da janela e ela virou o rosto para baixo mais uma vez, mas, com um estampido, Draco já havia ido.
Antes de entrar em casa, Grace abriu a caixa de veludo, surpresa com o som que se expandiu por todo o terreno, abafado pela neve. Uma lenta melodia melancólica tocou para fora da caixa, mas não havia nenhuma engrenagem; apenas um casal girando dentro de um globo de neve. Ela tinha cabelos louro-escuros, quase castanhos, e ele, cabelos tão claros que eram quase brancos. Grace assistiu o casal girar na neve ao som de uma música só deles (porque ela reconhecia a autoria de Draco), nenhuma engrenagem, apenas magia.
“Sometimes you just don't know the answer
'Til someone's on their knees and asks you”
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