Lados e Escolhas
4 A Sala Precisa
Notas iniciais
"We don't talk about it
It's something we don't do
'Cause once you go without it
Nothing else will do"
No domingo, todos ficaram sabendo do ataque sofrido por Katie e, mais uma vez, a escola entrou em clima de desconfiança quando a garota foi movida para o St. Mungus. Grace passou todo o domingo andando pelo castelo; em parte para evitar seus amigos, que seguiam pedindo para que ela repetisse os detalhes do que acontecera, embora a lufana não estivesse estado presente durante o ataque, e em parte na esperança de dar de cara com Draco Malfoy.
Não sabia o que diria para ele. Se o confrontaria, se o acusaria, se perguntaria. Se o deixaria saber das desconfianças de Potter. Ou se apenas o olharia; tinha esperanças de que, ao apenas olhar para ele, saberia, pela culpa ou falta dela em seus olhos, se ele tinha algo a ver com o ataque a Katie. Do mesmo modo que soubera que ele estava no banheiro da Murta da última vez que o vira lá. Não importava; durante todo o domingo, embora Grace houvesse até arriscado dar um passeio nas frias masmorras, sozinha e desacompanhada, quase vulnerável, Draco não estava em lugar algum para ser visto.
Na segunda, contra todas as expectativas, o professor Slughorn não cancelou o jantar que havia marcado com alguns seletos alunos e Grace se viu em um vestido de festa cor de bronze de seda acompanhando Amy até as masmorras na segunda à noite, após a tutoria.
A tutoria, aliás, havia sido um momento tenso, ao menos para ela.
Fred Weasley parecia o mesmo de sempre; leve e divertido. Grace, por outro lado, se sentia desconfortável agora na presença que antes fora um prazer, mas fez um esforço para soar como se nada estivesse errado.
Quando chegou à sala de sempre, junto da estátua de um bruxo com as mãos atrás dos ouvidos para ouvir melhor e uma expressão confusa um pouco real demais no rosto, Grace encontrou Fred já sentado na mesa de sempre, mas ele não se virou para vê-la entrar. Estava entretido em algumas anotações que fazia num pedaço de pergaminho e a lufana chegou pelas suas costas, curiosa, quando notou que ele fazia cálculos.
—O que você está fazendo? –Fred quase pulou se seu lugar com a voz da colega ao seu lado, e virou seus olhos esverdeados para a lufana curiosa, que continuou, com um tom incrédulo na voz. –Isso é Aritimância?
—Física. –Ele resmungou, ainda se recuperando do susto, o coração não deixando de bater com força. Grace cheirava bem; a baunilha e chuva, e ele nunca tinha notado. Mas talvez ela nunca tivesse chegado tão perto.
Grace arregalou os olhos castanhos, tão surpresa que nem notou o olhar que o ruivo lançou a seu vestido de festa, de alcinhas finas e justo no busto, com uma saia rodada que disfarçava seus quadris estreitos.
—Por que está vestida assim? –Ele perguntou, a voz desigual.
A lufana olhou para si mesma.
—Jantar com o Slughorn mais tarde. –Encolheu os ombros. –O que você quer com física trouxa?
—É para a loja. –Ele se afastou um pouco para que ela tomasse o assento da cadeira ao seu lado. Grace se virou para ele, de forma que seu joelho tocava a coxa do grifinório. Fred se viu quase corando, um calor subindo pela sua perna com o contato, mas a lufana estava alheia, esperando que ele continuasse. –Bem... força, certo? Magia gasta energia e é necessário força. Então, quanto mais energia um bruxo tiver, mais força ele terá para certos feitiços cinéticos, como o Wingardium Leviosa, por exemplo. Então, eu estava pensando em um doce que fosse feito de energia, assim o bruxo faria um feitiço com mais força. Porém, é claro, seria temporário.
—Você está falando de aumentar o poder de um bruxo? –Grace franziu a testa, confusa.
—Temporariamente. –Ele a corrigiu. –E, é claro, não seria muito. Ninguém viraria um Dumbledore da noite para o dia, por exemplo, mas se pudéssemos apenas ajudar um bruxo cansado a realizar um feitiço mais forte... também vai depender do talento do bruxo e.... bem, o Ministério meio que nos pediu para fazer isso. Você ficaria surpresa com quantos bruxos fracos ocupam posições importantes e de risco, estamos pensando em forma de protegê-los.
—Isso é.... –Grace abriu e fechou a boca. –Simplesmente genial, Fred!
Estava completamente esquecida da situação em Hogsmead agora, ou de como o bruxo poderia interpretar seu entusiasmo. Abriu um grande sorriso para ele, os olhos cor de chocolate brilhando no rosto pálido.
—Agora, me arrume uma solução para o meu problema com Defesa, por favor, Sr. Gênio.
Ele abriu um grande sorriso de volta para ela.
—O seu caso é especial. –Ele disse falsamente sério. –Você vai precisar passar horas dentro dessa sala comigo para resolvermos.
—Oh, bem, se é o que será necessário. –Ela fingiu ficar decepcionada.
Depois disso, ambos estudaram por uma hora e meia antes de seu relógio encantado soar baixinho em seu pulso, a avisando de que em breve estaria atrasada para o encontro com o professor. Grace se despediu de Fred com um aceno simpático, ao que o bruxo respondeu com uma grande reverência que já estava se tornando característica entre eles.
O máximo que Grace podia dizer do jantar é que não fora um fracasso. Melinda havia estado lá, ao lado de um McLaggen que ocupava tanto espaço que espremia as meninas uma contra a outra ao se sentar com seus gestos expansivos ao lado de Grace. Mas a comida era realmente boa, com petit gateau como sobremesa e uma das convidadas era a jogadora do Holyhead Harpies, Gwenog Jones, o que fez Amy saltar em seu banquinho ao ser alocada ao lado da mulher.
No resto da semana, o assunto a deixar Hogwarts em polvorosa foi o primeiro jogo de quadribol da temporada, entre Grifinória e Sonserina. Jogadores e torcedores das duas casas viviam se provocando pelos corredores e Grace estava feliz em não ser monitora, especialmente quando Sarah chegou no dormitório uma noite com os dentes crescendo desesperadamente depois de ter sido atingida por um feitiço que errara o alvo.
Na quarta-feira de manhã, estava subindo as escadas geladas da Torre do Corujal com cuidado, como fazia dia sim, dia não. Agora, com o inverno oficialmente na porta, gelo se acumulava nos degraus, que ficavam lisos e traiçoeiros, e ela tinha que prestar atenção para não fazer a decida escorregando para baixo. Foi aí que um grande gato preto apareceu em seu campo de visão, fazendo com que Grace arrumasse a postura, tensa.
—Olá, Cronos. –Murmurou para o felino, que, agora familiarizado com ela, nem hesitou em se esfregar em suas pernas cobertas por grossas meias amarelas.
Deu um passo para se agachar junto ao gato e seu pé de apoio escorregou. Provavelmente teria batido o joelho no chão de pedra com força se alguém mais forte do que ela não a tivesse segurado pelo braço e pela cintura, aparando sua queda com firmeza. O seu salvador tinha um cheiro almiscarado e masculino. Estava aquecida pelas camadas de suéteres, mas a mão que a segurou era tão fria que ela pôde sentir mesmo pela roupa, e conteve um arrepio.
—Você está bem? –Draco perguntou quando a firmou, ainda sem soltá-la.
Grace arrumou os fios curtos dos cabelos cor de mel atrás das orelhas.
—Sim. Essas escadas são escorregadias como a língua do diabo. –Praguejou em voz alta, se afastando um pouco para olhá-lo bem. Tinha vindo por de trás dela, também subindo para o corujal, e estava todo vestido de preto, enquanto ela era uma visão em tons amarelos e terrosos. Grace suspirou. –Precisamos parar de nos esbarrarmos assim.
—Não sei. –Draco finalmente a soltou, colocando as mãos nos bolsos, o rosto ainda sério. –Você estaria rolando escada abaixo se não nos esbarrássemos assim.
—É. Obrigada por isso.
Os dois subiram as escadas juntos; Grace não teve coragem de pergunta-lo sobre a questão do colar, é claro. Malfoy parecia abatido, mas daí ele vinha parecendo abatido desde que o ano letivo começara, então não era uma grande pista. Ao invés disso, se mantiveram em assuntos leves; como a neve e o frio eram incômodos, embora Malfoy discordasse disso, e como ele esperava que a Sonserina esmagasse a Grifinória no jogo. Como havia sido o passeio em Hogsmead, um assunto que Grace levantou de propósito para checar a reação do outro, mas Malfoy não estivera lá.
Parte de Grace sabia que, só por Malfoy estar conversando civilizadamente com ela, alguma coisa devia estar muito errada, mas não chegou a perguntar onde estavam seu séquito de amigos/seguidores, porque tinha a impressão de que assim soaria passivo-agressiva. Ao invés disso, ambos estavam fingindo que não havia estranheza na interação, e Malfoy, quando terminou de amarrar sua carta numa coruja negra e grande como o gato Cronos, ainda a esperou na porta do corujal para que fizessem juntos o caminho descendo as escadas em espiral.
—Para garantir que você não vai escorregar. –Ele disse, sorrindo maldoso quando ela perguntou porque ele não fora na frente.
Ele a acompanhou até certa altura do castelo, mas Grace não pôde deixar de notar que, quando chegaram na parte mais movimentada, ele deu uma desculpa e se afastou em um corredor adjacente com um aceno discreto, a deixando sozinha para encarar um vitral de um bruxo surpreendentemente triste, embora as cores fossem bonitas e fizessem a luz passar em arco-íris pela janela. A lufana achou que o vitral definia como ela se sentia naquele momento.
Grace fez um esforço para não se importar. O que a interessava se Malfoy não queria ser visto com ela? A bem da verdade, ela não deveria querer ser vista com ele. Entre os dois, era ele que tinha uma péssima reputação na escola. Com isso em mente, fez o seu caminho para o Grande Salão com o queixo erguido.
Mas não chegou lá. Antes que pudesse mesmo ver as grandes portas de carvalho da área comum onde faziam as refeições, seu caminho foi bloqueado por um Edward Bailey, carregando em suas mãos embrulhos em guardanapos de comida e duas garrafas de suco de abóbora.
—Por que não come comigo no pátio coberto? –Ele fez um gesto para que ela seguisse na frente.
A lufana hesitou, aceitando uma garrafa para ajudá-lo a levar a refeição. Os dois caminharam em silêncio e Grace se perguntou o porquê daquela abordagem, naquele momento. Afinal, até onde sabia, as coisas entre ele e Amy estavam bem depois do encontro que tiveram em Hogsmead, ou ao menos Amy parecia pensar que estavam. Eles fizeram o caminho pelos arcos de pedra até saírem no pátio; onde havia uma pequena fonte congelada no centro e banquinhos ao redor. Os dois lufanos se acomodaram em um dos banquinhos de mármore, colocando a comida entre si.
A garota estava prestes a perguntar o que havia de errado quando Edward respirou fundo e soltou:
—Não posso continuar saindo com Amy. –Anunciou, como quem anuncia um evento importante no jornal. Grace abriu a boca para responder, mas ele a interrompeu novamente. –Porque não gosto dela, ao contrário do que todos acreditam. Na verdade, Amy é maravilhosa, ótima, mas eu não sei se gosto de garotas. Não sinto atração por garotas. E Vaisey, da Sonserina, pode ter me beijado no ano passado.
Grace desistiu de tentar falar algo, então esperou até ambos terem certeza de que Edward não falaria mais nada, antes de respirar fundo e absorver as informações.
A bem da verdade, jamais considerara que Edward podia ser algo além de hétero porque ela mesma sempre havia pensado nele e em Amy como o futuro casal da Lufa-Lufa. Até aquele ano, Edward jamais havia dado a entender que não seriam. Além disso, ele não falara nada a ela sobre Vaisey.
—Pode ter beijado? –Grace questionou. –Como é pode ter beijado?
—Eu exagerei na água de Gilly aquela noite e as lembranças não são claras. –Admitiu.
—Amy sabe?
—De quê?
—Edward! –Grace se exasperou. Ainda não havia tocado na comida e, quando deu uma mordida na sua torrada esperando a resposta, ela estava um pouco gelada.
—Não, não sabe, Grace. –Ele revirou os olhos para ela. –Eu nem tenho certeza. Foi um beijo. Fiquei abalado. Pode não ter significado nada. Ele nem falou comigo depois e eu pretendo torcer para a Grifinória esse fim de semana, então vamos esquecer Vaisey.
—Tudo bem. –Concordou. –Às vezes um beijo é só um beijo, mas e quanto a outros garotos...
Edward se desviou do assunto mais de uma vez, dizendo que era muito cedo para fazer afirmações precipitadas. Grace não insistiu muito mais do que isso e, quando o acompanhou para as aulas do dia, fez um esforço para não agir diferente com o amigo, ou fazer uma cara que o denunciasse quando Amy se aproximou perguntando onde estavam.
Como um modo de preservar os segredos de Edward, Grace se manteve afastada tanto dele quanto de Amy pelo resto da semana, com medo de fazer uma expressão ou comentário que o denunciasse. Edward escapava para junto dela sempre que podia, quando Amy estava ocupada estudando ou numa aula que eles não tinham, tal qual Trato das Criaturas Mágicas. Na sexta, os dois estavam sozinhos na biblioteca; Grace com as pernas jogadas por cima das de Edward e ele apoiando um livro em seus joelhos, ambos fazendo os deveres de Astronomia.
—Fred Weasley está encarando você. –Ele sussurrou baixo, embora só houvessem os dois na mesa.
Grace levantou o olhar para o ruivo há duas mesas de distância e esperou que ele abrisse um sorriso para ela. Não pôde deixar de notar que era um sorriso que se abria na mesma altura dos dois lados. Então baixou sorriu de volta, acenou e baixou os olhos para o seu dever novamente.
—Aquele é George. –Murmurou de volta para Edward.
Edward a lançou um olhar dúbio, mas o ruivo já estava se aproximando deles. George era alto e magro, e tinha um nariz fino. Era essencialmente muito parecido com o ruivo com quem ela tinha aula todas as segundas, mas havia algo diferentes em seu expressão e postura que Grace não sabia bem explicar. Ele se colocou por de trás de uma das cadeiras vagas na mesa que os lufanos ocupavam, tranquilo.
—Olá, George. Tudo bem? –Grace sorriu para ele.
—Ei, Moore. Bailey. –O ruivo se inclinou. –Posso me juntar a vocês?
Os dois lufanos acenaram positivamente, mas não teria feito diferença se não tivessem, porque o ruivo já estava se sentando na mesa entre duas prateleiras de Astronomia. Grace sentiu Edward a procurando com um olhar questionador, mas não o olhou de volta. George, apesar de ter pego para si um livro e aberto numa página aparentemente aleatória, a encarava insistente. A lufana tentou continuar fingindo que não via.
—Então. –Ele disse finalmente, um grande sorriso presunçosos no rosto. –Me diga... meu irmão tem sido um bom tutor?
A lufana hesitou, tirando as pernas de cima de Edward para se ajeitar na cadeira.
—Bem... sim. –O ruivo tinha os olhos esverdeados insistentemente em cima dela, curiosos demais.
Ele imediatamente notou sua hesitação.
—Você não parece segura... eu não ficaria surpreso se Fred estivesse...
Neste momento, outra pessoa surgiu por trás do ruivo, com uma expressão divertida e irritada em seu rosto.
—Curioso sobre minha tutoria, Georgie? –Ele colocou uma mão no ombro do irmão e abriu um sorriso para Grace. –Eu poderia ser seu tutor.
—Ah, não sei, Freddie... –O gêmeo abriu um grande sorriso. –Você não iria querer me tutorar. Eu não sou bonito como Moore, embora mais bonito do que você.
—Absurdo. –Fred respondeu, tranquilo. –É claro que eu sou mais bonito. –Finalmente ele se virou para olhar os dois lufanos de frente, sem soltar a mão do ombro do irmão. –Vocês vão assistir ao jogo amanhã? Torcer para a Grifinória?
O seu amigo lufano abriu e fechou a boca, olhando para ela com a mesma confusão que Grace sentia estampada em sua cara. Não eram amigos dos gêmeos Weasley, não se sentava com ele e isso não havia mudado mesmo com as tutorias de Grace. A mão de Fred não havia afrouxado no ombro de seu irmão em momento nenhum e as juntas de seus dedos estavam brancas com a força com quem agarrava o outro. Alguma coisa estava estranha ali, ela sabia.
—Bem, claro. –Foi Edward que respondeu. –Sim. Vai, vai, Grifinória!
Alguém, provavelmente um sonserino, fez um “shiu” para eles do fundo da biblioteca.
Fred abriu um grande sorriso.
—Maravilha. –Declarou. –Você quer um cachecol vermelho e dourado, Grace? Eu posso emprestar um para você torcer...
George olhou para ela tão intensamente quanto o irmão olhava.
—Eu... tudo bem. –Encolheu os ombros. –Obrigada.
—Levo para você no jantar. –Agora, finalmente, ele soltou o irmão, que passou a mão pelo ombro parecendo magoado. –Vamos, George?
Parecendo sair quase arrastado, o outro gêmeo o acompanhou para fora; as duas silhuetas altas sumindo por entre os livros rapidamente. Grace acompanhou sua saída até que não pudesse mais vê-los e, quando se virou para Edward, percebeu imediatamente que ele a perguntaria o que havia acabado de acontecer, e ela não sabia a resposta para aquela pergunta.
—Quando você vai falar com Amy? –Perguntou, ao invés. –Não pode ficar para sempre a evitando.
Edward se afastou dela como se Grace o houvesse batido.
—Eu poderia testar sua teoria. –Ele murmurou de volta. Ela o respondeu apenas com um olhar condescendente. –Mas não vou. Pretendo falar com ela esse fim de semana, está bem para você?
—O que vai dizer?
—A verdade. –Ele deu de ombros. –Não sei se gosto ou não de garotos, mas sei que não sou apaixonado por ela.
Parecia um bom plano.
Fred Weasley cumpriu sua promessa de emprestar um cachecol, mas fez isso causando quase uma cena no Grande Salão, indo até a mesa da Lufa-Lufa e enrolando ao redor do pescoço de Grace um cachecol vermelho e dourado que cheirava a pólvora e sabonete de limão. Grace teve que fazer um verdadeiro esforço para não se sentir desgostosa com o ato. Era divertido, mas seria mais divertido se ela não se sentisse tão resistente em relação a ele. Se a ideia de chamar atenção não fosse tão angustiante. Ela estava no sétimo ano, prestes a deixar a escola com um histórico perfeito; e Fred Weasley parecia querer entrar em seu caminho.
Justamente por esse motivo, passou, de propósito, o sábado trancada na biblioteca, onde era pouco provável que qualquer confusão a encontrasse. Escreveu uma carta para Katie, embora ela ainda estivesse desacordada no St. Mungos, apenas para desejar melhoras, e adiantou um pergaminho e meio de Poções e outro de Defesa Contra as Artes das Trevas.
No domingo, não se falava em outro assunto que não quadribol. Seus colegas de casa, além de vários alunos da Corvinal também, haviam pintado os rostos nas cores dos leões, ou carregavam bandeiras nas costas. Durante o café, enquanto Grace comia torradas e ovos, apostas foram feitas e mãos apertadas. Amy, ao seu lado, não apenas pintara o rosto como usava uma camisa vermelha. Julie e Mia, também lufanas de seu ano, colocaram fitas nos cabelos. Apenas Sarah Bailey parecia como se pretendesse se trancar na biblioteca.
Zacharias Smith, que narraria o jogo, foi o único da mesa lufana a amarrar a cara.
Grace se deixou ser levada pelo clima animado. Era difícil não se contagiar de qualquer forma, com os amigos que ela tinha. Melinda, que vinha andando muito desanimada desde o acidente com Katie, havia convencido Liana a torcer e todas as meninas, e Edward, se encontraram às portas do Grande Salão para descer ao campo.
—Droga. –Grace parou no meio do caminho. Havia esquecido o cachecol no dormitório. Se virou para os amigos. –Vão na frente. Os alcanço em um minuto.
Ela estava sendo sincera. Correu até o dormitório apressada; o salão comunal da Lufa-Lufa estava vazio como quase nunca ficara e Grace por um segundo lamentou não poder, naquele frio, usufruir das poltronas mais perto da lareira quente. O cachecol estava em cima de sua mesa de cabeceira, e a lufana num instante o passou ao redor do pescoço por cima do suéter amarelo e casaco vermelho, antes de mover seus passos apressados para fora de novo, aliviada em estar de tênis.
Estava quase alcançando a porta de saída para o pátio quando viu outra pessoa vindo no caminho contrário ao que todos estavam fazendo aquela manhã. Olhou ao redor, por um segundo, preocupada, mas os dois estavam sozinhos no corredor e ele abriu um grande sorriso para ela enquanto se aproximava com passos vagarosos, sem pressa.
—Não vai jogar? –Grace perguntou a Malfoy.
Ele hesitou por um segundo diminuindo o passo conforme chegava mais perto, parando apenas de frente para ela, um pouco mais próximo do que seria normal em uma conversa casual. A respiração de Grace ficou em sua garganta por um segundo.
—Não... eu tenho... um novo hobby. –Ele disse como se isso fosse de alguma forma engraçada. Então ficou sério ao ver o cachecol em torno de seu pescoço, e estendeu uma mão de forma que seus dedos tocaram o tecido. Grace ficou tensa, se perguntando se os dedos dele acabariam roçando a pele do seu pescoço, mas não tocaram. E ele não comentou sobre o cachecol. Ao invés disso, pareceu ter uma ideia. –Você poderia vir comigo.
Agora a hesitação de Grace foi por medo. Não podia deixar de se lembrar de com quem estava falando, do quão pouco conhecia dele e do quanto ele não era, em absoluto, confiável. Buscou em suas intuições um motivo a mais para não ir, mas nada nela se rebelou contra a ideia, exceto por uma coisa.
—Achei que preferisse não ser visto comigo. –Comentou. Malfoy deu um passo para trás, o rosto franzido em surpresa. Grace se apressou em explicar. –Eu sou nascida-trouxa.
Ela agora observou a expressão dele de perto, em busca da hesitação, do nojo. Se ele os sentiu, disfarçou bem. Ao invés disso, balançou a cabeça com incredulidade.
—Você não devia ser vista comigo, Grace. –A corrigiu, mas a lufana prestou pouca atenção no que ele disse. Jamais havia dito seu nome antes, e saindo de seus lábios rosa pálidos parecia doce e delicado como a pétala de uma flor. –Os Malfoy não tem uma boa reputação em nenhum dos dois lados esses dias e você não deveria se associar com isso.
Ah, os lados. Sim, Grace sabia sobre eles; e havia apenas uma opção para ela naquela guerra: o lado que não a queria morta e expulsa do mundo mágico. Se impressionou com a facilidade com que se esquecia da guerra desde que entrara em Hogwarts. Não pensara em outra coisa durante as férias, mas, uma vez na escola, os lados mais importantes com os quais se preocupar passavam a ser sobre quem ganharia a Taça de Quadribol. Mas era um equívoco, especialmente para alguém na posição dela. Jamais poderia esquecer que ela era vulnerável naquela situação.
—Bobagem. –Disse levemente para ele, contrariando seus próprios pensamentos. –Então? O que é esse hobby?
Draco pareceu alegremente surpreso em sua concordância. Ele não falou muito no caminho para o sétimo andar, mas fez perguntas que Grace podia responder. Perguntou, educadamente, como estavam indo os estudos para os NIEM’s, e o que seus pais faziam. Pareceu horrorizado com a descrição de medicina trouxa. Na verdade, quando ela explicou para ele o conceito de pontos, o colega a olhou escandalizado.
—Sala Precisa? –Perguntou, curiosa, quando os dois pararam de costas para a tapeçaria de Barnabás, o Amalucado.
Ele a olhou surpreso por um segundo, depois assentiu para si mesmo.
—Claro. Você fazia parte daquela coisa no ano passado.... de Potter.
Grace não o corrigiu sobre a Armada de Dumbledore. Deixou que ele ficasse sem saber o nome; parecia desleal falar em voz alta para um sonserino do que se tratava, mesmo que, naquele momento, ela não estivesse achando o sonserino em questão de forma alguma ruim naquela tarde.
Ela ficou assistindo enquanto ele ia de um lado para o outro na frente da parede vazia entre dois archotes que lançavam luzes amareladas no chão de pedras cortadas, sua sombra o acompanhando, ficando comprida e se encurtando conforme ele ia e vinha. Cruzou os braços, enquanto esperava, e foi a primeira a tomar a dianteira quando uma grande e pesada porta de carvalho se abriu entre eles.
As portas se abriram para um espaço amplo, mas essencialmente vazio, exceto por um belo piano de calda em madeira escura, em conjunto com um longo banquinho. O piso era de porcelana e as paredes eram cinza-chumbo com arabescos dourados. Não sabia que lugar era aquele, mas estava imediatamente encantada. Draco entrou, seguindo-a de perto, de forma que ela quase podia sentir os movimentos do sonserino às suas costas.
De um lado das paredes, os arabescos eram mais fortes, com imagens embaçadas em preto e branco entre eles. Grace se aproximou, curiosa, notando que estava de frente para uma elegante árvore genealógica, com galhos intricados que se juntavam e soltavam e nas folhas ficavam os rostos de Malfoys e mais Malfoys ao longo dos anos, no tronco principal, cercado por famílias menores.
—Você está aqui. –Grace comentou, desviando os olhos para outros nomes conhecidos. Ali estavam os Black, Rosier e Lestrange. Os Yaxley, Bloxam e Greengrass. –Você não acha um pouco... não sei. Nojento?
O sonserino a lançou um olhar pelo canto do olho, não agradado.
—Eu quero dizer... –Grace se apressou em explicar. –Vocês, sangues-puros, são todos aparentados. Imagina começar a namorar uma garota e de repente ela já está em outro canto da sua árvore genealógica?
Ao invés de parecer horrorizado ou lança-la uma resposta cortante, Draco riu em voz alta. Riu e se inclinou sobre o piano, deslizando para o banco e batendo no assento ao seu lado par que ela também se sentasse. Grace apertou os lábios, mas aceitou o convite mudo, esperando que ele se recuperasse.
—Tem razão. –Admitiu. –Não é.... incomum que às vezes primos se casem para manter a linhagem pura. Uma das ocasiões mais notáveis entre as famílias puros-sangues foi quando Phineas Black se casou com sua meia-irmã para salvar a linhagem. Eles são considerados heróis.
—Como Adão e Eva. –A garota meditou, virando-se para a tecla. Malfoy apenas franziu as sobrancelhas, como se não soubesse do que ela estava falando e Grace não explicou. –Você toca?
Draco hesitou, olhando para ela com o canto dos olhos agora que estavam lado a lado. Grace tinha grandes olhos cor-de-chocolate e havia muito pouco que ele podia fazer ao invés de dar a ela exatamente o que ela queria. Então pôs os dedos longos nas teclas, que ressoaram pela sala vazia. Timidamente, tocou mais uma e outra, até que uma canção começasse a se formar no ar, reverberando pelo seu peito.
—Meu pai me ensinou. –Ele disse, finalmente, no meio da música. Não era uma melodia complicada. Era quase uma canção de ninar, e era a preferida de sua mãe.
O olhar que a lufana o lançou o fez desconfiar que ela via mais do que ele deixava transparecer. Não era confortável; Draco não estava acostumado a ser entendido, ou analisado tão de perto por pessoas de fora da família. Mas não era ruim. Era emocionante.
Grace não tocava bem, mas Draco insistiu para que tocasse mesmo assim e, insegura, ela o fez. Ele não comentou sobre como seus dedos eram desajeitados, ou como as músicas não seguiam o ritmo que deviam. Ao invés disso, segurou os dedos dela sob os dele, que eram frios e estranhamente rígidos, mesmo quando deslizavam pelas teclas, e a guiou pelo marfim, para um lado e então de volta.
Ela não disse a ele que desconfiava que o garoto fosse um comensal. Ele não a disse que, quando pensava sobre isso, o fato de ela ser uma sangue-ruim o incomodava. Algumas coisas eram melhores quando não eram ditas.
O dormitório da Lufa-Lufa estava vazio, exceto por Amy, sentada em sua cama de madeira de cheiro forte e lençóis grossos e amarelos, quando Grace chegou. Amy estava séria, o rosto compenetrado em observar o nada à sua frente, mas levantou os olhos escuros como café quando a amiga se aproximou, e estes se estreitaram com desconfiança.
—Você não voltou ao jogo. –Sua voz continha uma estranha acusação para um evento não tão estranho assim. –Onde esteve?
A lufana de cabelos curtos hesitou na porta, surpresa com a agressividade de seu tom.
—Eu... –Pensou na verdade e em que bem faria dizê-la. Então decidiu-se por mentir. –Resolvi ficar estudando. Estou realmente nervosa com Defesa Contra as Artes das Trevas e Aritimância tem sido puxado ultimamente...
Amy a interrompeu.
—Edward terminou comigo. –Seu olhar agora foi extremamente desconfiado e agora Grace entendeu o motivo. –Ele falou com você sobre isso? Ele disse que não era apaixonado por mim e que tinha sido um erro tentar.
Abrindo e fechando a boca pensando no que responder, Grace se aproximou da cama da amiga, sentando-se por trás dela e acariciando seu cabelo.
—Você está bem? –Inqueriu, ao invés de dar ouvidos à pergunta.
A outra garota fungou.
—Não há muito a se fazer, não é? –Questionou, deixando a agressividade de lado. –Você sabia?
Não havia como fugir agora.
—Ele comentou comigo.
—O que você disse?
—Que ele devia falar com você.
Amy hesitou antes de fazer a próxima pergunta, com medo da resposta.
—Acha que ele gosta de você, talvez? –Sua voz foi tão baixa que Grace quase não a ouviu. –Quero dizer... as pessoas sempre pensaram que nós dois tínhamos um clima, mas ele nunca demonstrou interesse em qualquer outra pessoa e vocês são próximos...
—Tenho absoluta certeza de que não é o caso. –Garantiu Grace, deixando que a amiga se ajeitasse na cama e colocasse a cabeça sobre suas pernas cruzadas.
—Você se importa se eu chorar um pouco? –Voltou a fungar. –Só um pouco. Eu vou acabar dormindo.
Grace soltou um suspiro, passando as mãos pelos cabelos castanho acobreados da amiga.
—Pode chorar.
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