Notas iniciais
Olá, leitores! Como prometido, hoje, quarta-feira, é dia de capítulo e, por enquanto, ainda tenho o suficiente para manter as postagens regulares. Boa leitura e nos vemos nas notas finais!

"Got a secret
Can you keep it?
Swear, this one you'll save"

Em meados de outubro, o primeiro passeio para Hogsmead foi marcado num sábado. Grace sentiu alívio que não podia ser medido. Havia pensado que, talvez, naquele ano, não fossem ser permitidas as saídas ocasionais do castelo, por causa das meninas extras de segurança que incluíam revista das corujas que eles recebiam e deles mesmos, à entrada e saída. O seu alívio se devia, principalmente, ao fato de que a maior parte do seu tempo, inclusive nos fins de semana, passara a ser consumida por horas seguidas e ininterruptas de estudos e revisões e Hogsmead era uma boa desculpa para deixar os livros de lado.

—Você devia chamar Amy para um encontro na vila. –Sugeriu Grace, gentilmente, para Edward, quando eles viram o aviso no quadro ao lado da porta do Grande Salão.

Ele a lançou um olhar ladino não completamente inocente.

—Por que eu faria isso?

—Porque gosta dela. –A voz de Grace era suave; se ele não queria ver, ela não poderia forçá-lo, mas talvez plantar a ideia fosse uma opção.

—Você sabe das coisas, hein? –Edward a lançou um olhar astuto. –Como vão as aulas com Fred Weasley? A previsão de Cho já se confirmou?

A resposta para aquela pergunta era negativa. Grace estava aliviada por isso; a sua vida já era ocupada demais em Hogwarts sem que tivesse alguém com quem perder tempo. Ao mesmo tempo, porém, se perguntava se a previsão de Cho era equivocada ou se ela era tão desinteressante que nem mesmo a lógica tutor/tutorado era o suficiente para fazê-la trocar uns beijos com alguém naquela escola. A última vez que tivera um encontro fora no quinto ano, no Baile de Inverno, com Córmaco McLaggen, o que não fora a melhor experiência de sua vida.

Grace decidiu que o melhor a se fazer era ignorar o amigo, que agora sorria como se houvesse ganhado alguma coisa.

Na sexta antes do passeio, Grace estava fazendo seu caminho para a aula de Defesa Contra as Artes das Trevas quando passou mais uma vez pelo corredor de frente ao banheiro feminino da Murta-Que-Geme. A lufana hesitou na frente da porta de madeira e arabescos do banheiro. Ainda tinha algum tempo antes da aula, mas gastá-lo simplesmente entrando ali para ouvir a choradeira da Murta.... Mas daí havia um estanho sentimento em seu peito dizendo que ela devia.

Pausou por um segundo, pensando na aula à qual devia estar se dirigindo, mas, então, pensou que a tutoria estava indo bem. Com isso, queria dizer que não estava ficando para trás nas aulas, que era o melhor que ela podia esperar. Isso a deu segurança para decidir que, se necessário, poderia faltar uma das aulas, daria ao professor Snape uma boa desculpa. Assim, empurrou a porta do banheiro, que já tinha uma fresta aberta, a deixando bater atrás de si, e fez o caminho até o corredor das pias.

Como da última vez, Malfoy estava lá, mas agora sem a Murta-Que-Geme, e a olhou com raiva por um segundo; toda agressividade, porém, se dissipou de seu corpo quando notou quem era que havia batido a porta ao entrar. Grace não sabia se estava mais surpresa consigo mesma por ter sabido que o encontraria ali ou se por ter decidido entrar mesmo sabendo.

—Não pode possivelmente ter sido um engano dessa vez. –Grace comentou, como se fosse um cumprimento, o tom de voz leve para contrastar com os ombros tensos dele.

Malfoy abriu um sorriso fraco e, quando se mexeu, a lufana notou que trazia algo consigo às costas, embrulhado em papel pardo, refletido no espelho embaçado atrás dele. Ela desviou o olhar.

—Você acha? –Ele torceu a boca, fingindo lamentar. –Eu pretendia insistir nessa versão dos fatos.

—Para quem?

O garoto louro hesitou, como se ela tivesse feito uma pergunta delicada. Quando deu de ombros, foi rigidamente.

—Você, por exemplo. –Ele sorriu. –É claro, não funcionaria com você porque você já me pegou em outra ocasião. Vai me entregar?

Grace não respondeu. Ele estava encostado com o quadril na pia no fim do corredor de boxes e ela estava no começo do corredor. Levemente, um pouco assustada com a ideia de ele se ofender com o gesto, foi caminhando de forma a percorrer o caminho entre os dois, até que estivessem bem mais perto um do outro. Não ofensivamente perto, apenas o suficiente para uma conversa corriqueira. Exceto que nenhuma conversa entre uma nascida-trouxa e Draco Malfoy jamais fora corriqueira, ela imaginava. Então foi até a pia ao lado da dele, como se estivesse apenas lavando as mãos.

Draco continuou a encarando, analisando cada movimento da garota, e ela também o observava pelo canto dos olhos. Era mais por precaução. O fato de que estavam tendo a terceira conversa civilizada de todo o seu tempo em Hogwarts não significava que de repente ela confiava nele; além disso, não se esquecera da conversa entre os sonserinos setimanistas que entreouvira há algumas semanas, e, se estivessem certos sobre ele ser um Comensal, ela estaria em perigo mortal ali. Grace não pôde deixar de notar, entretanto, enquanto o vigiava, que ele parecia mais pálido do que o normal, quase doente, e que a pele abaixo dos olhos estava fina e escura, uma marca de noites mal dormidas.

—Você não parece bem. –Disse, finalmente, em voz alta.

Ele levantou as sobrancelhas para ela.

—Mesmo? Eu poderia dizer o mesmo de você, mas seria mentira. –O tom dele era leve, quase de brincadeira. –Você parece bem.

Por um segundo, ela quis analisar aquela frase que a deu um tipo gostoso de frio na barriga. Bem? O que significava aquilo? Mas, então, decidiu que era mais importante não deixar que ele mudasse de assunto.

—Você não devia estar em aula? –Inqueriu, apenas agora pensando sobre o assunto.

—É. –O garoto se encostou um pouco mais sobre a pia como se demonstrasse sua falta de intenção de sair dali. –Não queria ver a professora Minerva hoje. Você também não devia estar em aula?

—Devia. –O tom de Grace era muito mais culpado que o dele e, por um segundo, ela considerou se devia deixa-lo ali e sair às pressas para ver se conseguia ainda chegar na hora. –Eu... devia ir.

Draco se virou para ela com um olhar surpreso no rosto, disfarçado rapidamente em uma expressão desinteressada. As mãos dele finalmente vieram para frente, trazendo consigo o embrulho indefinível. Ele o virou entre os dedos, pensativo.

—Tudo bem. –Disse, sem olhar para ela. –Boa aula.

Grace hesitou um minuto no banheiro, mas olhou para o fino relógio dourado que levava no pulso e andou a passos apressados para fora, e então se apressou para fora, sentindo o olhar do sonserino queimando sua nuca. Como era Snape o professor, ele tirou cinco pontos pelo seu atraso e Grace se sentou com a cabeça baixa ao lado de Melinda, ficando quieta durante toda a aula.

Apesar disso, a aula se passou surpreendentemente rápida; e Snape passou poucas atividades, o que significava que ela não ficaria se sentindo culpada no vilarejo amanhã, pensando se não deveria ter ficado no castelo revisando. Estavam vendo Feitiços de Defesa de Campo; ou seja, feitiços que protegiam toda uma área contra invasão, trouxas ou mesmo Artes das Trevas.

Ela estava saindo com Melinda, Katie e Amy, a quem Edward ainda não havia convidado para Hogsmead, quando Fred e George os alcançaram no caminho para o Grande Salão e começaram a conversar com a artilheira da Grifinória sobre quadribol, ao que Amy num instante se intrometeu, embora não jogasse na escola, fosse apenas uma expectadora entusiasmada. Grace não se importou; acompanhou os amigos ficando apenas um pouco atrás, e por escolha própria, desde que Melinda não havia soltado seu braço.

Mal notou quando Fred foi ficando para trás também, mas, quando percebeu a aproximação do ruivo, não pôde deixar de notar o olhar que o outro gêmeo lançou para trás; curioso.

—Você foi realmente bem na aula hoje. –Elogiou Fred.

Grace se afastou um pouco para que ele andasse confortavelmente ao seu lado sem esbarrar na parede do corredor, derrubando os quadros, que reclamariam em voz alta e fariam escândalo.

—É, bem... as aulas estão dando resultados, acho. Você tem sido um ótimo professor. –Ela encolheu os ombros levemente e assistiu enquanto ele abria um grande e satisfeito sorriso. –Você vai para Hogsmead amanhã?

O ruivo a olhou de lado, com um sorriso quase maroto nos lábios.

—Não. –Disse, finalmente. –Não, não vou. Eu e George vamos aparatar na nossa loja no Beco Diagonal para dar uma olhada nas coisas. Deixamos nosso irmão mais velho, Gui, de olho, mas... bem.

—Ah, sim. –Grace observou, irônica e estreitando os olhos para ele. –A loja lucrativa que você resolveu abandonar do nada.

Fred sorriu como se gostasse do seu ímpeto e cinismo, mesmo que fosse voltado contra ele. Os dois passaram pelas portas do Grande Salão e logo foram engolfados por uma bolha quente e agradável, com o cheiro do jantar no ar. As velas que sobrevoavam o salão eram de grande ajuda quando chegava o inverno, e naquele momento davam ao lugar o ar aquecido. O ruivo acenou para ela, ao deslizar para a mesa da Grifinória como um fugitivo. Grace não se importou muito. Acenou de volta e foi ela mesma para o lado de Edward, que já tinha torta de rins em seu prato de ouro, e se serviu de guisado.

—Você não chamou Amy, chamou? –Grace perguntou, enquanto a amiga, que não admitia, mas estava um pouco chateada com Edward, sentado junto da irmã gêmea, Sarah, que, como sempre, tinha um livro grudado em uma mão, enquanto comida sem olhar o que estava em seu prato.

Edward baixou seu garfo dourado quando se virou para ela com uma careta.

—Se você estivesse beijando alguém, não estaria tão preocupada com quem eu beijo. –Ele disparou, como um comentário. Embora o teor fosse um pouco ofensivo, o seu tom não era. Grace levantou as mãos em rendimento e passou a se concentrar em seu próprio jantar.

A manhã seguinte foi um evento conturbado no dormitório feminino da Lufa-Lufa. Haviam cinco garotas naquele dormitório. Grace já ouvira falar que o dormitório da Sonserina era grande e que cada garota tinha um armário e uma penteadeira para si, além de uma banheira afundada no chão do lavabo. O mesmo não se aplicava à Lufa-Lufa. Elas dividiam um pequeno banheiro rústico onde tinham que enfiar todas as suas loções e cremes em um pequeno armário, que finalmente fora enfeitiçado com um Feitiço de Extensão quando elas o aprenderam no sexto ano. O quarto não era melhor; havia uma grande mesa que dividiam e as garotas a decoraram com espelhos, onde podiam apoiar suas maquiagens e poções de cabelos e pele. Suas roupas ficavam guardadas em malões ao pé da cama ou nas pequenas gavetas da mesa de cabeceira. Naquele momento, estavam espalhadas por todo o quarto.

Era culpa do inverno. No verão, as coisas funcionavam bem. As meninas pegavam seus vestidinhos e saiam tranquilamente pelo castelo. Como era inverno, Grace vestia uma camisa justa de mangas compridas e calças jeans, além de um suéter terracota e ainda procurava um sobretudo vermelho que tinha certeza ter colocado em sua mala. Em cima de sua cama havia um suéter natalino roxo com estampa de alces em movimento que só podia pertencer a Mia Hawkings, uma de suas colegas de dormitório, amiga de Julie. Amy estava se aproveitando de suas formas curvilíneas usando um belo vestido justo de tricô e meia-calças quentes, mas Grace estava evitando olhar para ela, ou se sentiria frustrada com seu corpo magro de ossos delicados e pequenos que fazia as pessoas pensarem que ela não tinha mais do que quatorze anos.

A única delas que havia se acordado, vestido as roupas que separara na noite anterior e saído do dormitório com dignidade havia sido Sarah Bailey, e apenas então Grace entendeu o porquê de, apesar de cursar menos matérias e não tirar notas tão boas quanto as suas, a garota ter sido escolhida monitora da Lufa-Lufa.

Amy e Grace correram do dormitório e pegaram a última carruagem saindo do castelo, mas não sem antes serem cutucadas pelo zelados Filch às portas de carvalho da escola, verificando se traziam consigo algum objeto perigoso. Teria sido pior se ela estivesse coberta por uma camada mais fina de roupas, mas, coberta dos pés à cabeça, com botinhas e um cachecol marrom, as cutucadas foram abafadas pelas roubas.

As duas lufanas acabaram dividindo a carruagem com um grupinho de terceiranistas que ia para Hogsmead pela primeira vez. Grace nem se incomodou que Amy estivesse emburrada demais até para fazer um comentário sobre Filch, e ficou ouvindo a conversa dos outros três ocupantes da cabine.

—Nós temos que passar na Dedosdemel. –Dizia a menina com feições mais bonitas, de maçãs do rosto largas e queixo fino, olhos azuis intensos e cabelo castanho escondido por um gorro azul; um tipo de rosto maduro para sua idade. –Minha irmã diz que é o melhor lugar de Hogsmead.

—Eu realmente queria ir em Madame Puddifoot, Lucy. –A garotinha loura reclamou em voz alta.

—Isso é para casais, Olga. –O único garoto entre as duas revirou os olhos. –Eu não vou lá. Aqueles garotos mais velhos da Grifinória estavam dizendo que tudo é cor-de-rosa.

O olhar que a menina bonita o lançou foi bastante frio.

—Pois nós vamos lá, sim, Olga. –Definiu, decidida. –Natália vai nos encontrar. Stuart pode ficar para trás se quiser.

Quando a carruagem parou, seus cinco ocupantes desceram em pulos e, por um segundo, embora não estivessem juntos, congelaram com o vento cortante vindo da rua principal, que imediatamente fez Grace sentir seus lábios secos e rachados e ela passou a língua por eles, o que também não foi de grande ajuda, apenas fez arder as pequenas rachaduras. Ela vasculhou a bolsa por um minuto, procurando seu creme de lábios da Sabrina’s –um boticário bruxo com o que havia de melhor na área de cosméticos –mas apenas descobriu eu o havia deixado no dormitório.

—Vamos. –Amy indicou a Dedosdemel, para onde os terceiranistas já se dirigiam apressados.

A loja estava apinhada de gente, mas Grace não se importou. Todos os casacos e suéteres na verdade ajudavam a manter o calor e ela se enfiou entre um grifinório e uma corvina com alegria, fingindo procurar nas prateleiras algo para si, Amy bem em seu encalço.

—Oh ho! –As duas meninas se viraram, os olhos de Grace bem abertos do susto, para o grande bruxo gordo que sorriu para ambas. –As encantadoras senhoritas Ollivander e Moore! Como vão?

—Ah, olá, professor. –Grace tinha agora em mãos uma caixa de Acidinhas e outra de Gotas de Limão, mas mirava mesmo no Abacaxi Cristalizado, famoso como o melhor doce da loja. –Como vai o senhor?

—Bem, bem... –O bruxo respondeu com um gesto expansivo. –Estava me perguntando se gostariam de se juntar a um pequeno jantar que darei na segunda à noite... apenas para os íntimos, entendem...?

—Seria uma honra, professor. –Amy, respondeu pelas duas, apertando a mão do mestre de poções. Grace imitiu seu gesto, estendendo sua própria mão enluvada para apertar a do mestre de poções.

—Muito bem, muito bem. –Ele disse alegremente, se virando e saindo com aceno para apenas alguns estudantes, enquanto ignorava o resto como se fossem desconhecidos completos.

Quando o professor se afastou, as duas meninas se juntaram à longa fila do caixa, com seus doces em mãos. Amy havia pego uma caixa de Delícias Gasosas e olhava ansiosamente ao redor. Um pensamento passou pela cabeça de Grace enquanto ela observava os três primeiranistas de antes ainda escolhendo seus doces.

—Amy... com seu avô desaparecido, como os primeiranistas compraram suas varinhas?

A garota fez um gesto distraído com a mão.

—Hummm... existem outros. Meu avô era só o mais famoso, mas... –Ela hesitou. –Aquele garoto Bulstrode, que estudou na Sonserina há um par de anos, agora está no negócio de varinhas também... há discípulos de Gregorovitch aqui na Inglaterra. Por quê? Você precisa de uma nova varinha?

A ideia deixou Grace incomodada por um segundo. Sua varinha de acácia e pelo de unicórnio era sua mais fiel companheira há tanto tempo agora que não podia imaginar a sensação de outra madeira, com outro formado, entre seus dedos.

—Não. –Disse apressadamente, em seguida ambas pagaram e saíram da loja.

O vento não havia abrandado nem um pouco do lado de fora e, dessa vez, Grace trouxe o cachecol marrom para mais perto do corpo, assim como o sobretudo vermelho quando ambas saíram de novo na rua principal. Amy queria ir na Casa de Chá Puddifoot, mas Grace sabia que era apenas para saber se Edward estava lá com outra garota, então bateu o pé firme no chão sobre o assunto.

O par começou a andar na rua principal, em direção ao Três Vassouras, quando passaram diante de uma Zonko’s fechada. Grace não tinha nenhum carinho especial pela loja de logros, mas, ainda assim, sentiu como se aquele fosse mais um indício numa longa lista de coisas que estavam erradas ultimamente. Quatro figuras estavam postadas diante da loja; dois meninos altos em casacos elegantes, um mais baixo e uma garota voluptuosa de pele escura e cabelos trançados rentes à cabeça.

—Aqueles são os gêmeos Weasley? –Amy seguiu seu olhar.

Grace abriu e fechou a boca, percebendo que eram, sim, eles. Lembrou-se de Fred a dizendo que não iriam ficar em Hogsmead durante as horas do passeio e, confusa, se perguntou porque mentira. Em seguida, notou que a garota com ele era Angelina Johnson, e seu rosto começou a corar imediatamente. Se perguntou se fora por causa da outra garota que o Weasley mentira para ela. Talvez não quisesse sua tutorada em seu pé enquanto ele encontrava a namorada fora de Hogwarts. Talvez soubesse da tradição da qual Cho falara e a evitava de propósito para que não criasse esperanças...

A lufana pegou a amiga pelo braço e a arrastou até o Três Vassouras agora, tão incomodada que nem conseguia reconhecer qual, exatamente, era a fonte de seu incômodo. Amy não reclamou, apenas emparelhou seus passos e a acompanhou até que abrissem a porta do pub com um empurrão e um soar de sino, aliviadas em, de novo, estarem em um lugar quente, enfeitado pelo som de vozes e vidro tilintando.

Logo na entrada do pub, deram de cara com a ex-lufana Ninfadora Tonks, com cabelos castanhos que não lhe caiam tão bem quanto o antigo combinado de cabelos rosa-choque e olhos azuis elétricos. Ela acenou um tanto apaticamente para as duas meninas que era apenas segundanistas na época em que fora monitora-chefe, antes de sair do bar com cara de poucos amigos.

Rosmerta as atendeu com um grande sorriso ao se aproximarem do balcão, mas também um ar confuso. Primeiro errou o pedido e as estendeu dois copos baixos de uísque de fogo, antes de se lembrar que seus pedidos foram cervejas amanteigadas. Então deixou que as meninas fossem procurar uma mesa enquanto ela providenciava as bebidas.

Numa mesa ao fundo, estavam Katie, Melinda, Liana e Edward, bebendo cervejas amanteigadas sentados em bancos de madeira. Grace começou a se aproximar do grupo, ignorando Amy, que a segurou com força em seu lugar. Contra a vontade da segunda, as duas meninas se aproximaram.

—Ei. –Grace falou levemente, embora não se sentisse assim. –Onde está Cho?

A colega da Corvinal estava num encontro com Miguel Corner no Madame Puddifoot, então tudo que restou a Grace foi sentar-se no incômodo lugar entre Edward e Amy, de frente para as três grifinórias. A conversa girou grandemente em parte das últimas notícias dos jornais, mas também em torno dos NIEM’s, como sempre andava acontecendo em qualquer mesa cheia de setimanistas como aquela. Na metade da segunda cerveja amanteigada, Amy criou coragem para chamar Edward para a Casa de Chá com ela, ao que o colega respondeu arregalando os olhos e balbuciando que sim.

Grace não ficou chateada em ser deixada com as três grifinórias. Na verdade, estava considerando voltar para o castelo. A maior parte do passeio havia sido um fiasco, com o mau humor de Amy, o mau clima, e a mentira de Fred Weasley sendo pega na lata daquela forma. Quando comentou suas intenções de retorno em voz alta para as colegas, recebeu muxoxos de Melinda e Liana, mas Katie concordou com um aceno e disse que apenas iria no banheiro e as duas poderiam voltar juntas a Hogwarts.

Grace teve tempo de terminar toda a sua terceira cerveja amanteigada antes de considerar que Katie estava levando um longo tempo. Quando disse isso em voz alta para as duas grifinórias com quem dividia a mesa, Marietta Edgecombe, numa mesa com Zacharias Smith e Wayne Hopkins, ouviu o que ela disse e se virou.

—Katie Bell? –Inqueriu, a testa franzida. –Ela saiu daqui há cinco minutos, parecendo apressada.

A lufana trocou um olhar com as outras duas colegas, antes de dar de ombros e deixar o estabelecimento com um aceno e alguns sicles em cima da mesa.

O tempo havia piorado ainda mais na horinha que passara dentro do pub. A volta para o castelo não teria sido agradável nem se Grace estivesse acompanhada, mas sozinha pareceu duas vezes mais longa, fria e úmida. Havia fechado os botões de seu sobretudo e passado o cinto de amarrar pela cintura, mas o vento ainda passava por dentro das mangas e não parecia fazer diferença o fato de que usava um suéter de lã e uma camisa de mangas por baixo. A neve afundava a cada passo que ela dava, mas pensar em como sua situação era terrível e na vergonha que seria se Fred Weasley pensava que ela gostava dele ajudou o tempo a passar mais rápido.

Os portões do castelo eram definidos por duas altas colunas coroadas por javalis alados. Grace geralmente fazia aquele percurso de carruagem e não pensava muito sobre o porquê de serem javalis, e não dragões ou gárgulas, mas o fez naquele momento. Seus pensamentos a distraíram tanto que nem percebeu quando Minerva Mcgonagall se aproximou em passos largos dela, com a expressão severa torcida em preocupação.

—Srta. Moore. –Chamou, os olhos a fitando brilhantes por de trás dos óculos. –Venha comigo, por favor.

O coração de Grace ficou gelado dentro de seu peito. A última pessoa a ter sido chamada fora de horário daquela forma fora Hanna Abbott quando sua mãe foi encontrada morta. A lufana mais velha levou um longo segundo engolindo em seco antes de conseguir se forçar a falar as palavras; agora já seguia a diretora da Grifinória em direção às masmorras do castelo, pelo caminho de pedra saindo pelo corredor ao lado da porta do Grande Salão.

—Professora... meus pais...

Minerva a lançou um olhar quase culpado.

—Ah, Srta. –Sua voz era suave. –Não. Outra situação se apresentou. Com a Srta. Bell.

Curiosa e preocupada, Grace seguiu a professora pelas profundezas do castelo, descendo fundo até que o frio e a umidade as dissesse que estavam debaixo do lago. Nas masmorras, os quadros eram escassos e as paredes de pedra ficavam nuas para que nelas crescesse limo. O lugar todo tinha um cheiro ligeiramente aquoso, mas Grace simplesmente andou até o corredor onde sabia ficar o escritório do professor Snape, mesmo que, não sendo mais mestre de poções, ele não desse mais aulas nas masmorras.

A sala do professor era longa e cheia de prateleiras de ingredientes, mesmo que Poções não fosse mais sua matéria. Grace seguiu a professora Mcgonagall até a escrivaninha ao fundo, onde o professor Snape, todo de preto, inclinava sua cabeça de cabelos pretos lisos e oleosos para junto de uma mulher esguia de cabelos castanhos com um brilho de bronze e vestido acinturado de veludo. Os passos das duas novas visitantes fizeram com que ambos virassem os rostos em sua direção; e Grace percebeu que a mulher, de pele clara com um brilho perolado e olhos muito verdes, na verdade era familiar e não muito mais velha do que ela.

Quando o diretor da Sonserina se inclinou para a professora Mcgonagall, Grace conseguiu distinguir em cima da escrivaninha um embrulho pardo onde estava estendido um bonito colar de opalas, ao lado da garota que agora Grace reconhecia como Cordélia Bloxam. Bloxam acenou com a cabeça para ela, que acenou de volta, mas ambas logo voltaram suas atenções para Minerva.

—Então, Severus? –Perguntou a professora, as sobrancelhas franzidas. –O que acha?

Ao invés de responder, o professor virou seus olhos negros para a garota ainda à escrivaninha. Cordélia estendeu a mão para o colar, e os dois professores na sala prenderam a respiração, parecendo alarmados. Snape até mesmo avançou na direção dela como se para impedi-la. Grace não entendeu; quando Bloxam levantou o colar com os dedos pálidos, ela ergueu uma sobrancelha para Snape, quase divertida.

—Como...? –Minerva abriu a boca e fechou.

—Katie Bell devia estar morta. –A voz de Bloxam era sombria e o tom, definitivo. –Este colar apenas afeta nascido-trouxas ou mestiços, e tem toda intenção de matar. A maldição contida aqui é muito forte; é o único colar no mundo a já ter nascido amaldiçoado. Isso é uma maldição de sangue poderosa; deveria acabar com.... bem. Qualquer sangue-puro está seguro o usando, é claro. –Ela demonstrou, girando a peça entre os dedos. Os olhos verdes escrutinaram a peça com interesse, quase admiração. Grace desviou os olhos, sem entender.

—Então Katie...

—A Srta. Bell estava com esse colar em Hogsmead? –Minerva finalmente se virou para a lufana. –Você estava com ela, não estava? Ela estava agindo estranho, calada ou desconfiada?

Grace hesitou, pensando.

—Não, ela... estava bem. –Respondeu. –Até que foi no banheiro um minuto. Íamos voltar ao castelo juntas, mas ela saiu do banheiro e voltou sozinha, sem avisar nada, nem esperar por mim.

—Provavelmente enfeitiçada. –Bloxam diagnosticou, trocando um olhar com o padrinho. Snape apertou a boca para ela e a ex sonserina desviou o olhar, o conjunto de espessos cílios negros escondendo seus olhos quando olhou para baixo.

—Você viu se alguém entrou no banheiro com ela, Srta. Moore? –Snape foi quem fez a pergunta agora.

—Não. –Grace se sentia tonta com todas aquelas informações. –Não. Apenas... Katie está bem?

—Está na ala hospitalar, mas vai ser transferida para o St. Mungus em breve, acredito. –Minerva colocou as mãos na escrivaninha.

—Severus, me passe o veneno de Lobalug, por favor. A senhora precisa de um Elixir da Euforia, professora? –Cordélia perguntou gentilmente, enquanto pegava das mãos do professor um frasco com um líquido azul esverdeado dentro e se dirigia para uma estação de poções atrás de si, com um caldeirão já fervendo em fogo baixo, então virou a cabeça para o grupo, apenas de forma que podia ser escutada ao falar. –O que Potter disse sobre isso mesmo?

Minerva apertou os lábios até virarem uma linha fina.

—Acusou Malfoy.

Snape se virou quase alarmado para a professora; os ombros da garota Bloxam ficaram rígidos. A própria Grace se sentiu empalidecer. É claro, da última vez que vira o garoto, no dia anterior, ele carregava um pacote muito parecido com aquele. Nem havia pensado nisso na confusão que foram os últimos minutos. Mas, então, papel pardo podia embrulhar qualquer coisa. Podia ser um par de sanduíches.

Ele não precisaria ter escondido um par de sanduíches atrás das costas, disse uma voz em sua cabeça.

—Eu posso ir? –Perguntou em voz alta. Não poderia ficar ali parada ouvindo enquanto os suspeitos eram revisados.

Três pares de olhos tão inteligentes que Grace se sentiu intimidada por um segundo a fitaram.

—Claro, Srta. Moore. –A professora Minerva fez um gesto para se levantar e ir até a porta com ela, mas Cordélia se adiantou, acenando para que ficasse onde estava, e fez o caminho com a garota lufana.

Grace se sentiu apenas um pouco intimidada. Em Hogwarts, Cordélia havia tido a reputação de ter facilidade para venenos e Artes das Trevas, o que não fazia de ninguém popular. Mas então ela namorara e perdera Cedrico Diggory e ninguém nunca mais falou em seu nome depois disso, quase como se desse azar. Agora, ela parecia mais velha e mais poderosa do que costumava ser. Quando colocou os olhos na lufana, havia um tipo de nolstagia neles.

—Eu me cuidaria se você fosse. -Disse. -São tempos perigosos. Os amigos devem ser mantidos perto.

Quando a ex sonserina fechou a porta entre elas com uma despedida formal, Grace não se importou em sair rapidinho da área mais fria do castelo, precisando de mais ar do que nunca.

Garotas de Durmstrang

Um Conto em Ilvermorny

Notas finais
O que estão achando da fic até agora? Gostaram, não gostaram? Para quem conhece Cordélia, que tal vê-la de vez em quando? E para quem não conhece, a história dela está na fic Lembrem-se de Cedrico Diggory no meu perfil. O link no final do capítulo é uma One-Shot sobre a escola de Durmstrang. Espero que leiam e gostem! Vejo vocês na próxima semana! XOXO