Notas iniciais
Bem, depois das emoções do capítulo passado, vou deixar vocês poderem relaxar um pouco, embora esse capitulo envolva uma cena que eu estava pensando em como iria sair desde o início da fic. Para ficar mais explicativo, o capítulo vai se passar primeiro no POV Fred e depois com Grace. Boa leitura e nos vemos nas notas finais!

“Am I allowed to look at her like that
Could it be wrong when she's just so nice to look at
And she smells like lemongrass and sleep
She tastes like apple juice and peach
”

Fred não podia se lembrar da última vez que ele e George haviam discordado tão longamente sobre qualquer coisa.

Teria sido difícil imaginar, ao ser pareado com Grace Moore para tutoria, que aquela coisinha pequena, delicada como um pássaro, de olhos como os de uma raposa num ingrato tom de chocolate amargo, pudesse ser a causa de qualquer discordância entre os gêmeos. Claramente, a lufana não tinha nenhum conhecimento de seu potencial de destruição; isso Fred podia ver pelo modo inocente como ela recebia suas atenções, sempre um pouco surpresa.

Ele e George estavam parados na frente do Grande Salão após o café da manhã, no primeiro sábado de março, usando os suéteres trocados que sua mãe havia tricotado no natal anterior. Ver seus colegas indecisos sobre quem era quem era uma brincadeira que jamais perdera a graça para eles; especialmente entre os irmãos. Não que os irmãos se enganassem mais. Haviam criado uma intuição para isso.

George se inclinou para ele.

—Moody não vai ficar satisfeito. –Disse numa voz despreocupada de quem não se importava muito.

O gêmeo para quem o comentário foi dirigido se inclinou para dentro do Salão, onde Melinda se juntava a Amy e Edward, assistindo aos três se dispersando para junto deles. Era uma manhã fria e estava muito cedo –eles haviam acordado especialmente cedo para aquilo. Cedo demais, inclusive, para que ele pudesse esperar ver Grace acordada no salão de refeições, mas ele teve esperanças mesmo assim.

—Moody pode vir aqui ele mesmo se pensa poder fazer melhor. –Fred sorriu um sorriso divertido, imaginando o auror tentando separar aqueles que entre eles eram corajosos e confiáveis, e então os chamando, ou intimando, como Fred preferia pensar.

Houve apenas tempo para essa resposta antes que os três colegas os encontrassem na porta. Apesar do horário e de ainda haver uma névoa fria nos jardins e terrenos do castelo, os três pareciam bem acordados. Amy tinha os cabelos castanhos lisos presos no alto da cabeça e Melinda havia trazido consigo uma caneca de café que ainda exalava vapor. Edward hesitou quando eles começaram a andar.

—Não vai haver mais ninguém? –Perguntou.

George bufou.

—Quem me dera. –Respondeu.

—É –Fred concordou. –Era Córmaco McLaggen ou ninguém, então escolhemos ninguém.

Nenhum dos três recrutas, como estavam sendo chamados, negou essa lógica. McLaggen decididamente não era material para a guerra. Foi Edward novamente a interromper seus pensamentos.

—Você está subestimando Grace, entretanto. –Disse ele. –Ela é forte. E corajosa.

Foi George agora a lançar a ele um longo olhar de entendimento. Fred sabia que Grace era forte; sua determinação em ser gentil independente de qualquer coisa, por exemplo, e sua capacidade de se manter leve em qualquer situação, era prova disso. Mostrava uma firmeza que muitos grifinórios não tinham –como McLaggen, já que havia sido citado. Era Fred que era fraco e covarde –covarde demais para coloca-la numa posição da qual não poderia tirar. Ele jamais perdoaria a si mesmo caso ela se machucasse.

—Sei que ela é. –Foi tudo o que respondeu, encerrando o assunto.

O grupo de grifinórios e lufanos foi andando em direção à passagem secreta da Bruxa de Um Olho Só no terceiro andar. Melinda perguntou, numa voz chateada, se havia alguma chance de eles levarem mais uma detenção. Haviam acabado de terminar as duas semanas de limpeza de ingredientes e organização de arquivos após a festa de aniversário de Grace, interrompida na metade pelo professor Snape, e não seria agradável serem pegos de novo, mas os gêmeos garantiram que não seriam; principalmente porque tinha permissão de Dumbledore para fazerem o que estavam fazendo.

Então eles desceram pela passagem e seguiram pelo longo corredor.

Hogsmead era agradável na primavera que já começava a se anunciar. Era um dia ventoso, mas o céu estava azul, e bruxos passavam pelo vilarejo resolvendo suas vidas: comprando vegetais em cestas de palha, conversando com os vizinhos comerciantes em suas portas e seguindo com suas vidas, embora houvesse um inegável ar de tensão no ambiente, como se todas essas coisas devessem ser feitas na maior pressa e cuidado possíveis.

O pequeno grupo chamou pouca atenção sem seus uniformes, possivelmente por serem setimanistas e não parecerem mais tanto assim como alunos. Em vestes majoritariamente bruxas, exceto pelos jeans de Edward, eram um grupo homogêneo a entrar no Três Vassouras e, acenando para uma Rosmerta que limpava um copo de vidro que já parecia perfeitamente brilhante e limpo, partirem para uma sala ao fundo, guiados pelos gêmeos.

A sala era grande; majoritariamente cinzenta, com móveis velhos, porém firmes, de madeira marrom-acinzentada e uma lareira apagada em brasas no canto mais norte. As cortinas pesadas de veludo roxo escuro estavam todas fechadas, exceto por aquela onde se postava Alastor Moody, de costas para a porta –embora Fred tivesse certeza de que seu olho mágico já notara sua chegada –sua silhueta indefinida pela luz vaga que entrava.

Outras três pessoas estavam na sala, e todas se viraram para a entrada do grupo. Fred se lembrava de Ninfadora Tonks como uma garota apenas um pouco mais velha que ele em Hogwarts, sempre com os cabelos coloridos e roupas combinando. Depois de Hogwarts, na Ordem, a conheceu como uma jovem animada e talvez um pouco desastrada de quem ele gostava muito. Ambas essas garotas foram difíceis de encontrar na figura magra de cabelos sem vida que acenou rigidamente para ele com a cabeça.

Fred sempre tivera a impressão de que Cordélia Bloxam não gostava dele, e talvez houvesse certa razão nisso, ele pensou, quando ela passou os olhos verdes pelo grupo, e então de volta para a parede, desinteressada. Apesar de estar numa postura relaxada, uma de suas mãos se insinuava para dentro do casaco escuro de veludo verde, onde ele desconfiava estar sua varinha.

A terceira garota era uma completa desconhecida. Tinha cabelos vermelhos vastos e olhos verde-oliva de gata. Os observava com mais curiosidade do que os outros três e se inclinou para Bloxam para sussurrar em seu ouvido algo muito baixo para que pudessem captar.

—Senha? –Moody não se virou, falando num tom de voz falsamente monótono, pela frase que haviam combinado para checar se eram mesmo eles.

—Dumbledore tem estilo. –Respondeu Fred, divertido. Haviam sido ele e Kim a vir com a ideia.

—Isso é tudo? –Moody perguntou, finalmente descolando-se da parede e andando até a porta, que fechou antes de lançar não menos do que cinco feitiços nela para impedir qualquer perturbação.

Os dois gêmeos trocaram um olhar em referência à conversa anterior.

—É, sim. –Foi George a responder, sorrindo como quem anuncia um grande prêmio e fazendo um gesto para os jovens. –Amy Ollivander, Edward Bailey, que está para entrar na Academia de Aurores, e Melinda Bobbin.

Tonks havia se inclinado para perto deles agora, e tomado uma das cervejas-amanteigadas distribuídas em uma bandeja em cima da mesa.

—Ollivander? Como em Garrick Ollivander?

—Ele é meu bisavô. –Respondeu Amy.

Tonks assumiu sua postura mais profissional.

—Lamento muito pelo que houve. –Disse ela. –Estamos fazendo o possível para localizá-lo.

—Estamos. –Interrompeu Moody, rudemente. –Mas, Weasleys, este me parece um grupo pequeno com um número ainda menor de possíveis guerreiros. –Nesse ponto, Bloxam fez um som deselegante de dúvida com a garganta e Moody se virou para ela, primeiro o olho e então o resto do corpo. –Algum problema, Bloxam? Achei que Severus a tinha mandado para observar e relatar, não reclamar.

Se Bloxam ficou intimidada, não demonstrou.

—Crianças de dezessete anos não são guerreiros, são crianças. –Ela respondeu secamente, sem olhar para nenhum deles. Era difícil para Fred se compadecer de Bloxam, ou da maioria dos sonserinos, na verdade, mas ele teve que lembrar a si mesmo que ela fora uma das primeiras a ter uma grande perda na guerra. –Se é isso que está procurando, desista.

—Engraçado você comentar isso quando você mesma se recusa a assumir um papel ativo na Ordem. –Alastor rosnou. –Não precisaríamos de crianças se os adultos não estivessem com medo.

Houve um segundo de silêncio, enquanto Bloxam levantava seu queixo alto no ar, um olhar de descaso em seu rosto bonito –bonito, mas, para Fred, muito enervante para ser atraente, do jeito que eram os rostos das famílias aristocráticas do mundo bruxo.

—Por que não se sentam? –Tonks interrompeu os dois, se metendo entre eles, embora estivessem de lados diferentes da sala, e puxando uma cadeira para si; indicando aos outros para que fizessem o mesmo.

Uma vez na mesa, os ânimos pareceram se acalmar consideravelmente conforme cada um deles pegava seu copo e dava um gole. Moody pigarreou antes de começar. Apesar de sua reclamação sobre guerreiros, Melinda, cuja família era dona de uma extensa rede de apotecários, e Amy, herdeira do império de varinhas Ollivanders, eram contatos essenciais na luta contra as artes das trevas.

—Esta, aliás, -Tonks se virou para Edward uma vez que as apresentações haviam sido feitas, apontando a garota ruiva que passara a reunião em silêncio. –é Tara Magescu, formada pela Academia de Aurores romena. Ela está trabalhando como professora para o Departamento de Aurores britânico agora, e vai, possivelmente, ser sua professora ano que vem.

Tara sorriu.

—E não somos os únicos entrando em contato com estrangeiros. –Moody acrescentou. –Embora a maioria das nações europeias tenha anunciado seu apoio ao governo britânico na luta contra Você-Sabe-Quem, sabemos que suas instituições são tão corruptas contra a do Reino Unido Mágico, e o partido das trevas também tem aliados no exterior, embora majoritariamente criaturas das trevas ao invés de bruxos.

—Sim. –Disse Tara mais seriamente. –O Ministérrrio Romeno está notande um grande movimentaçon de Ghouls parra o Norrte. Além disse, conheço muites ex-colegas de escola que ficarrriam felices em se juntarem ao parrrtido das trrevas.

Uma vez que todos estavam apresentados e cientes de seus deveres, Fred olhou o relógio que ganhara em seu aniversário de dezessete anos e que havia pertencido a Fábio Prewett, seu tio, morto na primeira guerra. A manhã havia corrido mais rápido do que ele esperava e, embora tivessem a permissão explícita de Dumbledore para se esgueirarem do castelo, Fred se viu ansioso para voltar.

Antes disso, porém, Tonks o puxou de lado enquanto Alastor dizia que esperava que seus novo recrutas “puxassem o pônei de Sir Cadogan”* para suas futuras tarefas.

—Remus. –Tonks perguntou. –Esteve no natal com vocês?

Fred se remexeu nervosamente. Não sabia bem o que estava acontecendo entre os dois membros da ordem, mas, desde antes da morte de Sirius no ano anterior, eles vinham mantendo um companheirismo, seguido subitamente de um afastamento. Não sendo amigo particular de nenhum deles, Fred jamais perguntou o que estava ocorrendo, embora tivesse curiosidade.

—Esteve. –Respondeu à mulher que parecia tensa.

—Ele estava bem? –Os olhos de Tonks, quando ela não estava usando sua metamorfagia, eram grandes e castanhos, e estavam implorando por informações.

—Cansado. –Fred disse, encolhendo os ombros. –Mas bem, eu acho. Vivo, ao menos.

Sem acrescentar mais pergunta alguma, Tonks baixou os olhos para o tampo da mesa polida à frente deles.

Aquele sábado teria sido de passeio a Hogsmead, se este não houvesse sido cancelado, e Fred tivera toda a intenção de convidar Grace para sair com ele, mas agora que não pudera o fazer, queria estar de novo com ela no castelo, o mais rápido que fosse possível. George, o notando olhar para o relógio mais uma vez, lançou um olhar exasperado.

Por fim, a reunião chegou ao fim. Não que agora, de repente, os três setimanistas fossem membros da Ordem, mas a organização estaria aberta a eles uma vez que se formassem. Fazer parte da Ordem era como ter um cinzal; que poderia queimar sua casa abaixo, mas cujos ovos eram valiosos no mundo mágico. Fazer parte da Ordem dava a o bruxo uma atenção desnecessária, e o marcava em uma organização considerada tanto pelo ministério quanto pelo partido das trevas, quase como criminosa. Por outro lado, a Ordem tinha recursos para proteger e esconder seus membros e suas famílias, caso colocados em perigo.

A volta foi silenciosa, e os gêmeos não tentaram impedir que o fosse. Seus colegas pareciam ter muito sobre o que pensar agora, e mesmo os dois tinham consciência de que interrompê-los naquele momento específico seria pior do que deixá-los divagar em silêncio.

O grupo se separou no Saguão, quando os dois lufanos seguiram pelo corredor da cozinha para o seu salão comunal, enquanto Melinda decidiu encontrar a amiga Liana e Fred e George foram seguindo para a sala da Grifinória, onde poderiam, com sorte, achar o irmão mais novo, com quem poderiam brincar sobre o sucesso (ou falta dele) nas aulas de aparatação.

—Acha que devíamos ter convidado Cho Chang? –George perguntou pensativamente enquanto eles subiam uma das muitas escadas movediças, evitando um degrau que tendia a sumir quando pisado, e prender a perna do passante incauto.

Fred fez uma careta.

—Depois do que houve ano passado na AD?

—Não foi bem culpa dela. –George observou. –Foi muito leal da parte dela ficar ao lado da amiga.

—Eu teria chamado Liane e Katie. –Fred disse. –Mas, levando em conta que Katie está no hospital e Liana anda abalada...

—Todo o time de quadribol seria bom. –George riu. –Os arremessos de Alicia e o fanatismo de Oliver teriam sido revigorantes.

Os dois fizeram caminho até o Salão Comunal da Grifinória dessa forma. Sendo sábado, o Salão estava majoritariamente vazio. George foi até o dormitório, de onde voltou com o relatório de lucro do mês enviado por Gui no dia anterior. Fred sentou-se ao seu lado com sua pena, mas, depois de muito se remexer diante da lareira apagada no confortável sofá de tecido vermelho, George suspirou e, na falta de Harry por perto, convocou o Mapa do Maroto com um feitiço e o entregou a Fred sem nenhuma palavra.

—O que é isso? –O gêmeo perguntou, embora soubesse a resposta.

—Procure por ela se é o que o vai fazer feliz. –George o olhou, um sorriso brincando no canto dos lábios.

O ruivo saiu pelo buraco do retrato antes de abrir o mapa. Estava agradecido ao irmão, principalmente porque sabia que jamais antes havia se encontrado em um estado no qual George não podia acompanha-lo, e que era confuso para o seu gêmeo que Fred tivesse interesses que não eram os mesmos que os dele. A recusa de Fred em recrutar Grace para a ordem era uma das coisas que George não conseguia entender e que Fred tampouco podia explicar.

O primeiro lugar em que procurou Grace foi no Salão Comunal da Lufa-Lufa, onde ele encontrou Amy e Edward, mas nada da lufana que ele de fato procurava. Na torre do corujal, o saguão e o grande salão também não deram indícios de seus paradeiros, assim como a biblioteca. Finalmente, Fred achou o rótulo andante com o nome “Grace Moore” nos jardins, à beira do lago, ao lado dos passinhos que indicavam a estadia de Draco Malfoy.

O coração de Fred ficou distintamente gelado. Um dos comentários de Dumbledore quando Fred e George foram chamados para recrutar dentro de Hogwarts foi para que mantivessem um olho em Draco –e o estendessem a mão se a oportunidade se apresentassem. Fred teve pouca intenção de cumprir com aquele combinado em específico; sempre achara o sonserino um tipinho desprezível e passível apenas de repreensão.

Fred estava andando antes mesmo de tomar a decisão de ir até o jardim. Draco Malfoy era uma irritação na qual Fred mal pensava naqueles dias, com preocupações muito maiores, mas a ideia de que ele poderia estar ofendendo Grace –ou coisa pior –não saia de sua mente. Fred praticamente voou pelos corredores, ignorando acenos e chamados, enquanto sua mente visualizava os piores cenários possíveis. De dois em dois minutos, checava o mapa para ter certeza de que ambos ainda estavam no mesmo lugar, e então amaldiçoava o enorme tamanho do castelo, que o estava mantendo para trás.

Os jardins estavam ensolarados. Passava da hora do almoço, mas Fred não comia desde o café da manhã. Havia estado com fome, mas agora tudo fora substituído pela preocupação latente com Grace. O caminho para o lago era infinito debaixo do sol; a grama verdejante subia e descia de acordo com as inclinações do terreno, mas Fred não sentiu o cansaço natural do exercício tampouco.

Primeiro ele avistou o lago, brilhando sob a luz do sol em azul e dourado. Depois, logo na beirada, as calças puxadas para cima e os pés e tornozelos na água, estavam Grace e Malfoy. Fred viu a garota primeiro, quase automaticamente, como se seus olhos não pudessem desgrudar dela. Grace sempre usava calças e suéteres, e muita pele coberta, mas, naquela tarde, ela havia retirado o cardigã, que se estendia ao seu lado na grama, e usava uma fina camisa de algodão amarela por baixo.

Apenas o susto da cena impediu que Fred fizesse algo impensado.

Ele havia corrido quase com a varinha em mãos, pronto para defender Grace de qualquer ameaça, física ou verbal, que Malfoy pudesse representar para ela. Ao invés disso, Grace tinha os braços nus –dourados do lado de fora e mais pálidos na parte interna do pulso –estendidos para o sonserino, que era todo palidez, e apontava em si própria uma grande cicatriz no antebraço, que Fred jamais havia visto por causa das mangas longas que ela sempre usava.

—Carros são geralmente seguros, é sério. –Fred ouviu ela falar quando chegou próximo o suficiente. –Mas acidentes acontecem.

—Nunca sofri um acidente de carruagem alada. –Apontou o sonserino, passando um dedo ao longo da cicatriz. Então seu dedo subiu até a clavícula dela, onde ficava uma marca em formato de coração, mais pálida do que o tom da pele. –E isto? Alguma outra geringonça trouxa? Quem sabe um transformador de pássaros em relicopteros?

—Helicópteros. –Ela corrigiu. –E trouxas não conhecem Transfiguração. Isso é uma marca de nascença.

—De família? No mundo bruxo marcas de nascença são para famílias importantes, como os Dumbledore ou os Black.

Grace deu de ombros.

—No mundo dos trouxas são apenas marcas.

—Agora, isso é pura falta de decoro. –O sonserino comentou, com criticidade.

Fred assistiu a Grace abrir para ele um sorriso altamente tolerante, quase doce, e afastar a mão dele, mas não incomodada. Ela apenas buscou de lado um sanduíche, que mordeu pensativamente.

O ruivo se sentiu como se houvesse pisado num degrau de Hogwarts e este houvesse cedido sobre seus pés –e agora ele estivesse preso com metade do corpo no ar, esperando a queda. De todas as cenas para as quais havia se preparado para presenciar, por um segundo, aquela foi pior do que sua imaginação poderia ter concebido. No segundo seguinte, se repreendeu. Qualquer coisa era melhor do que Grace em qualquer estado que não perfeitamente inteira e feliz –e ela parecia inegavelmente, quase dolorosamente, inteira e feliz.

Finalmente, quando recuperou domínio sobre seus músculos, deu mais alguns passos, saindo do caminho de arvoredos, carvalhos e salgueiros, para o espaço aberto à beira do lado.

—Grace, se importa de vir comigo um segundo?

Grace estava tendo uma tarde surpreendentemente agradável. Depois de duas semanas de detenção, esfregando troféus até suas mãos ficarem calejadas com a Poção de Polimento, nada poderia animá-la mais do que um sábado em Hogsmead –até que o passeio fora cancelado. A lufana se resignara a assistir enquanto Hopkins e Cadwallader jogavam xadrez bruxo, jogada numa das confortáveis cadeiras ao lado de uma janela em escotilha no Salão Comunal da Lufa-Lufa, até que, através do gato Cronos, que, como o resto dos animais de estimação, podia andar por praticamente todo o castelo, Draco a mandou uma mensagem para que se encontrasse com ele no Lago Negro.

Amy e Edward haviam acabado de voltar de onde quer que eles estivessem naquele momento. Seus amigos a lançaram olhares de entendimento quando ela juntou seu novo material de tricô nas mãos, e foi-se embora com o gato. Para Grace era até bom que estivessem desconfiados dela –se isso os unia. Naquela mesma manhã, eles haviam sumido e a deixado à mercê de suas colegas de dormitório, fazendo deveres atrasados. Grace não fazia ideia de para onde haviam ido, mas eles não ofereceram explicações, e como ela própria não vinha oferecendo muitas dessas naqueles dias, não se sentiu no direito de perguntar nada.

Draco a estava esperando na beira do lago, já com as pernas na água. A água estava fria, mas era um dia relativamente quente, então ela não se importou.

Não havia um único dia desde do beijo que eles trocaram na sala do professor Snape em que Grace não pensasse sobre isso. Draco, por outro lado, parecia ter sofrido amnésia. No dia seguinte, quando ele fora procurar por ela, claramente inseguro se ela havia ou não o perdoado pela longa e infeliz detenção que conseguira por causa dele, Grace ficara tão sem graça que mal pudera o olhar durante a maior parte do tempo. Não era de guardar rancores, então a detenção mal passara por sua cabeça. Draco, por outro lado, a levou para a Sala Precisa, onde ele imaginou a sala do piano novamente, o que a deixou aliviada (não poderia aceitar outra joia cara dos Malfoy) e desapontada (esperava algo mais criativo dele), e tocou para ela uma partitura. Grace se sentou no banquinho de madeira, aproveitando que daquela forma podia olhar para o movimento das mãos pálidas dele ao invés de seu rosto.

Foi apenas até ele anunciar que havia composto a música, e nomeado a canção em homenagem a ela, para que Grace pudesse o olhar, tentando disfarçar a emoção nos olhos. Nesse momento, finalmente, Draco desviou o rosto, muito vermelho, mas eles ainda vinham fingindo que nada havia acontecido, e, durante aquelas duas semanas estava funcionando.

De alguma forma, em algum momento entre os sanduíches de frango frio e as meias que Grace vinha tricotando para o diretor, ela notou uma cicatriz no colarinho de Draco e nos minutos seguintes ela estava sem o cardigã cor de pergaminho que era o seu preferido, deixando Draco procurar pelos seus braços mais cicatrizes.

A sensação das mãos frias dele em sua pele era deliciosa e a enviava pequenos arrepios pela sua espinha. Draco era pálido como papel –não pergaminho, mas o papel trouxa que seu pai comprava para que ela desenhasse quando era criança, uma atividade pela qual ela nunca teve grande interesse. Perto assim, Grace não conseguia deixar de pensar sobre a sensação de seus lábios pressionando os dela enquanto a puxava para perto: uma contradição, realmente.

Encontrar Fred naquele cenário foi um tombo tão grande que por um segundo Grace não teve ideia do que estava acontecendo. Era como passar pela porta do Grande Salão e se encontrar na sala de estar da casa de seu pai; simplesmente havia algo estranho com o cenário.

Draco, por outro lado, ficou de pé num segundo, os pés ainda dentro d’água, tão alto quanto Fred, e cruzou os braços. Grace se apressou a fazer o mesmo, abrindo um sorriso que em nada amenizou a tensão do ambiente.

Apenas então olhou bem para Fred, que tinha a mão direita dentro do casaco como se tocando a varinha e o maxilar tenso.

—Fred, aconteceu alguma coisa? –A lufana tentou seu melhor tom apaziguador; aquele que fazia com que gatos de rua se aproximassem e sonserinos hostis derretessem lentamente.

—Não, mas talvez haja algo que você queira saber. –A resposta de Fred foi seca e ele fez um gesto de braço indicando o caminho de volta para o castelo.

O curto espaço de tempo que a lufana levou trocando seu peso de um lado para o outro foi o suficiente para que Draco formulasse uma resposta.

—Se vai avisar para ela ficar longe de sonserinos perigosos, Weasley, faça logo. –Draco comentou como quem não se importa, e então acrescentou venenosamente. –Eu já tentei.

O ruivo assumiu um perigoso tom de vermelho.

—Meu assunto é com Grace, Malfoy. –Retrucou, ao que Draco fez sua melhor expressão debochada. Grace assistiu a raiva de Fred crescer como alguém que vê uma bomba sendo armada à distância, porém consciente de que o estrago da explosão vai a atingir. Fred continuou. –Aliás, espero que tenha lembrando a ela que seus pais são dois Comensais da Morte conhecidos e que apenas a sua existência a coloca em perigo.

Grace teve a impressão de que Draco dobrou de tamanho.

—Você quer falar sobre colocar Grace em perigo? –Questionou, num tom agressivo. –Que tal não a levar para uma casa cheia de traidores do sangue, que certamente vão ser erradicados...

—Perigo?! –Fred interrompeu, dando um passo para mais perto com a menção à sua família. –Eu tenho feito o possível e impossível para mantê-la longe da linha de tiro! Ao contrário de você, andando com ela como se seus amiguinhos comensais não fossem...

—Meus amigos não são Comensais! Já passou pela sua cabeça, seu grande idiota laranja, que nem todos os malditos grifinórios são heróis enquanto os sonserinos...

—Não é isso que se observa nas fileiras dos comensais, filhote de bruxa das trevas!

—Não ouse, Weasley, chamar minha mãe de...! –Exclamou o louro, também atingindo um novo tom de vermelho berinjela.

Por um segundo, Grace pensou que eles estavam prestes a puxarem a varinha um contra o outro. Se perguntou como a discussão havia chegado tão longe, como a tarde havia progredido tão dramaticamente de perfeitamente agradável para potencialmente perigosa. Perguntou-se até se eles notariam, em toda aquela ira, caso a acertassem com feitiços em sua briga.

—Por favor. –Grace falou num tom tão baixo que se perguntou se eles sequer a ouviriam, mas, para sua surpresa mais do que para de qualquer outro, ambos se calaram imediatamente. –Parem com isso. –A lufana se abaixou para pegar o material de tricô e as novas meias que ela havia feito mais cedo, andou para fora da água, então levou as mãos à cabeça. Os dois garotos se precipitaram para ela, então hesitaram quando se viram tão perto um do outro. Grace se apoiou em Draco, o mais próximo. –Fred, por que não sobe para o castelo e me espera no saguão? Eu vou estar lá em um minuto.

—Você não vai ficar sozinha com ele. –Respondeu o ruivo imediatamente.

—Claro, porque até agora eu estava a mantendo cativa e a torturando, Weasley. Não nota como ela está ansiosa em se afastar? –Draco comentou sarcástico.

—Talvez ela devesse estar.

—Parem. –Grace repetiu. –Não sei o que vocês dois pensam que estão fazendo, mas eu não tenho nada a ver com qualquer rixa entre vocês; quadribol, Casas de Hogwarts, não sei. –Ambos fizeram uma expressão duvidosa ao olhar para ela, como se Grace estivesse perdendo um ponto muito importante. –Fred, um minuto? Eu vou seguir você logo.

O ruivo hesitou, mas a lufana estava firme. Fred apertou os lábios e lentamente deu as costas aos dois, andando de volta para a trilha sem deixar de olhar por cima do ombro, desconfiado. Grace esperou até que ele sumisse nas ondulações verdejantes dos terrenos do castelo antes de se virar para Draco, abraçada a seu material de tricô.

—Eu lamento que ele tenha falado da sua mãe. –Disse, suavemente. –Fred não quis ofender; ele apenas...

—Estava preocupado com você. –Draco completou. –Com razão. Não gosto de Weasley, veja bem, mas ele tem razão sobre eu estar colocando você em perigo.

—Não seja bobo. –Grace disse numa voz fraquinha. –Não é verdade.

O sonserino estava mais pálido agora, como se a discussão houvesse de repente sugado suas energias. A cor de seu rosto, geralmente com um pouco de vermelho nas bochechas, estava cor de alabastro. Os dois ficaram em silêncio, analisando os rostos um do outro. Então Grace suspirou. “Estou indo”, disse. “Nos vemos depois”.

Draco não fez nenhum movimento para impedi-la de sair, mas cruzou os braços e apertou os lábios, contrariado. Grace fingiu não ver, temendo que ele a convencesse a ficar caso quisesse. Subiu, então, pelo mesmo caminho que Fred havia apenas acabado de fazer.

Fred estava sentado na escadaria de pedra so saguão, os cabelos ruivos entre os dedos e os olhos castanhos acompanhando seus movimentos com uma expressão ilegível. Grace se sentiu ligeiramente embaraçada, sem saber o porquê. Não havia feito nada de errado e certamente não tinha nada do que se envergonhar –então lembrou-se de que havia sido Draco a dar a Snape a dica de sua festa de aniversário e ficou grata que o ruivo não fizesse ideia disso.

—Ei. –Ela parou timidamente diante dele, sem saber o que o dizer.

O ruivo não parecia estar passando pela mesma dificuldade. Tudo em sua expressão denotava que tinha muito a dizer para Grace. Ela se sentou ao lado dele, com as pernas juntinhas, ligeiramente inclinada em sua direção, e esperou.

—Malfoy não é o que você pensa que é. –Foi a primeira coisa que ele disse. –Ele não é uma história trágica. Draco fez, dia após dia, a decisão de estar no lugar que ele está.

—E onde ele está? –Grace perguntou.

—Do outro lado da guerra. –O ruivo respondeu imediatamente. –Se um dia ele se arrepender, vai ser porque é um covarde, não por consciência.

Grace quis, realmente quis, defender seu amigo, mas não tinha nada a dizer. Afinal, não havia sido ela mesma a dizer a ele algumas semanas antes que ele poderia fazer bom uso de um pouco de coragem? Mas ela tinha a esperança de que ele ouvira; e de que havia coragem dentro dele. Havia gentileza, ao menos. Com ela, e, Grace sabia, com a mãe e seus amigos sonserinos. Gentileza poderia ser coragem, ela achava.

—O que você quis dizer quando afirmou estar fazendo o possível e impossível para me proteger? –Perguntou, sabendo que, se não o fizesse, ficaria com essa dúvida na cabeça todo o tempo em que estivesse com o ruivo.

Quando ela fez a pergunta, Fred abandonou toda a postura protetora, e a substituiu por uma cuidadosa expressão curiosa. Grace supôs que ele era, sim, um bom mentiroso, mas ela podia ver através do fingimento quando ele perguntou “o quê? ”.

—Você me ouviu. –Ela repetiu suavemente. –Do que está me protegendo, Fredoca? –Fez uma brincadeira para descontrair.

O ruivo pareceu não registrar sua gracinha. Apertou os lábios por um segundo, então deixou os ombros caírem derrotados.

—Quero dizer que me aproximei de você esse ano tentando ganhar sua confiança para chama-la para a Ordem da Fênix. –Contou ele. Grace franziu as sobrancelhas, absorvendo a nova informação. –Por isso me ofereci para ser seu monitor. Por isso estive ajudando Edward e Amy em Trato das Criaturas Mágicas. Quando disse que estava fazendo o possível e impossível para proteger você, quis dizer que, contra a indicação de Dumbledore, de Moody e do meu próprio irmão, resolvi que não convidaria você para a Ordem, porque não posso nem considerar ver você em uma situação em que saia machucada, e frequentemente alguém sai machucado na guerra.

No único intento de se afastar dele um pouco, principalmente procurando por ar, Grace voltou a sentar-se numa posição reta, ao invés de inclinada para perto do ruivo, então colocou a cabeça nas mãos, encarando os próprios joelhos, coberto por jeans, e as barras molhadas de água do lago da calça azul-caneta.

—Isso explica sobre você estar em Hogwarts. –Observou. Fred concordou, numa atitude derrotada. –Por que você quis me proteger, e não Amy, por exemplo? Eu pareço mais fraca que ela para você?

Isso não seria estranho. Grace estava acostumada a Amy ser a mais forte entre as duas. A mais notada, a mais desejada. Não era nada demais; não se ressentia da amiga por causa disso. Porém, ser subestimada não era algo que Grace levava levianamente, mesmo pelo rapaz que a ajudava com sua imensa dificuldade em Defesa Contra as Artes das Trevas e que, mais do que ninguém, conhecia seus pontos fracos. Talvez especialmente por ele.

Fred riu, incrédulo.

—Você não me parece mais fraca do que ninguém. –Respondeu num tom firme. –E eu lamentaria muito se Amy se machucasse. Mas se você se machucasse, eu jamais perdoaria a mim mesmo. Não posso ser eu a colocar você em perigo. Lamento, mas simplesmente não sou capaz.

—Não preciso de proteção. –Grace o lembrou. –Eu não sou uma bruxa incompetente. Fui uma das melhores no Clube de Duelos no terceiro ano.

O garoto abriu um sorriso.

—Não serei eu a convidá-la para a Ordem. Isto é final.

A lufana abriu a boca para retrucar, mas então um pequeno garoto terceiranista da Grifinória surgiu, ligeiramente arfante, pelo corredor das escadarias.

—Fred, Fred! –Chamou ele, parando de supetão na frente dos dois. –A professora McGonagall me pediu para avisá-lo que Rony está na enfermaria. Ele foi envenenado.

Sozinha e pensativa, Grace fez seu caminho para o Salão Comunal da Lufa-Lufa sem ser surpreendida por mais ninguém em seu caminho. Quando passou pelo barril do meio, e então pela porta em escotilha feita de madeira polida ao ponto de brilhar, encontrou, sozinha num canto do Salão Comunal, junto da janela que dava vista para os jardins, Amy, encarando pensativamente o vidro e mastigando o canto da unha.

Grace se sentiu imediatamente culpada. Vinha evitando Amy nas últimas semanas, sabia disso.

Amy não foi a sua primeira amiga em Hogwarts. Por motivos diferentes, ambas eram meninas que se davam melhor com meninos: Grace porque seu corpo reto a dava ares masculinos e estar ao redor de outras garotas a fazia se sentir deslocada. Amy, porque gostava de ser admirada: aos onze anos já tinha um corpo que se tornava cada vez mais curvilíneo e feminino. Ambas as meninas tiveram um primeiro ano solitário. Mia Hawking e Julie Sayre, meninas de seu ano, ficaram amigas imediatamente. Grace tentou fazer amizade com Sarah Bailey, mas, por um motivo qualquer, elas nunca chegaram a ficar íntimas.

No fim, havia sido a amizade com Edward a unir as duas. O gêmeo Bailey não se dava bem com Cadwallader, Hopkins e Smith, seus três colegas de dormitório, e logo se juntou a Amy e Grace em sua solidão. Os três num instante ficaram inseparáveis: Melinda e Cho vieram apenas nos anos seguintes.

Por algum motivo, a feminilidade exuberante de Amy não intimidava Grace. É claro, os garotos jamais olhavam para ela ao lado da amiga, mas isso não a incomodava. Percebeu que era por esse motivo que vinha a evitando: pela primeira vez em sua amizade, Amy estava sendo desprezada por um garoto, enquanto Grace arrumava cada vez mais problemas com o sexo oposto. Suspirando, se juntou à amiga em passos curtos.

Mesmo ciente de que havia algo errado entre elas naquelas semanas, Amy abriu um sorriso para Grace quando a lufana se aproximou e tomou lugar na poltrona ao lado dela. Grace olhou ao redor para garantir que ninguém as podia escutar daquele canto do cômodo em formato circular.

—Quer dizer que você vai entrar para a Ordem? –Perguntou, baixinho.

Amy arregalou os olhos e espiou ao redor. Abriu e fechou a boca, confusa, por um segundo.

—Quem...? Como você descobriu? –Ela mordeu os lábios culpada. –Eu realmente queria contar, mas os Weasley nos fizeram prometer...

—Fred contou. –Grace a interrompeu, antes que se desculpasse por algo que não era de forma alguma culpa dela.

A garota de cabelos castanhos hesitou, então revirou os olhos num arco largo e exasperado.

—É claro que ele contou. –A amiga resmungou. –Ele fez o maior drama para que nós não contássemos e foi lá e deixou escapar para você. Não que eu esteja surpresa, veja bem. Estava na cara que ele não negaria nada a você.

Grace sentiu suas bochechas esquentando.

—Bem, ele meio que deixou escapar.

Em seguida, fez algo que pensava que deveria ter feito já há algum tempo. Sentou-se do lado de sua amiga e deixou escapar toda a epopeia pela qual vinha passando nas últimas semanas: contou da amizade com Draco, do beijo roubado entre eles, deixando de fora o fato de que havia sido Draco a colocar todos eles em detenção, então do fato de que o sonserino vinha fingindo que não acontecera nada entre eles (e nessa parte deixara transparecer toda a sua frustração com o fato). Por fim, contou da quase briga entre Fred e Draco no lago apenas uma hora antes.

Amy era uma boa ouvinte. Interrompia pouco. “Por favor, mais detalhes do beijo, Grace, honestamente! ”. Também não demonstrou estar magoada com o fato de que Grace escondera tudo aquilo dela por semanas, embora Grace tivesse demonstrado a dose certa de penitência. Amy reagia bem. Arregalava os olhos e arfava nos momentos certos. Por fim, ela parou pensativa.

—Não seja boba, Grace. –Disse. –Eles não estavam discutindo apenas por discutir. Por serem de Casas rivais, ou por qualquer coisa. Nem pela droga da guerra. Os dois estavam morrendo de ciúmes.

A outra menina hesitou frente a essas palavras.

—Lembra do que Cho disse sobre monitores e monitoradas sempre terem um caso? –Perguntou, insegura. –Fred não demonstrou nenhum interesse no assunto.

—Porque ele gosta de você. –Amy fez um gesto de desprezo com a mão, como se afastasse uma mosca. –Você não tem experiência com garotos, Grace, mas quanto mais eles gostam de você, mais hesitantes e inseguros eles ficam. É por isso que Fred ainda não fez nenhum movimento em sua direção. A questão aqui é: você gosta dele? Ou de Malfoy?

Grace encolheu os ombros. Não havia, até então, pensado em gostar de ninguém; nem mesmo após o beijo trocado entre ela e Draco. Queria mais daquilo? Talvez. Não teria se incomodado se ele fizesse de novo, mas tampouco tivera coragem para tomar a iniciativa ela mesma. Não se incomodava com a presença física de Fred também: os abraços longos, o modo como ele colocava um braço por cima dos ombros dela e o deixava lá. Mas não sabia se alguma dessas coisas era o mesmo que “gostar”.

—Não precisa decidir agora. –Comentou Amy, quando notou sua hesitação. E ainda abriu um grande sorriso maldoso depois. –Você sempre pode ficar usando os dois até se decidir. –Sugeriu. –Desde que me conte tudo a partir de agora, claro. Não jogaria nenhum deles fora. Você tem tempo.

A palavra a lembrou de Draco, na primeira vez que ela encontrava seu gato, afirmando que o bicho era um lembrete. Segundo o sonserino, tudo que ele não tinha era tempo, mas Grace não disse isso a Amy; era um segredo de Draco, e ela pretendia guardar os segredos dele.

—Claro. –Confirmou, deixando a amiga confortá-la. –Tenho tempo.

“and I’ll be okay
Admiring from afar
Cause even when she’s next to me
We could not be more far apart
”

Garotas de Durmstrang

Notas finais
*Bruxas e bruxos idosos ainda usam o ditado “Vou buscar o pônei do Cadogan” para dizer “Darei o melhor de mim em uma situação difícil”. Então, o que acharam do motivo de Fred estar em Hogwarts? Mrs. Claflin, acredito, já estava desconfiada de que tinha algo a ver com a Ordem. Aliás, aprovam que alguns capítulos fiquem em outros pontos de vista? Estou planejando um pouco do ponto de vista do Draco e mais tarde do Snape. Espero que gostem. Bem, esse confronto entre o Fred e o Draco estava para acontecer já há algum tempo, o que acharam? Nos vemos na próxima semana! XOXO P.S. O link no fim do capítulo é para a história da Tara, se quiserem a conhecer melhor.