Lados e Escolhas
18 Longas Férias
Notas iniciais
“I've been told, I've been told to get you off my mind
But I hope I never lose the bruises that you left behind”
Grace foi rapidamente incorporada à rotina de casa como se esta fosse uma esponja e ela, a água sobrando da pia. Isso queria dizer que, apenas dois dias depois de sua chegada, seus pais marcaram médicos para ela – dentista, porque não achavam que a Poção Limpadora para dentes era o suficiente para mantê-la saudável, e uma variação de exames porque queriam um check-out em seu bebê. Mas também significava que ela tinha vez para lavar os pratos e que uma vez por semana devia ir à mercearia na esquina comprar frutas frescas. Seus horários haviam sido incorporados com caneta cor-de-rosa no calendário da família na parede da cozinha, com o grande nome Junho no título, abaixo da ilustração de uma girafa de patins, pela sua madrasta, que também a havia levado às compras com a desculpa de que ela tinha crescido para suas roupas antigas, o que Grace achava que não era verdade, mas então descobriu que seu sutiã havia aumentado dois números ao longo do ano letivo e tentou não parecer muito satisfeita sobre isso.
Ela achara que o verão estaria quente e agradável em Londres, mas, ao invés disso, como se fosse um rastro de magia negra, uma névoa espessa se agarrava às janelas de vidro dos altos prédios e mesmo no bairro tranquilo onde ela morava. Os trouxas não podiam ver, é claro, mas às vezes quando ela olhava para o alto achava notar capas negras sobrevoando o céu. Não seria estranho se fossem dementadores.
Fazia uma semana e meia desde o funeral agora. Grace estava sozinha em casa, pendurada no telefone da cozinha com Edward do outro lado da linha. O lufano era o único de seus amigos que tinha telefone em casa, mas ela e Amy já haviam trocado algumas cartas –e mais ainda com Fred. Ela estava sentada de costas para a porta de casa, o que a dava uma estranha sensação ruim no estômago, mas ela não quis se virar. Não podia viver como se estivesse prestes a ser atacada a qualquer momento.
—Ela quer o quê? –Grace repetiu a pergunta pela terceira vez, engolindo um pedaço do bagel que seu pai havia trazido no intervalo entre o turno noturno e matutino mais cedo naquela manhã.
—Conseguir um trabalho no mundo dos trouxas. –Edward repetiu ainda mais devagar do que da última vez, quase sílaba por sílaba. –Você está prestando atenção?
Grace revirou os olhos, embora ele não pudesse ver, e se moveu para encher uma xícara de café, girando para que o fio do telefone branco não se enrolasse em sua cabeça. Quando chegara em casa, ela tentou disfarçar o fato de que não se lembrava bem como o mundo trouxa funcionava. Às vezes se sentava na mesa e esperava que os pratos se enchessem de comida antes de lembrar que tinha de levantar-se e se servir no balcão. A levara um longo tempo para reaprender a usar a cafeteira, mas ela agora era sua melhor amiga.
—Estou prestando atenção. Está barulhento aí. –Do outro lado da linha, Edward respondeu que era o aspirador de pó. Aquilo explicava. Depois de um ano tendo seus aposentos limpos por elfos silenciosos que faziam questão de nunca serem vistos, era difícil se acostumar de novo ao maquinário trouxa. Ela deixou para lá o barulho; fofocar sobre a vida de Sarah era mais interessante. –Bem, como ela vai fazer isso sem um diploma válido de qualquer escola?
—Sei lá. –Grace conseguia o imaginar dando de ombros ao responder. –De qualquer forma, como foi com seu pai e Fred na Estação?
Ela havia avisado ao seu pai que não fosse busca-la. Como muitos outros pais, ele recebera uma nota avisando que o diretor fora assassinado dentro da escola, mas Grace garantira que estava tudo bem e que ele, como trouxa, não devia aparecer na Estação 9 ¾ para busca-la no dia sete de junho, para a própria segurança dele.
Ela e Fred haviam desembarcado juntos. Uma mão de Fred estava na dela, e a outra em seu malão, abrindo caminho pela plataforma vazia e sombria, à procura da família dele. Grace procurava os cabelos ruivos dos Weasley, não as madeixas escuras de seu pai, mas ele surgiu em sua linha de visão como um oásis no deserto, e ela, como uma garotinha, se jogara em seus braços.
—Pimpolha! –Ele exclamou em voz alta, para toda a plataforma ouvir, mas ela sentira tanto sua falta que nem se importou. Quando a pôs no chão, ele a olhou como se visse a mais preciosa das joias. –Você está enorme.
Levou, porém, apenas um segundo a mais para que ele notasse Fred, e se apressasse em tirar seu malão das mãos do rapaz. Embora Fred houvesse chacoalhado sua mão com um aperto firme, foi para Grace que seu pai se virou com uma estranha expressão. Grace foi boazinha. O apresentou como seu namorado, e seu pai foi perfeitamente educado. Quando Gui foi atrás de Fred para chama-lo para casa, seu pai olhou as novas cicatrizes que cobriam o rosto do rapaz com espanto, mas também apertou sua mão. Foi apenas no carro que ele se virou para Grace com palavras e não apenas com olhares questionadores.
—Aquele rapaz pareceu um pouco velho para você. –Comentou. –E o que diabos houve com o irmão dele?
Grace suspirou pesadamente, se deixando cair no assento confortável da minivan de seu pai.
—Gui foi atacado por um lobisomem, na noite em que o diretor foi assassinado. Ele estava de guarda no castelo. –Ela se acomodou um pouco mais, para se sentir segura antes de continuar falando. –E Fred é apenas um ano mais velho que eu. Ele é realmente legal, pai. E respeitoso.
—Respeitoso, é? –Seu pai se aproveitou do fato de que estava encarando pelo retrovisor para sair da vaga de estacionamento para não a encarar. –Bem, então vamos falar sobre o fato de que, num enorme castelo cheio de salas vazias, você estava namorando um menino e nem contou ao seu velho pai.
Seu tom era magoado.
—Muita coisa aconteceu esse ano; eu simplesmente não tive tempo. –Grace gemeu em reclamação. –Tive provas, e...
—Assassinatos. –Ele completou por ela. –Então não aconteceu... nada?
—Eu sou virgem se é o que quer saber. –Ela respondeu. –Podemos parar?
Ele conseguiu sair da vaga apertada e mirou no tráfego do lado de fora da King’s Cross, entrando numa fila de carros.
—Isso não é constrangedor. –Ele disse embora parecesse constrangido. –Acredite em mim. Eu atendi uma garota da sua idade essa manhã que achava que usar duas camisinhas aumentava a segurança –explicar que ela estava grávida e devia procurar um obstetra é que foi constrangedor.
Aquela era uma conversa que eles haviam tido mil vezes. Não era constrangedor antes, mas Grace não tinha um bonito namorado ruivo antes. Contraceptivos era o assunto preferido de seu pai à mesa, mesmo que sua irmã mais nova tivesse apenas cinco anos. Mas mesmo após essa conversa, ele marcou o ginecologista para ela –um amigo dele, o que Grace achava antiético e reclamou disso à mesa do café-da-manhã no dia da consulta.
Foi tudo isso que contou para Edward, pelo menos até ouvir a fechadura se abrindo na sala, e então virar-se na cadeira alta da bancada da cozinha, para notar seu pai passando pela entrada. Os dois não eram parecidos –todos diziam que Grace parecia com sua mãe, Elizabeth. Mas havia um calombinho na ponte de seu nariz herdado do pai, e algo no formato dos olhos.
—Ele está aqui. –Ela disse para Edward no telefone. –Vou desligar, nos falamos depois.
Edward disse algumas palavras de despedida e Grace bateu o telefone no gancho da parede –ela havia levado um ou dois dias para se lembrar como aquilo funcionava –enquanto seu pai tirava o jaleco e colocava a maleta em cima da mesa do bar que ele tinha anexo à sala, antes de se aproximar dela com um envelope largo.
—Seus exames chegaram. –Ele anunciou colocando os papéis em cima da mesa, mas os tirando de seu alcance quando Grace estendeu a mão para eles. –Quem era?
—Edward. –Ela respondeu, empurrando a caixa de bagels para o lado quando percebeu seu pai sentando na cadeira diretamente à sua frente com sua cara de conversa séria. –Então... os exames?
Seu pai a lançou um olhar grave com seus olhos azuis da cor do mar da Normandia. Grace saberia dizer; eles costumavam ir passar as férias no norte da França quando ela era mais nova. As suas lembranças mais antigas do verão era a luz refletindo nas ondas, e sua mãe, com a pele dourada deitada na areia.
—Você voltou para casa com essa cicatriz enorme no queixo, o que já foi estranho. –Ele disse, calmamente. –E agora seus exames dizem que você tem uma luxação numa costela. Você pretende me dizer o que realmente aconteceu na escola? Foi esse garoto? Quero dizer, ele me parece um bom garoto, mas se ele...
—Fred não estava lá. –Grace disse imediatamente. Então se ajeitou na cadeira. –O mundo bruxo está em guerra, papai. Eu falei sobre isso.
—Você não me disse que pretendia tomar parte nisso! –Ele exclamou, parecendo exasperado, os punhos fechados na mesa.
Grace fechou os olhos. Ali, naquela sala, onde recebera a visita da professora Mcgonagall com as notícias de que era uma bruxa, a carta de Hogwarts e a explicação do que significava, era difícil esquecer que ela tinha um motivo pelo qual lutar. Seu pai havia estado lá também, então como ele poderia não entender que Grace havia achado um lugar ao qual pertencia e que estava disposta a lutar por ele?
—É meu direito de sangue. –Ela murmurou para a mesa da cozinha. –Eu sou uma bruxa, eu nasci assim e vou viver assim.
—Vai morrer assim se continuar. –Seu pai sussurrou furioso. –Eu mandei você para a escola, e você voltou machucada como se viesse da guerra! Com cicatrizes!
A lufana estendeu a mão sobre a mesa até o punho fechado de seu pai. Ela apertou seus dedos até que as juntas relaxassem, então entrelaçou suas mãos juntas, acariciando-o com o dedão livre. Seu pai ainda mantinha uma carranca, mas ela podia ver que as linhas entre suas sobrancelhas eram menos pronunciadas do que antes.
Além disso, de certa forma, ela se orgulhava de suas novas cicatrizes. Gui a havia confidenciado, apenas os dois na ala hospitalar, que, embora as desprezasse no começo, sentia como se suas cicatrizes contassem uma história; ele havia lutado e sobrevivido. As de Grace contavam uma história também, embora fosse diferente. Ela havia tentado tanto correr atrás dele. Ela havia tentado salvá-lo. Ela jamais admitiria para ninguém.
—Você precisa confiar em mim. –Ela disse para a mesa, embora soubesse que seu pai ouvia. –Eu sei que não tenho muita experiência em ser adulta, e ainda estou esperando receber os resultados de meus testes para tentar um emprego, e sou dependente de você. Mas realmente espero que não tente me impedir, papai. –Ela levantou os olhos para ele. Ele parecia derrotado. –Se isso faz você se sentir melhor, eu não estarei na linha de frente. Não me querem lá. Mas uma missão me foi confiada e eu pretendo estar por perto para completa-la se for preciso.
John soltou a mão da filha para passar os dedos pelos cabelos.
—Que missão, pimpolha? –Ele perguntou, estarrecido. –Quem manda uma missão para uma garotinha?
Ela sorriu, paciente.
—Não sou uma garotinha. Sou uma bruxa. –Disse com mais confiança do que sentia. –Dumbledore foi o bruxo mais brilhante do século. Ele confiou a missão a mim. Você confia?
—Você vai me contar o que é?
O sorriso se alargou.
—Não. –Então deu uma pausa e pulou do banco. –Vou fazer torta; e você pode me ajudar.
Por motivos de mistério inexplicável, na terceira semana de férias, logo após voltar de um fim de semana estendido nas praias da Cornualha com suas amigas e um novo bronzeado dourado, Grace se sentia mais cansada do que antes de entrar de férias.
Grace olhou ao redor de seu quarto roxo. Ela mesma, com a ajuda de seu pai, o havia pintado mais ou menos aos doze anos, quando rosa começou a parecer infantil. Ainda se via, em alguns pontos onde a tinta havia sido passada menos vezes, um tom rosado abaixo da camada tom de ameixa. Havia uma prateleira com seus livros preferidos da infância; Peter Pan, Alice no País das Maravilhas, O Mágico de Oz, e alguns exemplares de livros da escola e coisas que ela comprara para se adequar ao mundo mágico, como Os Contos de Beedle, o Bardo. Na prateleira mais baixa, havia uma coleção de globos de neve; todos presentes de seu pai. O mais novo deles, que ela ganhara no natal, com a London Eye, no centro, ocupava o lugar mais à frente.
Em cima da cama com lençóis brancos estava uma edição do Profeta Diário. Na primeira página tinha uma nota com a demissão da professora de Estudos dos Trouxas, Caridade Burbage, mas a maior parte da edição era tomada por um artigo escrito por Elifas Doge sobre Albus Dumbledore. Grace não o lera; era difícil o suficiente saber que Dumbledore estava morto, então ela tentava não se lembrar de como ele era quando estava vivo. Quando ela o conhecera, quando ela ajudara os Comensais a mata-lo.
Ainda um pouco mais atrás no jornal, havia o anúncio do próximo livro de Rita Skeeter, mas Grace se recursara a ler a sinopse além da capa. Não, o jornal estava em cima da cama por propósitos práticos: a parte de anúncios. Com o fechamento de mais de meia-dúzia de lojas no Beco Diagonal, seus donos estavam locando os apartamentos superiores, e Grace havia marcado com caneta vermelha os anúncios mais atraentes e com preços razoáveis para o seu bolso.
Era assim que estava o quarto quando Eleanor entrou nele, com uma pilha de roupas limpas em seus braços. Sua madrasta, de cabelos escuros e olhos grandes e carinhosos, vinha com a irmãzinha mais nova de Grace presa em suas pernas, a arrastando pelo chão. Margaret estava agindo com timidez desde que Grace voltara para casa –e um pouco de ciúmes também em ter que dividir os pais que eram apenas seus na maior parte do ano.
Grace agradeceu pelas roupas, mas sua madrasta se manteve no quarto, de braços cruzados, observando enquanto ela arrumava sua bolsinha de mão com seus documentos e varinha.
—Já vai sair de novo? –Perguntou, os olhos estreitos. –Você passou pouco tempo em casa.
—Passei duas semanas inteiras em casa. –Grace a corrigiu gentilmente. –Eu preciso ir atrás de um bom lugar parar morar antes que todos os lugares sejam alugados.
—Poderia ficar em casa. –O tom de Eleanor era sugestivo. –Conosco. Ninguém está pedindo para que saia.
Elas já tinham tido aquela discussão muitas vezes antes para que Grace ficasse surpresa. Ela pegou o jornal de cima da cama e o colocou dentro da bolsa também.
—Eu expliquei porque não posso. –Grace disse mais uma vez. Era a quarta ou quinta vez que dizia aquilo desde que voltara para casa. Margaret havia saído de trás da saia de sua mãe a agora colocava as mãos gordinhas em seu malão aberto aos pés da cama, ainda para que ela o limpasse. Grace assistiu enquanto a irmã caçula colocava uma pena dentro do nariz e dava um pequeno espirro. –É perigoso.
A sua bolsa estava arrumada agora, e o relógio em sua cabeceira, comprado na Dervish & Bangs exclamou “hora de ir!”, o que fez com que ela lançasse um olhar apologético à sua madrasta, murmurando que estava em sua hora. Tirou da mãozinha gorducha de sua irmã caçula um frasco de Poção da Memória, colocando-o alto na prateleira e saiu do quarto para aparatar no jardim.
O Beco Diagonal foi um balde de água fria. Bruxos andavam com os capuzes levantados e não pararam para cumprimentar os conhecidos, ou bater um papo na saída das lojas. Não haviam crianças comprando seus materiais escolares, embora, àquela altura, elas já devessem ter recebido suas cartas. Uma série de bruxos mal-encarados se acumulava nos cantos, parecendo terem saído da Travessa do Tranco. Haviam mais lojas fechadas do que abertas; a Ollivanders estava sendo limpa, Grace podia dizer pelos dois elfos lá dentro, arrumando os vidro e prateleiras. Ela sabia que Amy estava procurando um novo fazedor de varinhas enquanto ela administrava o negócio.
A própria Grace ficou feliz de ter ido de vestido ao invés de jeans; os jeans a teriam marcado como nascida-trouxa na hora. Mas desejou ter vestido uma capa; seu rosto nu parecia mais exposição do que ela precisava.
Ela havia aparatado junto ao Caldeirão Furado, mas não dentro dele porque o bar, haviam a avisado, havia sido protegido por feitiços desde a morte de Dumbledore. Tom, o velho taberneiro, não andava cheio de confiança, embora seu bar fosse a melhor passagem entre o mundo mágico e trouxa.
Uma das poucas lojas que continuava colorida e brilhante no Beco Diagonal era um prédio pintado de roxo e vestindo uma cartola. Grace se sentiu imediatamente melhor ao alcançar as Gemilidades Weasley; não havia percebido que havia uma dúvida quanto à possibilidade de ela chegar até ali viva.
Do lado de dentro, embora ainda fosse a loja mais colorida e barulhenta da rua, havia um ar de pressa em todos os clientes. Um sino tocou quando Grace empurrou a porta com as duas mãos e a deixou se fechar atrás dela. George estava no balcão e espichou o pescoço para checa-la.
Grace levantou a mão em um aceno enquanto se aproximava do balcão, mas então Fred surgiu do fundo, carregando algumas caixas, e ela se esqueceu de como fazer o cumprimento.
Ele não a notou imediatamente; e havia algo interessante em observar pessoas que não sabiam estarem sendo observadas. Fred tinha um sorriso um pouco idiota no rosto; mas era o tipo de sorriso que não fora feito para espectadores. Como segurava duas caixas de aparência pesada, sua postura não era perfeita, e o riso era de esforço.
Quando ele a notou, sua expressão mudou; os olhos escurecendo, o sorriso bobo virou um sorriso intenso. Grace já estava quase no balcão. Ele deixou as caixas em cima da mesa e deu a volta até ela. Ele não a beijou, mas passou os dedos ao longo do maxilar dela, o que a fez estremecer por um segundo. Parecia que fazia mais do que algumas semanas desde a última vez que o havia visto.
—Você chegou cedo. –Ele observou. –Eu vou apenas colocar essas coisas nas prateleiras. Nesse meio tempo você talvez queira dar alguns conselhos à George.
Ele estava se afastando de novo, enquanto Grace se inclinava no balcão na direção do cunhado que atendia um garoto com cara de quinze ou dezesseis anos.
—Do que ele está falando? –Perguntou.
George suspirou pesadamente como quem diz “nada demais”, mas respondeu mesmo assim.
—Fred acha que eu devo avisar a Angelina e a Alicia que estou saindo com ambas. –Contou. –Mas não é nada demais, de verdade. Jamais conversamos sobre exclusividade.
Grace tentou não parecer horrorizada.
—Elas não são amigas? –Imaginou como seria descobrir que Fred estava saindo com alguma de suas antigas colegas de dormitório.
—Não. –Ele respondeu rapidamente. –Apenas ex-colegas de time. De qualquer forma, Angie me perguntou qual seria a gravata para o casamento de Gui e Fleur para que ela combinasse o vestido, mas não lembro de tê-la convidado para ir comigo. Agora temo que Alicia ache o mesmo.
A lufana suspirou internamente.
—Se vocês estão saindo, é claro que elas pensam que irão com você. –Explicou para ele com delicadeza, como quem fala de um assunto delicado com uma criança. –Especialmente se você falou do casamento para elas.
—Eu reclamei do casamento com elas. –Ele a corrigiu. –Falei que mamãe estava chateando a todos com isso.
—É a mesma coisa. –Grace comentou em tom de garantia.
Fred havia terminado com as prateleiras e agora voltava na direção dos dois. Ele observou a expressão dela –tentando ocultar sua repreensão –e a do irmão, que tinha o ar insatisfeito de quem descobrira que não daria tempo de ir para duas festas para as quais fora convidado.
—Colocou juízo na cabeça dele? –Perguntou. –Aliás, você vai ser o meu par para o casamento de Fleur, não vai?
Ele acrescentou a última parte como se apenas naquele momento o fato de que ele tinha de a pedir o houvesse ocorrido. Grace tentou não sorrir presumida agora; do jeito que garotas sorriem quando sabem que um garoto é completamente apaixonado por elas.
—Claro.
Fred deixou George sozinho na loja para acompanha-la, e Grace pôde dizer que isso o deixou nervoso. Por esse motivo, tentou fazer com que a sua procura por apartamento parecesse mais uma aventura do que uma necessidade. Eles fizeram um tour por todos os apartamentos disponíveis no Beco Diagonal, que era a prioridade por ser o lugar mais central e por ser perto do apartamento de Fred acima da loja, onde ela o teria como ajuda sempre perto.
Grace fez cenas nos apartamentos, fingindo reclamar com ele sobre pratos inexistentes na pia, ou o esperando de braços cruzados enquanto ele ia apenas até outro cômodo e o perguntando onde ele havia estado toda a noite. Ao fim de duas horas e meia, porém, eles já haviam visto todos os apartamentos do Beco Diagonal e do Beco Horizontal, e estavam prestes a passar pelo Bar Fonte da Sorte, um conto infantil bruxo, para a rua trouxa do outro lado.
—É uma opção. –Grace encolheu os ombros quando os dois aterrissaram do outro lado do portal, numa rua bastante diferente da que eles deixaram para trás: carros faziam filas para ambos os lados e pedestres viravam a cabeça para as calças listradas de Fred com curiosidade. Grace não se importou; ao menos ele não estava usando um conjunto. –É perto do Gringotts... E o mundo trouxa não me é estranho.
Fred a lançou um olhar alarmado.
—Cuidado com o que diz na frente deles. –Sussurrou baixo enquanto ela o guiava na direção residencial da rua.
Mas Grace vivia entre trouxas. Ela os conhecia melhor do que Fred jamais poderia.
—Você poderia falar sobre Hogwarts para eles. –Disse ela. –E eles não acreditariam. Vá em frente.
O olhar que Fred a lançou era metade dúvida e metade diversão.
—Eu vou ser preso por isso. Seis meses em Azkaban mudam um homem. –Murmurou baixinho para ela, então se afastou.
Grace levou um segundo para notar que ele estava escolhendo sua vítima. Ficou alguns segundos parado entre os transeuntes, antes de escolher um homem de meia-idade, cabeça ficando calva, e terno, com suor na testa e um aparelho telefone na mão. “Senhor”, Fred chamou sua atenção, “sabe me indicar as direções para a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts? “.
O homem deu um suspiro como se não pudesse acreditar que aquilo estava acontecendo logo com ele. Em seguida, deu a Fred as direções ao hospital mais próximo, o que Grace disse a ele assim que o ruivo voltou à sua companhia.
Eles não tentaram de novo, mas continuaram a conversar sem se preocupar em manter o tom baixo. Fred falou sobre um reforço do ministério búlgaro e romeno, que mandara aurores para as linhas de frente da Inglaterra. Falou que era possível, e até provável, que o lado das trevas estivesse recrutando estrangeiros, especialmente os bruxos do Norte, mais famosos por suas políticas anti-trouxas na atualidade.
Antes que o dia escurecesse, Grace achou um apartamento perto com um bom preço. Não por acaso, os trouxas não vinham querendo morar nas intermediações de lugares mágicos. Não que eles soubessem que eram mágicos, apenas vinham acontecendo muitos “acidentes” nessas áreas, e não por coincidência.
Já tinham chegado ao elevador, que abriu a porta ruidosamente quando Fred apertou o botão. Ela entrou, e ele a seguiu. Assim que o elevador começou a descer — Grace achava que jamais iria se acostumar à guinada inicial de parar o coração quando a descida começava —, ele se moveu em direção a ela na pouca luminosidade, e a puxou para perto. Ela pôs as mãos no peito dele, sentindo os músculos firmes sob a camiseta, a batida do coração abaixo. Sob a luz sombria os olhos dele brilhavam.
Fred não disse nada. Ela podia sentir a tensão nele, e também ficou tensa. Era mais do que apenas a tensão do desejo. Fred estava tremendo, o corpo inteiro vibrando ao enterrar o rosto no canto do pescoço de Grace.
—O que há? –Ela perguntou, um dedo traçando o maxilar dele.
Em vez de responder, ele a beijou, puxando-a com força contra si. Seu corpo pressionou o dela contra a parede, o metal do espelho frio nas costas de Grace, as mãos de Fred deslizando pela cintura, por baixo do casaco. Ela sempre amou o jeito como ele a segurava. Ela gostava daquilo, gostava da forma como o coração de Fred batia contra o dela, gostava do jeito como ele murmurava em sua boca quando ela o beijava de volta. O elevador parou ruidosamente, e a porta abriu.
Além dele, Grace podia ver o hall de seu novo apartamento. Era um prédio antigo, mas firme, do tipo que ficava de pé acontecesse o que fosse. Era exatamente o que ela precisava naqueles dias de incerteza. Como ela queria se mudar logo, sair da casa de seus pais. Como ela queria não precisar.
Pensou em Draco de novo, sem querer. Mas ele estava sempre lá, em algum lugar no fundo de sua mente. Quis mostrar seu novo lugar para ele, perguntar o que acharia do elevador.
—Eu te amo, Grace. –Fred disse sem olhar para ela. –Mais do que eu posso explicar. Sabe disso, não sabe?
Ela saiu do elevador e se virou para encará-lo.
—Também amo você.
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