Lados e Escolhas
26 O Chalé das Conchas
Notas iniciais
“Cause I've seen love die way too many times
When it deserved to be alive (It deserved to be alive)
I've seen you cry way too many times
When you deserved to be alive, alive”
Draco a acordou aos empurrões, de uma forma menos delicada do que o normal –ou o que havia se tornado normal ao longo daqueles dias apenas os dois. Grace se virou na cama, abrindo os olhos com alarme e, no escuro, focando o rosto dele, pálido à meia-luz, sua boca branca. Há dois dias estavam ali; e ninguém os havia incomodado. Ela concluiu que finalmente a tia de Draco se incomodara e decidira punir os dois. Draco parecia exangue. Grace se levantou sentada em um segundo, notando que ele a oferecia suas roupas: o suéter de tricô, o jeans folgado e confortável, o cachecol que Dumbledore a fizera e o colar de esmeralda, e, mais importante, sua varinha entalhada com um texugo no cabo.
—Potter está aqui.
Tudo depois disso foi um borrão.
Primeiro estava de volta ao porão, mas uma parte diferente dele, onde Luna, suja, mas não machucada, e Ollivander, mais machucado, mas não irrecuperável, estavam. Os três, mais Dino Thomas, que até então estava desaparecido, foram aparatados por um elfo doméstico na casa de Gui e Fleur, que Grace se quer conhecia, onde jamais havia ido. Nem cinco minutos depois, o elfo votou, dessa vez com Potter, Weasley e Granger. Grace ficou por um segundo, querendo saber se Draco havia vindo, e seu coração caiu por todo o caminho até os seus pés quando notou que não.
O mar batia contra as rochas em algum lugar perto; à vista havia apenas pedra e areia de praia, fina e quase branca. Grace limpou uma lágrima, e então aparou Hermione junto com Rony para dentro da casa. Ela nem pensou em olhar a casa; Ron guiou o caminho para a sala, onde eles deixaram Hermione em um sofá azul-claro. Grace se ajoelhou ao lado dela e começou a fazer todo tipo de feitiço de cura que conhecia. Rony aparou a cabeça de cabelos lanzudos da garota.
Em seguida, Dino e Fleur vieram para dentro, trazendo o duende e o sr. Ollivander, que foram levados para cima.
—O que aconteceu com o elfo? –Ela perguntou a Rony, quando Fleur deu Esquelesce para Hermione e a garota parou de gemer e grunhir de dor.
—Bellatrix aconteceu. –Ele respondeu.
Grace não precisava perguntar mais nada; o nome sozinho já dizia o suficiente.
Gui e Luna chegaram em seguida, tendo deixado Harry sozinho para cavar a sepultura do elfo. No horizonte, a noite começava a clarear. Grace nem se dera conta do quão tarde estava, nem sabia dizer quanto tempo a coisa toda durara. Parecia que apenas um segundo antes ela dormir na cama macia de Draco; mas tantos sofreram e morreram nesse meio tempo que não poderia ser considerado pouco.
Dino e Rony saíram para ajudar Potter com a cova, enquanto Luna explicava para Gui e Fleur o que se passara. De como havia sido sequestrada no natal e estivera na Mansão naqueles quatro meses desde então. Grace também havia calculado quanto tempo passara lá; três semanas, já que Draco havia voltado para o feriado de Páscoa.
—Precisamos mandar uma mensagem para Fred. –Gui disse, olhando para ela. –Ele tem estado louco.
—Não. –Grace pediu, imediatamente, logo se arrependendo de se ímpeto. A última pessoa que ela queria ver era Fred, depois de tudo que ela fizera na Mansão. Não apenas por Draco, mas pela trouxa cujo nome ela nunca aprendeu. –Assim não. Eu estou...
As palavras não apareciam, mas todo mundo pareceu compreender. Luna, em especial, olhou para Grace com seus grandes olhos azuis gentis, não como se entendesse, mas como se, ao menos, a visse por dentro. O que havia dentro era escuro, e sombrio, e Grace não queria que ninguém visse, mas ao menos sabia que Luna não contaria.
Todos saíram para o pequeno funeral improvisado do lado de fora, mas Grace não. Não era que ela não quisesse honrar o elfo, era que suas energias haviam sido subitamente drenadas. Ninguém a questionou. Ao contrário de Luna, ela não era apenas uma prisioneira, ela havia sido torturada, e por mais tempo que Hermione. Então quando todos saíram, ela ficou dentro, os olhos no fogo alaranjado que a lembrava de Fred, sentindo enquanto ele voltava para sua mente.
Potter foi o último a voltar para dentro.
— ... por sorte, Gina está de férias. Se estivesse em Hogwarts, poderiam tê-la levado antes de chegarmos a ela. Agora sabemos que também está a salvo.
Gui virou a cabeça e viu Harry parado.
– Estou tirando todos d’A Toca – explicou. – Levei-os para a casa de Muriel. Os Comensais da Morte já sabem que Rony está com você, fatalmente irão perseguir nossa família; não se desculpe – acrescentou, ao ver a expressão de Harry. – Sempre foi uma questão de tempo, papai vem dizendo isso há meses. Somos os maiores traidores do sangue que existem.
— Como estão protegidos? – Perguntou Harry.
— Feitiço Fidelius. Papai é o fiel do segredo. E fizemos o mesmo com este chalé; aqui sou o fiel do segredo. Nenhum de nós pode ir trabalhar, mas isso não é o mais importante no momento. Quando Ollivander e Grampo melhorarem, vamos transferi-los para a casa de Muriel também. Não temos muito espaço, mas ela tem. As pernas de Grampo estão se refazendo, Fleur lhe deu Esquelesce: provavelmente, poderemos fazer a transferência dentro de uma hora ou...
— Não – disse Harry, e Gui pareceu espantado. – Preciso dos dois aqui. Preciso falar com eles. É importante. – Vou me lavar – continuou Harry, olhando para as mãos sujas de lama e sangue de Dobby. – Em seguida, preciso vê-los imediatamente.
Todos olhavam para o garoto com espanto, mas Grace notava apenas a varinha que ele tinha em mãos, com o estômago em rebuliço. Harry estava parado de frente para a pia, olhando para o mar pela janela. Grace não o havia visto ainda, azul e infinito, estendido até a linha do horizonte. Harry se virou quando a ouviu entrando, e parou, confuso.
Grace entendeu. Ela e Potter nunca haviam conversado a sós, embora convivessem, em Hogwarts, ao lado de Gina e Fred –na verdade, ela o conhecera brevemente na Armada de Dumbledore e, durante seu último ano, ouvira Draco reclamar copiosamente da perseguição de Potter, curiando sobre o que ele vinha aprontando. Os dois haviam cruzado um par de vezes, ambos procurando por Draco, por diferentes razões.
Grace não fez rodeios.
—Essa varinha é de Draco. –Apontou. –Como a conseguiu?
Ele levantou a varinha até a altura dos olhos, parecendo confuso.
—A tomei dele. –Disse finalmente. –Ele nos ajudou a fugir, o Draco. Não me entregou quando teve a oportunidade, e não ajudou Bellatrix. Eles estão sendo punidos.
Um arrepio cruzou sua espinha, mas Potter não ficou para dizer mais nada. Parecia ter muita pressa. A deixou sozinha e subiu as escadas para so quartos, onde queria se encontrar com o duende e o Sr. Ollivander. Grace não ficou para assisti-lo partir; olhava para o horizonte clareando por cima do mar agora, o estômago em rebuliço, pensando no que ela mesma sofrera. Parte dela se sentia satisfeita; Bellatrix passaria por maus bocados, mas a maior parte dela era temor.
O chalé de Gui e Fleur erguia-se isolado em um rochedo de onde se descortinava o mar, as paredes caiadas e engastadas de conchas. Era um lugar belo e solitário. Sempre que Grace entrava na pequena casa ou em seu jardim, ele ouvia o movimento constante das ondas do mar, como a respiração de uma enorme criatura adormecida. Ela passou a maior parte dos dias seguintes dando desculpas para fugir do chalé apinhado de gente, ansiando por avistar do alto do rochedo um céu infinito e um mar vazio, e a sensação do vento frio e salgado em seu rosto.
Fleur e Gui eram anfitriões generosos; embora sua casa, onde até pouco moravam em completa solitude, estivesse agora apinhada de um duende, um senhor e uma série de jovens torturados por diferentes razões, eles davam espaço a todos, e os faziam se sentir acolhidos. Grace e Luna ajudavam Fleur na cozinha. Grace dividia seu tempo livre entre algumas conversas com Gui, para se atualizar de como as coisas iam desde que ele saíra do Gringotts, e com o sr. Ollivander, porque era o que Amy faria se estivesse ali.
Ele foi a segunda pessoa para quem ela contou sobre o que verdadeiramente a incomodava:
—O senhor acha que minha alma está corrompida? –Perguntou com anseio. –Agora que deixei alguém morrer em meu lugar?
O senhor Ollivander havia adquirido uma cor um pouco melhor pelo sol que entrava pela janela do quarto. Seus olhos azuis brilhavam misteriosamente na luz amarelada daquela manhã.
—Não. Sua inocência certamente foi perdida. –Ele opinou. –Mas sua alma segue intacta. Seu remorso garante isso. Nenhuma alma consegue permanecer alquebrada perante o remorso.
De certa forma, isso a fez se sentir um tanto melhor sobre si mesma, bem o suficiente para que no jantar daquela noite, ela se virasse para Gui, enquanto Luna e Hermione discutiam sobre chifres de erumpentes.
—Você contou a Fred sobre eu estar aqui?
Gui titubeou, e fez uma careta. Claramente, ele não gostava da ideia de deixar o irmão sofrer por mais tempo do que o necessário, se perguntando se ela estava morta, quando ela estava quase bem ali.
—Não. –Ele admitiu. –Você pediu que eu não contasse.
—Você vai levar o Sr. Ollivander para a casa da tia Muriel essa noite? –Perguntou, ao que Gui assentiu. –Eu vou também. Já dei trabalho o suficiente.
—De jeite nenhum. –Interrompeu Fleur. –Você fique aqui. Gui vai e conta a Frred que você está bem. Ele pode vir ficar com você.
Hermione balançou a cabeça e continuou a arrumar os talheres no momento em que Gui descia a escada com o sr. Ollivander. O fabricante de varinhas ainda parecia excepcionalmente frágil, e apoiava-se no braço de Gui, que lhe dava suporte e carregava uma grande mala.
– Vou sentir saudades, sr. Ollivander – disse Luna, aproximando-se do velho.
— E eu de você, minha querida – disse-lhe, com uma palmadinha no ombro. – Você foi um consolo indizível para mim naquele lugar medonho.
—Obrigada, senhor Ollivander. –Grace o olhou com significância e ele assentiu para ela de volta.
— Entam, au revoir, sr. Ollivander – disse Fleur, beijando-o nas faces. – E serrá que o senhorr poderria me fazerr o favorr de entrregarr esse embrrulho à tia de Gui, Murriel? Nunca lhe devolvi a tiarra.
— Será uma honra – disse Ollivander, com uma pequena reverência –, é o mínimo que posso fazer para retribuir sua generosa hospitalidade.
Fleur apanhou um estojo de veludo puído, que abriu para mostrar ao fabricante de varinhas. A tiara brilhava e cintilava à luz do candeeiro suspenso.
— Pedras da lua e diamante – disse Grampo, que entrara na sala sem que Harry percebesse. – Acho que feito por duendes, não?
— E pago por bruxos – disse Gui calmamente, e o duende lhe lançou um olhar ao mesmo tempo furtivo e desafiador.
Um vento forte fustigava as janelas do chalé quando Gui e Ollivander saíram noite afora. Os demais se espremeram em torno da mesa; cotovelo contra cotovelo, quase sem espaço para se mexer, começaram a jantar. O fogo estalava e saltava na grade da lareira ao lado deles. Fleur, Grace reparou, apenas ciscava a comida no prato; olhava para a janela a todo instante; contudo, Gui regressou antes de terminarem o primeiro prato, os cabelos embaraçados pelo vento.
– Correu tudo bem – disse a Fleur. – Ollivander está acomodado, mamãe e papai mandaram lembranças. Gina enviou carinhos a todos. Fred e Jorge estão fazendo Muriel subir pelas paredes, continuam operando um reembolsocoruja de um quarto nos fundos da casa. Ela ficou contente com a devolução da tiara. Disse que pensou que a tivéssemos roubado.
— Ah, ela é charmante, a sue tie – comentou Fleur indignada, acenando com a varinha e fazendo os pratos servidos se erguerem da mesa e formarem uma pilha no ar. Depois recolheu-os e saiu da sala.
Ouviram, então, uma batida na porta da frente. Todas as cabeças se voltaram para o ruído. Fleur veio correndo da cozinha com ar assustado; Gui levantou-se de um salto, a varinha apontando para a porta. Harry, Rony e Hermione o imitaram. Silenciosamente, Grampo escorregou para baixo da mesa, se escondendo.
— Quem é? – perguntou Gui.
— Sou eu, Remo João Lupin! – respondeu uma voz sobrepondo-se ao uivo do vento. Grace sentiu um tremor de medo; que acontecera? – Sou um lobisomem, casado com Ninfadora Tonks, e você, o fiel do segredo do Chalé das Conchas, me informou o endereço e me pediu para vir se houvesse uma emergência!
— Lupin – murmurou Gui e, correndo à porta, abriu-a.
Lupin desabou na soleira. Estava muito pálido, envolto em uma capa de viagem, seus cabelos grisalhos despenteados pela ventania. Ele se ergueu, correu o olhar pela sala, verificando quem estava presente, então gritou:
— É um menino! Demos a ele o nome de Ted, em homenagem ao pai de Dora!
Hermione deu um gritinho.
— Qu... Tonks... Tonks teve o bebê?
— Teve, teve, teve o bebê! – gritou Lupin.
Em volta da mesa ouviram-se gritos de alegria, suspiros de alívio. Hermione e Fleur guincharam:
—Parabéns!
Grace pensou na enorme barriga que Tonks havia apresentado exatamente na noite que ela fora levada para a casa dos Malfoy, e ficou tão feliz como não ficava há algum tempo, mesmo ao lado de Draco na Mansão. Era um tipo de felicidade que não era entrecortada por nenhum fio sombrio; verdadeira.
Quando voltou ao presente, Remus estava agarrado em Harry, pedindo-o para ser o padrinho. Grace abriu a boca, surpresa, e trocou um olhar com Hermione, que já tinha lágrimas nos olhos. Gui correu para buscar vinho na cozinha, e Fleur pegou Remus com firmeza pelo pulso, sem dar a ele nenhuma outra opção além de beber uma taça com eles para comemorar.
— A Teddy Remo Lupin – disse o pai –, um futuro grande bruxo!
— Com quam ele parrece? – Indagou Fleur.
– Acho que parece com Dora, mas ela acha que é como eu. Pouco cabelo. Parecia preto quando nasceu, mas juro que virou ruivo desde então. Provavelmente estará louro quando eu voltar. Andrômeda diz que os cabelos de Tonks começaram a mudar de cor no dia em que ela nasceu. – Ele esvaziou a taça. – Ah, aceito, só mais uma – acrescentou, sorridente, quando Gui fez menção de tornar a servi-lo.
O vento açoitava o pequeno chalé, e o fogo saltava e estalava, e logo Gui estava abrindo uma segunda garrafa de vinho. As notícias de Lupin pareciam ter feito todos se descontraírem, tirou-os por uns momentos do seu estado de sítio: notícias de uma vida nova eram animadoras.
— Não... não... eu realmente preciso voltar – disse Lupin, por fim, agradecendo mais uma taça de vinho. Levantou-se, vestiu a capa de viagem. – Tchau, tchau... vou tentar trazer umas fotos dentro de alguns dias... todos ficarão muito contentes quando souberem que estive com vocês...
Ele abotoou a capa e se despediu, abraçando as mulheres e apertando as mãos dos homens, então, ainda sorrindo, voltou para a noite tempestuosa.
— Padrinho, Harry! – Exclamou Gui, quando voltavam juntos para a cozinha, ajudando a tirar a mesa. – Uma verdadeira honra! Parabéns!
Harry ajudou Gui a levar as taças para a cozinha, e Grace pegou a garrafa vazia e seguiu os dois, pois Gui a havia lançado um olhar de aviso. Ambos haviam conversado em particular sobre a preocupação com o envolvimento dos três jovens com o duende residente da casa; Gui e Grace conviviam com a espécie mais do que eles, e conheciam alguns trejeitos dos quais eles deviam ser avisados antes de se comprometerem.
Quando Harry pousou as taças vazias que trazia, Gui fechou a porta ao passar, isolando as vozes ainda loquazes que continuavam a comemoração, mesmo na ausência de Lupin.
— Nós queríamos mesmo dar uma palavrinha com você em particular, Harry. Não tem sido fácil arranjar uma oportunidade com o chalé tão cheio de gente. – Gui hesitou. – Harry, você está planejando alguma coisa com Grampo
Harry ficou em silêncio, esperando, os olhos de um para o outro.
— Eu conheço duendes. Trabalhei no Gringotts desde que terminei Hogwarts. Até onde possa haver amizade entre bruxos e duendes, tenho amigos duendes, ou pelo menos, duendes que conheço bem e de quem gosto. – Mais uma vez, ele hesitou. – Harry, que está querendo do Grampo e o que lhe prometeu em pagamento?
— Não posso lhe dizer. Desculpe, Gui.
A porta da cozinha abriu-se às costas deles. Fleur vinha trazendo mais taças vazias. Grace deu espaço para que a anfitriã as colocasse sobre o balcão, e com um gesto de varinha, fez com que começassem a se limpar sozinhas enquanto Fleur saia pela porta de novo.
— Espere – disse-lhe Gui. – Um instante.
Ela retrocedeu e tornou a fechar a porta.
— Então, preciso lhe dizer o seguinte: se você fez algum negócio com Grampo, e, muito particularmente, se esse negócio envolver tesouros, você precisa ter excepcional cautela. As ideias que duendes têm de posse, pagamento e retribuição não são as mesmas que as dos humanos. Harry sentiu um leve mal-estar, como se uma cobrinha tivesse despertado em seu íntimo.
— Que está querendo dizer?
Grace interrompeu o colega.
— Estamos lidando com uma raça diferente. Os negócios entre bruxos e duendes há séculos têm sido desgastantes: mas você aprendeu isso em História da Magia. Tem havido erros de ambas as partes. Eu jamais diria que os bruxos foram inocentes. Entretanto, há uma crença entre os duendes, e os de Gringotts são mais influenciados por ela, de que não se pode confiar nos bruxos em questões de ouro e tesouros, de que eles não respeitam o direito de propriedade dos duendes.
— Eu respeito... – começou Harry, mas Gui balançou a cabeça, concordando com a fala de Grace.
— Você não está entendendo, Harry, ninguém poderia entender a não ser que tenha convivido com duendes. Para um duende, o dono verdadeiro e legítimo de qualquer objeto é quem o fabricou e não quem o comprou. Todos os objetos feitos por duendes são, aos olhos dos duendes, legitimamente deles.
— Mas se tiver sido comprado...
– ... então eles o considerariam arrendado à pessoa que desembolsou o dinheiro. Eles têm, entretanto, grande dificuldade em compreender que objetos feitos por duendes passem de bruxo para bruxo. Você notou a expressão de Grampo quando bateu os olhos na tiara. Ele não aprovou isso. Acredito que pense, como os mais radicais de sua espécie, que o objeto deveria ser restituído aos duendes quando o comprador original morresse. Eles consideram o nosso costume de guardar objetos feitos por duendes e passá-los de bruxo para bruxo sem novo pagamento praticamente um roubo.
—Mas não é! –Harry grunhiu.
—Não do jeito como vemos e entendemos o mundo. –Grace se exasperou um pouco. –É como tentar convencer um americano de que o lado certo de se dirigir é o esquerdo. Não é para eles.
—O que estamos dizendo é apenas que precisa ter cuidado, Harry. –Gui tomou a palavra. –É menos perigoso arrombar o Gringotts do que renegar a promessa a um duende.
—Bem. –Harry pigarreou. –Obrigado.
Então, como se estivesse ansioso para isso, saiu porta afora, quase fugido. Grace se virou para Gui.
—Acha que ele entendeu?
—Acho que ele vai tomar mais cuidado agora.
—Espero que seja o suficiente. –Sentenciou, então começou a se virar para sair da cozinha ela mesma.
Gui estendeu um braço e a segurou no meio do caminho.
—Eu falei a Fred que está aqui, e que está segura.
Seu coração deu um pulo nervoso.
—Como ele está? –Perguntou, com ansiedade.
Gui a olhou, parecendo como se quisesse ser capaz de ler a sua mente.
—Eu tive que segurá-lo para que não aparatasse direto aqui. –Contou. –Mas ele deve vir nos próximos dias. Apenas achei que não seria seguro enquanto Harry estivesse aqui; pode dar aos comensais um indicativo se muita gente começar a frequentar o lugar.
Grace assentiu, sem olhar para ele, mas mirando o chão frio da cozinha.
Na manhã seguinte, cedo demais para que qualquer um deles presenciasse a partida, Harry, Ron, Hermione e Grampo deixaram o Chalé das Conchas, e Luna e Grace foram movidas para o quarto de cima que o Duende vinha ocupando. Grace não tinhas muitas coisas, nem Luna; na verdade, Grace vinha pensando muito nisso, em como precisava voltar em casa e manter certas coisas consigo; coisas que iria precisar mais tarde. Deixara seu vira-tempo de lado pensando que não precisaria dele por algum tempo, mas percebia agora que seu tempo estava se esgotando.
Ela falou sobre isso com Fleur novamente –a francesa insistia que ela não saísse de casa, mas Grace sabia que tinha de ser ela a voltar ao seu apartamento. Dessa vez, Fleur deu um muxoxo.
—Qué seje, Grrace. –Disse ela. –Més apenes quande Frred vier. Ele pode ir com você.
Um arrepio de ansiedade levantou o pelo louro claro dos seus braços, mas ela deu um sorriso corajoso para a outra garota.
Mesmo assim, nada a preparou quando, mais tarde, Fred chegou ao Chalé das Conchas, aparatando da estrada de areia que vinha do Norte. Grace estava na janela do novo quarto, olhando a praia, enquanto Luna, com um lápis e papel emprestados, fazia um retrato seu. Grace não estava posando; tinha e mente longe da ideia de fazer sua melhor expressão ou postura para o retrato, mas Luna não parecia se importar que ela mudasse de posição ou se movesse.
Por isso, ela foi a primeira a vê-lo, vindo pela entrada. Grace não sentiu euforia ou ansiedade; apenas um peso gelado em seu peito; culpa, vergonha e rancor. O mundo ficou mais colorido quando Fred se aproximou; seu cabelo vermelho contra a paisagem azul e branca, suas sardas douradas e seus olhos esverdeados. Mas Grace perdera o gosto por cor; ela sentia falta do cinza e branco, do inverno.
Ela se levantou, finalmente, quando ele se dirigiu à porta, sem haver notado-a ali em cima, observando.
—Ah, Fred chegou? –Luna perguntou, curiosa, se aproximando da janela. –Ele parece triste, não parece?
Grace não havia notado, por isso não respondeu, saindo do quarto sem uma palavra.
Da escada, ela pôde ouvir Fleur falando com Fred, perguntando-o qual a cantora preferida de sua mãe, sendo “Celestina Warbeck” a resposta. Mas, uma vez lá embaixo, Grace mal a notou. Seu olhar focava apenas Fred; como ele estava mais magro, o rosto encovado; como seu olhar cresceu em esperança quando focou nela e, principalmente, como ele ficou em seu lugar, sem ir até ela, como se, de repente, ela fosse um animal selvagem cuja confiança ele ainda precisava ganhar.
Finalmente, ele colocou as mãos nos bolsos e deu um passo lento à frente.
—Eu pensei que estava morta. –Disse ele.
—Eu também pensei. –Ela respondeu. Lembrou-se da urgência de garantir a Draco, quando ele a encontrou na Mansão, que ela estava bem, que não estava ferida. Mas ela quisera consolá-lo. O mesmo não se aplicava a Fred; seja lá o que ele tivesse sofrido com sua ausência, ela sofrera muito mais. Não era seu papel consolá-lo.
—Trouxe algo para você.
Ele tirou a mão dos bolsos e desfez o feitiço de encolhimento numa bolsa de couro de dragão; era sua, Grace a havia ganhado de natal de Tonks alguns meses antes. Notou que Fleur os havia deixado sozinhos, então andou até Fred e aceitou a bolsa em suas mãos; ela não pesava quase nada.
Dentro, Fred colocara uma muda de roupa, um globo de neve, um galeão, que numa análise mais atenta ela notou ser a moeda de comunicação da AD e, mais importante, seu vira-tempo, como se ele pudesse adivinhar as suas necessidades, mesmo com tudo que agora havia entre eles.
Grace sentiu-se derretendo um pouco de sua capa dura e deixou os ombros relaxarem um pouco. Fred sentiu isso, pois deu um passo para mais perto e, embora sem tocá-la, respirou fundo com o nariz enfiado em seus cabelos; a respiração dele fez cócegas em sua nuca.
Grace se afastou.
—Era exatamente o que eu precisava. –Ela fez um gesto para a bolsa que tinha em mãos. –Obrigada.
Ele assentiu, a observando. O coração de Grace batia como um pássaro em voo; mas não por Fred.
—Você não parece bem. –Ele levantou uma mão ao rosto dela, mas não a encostou. –Talvez um medibruxo devia ver você. Millefuille e Beauvale estão ajudando a Ordem. Eles devem estar no St. Mungus agora, mas o turno acabará logo, e eu posso trazer um deles aqui para ver você.
—Não me fale sobre a Ordem! –Grace exclamou baixo. Fred recuou. –Não me diga nada; não é seguro.
Ele tentou se aproximar dela mais uma vez, os braços erguidos para segurá-la. Grace inclinou o tronco para longe dele; parecia deslealdade com Draco, embora devesse ser o contrário.
—Me desculpe. –Ele se inclinou sobre ela de qualquer forma. –Não imagino o que você passou; deveria ter sido eu.
Deveria mesmo, ela pensou, em seguida se sentiu horrorizada consigo. Grace fechou os olhos e pensou em seu pai. Perdoar é divino, ele teria dito. Como teria ficado triste com ela se pudesse ler seus pensamentos naquele momento.
Grace respirou fundo o cheiro de Fred; almíscar e pólvora. Suas unhas estavam sujas de pólvora por baixo; sua camisa um pouco amassada. Ela certamente o tinha feito passar por um inferno; ainda mais pelo modo como as coisas haviam estado frias entre eles desde o natal. Eles nem haviam falado sobre aquilo, e era ainda pior diante das últimas coisas que Grace havia feito.
—Não deveria. –Disse, segurando-o de volta, ainda que com esforço para fazê-lo naturalmente. –Mas eu prefiro não saber mais; não quero que ninguém se prejudique por minha causa.
Fred fungou no seu cabelo.
—Eu queria que você se preocupasse mais com si mesma de vez em quando.
Eles não conversaram mais do que isso sobre a Mansão, enquanto se juntavam a Fleur e Luna na cozinha para ajudar com o jantar. Gui estava fora e Dino havia se comprometido a remover as ervas daninhas do jardim. Tanto ela quanto Fred supuram que haveria tempo para se discutir isso; depois, sozinhos, possivelmente. Grace achava que tinha, se não todo o tempo do mundo, então pelo menos esse.
Não foi até que Gui chegasse de seu turno de vigília da Ordem que ela percebeu que eles tinham menos tempo do que jamais previram.
—Harry, Ron e Hermione invadiram o Gringotts. –Ele disse, abismado, olhando principalmente para Fleur e Grace, com quem ele tinha compartilhado suas preocupações.
Fred, ao seu lado, ficou tenso. A mão dele estava fechada em torno de alguma coisa pequena e dourada.
—A moeda da AD está mandando mensagem. –Disse para todos em voz alta. –A batalha vai começar em Hogwarts.
“Well I can't pretend that I don't see this
It's really not your fault
And no one cares to talk about it
To talk about it”
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