Notas iniciais
Olá, gente! É quarta e eu estou de férias, então lá vamos nós de capítulo novo. Grace voltou do natal dos Weasley, então vamos descobrir como vai ser essa dinâmica. Às meninas que vem comentando: obrigada por não serem Gasparzinhos! Boa leitura e nos vemos nas notas finais.

“And I've been meaning to tell you
I think your house is haunted
Your dad is always mad and that must be why
And I think you should come live with
Me and we can be pirates
Then you won't have to cry”

Grace não estava pronta para achar difícil voltar a Hogwarts. Na noite dois dias após o ano-novo, que se passara com um par de taças de champanhe e muita comemoração, eles se alinharam na lareira para pegar o flú de volta para a escola. Grace se despedira da Sra. Weasley com promessas para estar de volta nas férias de verão em uma visita. O Sr. Weasley, Gui e Fleur não se despediram por estarem trabalhando, mas Gui e Fleur haviam se mostrado acessíveis e simpáticos naqueles últimos dias, sempre se juntando a Grace, Fred e George para conversar diante da lareira.

Depois de todos chegarem ao castelo em segurança, Fred decidiu que a levaria até o seu salão comunal. Grace virou um olhar desconfiado para ele.

—Você não me usaria para descobrir onde é o salão lufano e depois nos pregar uma peça qualquer, não é?

Fred sorriu grandemente.

—Meu Merlin, é como se ela lesse minha mente. –Riu-se sem seriedade. –Vamos. Eu deixo você apenas perto se quiser.

Ele cumpriu com a promessa. A deixou no corredor do Salão Comunal da Lufa-Lufa, o mesmo corredor que a cozinha, e, um pouco desconfiada de estar sendo observada, mas não muito, Grace seguiu para os barris, onde, com familiaridade, os bateu no ritmo correto. Um par de quadros dormindo lançaram olhares ferinos para ela por entre as pálpebras pesadas de sono, mas antes que qualquer um deles reclamasse em voz alta ela já havia sumido pela porta em formado de escotilha no fim do curto corredor que levava à toca dos texugos.

Grace não foi a única aluna a voltar das férias naquela noite de domingo; sentados na privilegiada posição perto lareira estavam Edward e Amy, dividindo, silenciosamente, uma caixa de penas de açúcar. Mais atrás deles, Eurig Cadwallader, Mia Hawkings e Julie Sayre ouviam Zacharias em relação à próxima partida de quadribol contra a Grifinória.

Amy foi a primeira a vê-la e abriu um grande sorriso aliviado.

—Grace, finalmente! –Exclamou, levantando-se, mas apenas para segurar a amiga e sentá-la no lugar vago entre ela e Edward. –Como foi o seu natal nos Weasley?

—Bastante natalino. –Grace deu de ombros, deixando de fora os momentos suspensos de tensão entre ela e Fred, o presente de Draco e os silêncios que às vezes ocorriam quando ela entrava numa sala. –O de vocês?

A outra lufana encolheu os ombros, olhando para baixo e colocando o dedo magro num furo no sofá, cutucando a espuma que o estofava.

—Não muito natalino, acho. –Amy meneou a cabeça, pensativa. –Vovô Ollivander costumava contar histórias e guiar a ceia, então mamãe queimou o peru e tia Laura chorou um bocado. –Notando os olhares dos amigos, ela fez sua voz se elevar um pouco, forçando animação. –Mas Edward estava me contando sobre o natal aqui em Hogwarts.

Edward na verdade não parecia ansioso para falar sobre o assunto e Grace teve a impressão de que Amy havia tentado o fazer falar, possivelmente sem sucesso. Dessa vez, porém, a garota contava com um par de lágrimas brilhando no canto de seus olhos, tão grandes que parecia que poderiam inundar o Salão Comunal se fossem despejadas, então o lufano pigarreou.

—Sim. Tivemos pouca gente nesse natal, menos do que o normal. Apenas eu e Sarah estávamos aqui da Lufa-Lufa, e Dumbledore não estava na ceia. Estranho, não é?

Grace olhou para o fogo, pensativa.

—É. Estranho.

Na manhã seguinte, um anúncio para aulas de aparatação deixou os sextanistas em polvorosa no Salão Comunal da Lufa-Lufa. Agindo com um pouco de superioridade por já serem capazes de aparatar, o grupo de setimanistas aproveitou a distração deles para descerem logo ao Salão Principal e pegarem os melhores lugares na mesa da Lufa-Lufa, garantindo, assim, um bom começo de trimestre.

O que realmente aconteceu, porém, foi que, no saguão, a caminho do Grande Salão, ela deu de cara com Fred e George, provocando o irmão caçula deles, que parecia um pouco verde.

—Você não vai querer deixar uma perna para trás, Rony. –Dizia George, com um ar sério.

—Ou pior: a cabeça.

—Ah, não sei. –George sorriu malicioso. –Ele já me parece viver sem ela.

Rony estava num perigoso tom de vermelho e parecia prestes a explodir na próxima palavra, mas não foi necessário. A aproximação de Grace num segundo distraiu Fred do irmão caçula e, embora George tenha revirado os olhos por isso, Fred logo largou os outros ruivos e foi se juntar ao grupo de lufanos que aparecia para o café-da-manhã.

Grace se sentiu ligeiramente oprimida quando Amy a lançou um olhar desconfiado à aproximação de Fred. Mesmo Edward, que geralmente era um pouco mais bondoso, sorriu para si mesmo de forma presumida.

—Ei, Weasley. –Edward sorriu agradável, como ele sempre era. Mesmo quando falava algo desagradável, não soava dessa forma. –Ouvi falar que você fez algum turismo no mundo trouxa esse natal.

—Um pouco. –Fred sorriu. –Cores e luzes, uma coisa incrível. Me deu algumas ideias, na verdade.

—Tenho certeza de que vai ser ótimo. –Edward bateu no ombro dele ao dar espaço, carregando Amy consigo.

Os dois foram para dentro do Grande Salão, sumindo por entre as grandes portas de carvalho sempre abertas. George e Ronald também já haviam desaparecido para a refeição, restando apenas ela, Fred e os passantes. O grifinório se aproximou meio sorrindo.

—Ouvi dizer que vai haver uma festa no começo de fevereiro, você soube?

A lufana piscou.

—Não. Quem está organizando? Em homenagem a quê? –Enquanto perguntava isso, Grace fazia um cálculo que não fazia há algum tempo; seu aniversário se aproximava junto com o segundo mês do ano. Precisaria de um calendário para saber em que dia da semana o dia sete se apresentaria.

—Eu e George estamos organizando. –Ele disse, sorrindo para a própria brincadeira. Mas não respondeu à outra pergunta. Distraída, Grace não chegou realmente a notar. –Você vai aparecer, não é?

Agora, Grace hesitou. Jamais havia comparecido a uma das festas de alunos que eram dadas em Hogwarts de tempos em tempos. Quando ela era do quinto ano, foi convidada para algumas por Rogério Davies, que normalmente era quem as organizava, mas depois de sua formatura eles passaram algum tempo sem elas –especialmente, no ano letivo anterior, por causa de Umbridge.

Isso apenas significava que Grace não se lembrava do motivo de recusar ir. Talvez fosse porque era muito tímida para dançar, e não fazia sentido ir apenas para ficar parada. Ou talvez fosse porque tinha muito medo de ser pega. Não tinha nenhuma infração em seu histórico escolar, e isso mudaria tudo.

—Não sei. –Grace mordeu os lábios. –A segurança não está extra no castelo? Vamos ser todos pegos, não vamos?

—Não vamos. –Ele respondeu com segurança.

Fred provavelmente teria continuado a argumentação, talvez descrevendo para ela qualquer que fosse o esquema de chegada que faria com que não fossem pegos, mas o estômago de Grace acabou por roncar alto, e ela foi liberada para o café com a promessa de que ele a abordaria mais tarde para continuarem o assunto.

Assim que se viu na mesa da Lufa-Lufa, Grace passou seus olhos para a mesa mais distante; a da Sonserina. Os alunos sonserinos pareciam como sempre se pareciam: distantes e imersos em suas próprias questões, mas Draco não estava em nenhum lugar à vista. À Grace, só restou seguir seus amigos para a aula de Feitiços, a primeira da segunda-feira.

A aula de Feitiços se passou rapidamente. O professor Flitwick estava dando a eles uma cadeira de latim básico para construção de Feitiços. Não era exatamente agradável, todos aqueles casos e declinações, mas mantinha sua mente ocupada e seus olhos baixos para o caderno de anotações. Grace tinha a impressão de que todos os professores estavam trabalhando arduamente para ensiná-los Feitiços de defesa naquelas épocas sombrias, porque o trimestre de Feitiços Domésticos havia se passado num piscar de olhos.

—Deveríamos viajar no verão. –Amy comentou enquanto ela, Grace, Melinda e Cho andavam em grupo para o Grande Salão, no horário de almoço.

Sua voz era melancólica. Ela tinha estado assim desde que voltara das férias de natal, e ninguém poderia culpa-la.

—Sempre quis visitar a Paris bruxa. –Cho respondeu, com uma voz suave. –O vilarejo de Oisseaux e o submundo de Paris. Circos e pâtisseries.

—Ou a Salem original. –Meditou Melinda. –Ouvi dizer que eles mantêm o palco onde bruxas eram enforcadas e têm atividades de verão; passeio nas florestas de Massachusetts e coisas assim.

Grace sabia perfeitamente bem que, pelo menos para ela, aquela não era uma opção. Dedicaria suas férias a se aplicar no curso de Desfazedores de Feitiços, e, em seguida, provavelmente teria que ficar junto de seus pais para protege-los. Abandoná-los à própria sorte sabendo como trouxas vinham morrendo à torto e à direito não era uma opção.

Não disse isso, entretanto. O planejamento de viagem de meninas era apenas uma ideia distante, e todas elas sabiam disso enquanto discutiam a questão –Grace não era a única em perigo de ser afetada pela Guerra, embora fosse a única com família trouxa.

Na metade do caminho para o Grande Salão, porém, um par de ruivos alcançou o grupo. Grace estava pronta para continuar ouvindo as explicações de Fred sobre a festa à qual ele queria que a lufana comparecesse e, por isso, não pôde deixar de se sentir um pouco passada para trás quando, ao invés de gentilmente a separar do grupo para que ficassem sozinhos, como ele havia se acostumado a fazer, ele se virou para Melinda e Amy.

—Ei, podemos continuar aquela questão? –Perguntou às duas outras meninas, lançando um olhar pelo canto do olho a Grace, que o encarava.

—Ah. –Amy também olhou para a amiga. –Sim. Sim. É... sorte a sua não estar em Trato das Criaturas Mágicas mais, Grace. Fred e George têm ajudado a gente com umas coisas que o irmão mais velho deles sabe sobre dragões.

Mesmo enquanto a amiga dizia isso, Grace trocou um olhar com Cho, que parecia saber tão pouco quanto ela sobre a situação. Os quatro bruxos foram embora, deixando a lufana e a corvina sozinhas para continuarem seu caminho pelo corredor agora vazio. Grace os observou andar, com as costas estranhamente tensas, até que sumissem na esquina, os braços cruzados.

—Humm... –Era Cho ao seu lado, a olhando com um tipo de expressão compreensiva. –Eu posso desmarcar com o Miguel. Eu almoço com você e...

Grace hesitou, se sentindo grata pela oferta. Mas de repente, ela tinha tempo livre sozinha e isso parecia uma oportunidade.

—Na verdade, eu preciso ir na biblioteca. –A lufana já estava dando as costas para a amiga, voltando pelo caminho de onde viera, quando acenou. –Nos vemos mais tarde!

O caminho para a biblioteca pareceu impossivelmente longo conforme Grace esquecia rapidamente a deserção de Fred –ou a forma como ele sutilmente a dispensara –para encher sua mente com o fato de que Draco poderia não estar lá, então ela teria que colocar o castelo abaixo atrás dele, pelo simples fato de que ele não parecera bem da última vez que ela o vira e que não parecia pedir demais o ver de novo.

Ela não precisava ter se preocupado. Na porta da biblioteca, mesmo sob o olhar reprovador de Madame Pince, Cronos sentava-se daquela forma naturalmente elegante que os gatos se sentam; os pelos negros no chão como um tapete e os olhos em cima dela conforme Grace se aproximava.

Ele saiu de sua posição sentada, ficando de pé quando Grace parou de frente para ele e se abaixou um pouco para passar a mão entre suas orelhas, enquanto o gato inclinava a cabeça para a carícia.

—Onde está Draco? –Perguntou, sem se preocupar em soar estúpida ao falar com um animal.

O gato não a respondeu, claro, mas andou para dentro da biblioteca e ela o seguiu de perto.

Como geralmente acontecia na hora do almoço, a biblioteca estava vazia exceto por alguns setimanistas estudando para os NIEM’s. Ela notou Vaisey, da Sonserina, enfiado em alguns livros de herbologia, e Sarah Bailey, irmã de Edward, cochilando sobre uma pilha de enciclopédias de animais mágicos.

O coração de Grace apertou-se com culpa quando ela notou que provavelmente devia estar se dedicando mais exclusivamente aos estudos dos NIEM’s. Mais tarde naquele mesmo dia teria a sua monitoria com Fred, que ultimamente não parecia mais tão séria e focada. Mesmo com isso, pensou que provavelmente não faria mal reunir o grupo de estudos no resto da semana.

No fundo da biblioteca, quase propositalmente escondido numa seção de artefatos mágicos, Draco se inclinava, o cabelo louro pálido caindo em cima do rosto, em um grosso livro cheio de anotações nas margens –feitas por ele, se a pena negra e elegante em sua mão queria dizer alguma coisa. Ele usava uma camisa de gola rulê preta e o cachecol que ela o dera de presente de natal por cima, que, como ela imaginara, ficara perfeito nele. Imediatamente seus dedos foram parar na pedra que Grace ainda não havia tirado do pescoço. Sua garganta se apertou um pouco com a imagem, como se o próprio colar estivesse ansioso para ver o dono original.

A sua aproximação fez com que ele levantasse o rosto, então que levasse mais um segundo para desfazer a pequena ruga entre suas sobrancelhas numa expressão dúbia: feliz e exasperada ao mesmo tempo, encarando com acusação o gato que havia guiado seu caminho até ali. Grace abriu um grande sorriso em resposta ao canto do lábio dele que havia se levantado ligeiramente para ela.

—Belo cachecol. –Riu-se um pouco ao se aproximar e puxar uma cadeira para si. Draco puxou a cadeira para ainda mais perto uma vez que ela se sentou; o barulho da madeira no piso soando alto na biblioteca vazia.

Em resposta, os olhos dele passaram ansiosos pelo seu fino pescoço, e ele abriu um sorriso maior.

—Obrigado. O colar ficou bonito em você.

Grace ficou um pouco autoconsciente demais quando sentiu suas bochechas esquentando. Como um bom cavalheiro, Draco desviou o olhar de seu embaraço, como se não houvesse o notado e, olhando para o livro aberto à sua frente, onde estava um desenho de um armário e um texto ao lado, ele a perguntou:

—Como foi o natal?

A lufana deu de ombros e estendeu uma mão para os pelos negros de Cronos, acomodado em cima da mesa como se fosse seu lugar de direito.

—Animado. Estive nos Weasleys, então foi bastante cheio. Eu nunca tinha...

Sua voz havia começado a morrer quando viu a tensão imediata nos ombros de Draco após a menção aos Weasley, e ela interrompeu a frase quando ele se virou para ela, o rosto sério como o de uma estátua de mármore; os olhos cinzas pareciam estranhamente pálidos contra a pele exangue.

—Você passou o natal nos Weasley? –Ele a repetiu, a voz áspera quando citou o nome da família que a havia recebido tão bem, aumentando uma oitava. Draco balançou a cabeça. –Você não sabe que isso é o mesmo que colocar um alvo em suas costas? –Ele continuou num sussurro furioso. –Se envolver com traidores do sangue e escória...

Pareceu um momento propício para interrompê-lo; antes que ele dissesse algo que ela não poderia perdoar.

—Draco. Eu sou nascida-trouxa. Já tem um alvo em minhas costas.

O sonserino hesitou, abrindo e fechando a boca. Um tom vermelho brilhante havia colorido suas bochechas e ele pareceu desconcertado por um segundo um pouco longo demais. Ele se recostou na cadeira, com um ar derrotado, e fechou os olhos. Grace aproveitou o momento para observar que o rosto dele parecia mais encovado do que uma semana atrás; a pele embaixo dos olhos estava decorada com meias-luas cinzentas de cansaço e seus lábios estavam feridos, como se ele mesmo os houvesse mastigado. Ela estava prestes a perguntar sobre isso quando ele falou:

—Bem, então não há motivo para chamar mais atenção, não é? –Ele suspirou. –Os Comensais não podem manter um olho em todos os nascidos-trouxas do mundo; você pode tentar passar despercebida.

Grace pensou na Armada de Dumbledore e no natal. Certamente ela não era nenhuma guerreira, e talvez nem a quisessem para fazer parte de uma resistência ao Partido das Trevas, mas havia uma sensação boa em sentir-se fazendo parte de algo maior. Um sentimento de pertencimento; para ela, que sempre se sentia presa entre dois mundos, era especialmente apelativo.

—Não acho que posso. –Respondeu calmamente. Draco não abriu os olhos para ela. Grace se inclinou ao lado dele; o tronco roçando no braço dele de forma que a fez se sentir especialmente consciente daquela parte de seu corpo, para olhar o livro que ele estava estudando; apenas uma desculpa para mudar de assunto. Quando se voltou para o sonserino, ele havia aberto os olhos, mirando o exato ponto de contato entre suas roupas, por onde podiam sentir o calor da pele um do outro. Grace pigarreou. –Como foi o seu natal?

O garoto a encarou, apertando os lábios por um segundo como se estivesse tomando a decisão sobre se valeria a pena continuar insistindo naquele assunto. Grace fez sua melhor expressão firme para o desencorajar. Draco suspirou, descolando-se do encosto da cadeira.

—Fiquei em Hogwarts para estudar. –Ele respondeu sem olhar para ela, os dedos indo e voltando na página aberta à sua frente.

—Não quis ver seus pais? –Insistiu.

Draco a lançou um olhar ferino.

—Minha mãe, você quis dizer. –Comentou, lentamente, a voz arrastada. –Não sei se meu pai valeria uma visita à assombrada prisão de Azkaban. Seria mais um halloween do que um natal.

Um arrepio estranho cruzou a espinha de Grace pelo modo como ele disse aquilo. Não medo, não por ela. Havia algo no tom de voz dele que era perturbador.

—Sua mãe, então. –Continuou, com mais leveza. –Não quis visita-la?

Draco piscou, algo bruxuleando em seus olhos, por trás dos cílios, quando ele engoliu em seco.

—Você poderia dizer que eu estava aqui em Hogwarts, estudando, por ela. –Sorriu, secamente. –Deixe o natal para lá, Grace.

—Ninguém deveria passar o natal sozinho. –Ela sorriu para desanuviar o clima. –É desagradável.

Não funcionou.

—Essa nem foi a parte mais desagradável. –Ele murmurou de volta, mais para si mesmo.

Isso encerrava o assunto; mais pelo modo como ele disse do que pela frase em si. Grace tentou imaginar Narcisa Malfoy sozinha no feriado. Ou não estaria sozinha? Afinal, a irmã dela havia fugido de Azkaban no ano anterior. Talvez houvessem passado o feriado juntas. Grace conteve uma careta; subitamente, sentindo-se mal pela mãe de Draco. Que natal assombrado. Ela e sua família de comensais. Mas, também, talvez já estivesse acostumada.

—O que está estudando? –Mudou de assunto.

—Artefatos Mágicos. –Respondeu, virando uma página para mostrar um esquema de um Armário Sumidouro, com todas as suas peças.

Grace apertou a boca, constrangida, enquanto ele explicava sobre a “anatomia” daquele objeto em particular, e os cuidadosos feitiços e equações necessários para que funcionasse à perfeição. A lufana o interrompeu.

—O que é um Armário Sumidouro?

Draco se recuperou da surpresa com rapidez.

—É um artefato mágico que foi muito famoso na Primeira Guerra Bruxa. Bem, são dois armários na verdade, conectados por magia. Você entra em um e pode surgir no outro, a uma localidade muito distante.

—Como um Portal? –Grace inqueriu, com um gesto de mãos.

O sonserino meneou com a cabeça.

—Porém sem hora marcada.

Tendo entendido, ela olhou para ele com ainda mais curiosidade.

—E o que você está pesquisando sobre eles?

Agora o garoto hesitou com cuidado e algo bruxuleou em seus olhos; Grace sentiu o cuidado em suas palavras quando ele respondeu lentamente.

—Curiosidade. –Sua voz era deliberada, assim como seus gestos, mas a expressão em seu rosto o entregava. –A coisa é que... a magia de teletransporte do armário é feita a partir de equações aritimânticas. Então estou tendo dificuldade em resolver algumas questões.

A lufana hesitou. Era como se ela pudesse sentir no ar, com a ponta de sua língua, o gosto de que algo estava errado. Era um gosto metálico e amargo, difícil de engolir. Ainda assim... ainda assim, ela tinha outras questões em mente mais urgentes: os círculos escuros debaixo de seus olhos e o modo como a pele estava se repuxando sobre os ossos, parecendo fina como pergaminho.

—Me dê isso. –Ela puxou para perto o livro. As anotações nas margens eram contas inacabadas; imediatamente ela encontrou vários erros que interfeririam na resposta final. Ela estendeu uma mão para ele, e Draco pousou sua elegante pena negra na palma fria dela, tendo o cuidado de não deixar que suas peles se tocassem. Grace fingiu não notar e começou a resolver as equações com os olhos dele em cima dela. Depois de um segundo, comentou. –Eu realmente gostei do colar. Fiquei me perguntando se deveria ter aceitado. Pareceu caro.

Pelo canto dos olhos, Grace o notou se movimentando para perto.

—Bobagem. –A voz dele era leve. –Estava no cofre há algum tempo; minha mãe jamais usou e jamais vai usar. Parecia desperdício deixa-lo lá. E o dourado da corrente combina com seu cabelo.

A lufana passou a mão pelos fios curtos do cabelo, o movimento sendo assistido pelo outro com cuidado.

—Mas por que fez isso? –Ela insistiu, sem tirar os olhos da somatória que tinha à sua frente.

Draco havia deslizado, em algum momento da conversa, um braço pelo encosto de sua cadeira, e agora Grace estava rigidamente sentada, com medo de se inclinar para trás e afastá-lo para longe. Ele deu de ombros.

—Por que me deu o cachecol?

Essa era fácil. Grace havia escapulido para a Londres trouxa na manhã do dia vinte e quatro, quando Fred e George aparataram para o Beco Diagonal para checar a loja. Grace fora com eles, e os deixara na rua bruxa, fazendo o caminho contrário, na direção de suas raízes. O cachecol estava acomodado num manequim pálido como Draco era; as teclas de piano enroladas ao redor do pescoço sem rosto. Grace correra para a loja lotada imediatamente, esperando que ninguém houvesse feito o pedido antes dela.

—Gosto de você, e o cachecol me fez pensar em você imediatamente.

Agora Grace virou-se para ele, esperando a sua resposta. Draco fitou o tampo da mesa por um segundo, antes de virar para ela seus olhos cinzentos. Não como tempestade, mas como aço –duro e difícil de ler. Grace não o poderia ler naquele momento quando e encarou.

—Gosto de você. –Ele repetiu, simplesmente.

A frase completa era “gosto de você apesar de seu sangue”, mas ambos sabiam disso, e entre eles, algumas coisas ainda não poderiam ser ditas em voz alta.

Era tarde quando Grace deixou Draco sozinho na biblioteca e decidiu voltar ao salão comunal lufano. Ela havia ajudado o sonserino o quanto podia com a resolução de equações, mas haviam outras questões sobre os armários sumidouros nas quais Draco estava interessado e também nas quais ela não poderia ajuda-lo: não sabia nada sobre mecânica bruxa e estado de conversação de madeiras mágicas, afinal.

O caminho da biblioteca ao seu Salão Comunal não era longo; e não havia motivo algum para que fosse atrasado. Não haviam escadas móveis, com degraus trapaceiros que cediam e a deixavam com a perna presa ao chão, nada de corredores sinuosos e escuros que não davam em lugar algum e nada de passagens secretas: apenas quadros, animado em darem aos alunos as direções que precisavam, e archotes amarelados iluminando o corredor.

Grace ficou, então, bastante surpresa ao encontrar o diretor da escola sentado no degrau mais baixo de uma escada de pedra (uma escada imóvel, segura e curta), parecendo pensativo, a mão boa apoiando o rosto e a outra coberta pelas mangas das vestes roxas.

A lufana hesitou enquanto ele não a notava. Não tinha uma opinião formada sobre o professor Dumbledore: ele era uma figura distante que dizia coisas engraçadas no banquete de começo de ano e mais algumas coisas sábias ao final do ano. Mais ou menos como um mestre dos desenhos trouxas de sua infância, tais quais Caverna do Dragão. Certamente não a primeira pessoa a quem ela pensaria em recorrer numa emergência (essa, ela supunha, seria a vice-diretora, que, ao contrário do senhor à sua frente, estava sempre à vista pelo castelo).

Ainda assim, ela deu alguns passos para perto do bruxo.

—Professor Dumbledore? –Chamou baixo, para o caso de ele estar cochilando, embora sua postura não indicasse isso. Imediatamente, ele virou seus olhos azuis para ela, e pareciam bem acordados. –Precisa de ajuda, professor?

Ele deu um tipo de riso rouco: ria de si mesmo.

—Na verdade preciso, Srta. Moore. –Admitiu. –Acabei de chegar de um alonga viagem e preciso chegar ao meu escritório. Fiquei, porém, detido por essa pequena, mas surpreendentemente difícil, escada.

Grace num instante se adiantou e, com cuidado, passou o braço do bruxo mais velho por cima de seu ombro, o apoiando na subida. Ela o fez lentamente, a passos curtos e pacientes, e o professor, embora ela notasse que parecia cansado, não reclamou da distância. Quando ele parecia muito cansado, ela parava um pouco e tagarelava sobre o castelo e seus cantos desconhecidos e surpreendentes enquanto ele recuperava o fôlego. Logo, os dois estavam de frente para a imponente gárgula que dava passagem para o escritório do diretor; um lugar aonde ele jamais havia ido.

—Balinhas ácidas. –O diretor disse com uma voz surpreendentemente firme, e Grace o apoiou no caminho acima também quando a gárgula os deu passagem.

Os lampiões no escritório do diretor estavam acesos e os retratos de ex-diretores roncavam suavemente em suas molduras. Finos instrumentos de prata cobriam todas as superfícies disponíveis e havia um poleiro para pássaros vazio junto à mesa principal, assim como um quite de tricô, com novelos e agulhas grossas, para onde Grace guiou o diretor e o sentou. Ele suspirou pesadamente.

—Acredito que Severus seja capaz de me fazer uma boa poção para reposição de energia. –Comentou, alegremente.

—Quer que eu o vá buscar, diretor? –Grace se adiantou.

—Ah? Não, não, tenho meus modos para contatá-lo, Srta. Moore. –Ele agitou a mão boa brandamente e fez um gesto para a cadeira vazia do outro lado da escrivaninha. –Sente-se, descanse um pouco. Acredito que para um velho magrelo, eu seja um grande peso a carregar.

A autodepreciarão não parecia verdadeira, mas Grace mordeu os lábios mesmo assim.

—Para um bruxo tão poderoso, o senhor é surpreendentemente leve, professor. –Sorriu um pouco com sua gracinha.

Dumbledore riu. Então a olhou com alguma curiosidade, como se jamais houvesse passado pela sua cabeça qualquer coisa sobre ela.

—É muita gentileza sua, Grace. Posso chama-la assim? –Como Grace fez que sim com a cabeça, ele continuou. –Me desculpe a indiscrição, mas você estava na biblioteca junto ao senhor Malfoy?

A Grace, respondeu o encarar. Sabia que devia responder, e que não estava fazendo nada demais, mas algo na intensidade da pergunta a assustara.

—Estava. –Disse. Eles passaram um segundo em silêncio, então ela acrescentou. –Somos amigos. Gosto do Draco.

—Ah, sim. –Foi a resposta de Dumbledore. –Acredito que goste. Não é fácil, entretanto, é, senhorita? Ter um amigo do outro lado de uma guerra?

A hesitação de Grace foi mais aparente agora, enquanto ela enxugava as mãos nos jeans. Era uma questão sempre latente e ignorada entre eles desde que começaram a passar tempo juntos. Os únicos momentos em que Draco se referia à guerra lá fora era quando agia de acordo com os interesses de manter Grace protegida: a avisando para ficar longe dele e dos Weasley, por exemplo.

Dumbledore não esperou ela responder para continuar, o que foi uma coisa boa, pois Grace não tinha resposta para aquela pergunta.

—Já estive na sua situação. –Comentou, os olhos distantes. –Tive um amigo próximo, próximo demais, talvez, a quem eu muito amei. Mas, novamente, ele estava do lado oposto e isso nos separou irreversivelmente, eu receio. Confiamos um no outro; então fomos a ruína um do outro, eu diria, arriscando soar dramático.

Um bolo havia crescido em sua garganta. Grace conhecia bem aquela história. Estava em todos os livros de história, afinal. A Guerra das Primaveras; a ascensão e queda de Grindewald. O perigo da exposição, os famosos anos vinte; um momento de tensão entre a comunidade bruxa e trouxa.

—Está dizendo que eu e Draco estamos seguindo os seus passos? –Inqueriu, quando encontrou sua voz.

Dumbledore a olhou com verdadeira surpresa agora, uma surpresa quase inocente.

—Não, não! –Ele riu suavemente. –Ah, não, Grace. Você é mais gentil do que eu era, e Draco menos obstinado do que meu amigo foi. Não. Acredito que as coisas hão de funcionar de maneira bastante diferente para vocês. Acho, na verdade, que sua amizade será de crucial importância para o senhor Malfoy.

Para a próxima coisa que disse, Grace precisou de coragem. Mas, no fundo, sabendo que nenhum de seus amigos sabia da amizade entre eles, e se soubessem, não aprovariam, a aprovação de Dumbledore a deu coragem.

—Draco esconde coisas de mim. Acho que não tenho sua confiança como o senhor pensa, diretor.

O olhar de Dumbledore era inteligente.

—Acredito que ele confie em você. Algumas coisas mantemos escondidas por vergonha, ou receio do abandono. Draco não tem contado com muito apoio recentemente, e acho que teme perder o seu. –Ele estudou o rosto de Grace, que olhava pensativamente para suas próprias mãos. Notando que ela não diria mais nada, deu o assunto como encerado, e se virou para a cesta de tricô em cima da mesa. –Ah. Uma pena. Descobri, essa semana, que com essa mão não consigo mais tricotar uma meia. Veja! –Ele puxou uma peça roxa e amarela de dentro do cesto. –Terrível pensar que deixarei esse cachecol sem um par de meias combinando. Gosta dele?

Grace não pôde conter um sorriso ao mirar a peça em roxo escuro e amarelo ocre.

—É marcante. –Admitiu. –É bastante bonito, diretor.

—Bem, agora é seu. –Ele respondeu alegremente a passando a peça. –Não vou mais tomar seu tempo. Agradeço pela ajuda, Srta. Grace, e pela conversa. Me deu muito sobre o que pensar.

Percebendo ter sido dispensada, a menina se levantou de sua cadeira e fez um gesto de cabeça para o diretor.

—Me mande uma mensagem quando precisar de ajuda, diretor. –Sorriu levemente. –Obrigada pelo cachecol.

E saiu porta afora sem olhar para trás.

Notas finais
Então? Gostaram, não gostaram? Vejo vocês na próxima semana! XOXO