Lados e Escolhas
27 Herança de Guerra
Notas iniciais
“How can I decide what's right?
When you're clouding up my mind
I can't win your losing fight
All the time”
Havia um papel, mas Cordélia o havia colocado de lado, sem se importar muito, ansiosa em abrir o embrulho. Agora que via o que era –e mais importante, o que significava, procurava pela nota desesperadamente, com esperança de que a desse algumas respostas.
Ela deixou a varinha de sua avó sobre a mesa. Havia um testrálio entalhado no cabo, porque o núcleo da varinha era de testrálio –assim como o patrono de Cordélia era um. A madeira era escura, de espinheiro; cujos galhos tinham cheiro de morte, mas as folhas e flores tinham poderes curativos. Era uma varinha poderosa, ela sabia, adepta a maldições; e só poderia ser empunhada por um bruxo poderoso.
Como confirmação, o bilhete dizia que era desejo de sua avó que ela a tivesse, assinado pelo seu pai. Não haveria funeral –não naqueles tempos.
Astérope Black Bloxam estava morta.
Da avó, Cordélia havia herdado o cabelo escuro e volumoso, a boca carnuda e em formato de coração, certo preconceito contra raças mestiças, como lobisomens e gigantes, e um orgulho desmedido. Agora, herdara também a varinha da bruxa, embora não pudesse imaginar para que precisaria de uma varinha que não a sua; de cipreste e fibra de coração de dragão.
A batida ritmada e familiar da porta a fez correr para atender ao chamado.
Lucy a agarrou Cordélia mal havia aberto uma fresta, e as irmãs se seguraram uma contra a outra. Nenhuma das duas chorava; Astérope havia morrido de causas naturais e já andava um tanto estranha desde que Hector morrera, pedindo desculpas às paredes do solar em Tinworth, murmurando que nunca devia ter dado ouvidos a “Tom”, seja lá quem Tom fosse.
Ainda assim, as irmãs seguraram-se apertadamente uma na outra. Lucy já tinha quase o tamanho de Cordélia agora, e a mais velha não precisava se inclinar para baixo a fim de alcança-la. Mas ambas as garotas estavam acostumadas com perda e, embora houvesse sido um golpe, elas se separaram em um segundo.
Lucy, sempre curiosa, foi à mesa de Cordélia quando notou algo diferente das provas e anotações de aula.
—Vovó deixou a varinha dela para você. –Perguntou com admiração. Se a varinha de Cordélia, entalhada com o desenho em alto relevo de uma serpente subindo pelo cabo, era bonita, a de Lucy, com um dragão barriga-de-ferro ucraniano entalhado, a boca escancarada no cabo, era ainda mais bela. Não havia motivo para invejar a varinha de testrálio da avó delas.
—É. –Cordélia confirmou, lacônica. –Você viu a mensagem que deixaram no corredor de feitiços? Achei que Longbottom tinha decidido se comportar depois do que houve com Miguel Corner.
—Não foi a Armada. –Disse Lucy, defensiva. –Ninguém sabe quem foi.
Cordélia estreitou os olhos verdes até que fossem apenas um esgar serpentino.
—Quem você acha que foi?
Lucy fungou, com arrogância de quem sabia das coisas; isso ela havia herdado de sua mãe. Lucy era mais Mckinnon que Bloxam quando se tratava de personalidade.
—Eu acho que foram Nott, Greengrass, Zabine e Parkinson. –Disse ela. –Eles andam insatisfeitos com o Partido das Trevas desde o assassinato de Emília Bulstrode. Acho que pensaram ser intocáveis até ali.
Cordélia fechou os olhos, visualizando o sangue e o horror da coisa toda. Até então, ela também pensara que não tinha nada a ver com ela, mas fora a pocionista a dar a notícia no salão comunal de Sonserina, e fora ela a receber a notícia, há algumas semanas, de que Peter havia sido encontrado e morto, na época em que Ted Tonks foi encontrado e morto, e Lana estava mais do que arrasada. Mary havia estado com ela, mas Cordélia não podia deixar seus sonserinos sozinhos à mercê dos Carrow.
Além disso, ela concordava com Lucy. A geração de setimanistas não era nada como a geração dela fora; Lana, Mary, e até mesmo Peter, eram bem mais tolerantes do que os setimanistas que ela conhecia costumavam ser. Todos eles conviviam com Susana e Hugh sem fazer a menor questão pelo sangue deles; mas ela achava que estava vendo evolução naquela geração; afinal Nott estava, até onde ela tinha entendido, saindo com a Weasley americana.
Ela não disse nada disso a Lucy; duvidava que a Armada de Dumbledore fosse ser receptiva com a ideia.
—Está acontecendo algum tipo de confusão na torre de Corvinal. –Lucy disse, os olhos na irmã, esperando uma reação. –Aleto foi estuporada lá; mas ninguém parece tê-la estuporado. Foi por isso que vim, na verdade. O irmão dela deve aparecer em breve para punir a todos. Você tem que falar com Snape.
Cordélia sentiu seu sangue correndo. Sem mais mortes debaixo do seu nariz, não em Hogwarts, ela garantiria.
—Por que só me disse isso agora? –Perguntou, vestindo o casaco de veludo verde-fundo-de-garrafa que ela deixara junto da porta, e colocando a varinha de sua avó no bolso, apenas porque sentiu que devia. –Merlin, Lucy, fique aqui.
Ela estava apenas na metade do caminho –os passos largos no piso de pedra –quando um patrono de gato a alcançou. Ela reconheceu a voz da professora Mcgonagall quando o bicho brilhante abriu a boca:
“Comensais estão prestes a invadir o castelo. Precisamos evacuar os alunos”
Os gritos, mais do que o patrono, acabou por indicar o caminho que ela devia seguir:
—COVARDE! Corvarde!
Ela deu de cara com seus colegas, os diretores das Casas, parados junto a uma janela quebrada.
—Ele saltou. –Disse a professora Minerva quando ela se aproximou; mas não falava apenas para ela. Cordélia olhou apenas de relance para Potter e Lovegood; se havia confusão em Hogwarts, não a surpreendia que Potter estivesse ali, causando-a como parecia gostar de fazer.
—Quem saltou? –Ela se adiantou para a janela, quase pendurando-se para observar o céu negro e um vulto que se afastava, grande demais para ser um morcego, por ele.
— O nosso diretor vai tirar umas breves férias – disse a professora, apontando para o buraco com os seus contornos, que Snape deixara na janela.
Uma corda que Cordélia pensou estar bem amarrada se soltou dentro dela. Pensara que, quando chegasse a hora, ele estaria ao seu lado.
— Professora! – Harry gritou, as mãos na cabeça. – Professora, temos que barricar a escola, ele já está vindo!
— Muito bem. Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado está a caminho – informou ela aos outros professores. Sprout e Flitwick ofegaram; Cordélia nem piscou. – Potter tem uma tarefa a cumprir no castelo por ordem de Dumbledore. Precisamos lançar sobre este lugar todo tipo de proteção de que formos capazes, enquanto Potter faz o que precisa.
— Naturalmente, você sabe que nada manterá Você-Sabe-Quem fora por tempo indefinido, não? – Chiou Flitwick.
— Mas podemos retardá-lo – disse a professora Sprout.
— Obrigada, Pomona – disse McGonagall, e as duas bruxas trocaram olhares de sombria compreensão. – Sugiro que estabeleçamos uma proteção básica em torno da escola, depois reunamos os alunos e nos encontremos no Salão Principal. A maioria precisa ser evacuada, embora, se algum for maior de idade e quiser ficar e lutar, deveríamos lhe dar essa oportunidade.
— De acordo. – E a professora Sprout dirigiu-se, apressada, para a porta. – Encontro vocês no Salão Principal dentro de vinte minutos, com os alunos da minha Casa. Tentácula. Visgo-do-diabo. E vagens de Arapucosos... sim, gostaria de ver os Comensais da Morte enfrentando esses.
— Posso agir daqui mesmo – disse Flitwick e, embora mal conseguisse enxergar o exterior do castelo, apontou a varinha pela janela quebrada e começou a murmurar encantamentos de grande complexidade. Cordélia ouviu um zunido esquisito, como se Flitwick tivesse desencadeado a força do vento nos terrenos da escola.
— Professor – disse Harry, aproximando-se do bruxo miúdo que ensinava Feitiços –, professor, peço desculpas por interrompê-lo, mas é importante. O senhor tem ideia de onde está o diadema de Ravenclaw?
— ... Protego horribilis... o diadema de Ravenclaw? – Chiou Flitwick. – Um pouco mais de sabedoria nunca se perde, Potter, mas não consigo imaginar como poderia lhe ser útil na presente situação!
Cordélia se desviou da conversa que Potter começava a manter, voltando-se para as masmorras, mas encontrou seu caminho bloqueado por Minerva, a observando de cima, severa.
— Esperarei você e os alunos da Sonserina também no Salão Principal dentro de vinte minutos – disse a professora McGonagall. – Se quiser se retirar com eles, não iremos impedi-la. Mas se algum de vocês tentar sabotar a nossa resistência, ou pegar em armas contra nós dentro deste castelo, então, Cordélia, duelaremos até a morte.
—Você subestima a Sonserina. –Cordélia avisou. –Sempre o fizeram. Quem você acha que pichou a parede com ForaVoldemort semana passada?
—Assumi que a Armada de Dumbledore, nunca tive motivos para desconfiar de outra pessoa. –Ela disse com um pouco de orgulho em seu tom, que Cordélia apenas reconheceu porque conhecia o sentimento bem. – Chegou o momento da Sonserina decidir a quem é leal.
A expressão de Cordélia ficou dura como mármore, mas ela não ficou para discutir mais pela honra de sua Casa; ao invés disso, virou-se, as capas rodopiando ao seu redor, e correu todo o caminho de volta para as masmorras, pelo corredor limoso, úmido e familiar, que ficava bem abaixo do lago, e pelo caminho que ela tantas vezes trilhara durante seus seis anos como estudante naquele castelo.
Sua cabeça estava em outro lugar, porém. Na imagem negra de seu padrinho desaparecendo na noite, para se juntar às fileiras do Lorde das Trevas. Cordélia não havia realmente acreditado que ele estava do outro lado até ali, mesmo quando ele matara Dumbledore. Haviam pessoas que ela talvez matasse para garantir sua sobrevivência; e ela sabia que ele guardava rancores do velho diretor. Ela simplesmente pensara que, quando a hora chegasse, como eles sabiam que chegaria, Severus voltar-se-ia para o lado deles.
Como ela esperava, o Salão Comunal da Sonserina estava silencioso e vazio; as lareiras apagadas e mesmo o lago pela janela estava escuro, sem a luz esverdeada que exibia durante o dia, apenas negro, negro e negro para onde quer que ela olhasse. Com um aceno de varinha, ela acendeu as lareiras, então respirou fundo e fez um feitiço “Sonorus” na própria garganta.
—Alunos da Sonserina, aqui fala a diretora de sua Casa. Peço que desçam imediatamente dos dormitórios ao salão comunal; não tragam nada consigo. –Então, não conseguindo esconder certa ansiedade, acrescentou. –Se apressem.
Os alunos deviam ter sentido algo em sua voz, porque ela mal terminara de pronunciar a última palavra, algumas cabecinhas em corpos de pijamas começaram a descer.
Nem dois minutos depois, ela estava cercada de estudantes, usando capas e pijamas. As expressões variavam de confusas a determinadas; ela tinha a impressão de que alguns deles vinham se preparando para a eventualidade de precisarem fugir do castelo às pressas.
—O diretor Snape fugiu. –Ela anunciou, o feitiço ainda em sua voz, de modo que ressoava pela sala, fazendo os alunos mais próximos elaborarem caretas. –Estamos evacuando o castelo, porque Comensais estão se reunindo em Hogsmead para atacar.
—Potter está aqui? –Um segundanista perguntou, os olhos bem abertos. Cordélia lembrava dele vagamente de suas aulas.
—Não sei. –Mentiu, sem titubear.
Outro aluno levantou-se, sonolento.
—Vamos pegar nossas coisas.
Cordélia rosnou, impaciente.
—Não temos tempo para isso, devo evacuá-los imediatamente. –Então se virou para Nott e Greengrass. –Monitores, organizem os alunos...
—Mas somos sangues-puros. –Interrompeu-a o mesmo aluno de antes, o rosto pequeno ainda amadurecendo ângulos que mais tarde seriam característicos de alguma das nobres famílias bruxas.
A professora o lançou um olhar ferino e sibilou, por entre os dentes.
—Assim como Peter e Emília Bulstrode, e ambos estão mortos agora. –Ela se voltou para os monitores de novo. –Sigam-me.
Em questão de segundos, Greengrass e Nott, os monitores setimanistas, organizaram os alunos por ano, e logo o grupo de sonserinos saia das masmorras em direção ao grande salão. Cordélia maquinava; Nott estava bem ao seu lado e ela conversava com os setimanistas em vozes baixas para não alarmar aos outros.
—Onde está Draco? –Perguntou aos meninos que dividiam dormitório com ele. Seu primo de segundo grau havia voltado abalado das férias de páscoa e, embora não se envolvesse com as pequenas rebeldias de seus colegas, também nunca os entregara.
—A marca dele queimou pouco antes de você chegar. –Foi Zabine que respondeu. –Ele deve ter se juntado aos Comensais em Hogsmead.
Cordélia trincou o maxilar; mais uma perda inesperada. Ela pensara que Draco, assim como pensara sobre Snape, ficaria com eles no último minuto.
—E Astória? –Perguntou a Dafne sobre a irmã mais nova; em parte porque havia notado a menina bastante próxima da Weasley americana nos últimos meses, e em parte porque era a caçula de Edmundo, e ela devia a ele manter suas irmãs seguras.
—Na Sala Precisa, com a Armada. –Respondeu Dafne, mordendo o lábio. –Ela ia passar a noite lá de qualquer forma.
—Mande uma mensagem para Edmundo. –Disse Cordélia a Dafne. –Ele está aqui na Inglaterra com Claire desde o natal.
Edmundo provavelmente passaria a mensagem para Claire, que entraria em contato com Marlon e Charlotte e Viktor. Fleur já devia saber, sendo ela agora casada com Guilherme. Não sabia se seus colegas de classe viriam lutar, como Edmundo que fugira no auge da guerra, mas ao menos uma parte deles, como Susana e Mary, fazia parte da Ordem. Cordélia não pôde deixar de pensar em Cassius Warrington; em como ele fora para o lado das trevas sem aviso.
A abóbada encantada do Salão Principal estava escura e salpicada de estrelas, e abaixo viam-se as quatro longas mesas ocupadas por alunos desarrumados, alguns de capas de viagem, outros de robes. Aqui e ali, brilhavam os vultos branco-perolados dos fantasmas da escola. Todos os olhares, dos vivos e dos mortos, fixavam-se na professora McGonagall, que falava de cima de uma plataforma no fundo do salão. Atrás dela, achavam-se, em pé, os demais professores, inclusive o centauro baio, Firenze, e os membros da Ordem da Fênix que tinham vindo lutar. Cordélia notou a cabeça castanha de sua irmã caçula na mesa de Corvinal.
— ... a evacuação será supervisionada pelo sr. Filch e por Madame Pomfrey. Monitores, quando eu der a ordem, vocês organizarão os alunos de suas Casas e os levarão, enfileirados, ao lugar da retirada.
Muitos alunos pareciam petrificados, os alunos da Sonserina se alocaram rapidamente na mesa de sua Casa, e passaram a prestar atenção às palavras de Minerva. A própria Minerva deu um tipo de olhar para Cordélia quando ela se juntou aos outros professores, notando que, no meio dos membros da Ordem que tinham vindo, estavam Mary e Susana.
Ernesto Macmillan se levantou à mesa da Lufa-Lufa e perguntou:
— E se eu quiser ficar e lutar?
Ouviram-se breves aplausos.
— Se você for maior de idade, pode ficar – definiu McGonagall.
— E as nossas coisas? – Perguntou uma garota à mesa da Corvinal. – Nossos malões, nossas corujas?
— Não temos tempo para recolher pertences – respondeu a professora. – O importante é sair daqui são e salvo.
— Onde está o professor Snape? – Gritou uma garota à mesa da Sonserina.
— Para usar a expressão vulgar, ele se mandou – esclareceu a professora, e ouviu-se uma grande ovação nas mesas da Grifinória, Lufa-Lufa e Corvinal.
— Já fizemos a proteção ao redor do castelo – continuava a professora –, mas é pouco provável que dure muito tempo, a não ser que a reforcemos. Portanto, devo pedir a vocês que andem rápida e calmamente e façam o que os seus monitores...
Suas palavras finais, no entanto, foram abafadas por outra voz que ecoou pelo salão. Era aguda, clara e fria: não era possível identificar sua origem; parecia sair das próprias paredes. Tal como o monstro que, no passado, ela comandara, poderia estar ali, em estado de latência, havia séculos.
“Sei que estão se preparando para lutar.”
Ouviram-se gritos entre os alunos, alguns se abraçaram, aterrorizados, enquanto procuravam ao redor de onde vinha aquele som.
“Seus esforços são inúteis. Não podem lutar comigo. Não quero matar vocês. Tenho grande respeito pelos professores de Hogwarts. Não quero derramar sangue mágico.”
Fez-se, então, silêncio no salão, o tipo de silêncio que comprime os tímpanos, que parece vasto demais para ser contido entre paredes.
“Entreguem-me Harry Potter”, disse a voz de Voldemort, “e ninguém sairá ferido. Entreguem-me Harry Potter, e não tocarei na escola. Entreguem-me Harry Potter e serão recompensados. Terão até meia-noite.”
De repente parecia ter um clarão de luz sobre Potter, do outro lado do salão, mesmo que ele tivesse até então passado despercebido. Cordélia estava perto o suficiente da mesa da Sonserina para notar quando Parkinson abriu a boca, e quando Dafne segurou-a em seu lugar, mandando que se calasse. Cordélia entendia o ponto da garota; em outros tempos, também teria facilmente entregado Potter para salvar seu próprio pescoço.
A professor McGonagall pareceu se recuperar antes de qualquer um deles.
—Bem, a Sonserina pode ser a primeira a sair. –Disse. –Os alunos de Corvinal em seguida!
Ouviu-se o atrito dos bancos sendo empurrados para trás, enquanto os monitores mais novos; do quinto e sexto ano, guiavam o restante dos alunos para fora do salão, que lentamente foi esvaziando. Lentamente, as quatro mesas se esvaziaram. A da Sonserina ficou quase deserta; apenas a Greengrass mais velha, Zabine, Parkinson e Nott nela, mas alguns alunos mais velhos da Corvinal continuaram sentados depois que os colegas saíram: um número ainda maior de alunos da Lufa-Lufa ficou para trás, e metade da Grifinória não deixou os bancos, e foi preciso a professora McGonagall descer da plataforma para fazer os menores de idade saírem.
– Absolutamente não, Creevey, vá! E você, Peakes!
Kingsley se adiantou na plataforma para se dirigir aos que tinham permanecido.
— Temos apenas meia hora até a meia-noite, portanto precisamos agir com rapidez! Os professores de Hogwarts e a Ordem da Fênix concordaram com um plano de batalha. Os professores Flitwick, Sprout e McGonagall vão levar grupos de combatentes ao topo das três torres mais altas: Corvinal, Astronomia e Grifinória; dali terão uma visão abrangente e ótimas posições para lançar seus feitiços. Nesse meio-tempo, Remo – ele indicou Lupin –, Arthur – ele apontou para o sr. Weasley, sentado à mesa da Grifinória – e eu levaremos grupos para os jardins. Precisaremos de alguém para organizar a defesa das entradas das passagens para a escola...
— ... parece trabalho para nós – falou Fred em voz alta, indicando a si mesmo e a Jorge, e Kingsley aprovou com um aceno de cabeça.
— Muito bem, os líderes subam aqui para dividirmos as tropas!
Cordélia se juntou a eles no tablado, colocando-se ao lado de Kingsley e falando logo antes que alguém quisesse dizer a ela o que fazer:
—Vou levar um grupo para as masmorras. –Disse. –Levaremos poções de cura para a ala hospitalar e depois algumas poções de força para a Sala Precisa, a deixaremos para os recém-chegados.
Foi Minerva quem deu um olhar sábio para ela.
—Você vai com seu grupo de Sonserinos? –Perguntou. –É bom que confie nele.
—Confio. –Cordélia disse. –Se Viktor Krum chegar aqui, mandem-no para mim. Ou Greta Lestrange.
—Lestrange! –Exclamou Arthur. –Se ela conseguir chegar aqui.
—Ela vai. –Cordélia respondeu com mais confiança do que sentia.
Ao invés de ficar para argumentar, Cordélia voltou para as masmorras com seu grupo de setimanistas. Eles correram aos seus aposentos nas masmorras, juntando poções. Cordélia mandou Theodore e Pansy para a enfermaria com as poções de cura, e Dafne e Blaise para a Sala Precisa, com poções de corrosão, de furúnculos, de queimadura e de esquecimento para serem atiradas nos Comensais.
—Entreguem a pirraça algumas dessas também se o virem pelo caminho. –Sugeriu quando os garotos já estavam indo embora pelo corredor.
Quando voltou à sala precisa, encontrou-a quase vazia. Gina e Tonks estavam lá sozinhas, Gina parecendo amuada e Tonks, pronta para a luta. Cordélia levantou bem as sobrancelhas.
—Por que você não foi evacuada? –Perguntou à garota ruiva.
—Minha família inteira está aqui. –Respondeu raivosa, embora Cordélia achasse que não com ela. –Até sua irmã escapou e eu não pude...
—Lucy ainda está aqui?
—Ela entrou com seus pais. –Gina respondeu, surpresa com a intensidade de Cordélia. –Uma mulher loura e um homem de olhos verdes? Viktor estava com eles.
Cordélia não ficou para pegar mais respostas, saiu da sala precisa às pressas. Ao redor do castelo, alunos, professores, fantasmas e quadros pareciam todos se prepararem para lutar. Neville Longbottom passou por ela com os braços ao redor de uma dúzia de vasos de mandrágoras e ela viu Mary e Susan se juntando a Kingsley no fim do corredor. Edmundo e Claire passaram por ela, e Cordélia segurou o braço do amigo, mas ele estava afobado.
—Você viu minhas irmãs?
—Acho que Astória foi evacuada. Dafne ficou para lutar. –Cordélia disse.
—As duas estão aqui. –A expressão dele era consternada. –Mas não consigo acha-las. Eu sabia um caminho para as masmorras, mas faz tanto tempo...
—Tente descer pelo quadro da sereia bailarina.
Ele acenou para ela em agradecimento e logo estava descendo as escadas às pressas. Foi então que Cordélia localizou o Barão Sangrento e correu para se aproximar.
—Bloxam! –Ele gemeu ao vê-la. –A Sonserina deve ficar ao lado de Hogwarts, garanta...
—Barão, os meus pais. –Ela o interrompeu sem piedade. –Alastair Bloxam...
—Sim. –Ele olhou ao redor. –Por ali.
Eles estavam todos juntos ao fim do corredor; seus pais, os cabelos louros de Marilyn presos no alto da cabeça e os óculos de Alastair fixados no rosto por um feitiço; sua irmã mais nova, os braços cruzados, a varinha branca em mãos. Victor, sério. Greta, os lábios apertados no que parecia firmeza, mas Cordélia reconhecia o medo quando o via.
Lucy a viu primeiro, e estava apenas abrindo a boca quando Cordélia a alcançou.
—O que está fazendo aqui? –Inqueriu com violência. –Devia estar com Gina na Sala Precisa.
—Onde está Severus? –Seu pai a perguntou, confuso. –Me disseram que ele fugiu, mas não fugiria.
Seu pai. Até o fim, leal para com os seus.
—Fugiu. –A voz de Cordélia era seca; nada mais a se lamentar agora. Ela teria tempo o suficiente para se lamentar mais tarde por isso. –Lucy não pode lutar.
—Obviamente não pode lutar. –Marilyn concordou. –Mas em breve a Sala Precisa vai ser invadida também, não seja ingênua. Vai ser feio. É melhor que ela fique conosco.
—Podemos mandá-la embora com alguém. –Insistiu. –Talvez ainda haja algum monitor. A irmã de Edmundo, Astória, está aqui, ele deve manda-la embora.
Lucy bufou.
—Duvido que a encontre. –Conjecturou. –Astória está com Neville em algum lugar; e não vai embora se ele não for.
—Longbottom não vai embora. –Cordélia sorriu fria.
—O que podemos fazerrr? –Perguntou Viktor. Ele quase não tinha mais sotaque búlgaro, ou ao menos nem de perto tão forte quanto fora logo que ele chegara à Inglaterra, mas alguma coisa naquela tensão toda fez com que o r do leste europeu aparecesse. –Ivan e Keira também estão aqui. Esperamos instruções, somos combatentes competentes.
Cordélia sentiu-se de repente como se estivesse de volta ao seu tempo de aluna; todos os seus amigos do sétimo ano pareciam estar ali. Cedrico também estaria se pudesse, mas o pensamento não doía mais. Havia muito em risco para que ela se desse ao luxo de perder tempo com o que não podia mais ser recuperado.
—Ninguém espera que fiquem na linha de frente. –Foi Marilyn que disse, e Cordélia ficou grata. –Não é a guerra de vocês.
—Será se o Lorde das Trevas ganhar. –Alastair olhou por cima do ombro para a agitação do corredor. Alunos, professores, membros da Armada e da Ordem iam de um lado para o outro organizando a resistência; guiando equipes e carregando equipamentos. –Ele não vai parar no Reino Unido.
Kingsley se aproximou do grupo.
—Já têm lugares? –Perguntou, sem se dar ao trabalho de cumprimentar ninguém. –Precisamos de gente lá embaixo, na linha de frente.
Por um segundo, Cordélia pensou que ninguém se voluntariaria. Não eram exatamente um grupo de combatentes, mas então, quando Viktor pareceu que ia dizer alguma coisa, sua mãe interferiu.
—Nós vamos. –Anunciou, -Eu e Alastair. Somos bruxos maduros e competentes. Esses três são pocionistas. Imagino que haja algum lugar melhor para eles.
O olhar de Kingsley dizia que ele não conseguia imaginar que haveria uma oportunidade para pocionistas no meio de uma batalha que prometia ser sangrenta, mas também que ele percebia o que Marilyn estava fazendo. Cordélia também percebia; ela estava tomando o lado de sua família, diferentemente de como fizera na primeira guerra.
—É melhor irem às torres. –Comunicou. –A Torre de Astronomia precisa de combatentes de longa distância.
Não havia tempo para conversas; nem que fossem despedidas. Além disso, se despedir parecia agourento. A coisa corajosa a se fazer era agir como se a batalha estivesse ganha. Sorte nada tinha a ver com aquilo; então eles subiram. Greta na frente, Cordélia e Viktor de mãos dadas atrás. Passaram por uma série de conhecidos no caminho: Oliver Wood e uma garota loura que havia estudado no ano dele, Angelina Johnson, Alicia Spinett. Então uma figura que Cordélia não esperava.
Lana Burke a envolveu em um abraço de urso. Não sabia como a amiga soubera da batalha, pois não era como se estivesse envolvida com grupos de resistência e, ainda assim, ali estava ela.
—Vou descer. –Anunciou, já se distanciando. –Mary e Susana me esperam no pátio; vão explodir a ponte suspensa.
Foi nesse momento que um clarão chamou a atenção do grupo na janela oeste, cujo vidro intacto ainda deixava entrever o mundo lá fora. Greta olhou para o relógio, e então o virou na direção dos amigos. Havia batido meia-noite, e os clarões brancos, verdes e vermelhos explodiam do lado de fora. O estômago de Cordélia ficou pesado conforme ela puxou a irmã mais nova para perto.
A batalha começara. Cordélia escolhera seu lado.
“How did we get here
When I used to know you so well? Yeah
How did we get here
When I used to know you so well?”
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