Lados e Escolhas
9 O Bicho Papão
Notas iniciais
“I'm sorry I ruined your birthday, you had turned 18
And the sunshine hit me and I was behaving strangely”
Independente do quanto ela houvesse se esforçado para não pensar no assunto, a sexta chegou, e as aulas passaram rápidas como raios, a deixando estranhamente ansiosa conforme o dia passava, torcendo que que demorasse o máximo possível, embora soubesse que o acontecimento da festa mais tarde era um destino quase inevitável.
Contrariando a promessa que havia feito, Draco não apareceu mais atrás dela. Nem mesmo no dia da festa Grace o viu em lugar algum do castelo, restando a ela apenas apertar os lábios e se chatear que ele estivesse sumido –aceitar que ele certamente não apareceria na comemoração mais tarde.
Quando caiu a noite na sexta-feira, ela, Edward e Amy estavam no Salão Comunal de sua Casa, jogando um jogo trouxa chamado Scrabble, que tinha a ver com quem conseguia formar mais palavras num tabuleiro. Edward, dono do jogo, estava ganhando, e Amy, que jamais havia jogado, tinha uma carranca no rosto decorrente de sua baixa pontuação – pelo fato de que palavras bruxas como feitiços e nomes de poções e animais mágicos não eram aceitos, e que ela simplesmente não sabia palavras como micro-ondas e televisão.
Às oito horas, Grace notou Amy a lançando vários olhares significativos. Mia Hawkings e Julie Sayre já haviam subido ao dormitório para se vestirem para a festa, e Grace não se sentia nem um pouco ansiosa para essa parte em específico –embora precisasse admitir que a festa, e o modo como todos os seus amigos pareciam animados para ela, havia aberto lugar em seu coração ao longo da semana.
Às oito e meia, não teve mais como ignorar Amy, que desistiu dos olhares e se levantou para o dormitório, carregando Grace consigo. Mia e Julie estavam quase prontas, fechando os vestidos uma da outra com gestos de varinha. Para sua surpresa, em cima de sua cama, haviam duas opções de roupas previamente separadas por Amy. A primeira era um vestido preto justo e a segunda um vestido vermelho rodado. Amy não pareceu surpresa em vê-la andando hesitantemente para a segunda opção.
—Está frio. –Grace disse, ciente de que soava como uma criança reclamona. –Posso colocar um suéter por cima?
—Você vai estragar o visual. –Amy gemeu em resposta, a afastando da peça para sentá-la de frente para o único espelho do quarto, com bordas douradas e um fundo acobreado. Com sua varinha e um creme púrpura brilhante, a amiga começou a fazer cachos em seu cabelo curto. –A sala vai estar aquecida.
Sua vontade de colocar um suéter por cima da peça surpreendentemente curta nada tinha a ver com o clima, então Grace insistiu até que Amy suspirasse derrotada.
—Tudo bem, Grace, faça como quiser. –A voz da amiga era ácida, e Amy não a olhou pelo espelho quando perguntou. –Edward está vendo alguém?
Grace hesitou, sentada no banquinho de madeira que Amy separara para ela. Mais porque realmente não sabia a resposta para aquela pergunta do que por qualquer outra coisa. A amiga seguiu, com a varinha, fazendo cachos no cabelo dourado dela, que se moviam como molas quando ela virava a cabeça.
—Não sei... ele anda distante ultimamente, mas não sei se tem a ver com alguém.
—Acho que é alguém da Sonserina. –Amy disse imediatamente. –Ele vive andando com aquele Vaisey agora. Talvez seja uma amiga dele. Talvez Rosier?
—Não acho que ele esteja saindo com Ariadne Rosier. –Disse com firmeza.
A outra lufana apertou os lábios; não contaria um segredo de Edward nem mesmo se soubesse o que estava acontecendo, mas não era agradável ver Amy desconfortavelmente procurando respostas que ele não dava a ela também.
Depois do cabelo, Amy bateu uma camada de pó brilhante em seu rosto e, com um tipo de lápis, desenhou pontinhas em suas pálpebras que a faziam parecer uma gatinha. No geral, Grace teve que admitir que o resultado foi bastante bom; e teve até ânimo para agradecer à amiga, mesmo que Amy houvesse fechado a cara ao vê-la vestindo um cardigã de caxemira por cima do vestido de seda.
Amy a guiou até o quinto andar. Aparentemente, Grace era a única a não saber onde seria a festa e o que esperar dela. As duas entraram, nas pontas dos pés, num corredor cheio de armaduras e archotes e a amiga andou determinada, contando as armaduras até chegar àquela cujo elmo tinha uma pena vermelha presa da parte móvel dos olhos.
Quando as duas meninas pararam, o metal rangeu ao falar:
—Senha? –Numa voz que era como engrenagens se arrastando uma contra a outra.
Amy deu um risinho.
—Por Aslan.
Grace olhou para a amiga com um olhar confuso e estava prestes a abrir a boca e perguntar o que, por Merlin, e por Aslan também, já que haviam começado o assunto, ela havia querido dizer com aquilo.
Mas então a uma porta se materializou na parede, lentamente. Primeiro o desenho de uma porta contra as pedras cinzentas, então as bordas foram ganhando cor de mogno até que uma maçaneta com aldrava de leão estava diante da dupla. Amy a lançou um olhar encorajador, e Grace empurrou a maçaneta.
Um vento frio passou por elas, mas o calor chegou em seguida. Grace fechou os olhos contra a luz repentina. Lá dentro, tudo era branco; e Grace percebeu que era neve, mas uma neve fofa, macia e quente. Um sorriso rasgou seu rosto de um lado ao outro quando ela foi reconhecendo rostos familiares. Um lampião de ferro escuro se erguia no centro da sala, entre a entrada e a mesa de bebidas e comidas –todas expostas em travessas e taças de prata. Grace pensou ter reconhecido manjar turco numa delas, mas então, junto à luz do lampião, ela reconheceu um rosto sardento e sorridente, olhando para ela mesmo enquanto conversava com outra pessoa e, sem se preocupar em deixar Amy para trás, Grace se adiantou na direção dele.
A sua travessia foi interrompida por uma série de pessoas. Edward e James tinham copos de bebida em suas mãos e cachecóis combinando e acenaram para ela alegremente. Mia e Julie, que Grace havia encontrado apenas meia-hora antes no dormitório, elogiaram seu vestido, e Cho a abraçou fortemente, dando a Grace a oportunidade de agradecer o colar dourado com uma réplica de vira-tempo que havia ganhado de presente. Melinda estava junto de Cho, no segundo seguinte, usando uma cabeça de leão reciclada das partidas de quadribol.
Quando finalmente alcançou seu alvo ruivo, ele estava conversando com Córmaco Mclaggen e, surpreendentemente, a gêmea de Edward, Sarah, que Grace jamais imaginara que apareceria numa festa não-oficial da escola.
Grace o teria agradecido por tudo –e principalmente pelo carinho e atenção claramente investidos na preparação da festa –mas Fred a puxou para baixo de seu braço, passando-o por cima dos ombros dela, com displicência, como se fosse o esperado. Grace se acomodou contra a lateral magra e quente do corpo dele, aceitando quando George apareceu do outro lado com um copo de uma bebida vermelha para ela.
—O que é isso? –Ela perguntou a George, desconfiada.
—Suco. –Ele respondeu inocentemente, mas piscou um olho.
—George...
—É suco. –Fred confirmou. –Ele só está provocando você.
Apenas então Grace levou o copo aos lábios que Amy havia pintado mais cedo. O líquido era doce, de groselha, e manchou sua boca.
—Rony e Harry não puderam vir? –Grace perguntou em voz alta a Fred.
—Não temos permissão de chamar o Harry para festas. –O ruivo a informou.
—E o Roniquins, por tabela. –George completou. –Acredita que aquela Mia Hawkings estava tentando me convencer de que os trouxas foram à lua?
A lufana riu, trocando um olhar incrédulo com Sarah, também nascida-trouxa, enquanto os três sangues-puros ao redor delas também riram, achando que elas achavam graça da tentativa de engano, e não de incredulidade.
—Estão falando sério? –Sarah perguntou.
—Sobre? –Córmaco cruzou os braços, uma expressão desafiadora.
—Os trouxas chegaram à lua, sim. –Grace respondeu, cutucando Fred com diversão. –Uns trinta anos atrás.
—Não pode ser. –George olhou para Fred. –Como?
—Equipamentos realmente tecnológicos e um pouco de coragem, eu acho. –Sarah apontou.
—Olhando dessa forma, eles realmente são um pouco assustadores, não são? –Córmaco levantou as sobrancelhas exasperado. –Não é como se fosse coelhinhos indefesos.
—Ah, não sei. –Fred murmurou. –Já conheci alguns coelhos nada indefesos.
—Eles não estavam atacando você. –George murmurou de volta. –Foi o cabelo do Rony que os atraiu.
Fred e George começaram a discutir imediatamente algumas questões físicas relativas ao assunto. Grace supôs que aquele era um bom momento para dar atenção ao resto de seus amigos, mas Fred era macio em seu suéter vermelho, num tom que combinava com o vestido dela, e ele passou a enrolar os cachos de seu cabelo num dedo enquanto parecia distraído com o irmão, então Grace não se importou que Amy, Cho e Melinda tivessem ido até ela ao invés do contrário.
Não havia um bolo de aniversário, mas Grace preferia assim. Ao invés disso, eles comeram tortinhas de abóbora, manjar turco, bolo de caldeirão e docinhos contrabandeados pelos gêmeos. A neve encantada não derretia contra a pele quente deles quando se sentavam sobre os montinhos quentes no chão e a maioria das pessoas parecia ainda estar se divertindo quando Grace começou a se sentir sonolenta.
A lufana estava confortavelmente inclinada contra Fred –como se eles houvessem se fundido num só durante a festa, porque não se afastaram durante um único segundo –quando Vaisey se aproximou deles e, sob os olhares desconfiados de seus amigos, que tinham uma conversa sobre comércio bruxo entre Melinda, Amy e os gêmeos, que tinha todos experiência e opiniões sobre o assunto, e a chamou num canto.
Vaisey a levou para perto da porta, atravessando o lampião e sua aura de luz amarela, onde Edward a esperava com uma expressão rígida.
—O que há? –Grace perguntou, subitamente acordada e tensa.
Os dois trocaram um olhar antes de responder.
—Draco Malfoy está aí fora, pedindo para ver você. –Foi Edward que respondeu, o tom protetor. –Quer que o mandemos embora?
Tudo na postura de seu amigo geralmente tranquilo indicava hostilidade, e Vaisey se postou do lado dele de uma forma que sugeria que estaria ao seu lado caso ela confirmasse seu desejo de se ver livre do louro. Grace se sentiu corando.
—Não. Não, tudo bem. –De repente, ela olhava ansiosamente para a porta, como se pudesse ver a silhueta do sonserino através dela, talvez a esperando com impaciência. –Deem alguma desculpa por mim, certo? Não vou demorar.
Ambos os garotos pareceram hesitantes, mas Grace fez um gesto de mão, e Vaisey foi capaz de arrastar Edward de volta para a festa, enquanto ela os dava as costas firmemente e saia para o corredor surpreendentemente escuro, fechando a porta com uma batida que reverberou pelas paredes.
Desorientada por um segundo, Grace precisou de tempo até que seus olhos se ajustassem e fossem capazes de distinguir o vulto pálido encostado contra a parede. Grace tateou um pouco até ele quando captou o brilho dos cabelos quase brancos e, quando o alcançou, já podia notar a nervosa expressão em seu rosto encovado.
—Draco? O que houve? –A mão dela, que havia tateado até a manga de sua camisa de gola alta, desceu para a mão dele, num gesto de conforto.
Draco olhou para ambos os lados do corredor, nervoso, e nem a cumprimentou antes de soltar:
—Se eu pedisse para você vir comigo, alguma chance de você não fazer perguntas?
—Acho que não. –Grace respondeu honestamente.
O sonserino soltou um muxoxo e se adiantou, pegando as mãos dela. O rosto dele assumiu um tipo de suavidade despreocupada, mas algo em seus olhos ainda queimava.
—Eu vou fazer algo e quero que você venha comigo. –Ele disse, displicente.
—Você está me assustando. –Disse Grace numa voz que não era assustada, mas suave.
Apesar disso, quando Draco estendeu a mão, Grace aceitou e o deixou guiar pelos corredores, descendo as escadarias em direção às masmorras. Grace não prestou atenção ao caminho familiar; no silêncio da madrugada –que horas eram? Ela não saberia dizer –ela conseguia apenas ouvir seus passos dessincronizados e os batimentos do próprio coração contra os ouvidos –e a mão fria de Draco contra a sua.
A levou um segundo, os corredores parecendo iguais com os archotes baixos e as mesmas paredes ligeiramente limosas pela umidade, para que Grace reconhecesse o corredor aonde ficava a sala do professor Snape; um longo corredor que parecia especialmente sombrio por causa de uma janela ao final com visão para a parte de dentro do lago negro. Durante o dia, a luz do sol passava difusa pelas águas do lago e se refletia verde no corredor, mas à noite ela era preta e inescrutável.
Grace estava prestes a perguntar para Draco o que ele pensava estar fazendo, mas o sonserino não diminuiu o ritmo. Chegou na porta do diretor de sua Casa e, sem olhar para os lados, apontou a varinha para a fechadura e murmurou:
—Acônito. –Tranquilamente, Draco esperou que o barulho das fechaduras se abrindo cessasse para abrir a porta, então se virou para Grace, que o olhava com surpresa mal disfarçada. –É a mesma senha desde que o conheço.
Mas ela não estava preocupada com a senha. Havia concordado em quebrar regras naquela noite, com Fred. Uma festa proibida não parecia ser o fim do mundo. Mas invadir a sala de um professor era um conceito completamente diferente de quebrar regras, por isso ela ficou na porta, hesitante, até Draco se virar para ela com uma expressão ligeiramente impaciente. “Venha, Grace”, ele chamou, sem esperar que ela tomasse ação, mas esticando a mão na direção dela novamente e a puxando para dentro.
A sala do professor Snape tinha um longo balcão em um canto, cheio de finos instrumentos de prata, bronze a cobre para Poções, caldeirões em diferentes tamanhos e dois armários de ingredientes. Do outro lado, havia uma escrivaninha, aninhada entre três estantes de livros. Draco andou lá dentro com familiaridade, primeiro em direção aos caldeirões. A maioria deles estava vazio, mas outro tinha um líquido verde-esmeralda dentro dele. Draco o ignorou e se voltou para o outro lado.
—O professor Snape não vai nos achar aqui? –Grace perguntou, baixo como se ele pudesse estar ouvindo por detrás de uma das estantes.
—Ele está ocupado. –Draco deu um tipo de sorriso estranho –quase deformado com alguma emoção que ela não reconheceu. Grace acreditou nele.
—O que você está procurando?
—Poção Polissuco. –Ele respondeu, estreitando os olhos para um par de baús de madeira num canto. –O professor Snape não exatamente sai distribuindo por aí, e eu não quero ter de pedir. É isso que ele espera que eu faça quando ficar desesperado o suficiente.
Grace abriu e fechou a boca, confusa.
—Por que você precisa disso?
As costas de Draco pareceram tensas por um instante. Ele se virou de forma um tanto brusca, girando nos calcanhares. Seu ombro bateu em um dos armários maiores, com porta espelhada, e a porta se abriu com um estalo que soou muito alto no silêncio. Grace virou-se para a porta fechada atrás dela, como que esperando que fosse se abrir com toda a ira do professor Snape, atraído pelo barulho deles, mas ela não precisava ter se preocupado. Ao invés disso, quando se virou novamente para Draco, da porta aberta do armário, saia alguém com uma capa escura e uma pele igualmente pálida, contrastante.
A lufana sentiu seu sangue ficar gelado nas veias, os músculos se retesando conforme ela empalidecia com o medo da detenção que certamente estava por vir. Draco se posicionou entre ela e a nova aparição, cobrindo parte de sua visão, deixando-a confusa por um segundo, e foi apenas então que Grace notou não se tratar do professor de Defesa Contra as Artes das Trevas diante deles.
A figura encapuzada tinha os cabelos louro-esbranquiçados presos por uma presilha de prata atrás da nuca e sua varinha estava acoplada num tipo de bengala. Draco deu mais dois passos para trás, na direção dela, mas as pernas pareciam a única parte de si que ele era capaz de mover; todo o resto, desde os braços ao ombro à inclinação da cabeça, estava parado como uma estátua de mármore.
Lucius Malfoy virou seus olhos cinzentos frios para o único filho e levantou a varinha com o nariz torcido em repugnância.
Grace provavelmente deveria ser a mais consciente entre eles, mas tudo que ela conseguia pensar era que Azkaban tinha tido mais uma fuga, e o Profeta Diário nem havia se dado ao trabalho de notificar. O sangue não esquentou em suas veias; ela quase desejava agora que houvesse sido o professor Snape ao invés. Mas, entre eles, foi Draco, que ainda entre ela e o pai, levantou a varinha mais rapidamente.
—Riddikulus! –Draco murmurou numa voz tão fraca e tremida que o feitiço bateu em seu pai sem efeito.
Apenas então Grace entendeu porque os estranhos olhos cinzentos meio mortos do bruxo não tiravam os olhos de Draco em sua direção; não eram para ela. O verdadeiro Lucius Malfoy provavelmente não ficaria nada satisfeito em ver seu filho na companhia de uma nascida-trouxa, mas aquele Lucius Malfoy nem a dera atenção. Aquele Lucius era apenas para Draco.
Uma parte de Grace foi toda horror. Com um pai como o dela, que chegava em casa cheirando a álcool de hospital e o frio do ar-condicionado de seu consultório, o homem mais gentil que ela conhecia. O homem que havia estado ao seu lado sempre, que havia adiado a chegada de sua segunda filha para ter certeza de que Grace se sentia confortável com a ideia de ele ter outra filha com uma mulher que não era sua mãe. Temer seu pai era um horror maior do que qualquer outro.
Draco ainda estava posicionando entre ela e o bicho papão, mas, com as mãos um pouco trêmulas, Grace conseguiu mirar a varinha por debaixo do braço dele e refazer o feitiço no qual ele falhara com mais confiança.
O seu feitiço, ao contrário do de Draco, mandou o bicho de volta para o armário com um estampido grave, enquanto o rosto de Lúcios Malfoy se modificava para ser outra coisa, direcionando-se a ela agora, mas Grace não chegou a saber o que era. Com um segundo feitiço, a porta se fechou; e ela se encontrou atrás de um Draco congelado, a mão segurando a varinha passando por debaixo do braço dele, ainda em riste.
Grace teria gostado de ter algum tempo para se recuperar do susto. Mais do que qualquer outra coisa, ela ouvia seu coração batendo nos ouvidos, na garganta, no peito, como se o músculo houvesse se expandido por todo o corpo. Mas a imobilidade de Draco a assustava –e ele não havia explicado como tinha certeza de que o professor Snape não estava por ali. O professor poderia voltar a qualquer segundo.
A lufana lutou contra seu instinto de arrastar Draco dali sem uma única palavra, pelo medo de serem pegos. Mas então Grace respirou fundo e o girou de frente para ela, cuidadosamente. Não achava que já tinha visto Draco naquele tom tão específico de branco-pergaminho. Ele também respirava em arquejos entrecortados. Esquecida do perigo de serem pegos, Grace estendeu uma mão para o rosto dele.
Para sua surpresa, ele aninhou o rosto em sua mão, que havia se fechado em formato de concha. Draco era um pouco menos substancial do que Fred havia sido –mais um fantasma frio e pálido do que um garoto.
Fred!, Grace pensou com exasperação por um segundo.
Mas Draco estava num estado ainda ligeiramente abalado, e ela estava decidida a acalmá-lo antes de voltar.
—Quer conversar sobre isso? –Perguntou numa voz baixa, que ela geralmente usava com animais desconhecidos, para não os assustar.
Draco endureceu, ganhando massa abaixo das mãos dela, a afastando, não sem gentileza.
—Não há o que falar. –Respondeu, mas quando virou para o armário, seus olhos estavam atormentados. –Vou pegar a poção e sairemos daqui.
Grace o assistiu andar cuidadosamente para o baú ao lado do armário de onde o bicho papão havia saído, abri-lo com um estalo que indicava que talvez fosse muito velho, pegar três frascos nada pequenos lá dentro e voltar para ela. Nesse meio tempo, Grace o analisou; o modo como um pouco da cor voltara para as suas bochechas.
—Por que você tem medo de seu pai? –Ela perguntou claramente, quando ele se voltou para ela, os frascos agora dentro da capa, e já estendendo uma mão para rebocá-la sala afora, embora talvez ela devesse o estar rebocando.
Draco lançou um olhar ansioso para a porta, como se agora considerasse a ideia do professor Snape poder aparecer a qualquer momento.
—Não tenho medo do meu pai. –Respondeu curtamente. –Você não entendeu o que viu, Grace.
Ele fez menção de leva-la para fora da sala. Grace fincou os pés no chão.
—Eu vi Lucius Malfoy. –Disse com firmeza. –Vai negar isso?
Ele passou uma mão pelos cabelos bem-penteados, exasperado.
—Você viu Lucius Malfoy, mas eu vi o que isso significava. –Ele meio que rosnou. –Percebe a diferença?
Grace deixou os ombros caírem. Não havia ponto em insistir. Draco notou que havia ganhado, porque o olhar dele suavizou e, talvez pela primeira vez na noite, ele pareceu como se a estivesse enxergando: os cachos que Amy fizera no seu cabelo mais cedo, o vestido vermelho de lã mesmo por debaixo do suéter. Ele estreitou os olhos para ela quando uma mão afastou os cachos de seu rosto, os dedos roçando em sua bochecha ao coloca-los atrás de sua orelha. Grace se sentiu subitamente muito quente, embora as masmorras permanecessem frias.
A lufana prendeu a respiração quando Draco deu um passo para mais perto, e soltou o fôlego quando ele a puxou quase brutalmente contra o peito pálido e duro.
Grace bateu contra a parte da frente de sua camisa fria um segundo antes que, sem pedir permissão, os lábios dele descessem sobre os dela duramente. Os lábios de Draco não foram gentis, mas eram macios e, quando se moveram, Grace abriu os seus automaticamente em resposta. Um tipo de frio desceu pela garganta de Grace, mas seu estômago ficou quente e se revirou quando ele laçou os braços ao redor dela. Em resposta, Grace passou os braços pelo pescoço dele, o puxando para perto com força, de forma que eles se entrelaçaram um contra o outro e Grace não tinha certeza de onde ela começava e ele terminava, mas ainda sentia as mãos dele; primeiro a puxando pela cintura, então subindo pelas omoplatas e se agarrando ao seu cabelo curto.
Draco tinha o gosto metálico do medo, mas também algo mais encorpado, como hortelã. A língua dele pediu passagem para dentro de sua boca e, em um teste, ela deixou sua própria língua se enrolar na dele.
Várias vezes ela imaginara como seria seu primeiro beijo. Sempre o imaginara sendo lento, uma experiência onde ela poderia explorar a anatomia da boca de seu parceiro com calma, no tempo dela –sempre uma figura indistinta, sem rosto, porque Grace não era dada a paixonites. Não era suposto a ser desesperado, com ele se agarrando a ela como se temesse se afogar caso soltasse, e Grace o agarrando com igual desamparo em resposta. Não foi lento e gentil, como ela sempre imaginara, mas despedaçou seus nervos, então seu sangue e ossos. Ele a apertou com tanta força que Grace pensou que deslizaria para dentro dele, tornando-os um só. Quando ele a soltou, foi de uma vez, e Grace pensou que cairia sobre si mesma, desequilibrando-se.
Parecendo notar seu desequilíbrio, Draco estendeu uma mão e a firmou em seu lugar, do mesmo modo que fizera quando ela ia caindo pelas escadas geladas da Torre do Corujal, mas sem a encarar. Seus olhos cinzentos estavam abertos para o outro lado, mas algo em sua expressão, quando a olhou de soslaio, era como se ele estivesse sido acordado de um sonho com um tapa.
—Me desculpe. –Ele disse formalmente, ainda evitando seus olhos diretamente. –Devemos ir. O professor Snape deve voltar a qualquer momento agora.
Dessa vez, Grace o seguiu para fora da sala.
O corredor parecia ainda mais escuro do que quando eles entraram na sala. Quando tempo havia se passado? Poderiam ter sido cinco minutos ou meia hora, Grace não saberia dizer a diferença. O corredor se estendeu infinito à frente deles quando Draco começou a andar, uma mão estendida para trás na direção dela, como se esperasse que Grace a pegasse, o que ela não fez.
—Vou levar você ao seu Salão Comunal. –Draco comunicou.
—Não. –Grace respondeu. –Tenho que voltar para a festa. É em homenagem ao meu aniversário.
Draco deu uma pausa.
—Eu não me esqueci. –Disse ele, suavemente, mas sem se virar para o rosto dela, que o acompanhava de perto. –Tenho algo para você. Se quiser.
—Hoje? –Grace hesitou. –Eu realmente deveria voltar. Vai parecer ingratidão.
—Bem, não acho que você deva voltar. –Ele disse uniformemente. –Tenho razões para acreditar que é lá que está o professor Snape, procurando o local da festa para dar detenção aos participantes. Deveria me agradecer por isso, aliás. Foi o motivo de tê-la trazido comigo: evitar que você fosse pega na confusão.
Dessa vez, com dois passos apressados, Grace estava na cola dele, olhando seu rosto ao invés do caminho, mesmo quando eles se desviaram para o corredor que os levaria à superfície de novo e as paredes ao redro deles deixaram de ter aquele limo úmido das masmorras.
—Você não fez isso. –Ela encarou o rosto dele, tentado segurar seu ombro para que a encarasse de volta, mas ele se desviou. –Você entregou...
—Dafne entregou. –Ele respondeu sem a olhar. –A meu pedido, embora. Eu precisava do professor Snape fora da sala...
Grace abriu a boca, em choque.
—Você não fez isso. –Repetiu Grace. –Draco, eu o chamei para a festa de boa-fé!
—E eu a tirei de lá de boa-fé. –Ele virou-se para olhar para ela pela primeira vez desde que saíram da sala do professor. Grace já estava esquecida sobre o beijo, a exasperação tirando o assunto de sua cabeça, mas o olhar dele a lembrou; ainda havia uma certa urgência nele.
Grace abriu e fechou a boca para responder, mas não achou as palavras para se expressar.
Supôs que Draco estava a acompanhando para o seu dormitório, pois o Salão Comunal da Sonserina era no sentido contrário, mas, por mais de um motivo, Grace o ignorou completamente pelo resto do caminho. Ela ficava corada e afobada toda vez que pensava no beijo que haviam trocado –então envergonhada ao pensar em como ele mal a olhara após. Então raivosa em lembrar-se do que ele havia feito. Os corredores de Hogwarts não eram longos o suficiente para tantas emoções.
Quando chegaram ao hall, ao invés de sobrar o corredor de Seu Salão Comunal, Grace seguiu para as escadas. Draco segurou seu pulso, mas Grace não virou o rosto para ele.
—Para onde vai? –O tom dele era confuso.
—Vou levar detenção com o resto de meus amigos, é o que vou fazer. –Respondeu, decidida.
Ele exalou com exasperação.
—Não vai fazer nenhum bem a você agir como grifinória agora, Grace. –O tom dele era debochado, mesmo enquanto ele continuava a subir as escadas atrás dela.
—Lufa-Lufa. –Ela corrigiu, mas também se virou para ele e disse num tom que era, apesar de tudo, gentil. –Você, por outro lado, poderia se beneficiar de um pouco de coragem, Draco.
Draco estreitou os olhos para ela.
—Eu vou ver você amanhã? –Perguntou, engolindo em seco.
Grace hesitou na escada. Quis negar. O seu corpo ainda estava quente de raiva dele. Grace não sabia dizer se a maior parte da raiva era por ele ter estragado sua festa ou se por ter se desculpado por beijá-la. Apenas o pensamento a fez corar por um segundo. Grace fechou os olhos, e quando fez isso voltou à sala do professor Snape. Não ao momento em que ele havia a beijado, mas ao momento em que ele estivera paralisado de medo. Pensou no rosto frio de Lucius em comparação com a expressão quase vulnerável que ele a apresentava naquele momento.
—Você disse que tinha algo para mim. –O lembrou. –Mas pense no que eu disse, Draco. Nos vemos amanhã.
“This is the only thing I've ever had any faith in
Grace, I know you carry us
Grace, and it was such a mess
Grace, I don't say it enough”
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