Lados e Escolhas
8 Segredos e Coisas Escondidas
Notas iniciais
“The truth is hiding in your eyes
And it's hanging on your tongue
Just boiling in my blood
But you think that I can't see”
A chegada de fevereiro finalmente derreteu a neve em torno da escola, substituída por uma umidade fria e ventosa. Nuvens cinza-chumbo ou arroxeadas sobrevoavam o castelo, baixas como mau-agouros, e havia uma eterna garoa caindo sobre os terrenos e as torres, deixando tudo escorregadio e lamacento.
A única aula que Grace tinha do lado de fora era herbologia, e eles se reuniam todos juntinhos na estufa quente, com o agradável som de chuva batendo no vidro do lado de fora, todos silenciosamente agradecidos em terem acabado o trabalho com plantas aquáticas. Sendo herbologia uma aula que dividiam com a Sonserina, Grace não pôde deixar de notar que, após o fim do horário, Edward sumia no meio das capas, para longe de seu alcance, e do de Amy.
Foi na primeira semana de fevereiro que ela, deixando Amy para trás, o seguiu a passos apressados, e o encontrou mais na frente, andando ombro a ombro com Vaisey, e se aproximou dos dois com deliberação. Ficou aliviada quando, mesmo estreitando os olhos, Edward não pareceu nada incomodado com sua aparição. Vaisey também não pareceu particularmente surpreso. Era um rapaz troncudo, de cabelos curtos e feições brutas, mas no geral educado e bom companheiro de turma.
—Não acredito que estamos vendo plantas aéreas. –Comentou com os colegas, tendo jogado a sua capa por cima da cabeça para se proteger da garoa. –As aquáticas foram ruins, mas se me pedirem para subir numa árvore agora...
—Estou mais preocupado com o próximo trimestre. –Vaisey acrescentou. –Já tivemos aquáticas, aéreas... qual o próximo passo? Túneis subterrâneos para plantas do submundo? Vamos ao Hades?
Grace não pôde deixar de sorrir para ele; e notou que Edward observava a interação com interesse exagerado, olhando de um para o outro como se esperassem que se desgostassem e fizessem de sua vida um pouco mais difícil.
Mais tarde, durante o jantar, ela o fez admitir que eles vinham estando juntos –o que explicava os sumiços constantes de Edward –mas não romanticamente juntos. Nenhum dos dois havia dado nenhum passo nessa direção, e Edward se sentia muito inseguro sobre isso para o fazer. Grace considerou falar com ele sobre Draco, afinal, estando num relacionamento com um sonserino, ele era a pessoa com mais probabilidade de entender. Não que a própria Grace estivesse num relacionamento –mas Draco vinha faltando a várias aulas, pelo que ela sabia, parecia cada dia mais cansado e quieto. Principalmente quieto.
Algumas vezes eles iam até a sala precisa, onde ele conjurava a mesma sala de sempre. Draco a vinha ajudando nas lições de piano, mas, ao menos para Grace, era apenas uma desculpa para que suas mãos pudessem se tocar sem que nenhum dos dois se sentisse culpado sobre isso. Algumas vezes eles dedilhavam, juntos, o piano sem nenhuma música em particular. Às vezes ela passava as partituras e ele tocava.
Mas a lufana não comentou nada disso com o amigo.
Ao invés disso, no fim do jantar, ela olhou por cima de seu ombro para a porta do Grande Salão e mastigou pensativamente a metade do muffin que os dois haviam dividido sobre a mesa.
—O que está acontecendo entre você e Weasley? –Perguntou.
Grace se virou. Fred olhava para ela da porta do salão; tinha um par de livros em seus braços. A lufana também engoliu seu pedaço de muffin de uma vez e bebeu suco de abóbora para que escorregasse por sua garganta.
—Monitoria. –Respondeu. Então começou a sair do banco, catando suas coisas. –Nos vemos mais tarde.
Naquela noite de segunda, Fred havia separado uma aula teórica, o que foi uma coisa boa, tanto porque Snape estava ameaçando-os com um teste sobre criaturas das trevas, quanto porque ela estava cansada. Ao chegar na sala de sempre; onde eles se sentavam na escrivaninha ao invés de numa das cadeiras e bancas destinadas aos alunos, ela tirou as botas e puxou os pés cobertos por grossas meias para perto de si.
—Criaturas das trevas. –Fred anunciou, puxando as penas dela para o colo dele e começando a estalar seus dedos dos pés cobertos pelas amarelas meias felpudas. O som de seus ossos estalando preencheu a sala enquanto ele continuava. –Podemos começar com inferi, que tal?
A lufana estava prestes a confirmar, arrumando as costas para a pequena aula, quando alguém bateu na porta. Ela e Fred trocaram um olhar; em seus quatro meses de monitoria, ninguém jamais havia interrompido suas noites de segunda-feira. Grace puxou os pés do colo de Fred para que ele se levantasse e fosse até a porta, com a varinha segura em mãos.
Era uma voz feminina do outro lado.
Grace não conseguia ouvir dizer o que falavam, então, começou a se inclinar para frente. Foi naquele momento que as vozes cessaram e Fred entreabriu a porta o suficiente para Grace notar que, ainda nos cabelos castanhos sem vida, era Ninfadora Tonks do outro lado, usando jeans e uma camiseta d’As Esquisitonas. As meninas acenaram uma para a outra. Fred se voltou para ela.
—Grace, eu volto em um segundo, tudo bem? –Ele se inclinou de volta para a sala, ela pensou que para pegar algo em cima da mesa da qual fosse precisar. Em vez disso, ele a deu um beijo nos cabelos e juntou-se mais uma vez à outra garota no corredor, deixando-a sozinha ao fechar a porta.
Ele não levou um segundo. Sem a sua ajuda, Grace decidiu apenas ler o que havia no livro-texto indicado sobre o assunto de criaturas das trevas. Terminou todo o capítulo de quarenta páginas e o ruivo não voltou, então ela voltou ao começo, com a caneta dessa vez, sublinhando as partes que achou mais importantes de serem lembradas. Eventualmente, a lufana acabou por adormecer por cima do livro, sendo acordada algumas horas depois por uma voz suave e uma mão pesada, mas quente e macia, em seu ombro.
—Acorde, Grace. –Fred murmurou em seu ouvido, a fazendo se levantar um pouco grogue, segurando-se na mesa para não perder apoio. –Venha. Merlin, já passou muito do horário de se recolher.
Grace deixou que ele a ajudasse a se levantar e apoiou-se no ruivo, os olhos fechados à meio-mastro.
—Estava esperando você. –Contou a ele. –Você disse que voltava. Aconteceu alguma coisa? Sua família...
—Minha família está bem. –Ele respondeu rapidamente. –Eu voltei, como prometi, apenas um pouco tarde.
—O que houve? –Ela insistiu, os dois já no corredor, fazendo o caminho para o seu Salão Comunal. Fred esfregava a bochecha dela, manchada de tinta, enquanto eles andavam.
Ela sentiu a hesitação dele na forma como seus músculos, meio a carregando no corredor, se contraíram.
—Tonks precisava de algo. –Fred deve tê-la visto encher a boca de ar para fazer mais perguntas, porque de repente, parou. –Você está entregue.
Surpresa, ela se virou nos braços dele para notar que estava mesmo de frente para os barris que eram a entrada da toca dos texugos. Seus olhos se estreitaram em desconfiança.
—Você sabia esse tempo todo?
Ele sorriu lateralmente.
—Claro que sabia, Grace. –Respondeu, suave. –Nos vemos amanhã, certo?
—Fred... –Ela tentou insistir, mas estava tão cansada que pareceu não valer a pena. Grace espremeu os lábios de forma que ele percebesse que a deixara insatisfeita, mas deu as costas e se virou para o barril correto. –Tenha uma boa noite, Fred.
Grace esperou que ele talvez voltasse para beijar seus cabelos como fizera mais cedo, mas Fred não fez nenhum movimento em sua direção, embora tenha ficado parado a observando sumir para dentro do Salão Comunal sem responde-la propriamente, mas a observando com um tipo de expressão temerosa que Grace não teve energia o suficiente para entender.
Apesar de sua promessa, Fred passou o resto da semana bastante sumido. Grace assumiu que estava arrumando os preparativos para a festa que ele prometera dar um mês antes. Agora que fazia os cálculos, Grace percebia que seria na noite deu seu aniversário, mas não poderia acreditar que as coisas estavam relacionadas. Fred não tinha como saber.
Ela aproveitou a distância de Draco e o sumiço de Fred para gastar seu tempo livre na biblioteca com os amigos, majoritariamente estudando. Estava bastante segura em Aritimância, Transfiguração e Feitiços, mas, apesar das monitorias, ela ainda havia sido cruelmente espremida pelo professor Snape na última aula de Defesa Contra as Artes das Trevas.
Os alunos so sétimo ano estavam vendo Maldições Imperdoáveis; apenas na teoria, nada de prática, e os modos de bloqueá-las com outros feitiços ofensivos. O professor Snape estava explicando que, às vezes, feitiços ofensivos lançados por diferentes oponentes se conectavam. Nesses casos, o oponente mais poderoso poderia voltar ambos os feitiços contra o mais fraco. Isso acontecia com mais facilidade entre varinhas do mesmo núcleo, mas poderia acontecer com qualquer um. O mais seguro, o professor explicava, no caso de um oponente mais poderoso, era tentar quebrar a ligação e seguir com o duelo livre.
Depois de explicar os pormenores, o professor afastou as cadeiras e mandou que fizessem duplas e que tentassem criar aquela ligação, mas apenas com feitiços de ataque benigno. Grace e Melinda haviam se postado de frente uma para a outra e começado um duelo cheio de “Expelliarmus” e “Estupefaças”, de forma que era pouca a probabilidade de alguma delas parar na ala hospitalar.
Depois de meia hora de aula, ainda não haviam conseguido uma ligação, embora a maior parte de seus colegas tivessem. Snape estava andando na direção delas com um passo furioso quando, nervosa, Grace o havia estuporado sem querer. A sorte, ela pensava, era que tinha um péssimo feitiço estuporante, que apenas o jogara alguns metros para trás, sem realmente machucá-lo ou deixa-lo desacordado. Isso não havia feito do professor Snape mais simpático e a resposta dele havia sido uma série de impropérios insinuando sua incompetência no assunto, um deles mesmo a comparando com Neville Longbottom –o que ela supunha, era o pior que ele poderia dizer de um aluno.
Era justamente por aquele motivo que Cho havia passado a maior parte da tarde a ajudando com alguns feitiços mais básicos, como o estuporante e o desarmante. À noite, as duas meninas se juntaram aos amigos na biblioteca, onde Melinda, Amy e Edward haviam se juntado a Cadwallader e Hopkins, dois setimanistas da Lufa-Lufa que faziam parte do time de quadribol, para revisar a matéria de herbologia.
—Verdadeiro ou falso: plantas aéreas sempre precisam de uma planta suporte onde se trepar? –Cadwallader perguntou em voz alta para ninguém em particular.
Grace coçou o nariz com sua pena um segundo antes de responder.
—Falso. –Respondeu sem tirar os olhos do próprio livro. –Algumas plantas tais quais os pêssegos levitadores são aéreas por sua própria magia.
O outro garoto fez uma anotação na margem de seu exemplar de Guia de Herbologia Avançada, então se voltou para ela mais uma vez.
—Ah, Moore, obrigada por me convidar para sua festa de aniversário. –Comentou alegremente. –Fred e George me passaram o convite mais cedo.
A lufana sorriu um sorriso tenso e olhou ao redor, pronta para desmentir o convite, afirmando que a festa nada tinha a ver com seu aniversário que estava de fato chegando quando encontrou todos os seus amigos encarando Cadwallader com olhares pouco amigáveis.
—Não acredito nisso. –Ela murmurou, mesmerizada. –De quem foi a ideia?
—Fred. –Amy respondeu depois de um minuto. –Ele estava planejando a surpresa há algum tempo.
À palavra surpresa, ela lançou mais um olhar ao lufano delator, que encolheu os ombros miseravelmente. Grace, por outro lado, começou a juntar suas coisas e enfiá-las dentro da bolsa com força.
—Para onde vai? –Edward perguntou, estendendo a mão para segurar o seu pulso antes que saísse sem explicações.
Grace trocou o peso de um pé para o outro.
—Preciso falar com Fred. –Respondeu, sem graça. –Eu fico realmente lisonjeada, eu apenas...
—Não quer se meter em problemas? –Melinda completou para ela.
—Não. –A lufana mordeu o lábio. –Apenas não quero uma festa em minha homenagem. Por que não uma festa qualquer que cai coincidentemente no dia do meu aniversário?
—Acredite em mim, a maioria das pessoas vai apenas pela festa. –Cho murmurou um pouco para si mesma, revirando os olhos. –Todo mundo quer um motivo para curtir um pouco, Grace; apenas os dê um.
Agora ela abriu e fechou a boca, considerando o assunto. De certa forma, não se importava com a festa; apenas não queria a atenção necessária para um aniversário. Até então, seus aniversários sempre haviam sido eventos quieto entre ela, Amy e Edward no Salão Comunal da Lufa-Lufa e ela não tinha certeza de que queria mudar aquilo.
Estava prestes a dar aquela explicação quando James Vaisey notou o grupo deles e foi se aproximando, aparentemente sem ligar que não estivessem apenas ela e Edward –as duas pessoas com quem ele parecia vir passando seu tempo –mas também todo o resto do grupo de amigos.
—Ei. –Ele os cumprimentou com leveza, deixando a bolsa do lugar que Edward acabara de conseguir para ele ao seu lado. –Alguém fez o dever de Runas Antigas?
Ele perguntou isso olhando para Cho, a única entre eles que seguia na matéria, e Grace aproveitou a distração para escapulir silenciosamente, embora, prestes a chegar à saída, ainda tivesse ouvido James perguntar se dissera algo errado que a fizera sair sem se despedir. Grace fez uma anotação mental para ser especialmente calorosa da próxima vez que o visse.
Estava justamente pensando em “próxima vez que o visse”, sem notar que seus pensamentos de desviavam de Vaisey para outro sonserino que conhecia, quando notou, no fim do corredor, uma figura alta de cabelos quase brancos de tão pálidos, virar na esquina em direção à ala leste do castelo. Grace soube imediatamente que se tratava de Draco pelo modo como o colar de esmeralda esquentou em seu pescoço, do jeito que sempre fazia quando ela se aproximava do sonserino, mas ela não pensava muito sobre isso.
Ciente de que devia estar procurando Fred, Grace colocou aquela questão mais no fundo de sua mente e apressou o passo, cortando por entre os alunos que vinham na direção contrária, para a biblioteca.
Por outro lado, em contraste, o corredor aonde Malfoy havia acabado de sumir estava vazio, exceto por ele e um grupo de amigos.
Sem que eles ainda a tivessem notado, Grace diminuiu o passo, de repente hesitante, mas sem querer dar as costas. Draco estava virado para o outro lado e não a viu, mas Daphne Greengrass olhou para ela e baixou o tom de voz, embora Grace ainda a pudesse ouvir de onde estava.
—Se você nos dissesse o porquê de estarmos fazendo isso...
—Ou simplesmente aparecesse nas aulas. –Parkinson adicionou. –McGonagall está furiosa com você.
—Não tenho tempo para gastar indo nas aulas. –Draco respondeu secamente, se agarrando a um estranho volume na frente de suas vestes. –E eu não estou pedindo para me ajudarem. Não precisam me passar as atividades.
—E deixar a diretora da Grifinória tirar ainda mais pontos da Sonserina. –Zabini interferiu. –Realmente, Draco.
O volume nos braços do sonserino de cabelos claros se moveu, virando-se na direção de Grace, e ela percebeu que Draco carregava Cronos consigo. O gato mirou os olhos nela e miou alto, mostrando os dentes, chamando atenção para si um segundo antes de pular do colo do dono e andar rebolando até os pés de Grace, que estava praticamente parada no corredor, sem ter certeza de como agir –ou se deveria se aproximar.
Isso tornou a atenção dos cinco sonserinos ali parados de volta para ela. Draco franziu as sobrancelhas quando o gato se afastou, mas assumiu uma expressão mais relaxada uma vez que notou que o alvo do bicho era ela. Embora Cronos estivesse miando em seus pés por atenção, ela ficou congelada em seu lugar enquanto o louro se destacava no grupo e andava para ela, sob o olhar curioso ou entretido dos amigos.
Draco suspirou e deu as costas aos amigos deliberadamente, sem nenhuma expressão de reconhecimento em sua direção. Se abaixou à sua frente e pegou o gato nos braços mais uma vez; o pelo negro do bicho fundindo-se ao tecido negro de sua camisa. Grace estava congelada, majoritariamente de embaraço. Não esperava encontra-lo com os amigos ao vir atrás dele –ele vinha tão distante dos colegas com quem sempre andava que Grace raramente pensava neles agora. Ao invés de dá-la as costas e fingir que não a conhecia, como ela esperava que fosse acontecer –afinal, eles nunca haviam conversado sobre serem “amigos oficiais”, os olhos cinzentos de Draco encontraram os dela.
Grace levou um segundo para perceber que ele estava despejando o gato em seus braços, do jeito que se passa um bebê de um braço para outro. Grace não deixou Cronos cair por um triz, mas fez um berço com os braços para receber o gato robusto enquanto Draco se virava de novo para os amigos, dessa vez com uma mão nas costas de Grace a incitando a andar pelo corredor.
—Converso com vocês mais tarde. –Ele falou para os amigos, um tipo de sorriso jocoso brincando em seus lábios, mesmo quando ele se virou para a expressão profundamente desconfiada de Grace.
Embora ele houvesse rido alto quando viraram o corredor seguinte –Grace não sabia do que ele estava rindo, mas era um riso nervoso e ela se perguntou se tinha alguma coisa a ver com a expressão dos amigos que ele acabara de deixar para trás –os dois continuaram em silêncio enquanto ele a guiava para seguir em frente. A lufana não pensou muito para onde estavam indo, estava distraída com as possíveis repercussões do que ele havia acabado de fazer. Pensou se isso significava que seus amigos logo também descobririam com quem ela vinha matando tanto de seu tempo –e se perguntou, um pouco preocupada, o que eles achariam disso.
Grace já havia começado a reconhecer o caminho na direção de Sala Precisa quando Draco riu um pouco mais, ligeiramente histérico.
—O que é engraçado? –Ela perguntou, deixando que um lado de sua boca se levantasse um pouco quando garoto se virou para ela.
Os dois estavam parados em frente à Sala Precisa agora, e Draco fechou os olhos, sem responder, fazendo o pedido.
A sala que se abriu para eles não foi a sala usual. Ao invés do papel de parede de lírios e pavões que descrevia a árvore genealógica de Draco, a sala era bem maior e ampla –tão grande que Grace não conseguia definir seus contornos; e estava apinhada de objetos. Pequenos e grandes eles se empilhavam em ilhas altas e às vezes contínuas. Draco foi na frente, abrindo caminho pelo labirinto como se este fosse familiar, mas Grace o acompanhou, segurando Cronos ainda apertado no peito, mais lentamente.
Com o braço livre, ela correu os dedos pelos objetos empoeirados: um mapa astral em 3d, um bisbilhoscópio e um espelho de bolso com a superfície arranhada. Draco andava à sua frente, mais lentamente, observando-a pelo canto dos olhos. Grace parou, ajeitando o gato quieto nos braços; Cronos estava com as orelhas em pé, mas o corpo todo mole e relaxado em seu abraço.
—Nós poderíamos sair, sabe. –Grace disse em voz alta. –Ao invés de ficarmos escondidos aqui e na biblioteca. Aliás, que lugar é esse?
Draco virou o rosto na direção dela com uma careta.
—É um lugar para guardar coisas. –Respondeu rapidamente, antes de seguir para o próximo tópico. –Não estamos escondidos. Apenas... não tenho sentido muita vontade de ver pessoas. Prefiro que fiquemos apenas nós dois. –Ele deixou que Grace absorvesse as palavras em silêncio e, quando ela nada respondeu, suspirou e continuou. –Para onde você gostaria de ir, de qualquer forma?
Ele havia continuado a andar e Grace se apressou para acompanhar seu passo longo –cada passo lento dela era equivalente a dois de seus passinhos mais apressados.
—Por que não vem para Hogsmead comigo? –Perguntou. –Na próxima visita. Meu amigo Edward provavelmente vai com James Vaisey, também da Sonserina. Venha conosco.
O garoto fez uma careta, se adiantando em direção a um grande armário meio coberto por um pano branco cheio de manchas amareladas.
—Você ouve o que eu digo? –Ele perguntou, mas não de forma grosseira. –Você não pode ser vista comigo. E, de qualquer forma, estou proibido de ir a Hogsmead porque não tenho feito as tarefas de Defesa Contra as Artes das Trevas e Snape não está satisfeito comigo.
—Bem, seus amigos acabaram de nos ver juntos. –Grace apontou. Tinha ficado suficientemente surpresa nas semanas anteriores que ninguém fosse capaz de notar a amizade deles, além de Dumbledore. De alguma forma, eles haviam manejado de estarem juntos sem parecer que estavam; ao vê-los, em silêncio, trabalhando cada um em seus projetos na biblioteca, ninguém assumia que estava interagindo.
—É, mas isso vai ser um problema meu, não seu. –Draco comentou, parecendo, de novo, divertido de um jeito sombrio.
—Certo. –Grace cedeu. –Sobre Hogsmead...
Draco estava distraído puxando a aldrava para abrir o armário; e houve um barulho de madeira raspando em madeira quando ele conseguiu, e espiou para dentro. Grace não pensava em si mesma como intrometida, mas, com curiosidade, se inclinou junto com ele, afastando-se rapidamente ao notar o conteúdo.
Um pequeno pássaro cinza-azulado, ou o corpo de um, estendia-se contra a madeira escura, parado demais para que parecesse natural. Grace ficou um segundo encarando, esperançosa de notar o movimento de uma respiração, mas não houve nenhum. Draco, por outro lado, deixou a cabeça cair entre as mãos, virando-se de costas para a visão e se encostando no armário.
Por entre seus longos dedos pálidos, Grace via um vinco em sua testa e os olhos fechados em um aperto frustrado. Sem pensar sobre isso, ela fechou com um passo a distância que os separava, passando um braço pelos ombros dele e puxando-o para baixo, de forma que ele encostasse a cabeça nela. Draco ficou rígido por um segundo, sem respirar, mas cedeu, e Cronos se remexeu entre eles, sufocado. O sonserino se afastou dela, os olhos cinzentos no gato com um estranho olhar. O gato também o encarava.
—Você não sabe que não deve criar animais em lugares fechados, Draco? –Ela perguntou, suavemente, em tom de lamentação. Não sabia se por Draco ou pelo pássaro.
Draco se afastou um pouco mais e, sem olhar para trás, fechou a porta do armário com o animal ainda lá dentro. Grace quis o impedir, sugerir que pegassem o pequenino corpo coberto de penas e levassem para o lado de fora, onde poderiam o colocar debaixo da terra fofa ao redor do lago. Não o fez, entretanto.
Grace o seguiu no caminho labiríntico de volta para a saída da sala quando Draco começou a andar, agora tendo tirado Cronos dos braços dela. Seus braços ficaram de repente frios sem o gato a aquecendo com seu pequeno corpo peludo, e a falta do peso leve foi estranha por um segundo.
—Onde esteve essa semana? –Perguntou, mudando de assunto. –Não tenho visto você.
—Aula de aparatação. –Ele respondeu com um tom de desprezo na voz. Mesmo sem ver seu rosto, Grace podia imaginá-lo revirando os olhos cor de chumbo.
—Ah. Tem ido bem?
—Melhor seria sem Potter abelhando o que falo com meus amigos. –Ele resmungou.
—Harry? –Grace perguntou, o nome do grifinório saindo de seus lábios com uma familiaridade que criou um vinco entre as sobrancelhas de Draco. –O que ele quer com você?
—Não tenho pretensão de entender o que se passa na cabeça do testa-rachada. –Draco apertou os lábios e Grace soube que ele estava mentindo.
Eles estavam do lado de fora agora, e Grace soube que tinha pouco tempo para convencê-lo, e os dois logo estariam seguindo caminhos diferentes pelo castelo, seguindo a agenda de Draco que envolvia os dois não sendo vistos juntos.
—Draco. –Chamou antes que eles virassem a esquina do corredor e fosse para caminhos diferentes. –Vai haver uma festa na sexta. Por que não vem para ela, então?
Os olhos cinzentos dele brilharam de interesse desproporcional, por um instante, deixando Grace curiosa. Ele colocou a mão livre no bolso.
—Sexta? Uma festa? Isso é permitido?
—Não muito. –Ela admitiu. –Então?
—Vou estar ocupado na sexta. –Ele disse, pensativo, uma expressão especulativa em seu rosto. –Qual a comemoração?
Grace cruzou os braços na frente do peito.
—Meu aniversário.
Draco, que devaneava, virou os olhos para ela, abriu e fechou a boca. Grace o encarou de volta, um pedido em sua expressão. Ele pareceu dividido por um segundo longo demais; os dois se encarando no corredor vazio. Cronos miou em voz alta, quebrando o momento.
—Não posso. –Ele repetiu, mas agora fez uma careta, como se quisesse dizer outra coisa. –Mas vejo você até lá.
Sem se despedir adequadamente, ele virou no corredor, andando a passos largos, quase fugindo. Grace se perguntou se fugia dela.
No fim, ela desistiu de tentar convencer Fred a dar outro motivo à festa. Apreciando a sua cessão, Fred havia passado todo o resto da semana até a chegada da sexta grudado em seu calcanhar. No começo, pareceu apenas para provoca-la com questões relativas à festa. “Deveríamos convidar Zacharias Smith? ”, ele perguntou um dia, ao que Grace fez uma careta e disse que ele era o organizador.
Então, lentamente, quase como se fosse seu curso natural, as perguntas foram mudando de tom, tornando-se verdadeiras, mas também pessoais.
—Qual a sua cor preferida?
Grace e Fred estavam deitados no gramado na orla da floresta proibida, as cabeças apoiadas nas mochilas, lado a lado. Não havia chovido naquele dia específico, mas o céu estava cinzento e prometia uma noite de tempestade. Eles estavam estudando –ou ao menos ela estava. Fred havia largado o livro de Transfiguração e começado a fazer desenhos num pedaço limpo de pergaminho, enquanto Grace estudava Aritimância.
A pergunta não era particularmente profunda, mas ela baixou o livro para pensar sobre isso. O céu cinzento ajudou imediatamente na resposta.
—Amarelo ocre. –Respondeu, confiante.
Fred franziu a testa.
—Isso é específico. –Comentou. –Algum motivo em particular? É por causa da Lufa-Lufa?
Grace tentou dar de ombros, mas foi impossível em sua posição deitada, então se levantou –apoiando-se nas mãos e se virou para ele.
—Cresci em Londres, onde tudo é cinza ou vermelho. –Ponderou, lembrando-se de si mesma, no banco de trás do carro do pai, brincando sozinha de encontrar o máximo de coisas amarelas no caminho; carros amarelos, casacos amarelos, guarda-chuvas amarelos. Sua primeira magia havia sido de mudar o telefone público na esquina de casa de vermelho para amarelo, o que deixou as autoridades locais suficientemente confusas, já que não havia sinal de pintura. –Amarelo é confortável.
Grace estava com os olhos no rosto dele –as sardas, os olhos castanho-esverdeados a olhando de volta pensativamente. Fred assentiu lentamente.
—Amarelo é confortável. –Concordou, os olhos na blusa amarela de mangas que ela havia escolhido para o dia frio. Grace puxou o casaco para mais perto de si. –Livro preferido?
Não precisava pensar sobre isso.
—Nárnia. Ou O Mágico de Oz. –Ponderou. –Peter Pan, talvez.
—Sobre o que são?
—Magia, principalmente. –Encolheu os ombros, dando uma risadinha. –Eu os lia nas férias, com medo de acordar e descobrir que Hogwarts não era real. São livros infantis, porém. –Grace se perguntou se eles ainda significariam a mesma coisa se ela os lesse agora. Se entenderia os motivos de Edmundo e Wendy. Se sentiria injustiça por Susana.
—Personagem preferido?
—Isso é um questionário? –Ela se remexeu, sem graça.
—Estou curioso.
—Sobre o quê? –Grace corou, olhando para longe.
—Sobre você e sua vida fora de Hogwarts. –Ele a cutucou quando Grace continuou com a cabeça virada. –Vamos! Como são os personagens trouxas? Não dá para confiar nos quadrinhos de Rony, de Martin Miggs, o Trouxa Pirado.
Grace suspirou.
—Isso parece tão ofensivo. –Foi seu comentário, mas se virou para Fred, que não havia tirado a mão de perto dela, depois de a cutucar. –Certo. Personagem preferido... provavelmente Edmundo. –O ruivo fez uma expressão de curiosidade, então ela continuou antes que ele tivesse que perguntar. –Edmundo não é bem um vilão, mas ele faz algumas escolhas erradas que machucam e colocam em perigo pessoas que o amam. Mas ele se redime. Volta atrás e luta a última batalha, e é crucial para que tudo dê certo.
Mais uma vez, ela virou o rosto, mas agora constrangida consigo mesma. Havia algo muito honesto sobre o que ela dissera, mas não sabia qual parte especialmente o fora. Fred não tentou chamar sua atenção dessa vez, mas tampouco voltou ao que estava fazendo antes. Grace suspirou, tocando a face para testar sua temperatura, esperando não estar muito quente, quando se voltou para ele mais uma vez.
—Como vai o planejamento da minha festa?
Fred fez como ela e se apoiou nas mãos, levantando o tronco de forma que ficassem quase na mesma altura.
—É uma surpresa. –Respondeu. –Apenas confie em mim.
Inquieta, Grace fez que sim com a cabeça e se deixou cair na grama de novo, puxando o livro para que cobrisse sua expressão.
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