Lados e Escolhas

1 De Volta a Hogwarts


Notas iniciais
Para quem já leu Lembrem-se de Cedrico Diggory, bem vindos de volta! A quem começou a ler agora, prazer tê-los aqui! Essa fic não é uma continuação da última. Se passa com outros personagens, embora vocês vão ver alguns dos personagens de LdCD por aqui. Boa leitura e nos vemos nas notas finais!

"Bang shots fired
Pain is what you desire
The pen is mightier than the sword
Then how did we get here my God"

Em 1996, o dia dois de setembro foi numa segunda-feira. Era exatamente o tipo de coincidência que deixava o dia de Grace Moore mais alegre. Era uma bobagem, mas com tão poucos motivos para ser feliz naqueles tempos sombrios, ela se agarrou àquele. Era segunda-feira, o céu estava num tom sereno de azul e ela estava de volta a Hogwarts. Quando mentalizava essa lista de coisas alegres quase podia se esquecer do clima sombrio no Beco Diagonal da última vez que fora lá, ou de como a Plataforma 9 ¾ no dia anterior estava, ao invés de barulhenta e colorida, cinza e silenciosa, cheia de pais preocupados e hesitantes em deixar seus filhos embarcarem.

O clima havia estado tão pesado que mesmo seus pais –seu pai, um médico trouxa, e sua madrasta, dentista, com sua pequena irmã mais nova de quatro anos à tiracolo –haviam ficado nervosos, a segurando um segundo a mais do que seria necessário no abraço de despedida. Grace os havia lançado um grande sorriso tranquilizador, mas mesmo ela sentira que ele parecia errado e fora de lugar na plataforma.

Claro, dentro do expresso as coisas foram diferentes. Enquanto procurava pela cabine de seus amigos, passou por todo tipo de alunos excitados em voltar à escola. Quartanistas andavam em bando procurando por um vagão, sonserinos abriam seu caminho à base da intimidação e primeiranistas confusos e animados procuravam uns aos outros para irem juntos ao castelo pela primeira vez. Grace, como nascida-trouxa, se lembrava muito bem da sensação de que, se não houvesse alguém por perto a distraindo, acordaria a qualquer momento, descobrindo que tudo fora um sonho. Às vezes ainda achava que tudo era um sonho.

Finalmente, depois de muito andar, sua colega de dormitório, Julie Sayre, acompanhada pela nova monitora-chefe da Lufa-Lufa, Sarah Bailey, irmã gêmea de seu melhor amigo Edward, a indicara a cabine onde estavam Amy Ollivander, Edward Bailey, Cho Chang e a grifinória Melinda Bobbin e, dois minutos depois, Grace já estava bem alocada com os amigos, ouvindo sobre as férias daqueles que, entre eles, eram sangues-puros. O bisavô de Amy, o famoso vendedor de varinhas, havia sido sequestrado no final das férias e a garota parecia abalada, pois seus pais quase não a deixaram voltar a Hogwarts. Cho parecia melhor depois do término com Harry Potter no ano anterior, por causa da traição de Marietta Edgecombe. No fim, apesar das más notícias e do mau tempo, eles estavam vivos e juntos e a caminho de Hogwarts.

Era nisso que Grace pensava enquanto ela e Amy esperavam Edward no salão comunal no primeiro dia de aula antes de descerem para o café-da-manhã, sentadas em duas confortáveis poltronas amarelas ao lado de uma janela estilo escotilha que dava visão para o jardim do castelo, mas que não podia ser vista pelo lado de fora, para preservar escondida a localização do salão comunal da Lufa-Lufa.

Hogwarts tinha menos alunos do que normalmente tinha naquele ano. Muitos pais haviam tirado seus filhos da escola e Grace via isso nos bancos extremamente vazios nas quatro mesas do Grande Salão, cobertas por um teto encantado que mostrava o céu azul com poucas nuvens lá em cima, tão claro que ela doloroso de ser encarado.

Quando se dirigiram para a mesa da Lufa-Lufa, Edward fez um desvio nas duas amigas para que se sentassem longe de Zacarias Smith. Grace não o culpou. Mesmo ela, que geralmente não tinha intrigas, preferia manter distância do garoto.

O grupo mal começou a se servir de ovos, bacon, torradas e mingau de aveia quando a professora Sprout começou a passar por entre as mesas, saindo de um grupo de sextanistas composto por Hanna Abbott, Ernesto Macmillan e Susana Bones, para alcança-lo com várias folhas de papel em suas mãos de pulsos gorduchos e delicados.

—Srta. Moore... –Murmurou a diretora da Lufa-Lufa quando alcançou Grace, que tomou um grande gole de suco de abóbora para fazer descer a torrada que comia com alguma pressa. –Ainda pretende ser Desfazedora de Feitiços? Pois muito bem... Você tem Ótimos em Transfiguração, Feitiços e Aritimância, que são a base da carreira. E Excede as Expectativas em Herbologia, Poções, Astronomia e Defesa Contra as Artes das Trevas.... Muito bem, Srta. Você vai precisar melhorar essa nota em Defesa. Vai precisar de um Ótimo nos NIEM’s para seguir carreira. Ainda tem dificuldades?

“Dificuldades” era uma forma leve de colocar a questão. Grace não sabia qual o problema. Era uma ótima aluna em Feitiços, talvez até brilhante. Defesa, por outro lado, era o calo que ameaçava se colocar entre ela e sua carreira dos sonhos. Já era ruim com bons professores, como foram Lupin e Moody, mas depois de Umbridge, estava surpresa que conseguira nota o suficiente para continuar na turma de Snape. E com Snape...

—Um pouco. –Grace admitiu, quase sem graça.

A professora Sprout franziu a testa para a mesa dos professores, como que pensativa.

—O que você acha de ter um tutor esse ano? –Levantou as sobrancelhas, como que esperando que ela considerasse a ideia.

A lufana abriu e fechou a boca. Não era orgulhosa demais para tutoria; afinal, havia feito parte da Armada de Dumbledore no ano anterior –responsável pelo seu Excede as Expectativas em vez de Trasgo –e não havia desonra em aprender com um colega que sabia mais. Pensou em quem seria seu tutor, se Harry Potter estaria disponível, mas, então, pensou que de jeito nenhum Snape favoreceria Potter com a responsabilidade de uma tutoria e, ainda, ele era, apesar de melhor do que ela na matéria, mais novo.

—Tudo bem. –Respondeu, desejando que seu tutor não fosse um dos colegas sonserinos com desvio de personalidade psicótica como Rosier ou Urquhart. –Tutoria, então.

Simples assim, a diretora da Lufa-Lufa a dispensou, prometendo arrumar o mais rápido possível alguém para ajudá-la com seus problemas. Amy e Edward ficaram na mesa, esperando por suas avaliações. Grace teria esperado por eles antes de ir para a classe de Feitiços, mas Cho e Melinda estavam na porta do salão e fizeram um aceno para que Grace se juntasse a elas e foi o que a lufana fez, acenando para os dois outros lufanos deixados para trás com um sorriso culpado.

Cho e Melinda estavam discutindo a questão que deixara toda Hogwarts curiosa no dia anterior. Por algum motivo, Fred e George Weasley haviam pego o trem com o resto dos alunos no dia primeiro de setembro, embora houvessem feito o sétimo ano no ano anterior. É claro que, com a fuga de Umbridge e o grande escândalo dos fogos, eles não haviam saído formados, mas, ainda assim, com um negócio de sucesso no Beco Diagonal não parecia haver motivo para eles estarem de volta.

Melinda, a única do grupo a ser da Grifinória, deu de ombros.

—Aparentemente, eles decidiram que havia utilidade em fazer os NIEM’s. –Disse ela, parecendo reticente. Mas em seguida mudou de assunto, virando-se para Cho, enquanto as três passavam por debaixo do arco de pedra que separava a Torre Oeste do resto do castelo, em direção à sala de Feitiços. –Ei, aquele era Vítor Krum aqui mais cedo?

Cho assentiu, desviando-se de dois primeiranistas perdidos. Grace parou para indicar para eles o caminho para a sala de Transfiguração, antes do grupo seguir andando.

—Era. Ele veio com Cordélia Bloxam... –Cho deu de ombros. –Parece que ela veio fazer algo para o diretor.

Grace não ficou surpresa em ouvir que ex-alunos estavam rondando Hogwarts. Afinal, no dia anterior, ela havia dado de cara com Ninfadora Tonks, ex-Lufa-Lufa, na Plataforma em Hogsmead. A ex-aluna era agora uma auror e estava fazendo parte da segurança da escola. Já Bloxam era, pelo que Grace lembrava dela –e lembrava um pouco, porque Bloxam fora namorada de Cedrico Diggory –uma sonserina e, nesses tempos, era difícil confiar na casa das serpentes.

As meninas finalmente chegaram no corredor da sala de Feitiços, e o encontraram bloqueados por um grupo de setimanistas fazendo confusão. Grace se manteve a uma distância segura. Uma coisa era confusão entre segundanistas, onde o pior que podia ocorrer era uma Azaração das pernas-bambas. Entre setimanistas, porém, as coisas podiam facilmente sair do controle, virando uma confusão de verdade, especialmente se fosse entre grifinórios e sonserinos.

Como nova Monitora-Chefe da Corvinal, porém, Cho abriu caminho para resolver qualquer coisa que tivesse que ser resolvida. Grace, suspirando, foi no encalço da amiga, com a varinha em mãos apenas em caso. O que as três meninas encontraram, porém, ao invés de um duelo, foram os dois gêmeos Weasley usando chapéus-escudo feitos por eles mesmos enquanto Córmaco McLaggen e Cadu Coote lançavam azarações que eram repelidas pelos chapéus e ricocheteavam nas paredes de pedra.

—O quê... –Cho parou à beira da confusão e colocou ambas as mãos nos quadris, inchando o peito de forma que o distintivo ficava mais visível. –Fred, George... sério?

A intimidade do tratamento se dava ao fato de que eles todos haviam estado na Armada de Dumbledore juntos no ano anterior. Não eram amigos, mas se conheciam bem o suficiente, Grace supôs. Os dois Weasley abriram grandes sorrisos, sem se intimidarem pela garota corvina.

—Ei, Cho. –Um dos gêmeos sorriu. Era aquele que tinha o sorriso mais alto no canto direito da boca. Fred.

—Eu vou ter que reportar à professora Minerva e ela vai tirar pontos da Grifinória. –Cho cruzou os braços. –Honestamente, foi para isso que voltaram?

—A desculpa oficial é “diploma”.... –Continuou o mesmo gêmeo que falara antes.

—Mas “confusão” também serve. –Completou o outro.

Apesar da cena, a aula de Feitiços ocorreu sem maiores incidentes. Estavam vendo feitiços conjuratórios de nível avançado, o que significava que, na metade da aula, vários pássaros sobrevoavam suas cabeças, piando em várias cores e planando com as asas abertas sob o olhar aprovador do pequeno mestre de feitiços, que deu a Grace pontos por ter sido a primeira a suceder com a tentativa.

A aula seguinte foi Estudos Avançados em Aritimância na Torre Magnus –a maior torre do castelo, não em altura, mas em número de salas. Grace era a única lufana na turma, ocupada principalmente por sonserinos e corvinais. A professora Vector a deu um sorriso quando ela entrou na sala e Grace soube que foi pelo seu Ótimo nas avaliações do ano anterior. Naquele ano, eles começaram a ver Maldições Numéricas, um assunto abordado nos testes para Desfazedor de Feitiços que Grace estava ansiosa para estudar. A aula se passou tão rapidamente que ela mal pôde acreditar quando a professora os dispensou, passando três metros de atividades para serem entregues na semana seguinte.

A lufana logo descobriu que aquele não seria o modus-operandi apenas da Aritimância. O professor Snape, que havia mudado toda a sala de aula de Defesa Contra as Artes das Trevas para que parecesse sombria como fora sua masmorra de Poções e também tivesse terríveis quadros nas paredes, representações de bruxos sofrendo maldições ou sendo atacados por criaturas das trevas, parecia decidido a fazê-los praticar tudo que não haviam praticado de Feitiços no ano anterior. Se não fosse a Armada de Dumbledore, Grace teria passado pelo maior vexame de sua carreira acadêmica ao praticarem defesa de feitiços hostis.

Em Poções, começaram o trimestre fazendo um pequeno teste de reconhecimento de Poções. As masmorras ainda eram as mesmas onde o professor Snape dava aula, mas Grace não pôde deixar de pensar que, de alguma forma, o novo professor fazia com que parecessem mais arejadas e amplas. Grace não era nenhum gênio na área, mas o reconhecimento do Gole da Paz, Felix Felices e Poção do Morto-Vivo a rendeu alguns pontos para a Lufa-Lufa, além de piscadinhas e do privilégio do professor Horácio Slughorn aprender seu nome.

Em suma, Grace andava tão ocupada que se viu surpresa consigo mesmo quando, na quinta-feira, entre uma aula de Poções e Transfiguração, decidiu usar o banheiro da Murta-Que-Geme, ao invés de fazer o caminho mais longo para o banheiro no andar acima, como geralmente preferia fazer para evitar o fantasma. Preparando-se para ter de ser gentil com a garota morta e, de um jeito delicado, explicar a ela que estava ocupada e precisaria correr para a próxima aula, Grace empurrou a porta e se viu dentro do banheiro vazio.

Exceto que não estava vazio.

Todos os seus músculos se tencionaram e imediatamente ela procurou a varinha dentro da capa quando notou que, de frente para um dos espelhos no conjunto de pias ao centro do banheiro, estava um garoto pálido de cabelos louro-esbranquiçados. Draco Malfoy era um ano mais novo do que ela, além de um almofadinha que falava demais. Algo em Grace, porém, a avisou para não o subestimar.

A Murta-Que-Geme pairava muito perto dele, mas, talvez pela primeira vez, falava baixo, e Grace não conseguia ouvir o que dizia. A lufana considerou ir embora –a vontade de fazer xixi havia majoritariamente evaporado com a surpresa de achar Malfoy no banheiro feminino tendo o que parecia uma conversa civilizada com o ser mais evitado de todo o castelo.

Ao invés disso, pigarreou para chamar atenção.

Malfoy se virou rapidamente, como que assustado e, para sua surpresa, a olhou não com nojo ou superioridade, mas com um tipo de pavor. Grace apertou sua varinha dentro das vestes, mas como o outro garoto não fez nenhum movimento agressivo, ela não a sacou.

—Desculpe, Malfoy, mas acho que você entrou na porta errada. –Grace disse com calma e educação, apontando o cômodo grande com um aceno da mão livre. –Esse é o banheiro feminino.

Malfoy ergueu o queixo e Grace se preparou para responder qualquer ofensa que ele fosse lançar. Ele olhou ao redor, interessado, mas a lufana podia perceber que era fingimento, uma encenação para ela. Só não sabia por que era necessária.

—Tem razão. –Ele disse tão educadamente quanto ela. –Erro meu. Com licença.

O sonserino passou por ela sem nem se dar ao trabalho de dar um encontrão em seu ombro ou qualquer uma das coisas que ele costumava fazer até o ano anterior. Grace não se virou para assisti-lo sair. Ao invés disso, observou a Murta-Que-Geme soltar um muxoxo para ela e deslizar para longe, como se, de repente, a ideia de infernizar os alunos de Hogwarts com suas queixas sobre garotas que agora tinham oitenta anos não fosse mais tão interessante.

Grace andou até a exata pia onde Malfoy estivera um segundo antes e se olhou no espelho. Seus olhos castanhos de raposa bem centrados no rosto em forma de coração cercado por cabelos cor de mel cortados curtos a encararam de volta, inquisidores. Afinal, se ela tinha entendido bem a reação do sonserino, ele não estava ali por engano. O que Malfoy fazia se escondendo no banheiro feminino menos utilizado da escola era uma questão curiosa, sem dúvida.

Grace suspirou, deixando o assunto de lado, enquanto seguia para a aula de Transfiguração.

Quando a sexta chegou, todos os seus amigos estavam tão cansados que mal podiam ficar acordados durante o café. Se os anos de NOM’s haviam parecido o fim do mundo, os NIEM’s acabariam por enterrá-los antes que o trimestre acabasse. Nos poucos tempos livres que tinha, alguns mais do que outros, se juntavam em grupos na biblioteca para revisar o assunto, tirar dúvidas e praticar.

Nem todos eram amigos, mas ninguém podia acusa-los de não serem unidos quando a necessidade se apresentava. Mesmo Zacarias Smith os encontrava na biblioteca quando necessário. Além de todo sétimo ano da Lufa-Lufa, o grupo de estudos incluía Cho e Marietta, cujo rosto ainda estava marcado pela acne do feitiço de Granger desde o ano anterior, Melinda, com Katie Bell e Liana Holmes e, destoando de todos os outros com seu uniforme verde e prata, Julian Vaisey.

No jantar da sexta, após todas as aulas, Sprout se aproximou dela da mesa da Lufa-Lufa com um grande sorriso. Grace se sentiu aliviada imediatamente. Havia tido apenas dois dias de Defesa até ali, mas, mesmo naquelas poucas aulas, ficara claro que não seria fácil seguir a turma de NIEM’s em direção a um Ótimo no fim do ano, e não deixara de se perguntar quem seria seu tutor nem por um segundo.

—Srta. Moore. –A professora Sprout a chamou para fora da mesa, longe dos ouvidos curiosos de seus colegas. –O que acha de ter tutoria com Fred Weasley?

Grace abriu e fechou a boca, confusa. Não tinha nada contra os gêmeos Weasley; achava ambos brilhantes de certa forma. De uma forma não acadêmica. Se perguntou se teria sido o professor Snape a indicar aquela tutoria.

—Eu... –Grace hesitou. –Fred Weasley concordou com isso?

—É claro, Srta. Moore. –A diretora da Lufa-Lufa se exasperou. –Então? Tudo bem por você?

—Eu... –A lufana forçou um sorriso educado a se abrir em seu rosto. –Claro. Tudo bem.

Notas finais
Para quem lembra de LdCD com carinho e das minhas postagens semanais, eu devo avisar que essa fanfic vai se postada lentamente, conforme eu for escrevendo. Esse primeiro post vai ser duplo, mas a partir da semana que vem vai ser mais esparso. Espero que vocês tenham paciência comigo. XOXO