Lados e Escolhas
21 A Comissão de Registro dos Nascidos Trouxas
Notas iniciais
“Soldier keep on marchin' on
Head down 'til the work is done
Waiting on that morning sun
Soldier keep on marchin' on”
— Registro para os Nascidos Trouxas
“O Ministério da Magia está procedendo a um censo dos chamados ‘nascidos trouxas’ para melhor compreender como se tornaram detentores de segredos da magia.
“Pesquisas recentes feitas pelo Departamento de Mistérios revelam que a magia só pode ser transmitida de uma pessoa a outra quando os bruxos procriam. Portanto, nos casos em que não há comprovação de ancestralidade bruxa, os chamados nascidos trouxas provavelmente obtiveram seus poderes por meio do roubo ou uso de força.
“O Ministério tomou a decisão de extirpar esses usurpadores da magia e, com essa finalidade, enviou um convite para que se apresentem a uma entrevista com a recém- nomeada Comissão de Registro dos Nascidos Trouxas.”
Grace terminou de ler o artigo com um sentimento pesado no estômago. Quando sua voz morreu, todo o cômodo ficou em silêncio. De trás do balcão do Apotecário, Melinda balançava a cabeça. Amy, sentada na bancada confortavelmente, havia ficado ereta, o rosto todo tenso, olhando para Grace com seriedade anormal.
—Vamos dizer que você é minha prima. –Disse formalmente. –Você vai aprender nossa árvore genealógica e...
—Não vai funcionar. –Disse Melinda. –É preciso mais do que dizer. Além disso, a sua família é antiga e conhecida. Mas, sim, precisamos pensar em alguma coisa.
Grace ouvia um tipo de zumbido em sua cabeça. Estava grata às amigas pela preocupação, mas não tinha certeza de que podia demonstrar sua gratidão de qualquer forma; se sentia oca. Estavam, oficialmente, negando o seu direito. Ela não tinha nenhum parente bruxo, logo acabariam por leva-la para Azkaban ou coisa pior. Grace passou as mãos pequenas pelo rosto.
—Talvez eu deva me esconder. –Sugeriu. –Muitos nascidos-trouxas devem fazer isso.
—Logo agora que você tem o estágio dos seus sonhos? –Amy perguntou cheia de raiva. Ela virou o rosto vermelho para o lado de fora da loja, como se quisesse culpar todos os transeuntes. –De jeito nenhum.
As três garotas olharam para fora. Uma quarta menina, de cabelos negros escorridos, vinha determinadamente na direção da loja, e continuou vindo mesmo depois que notou que a placa na porta dizia “fechada”. Ela estava acompanhada de um garoto de camiseta amarela. Os dois entraram sem bater, traziam na mão um jornal impresso do Profeta Diário igual ao que Grace tinha em mãos e bateram os sapatos empoeirados no carpete de entrada antes de fecharem a porta atrás deles.
Cho olhou para o jornal na mão de Grace.
—Então vocês já sabem. –Declarou, e se jogou na poltrona ao lado de Grace logo depois, passando um braço por cima dos ombros da amiga.
Edward ficou parado no centro da loja, ainda, ligeiramente apoiado com um braço no balcão, os olhos nas quatro amigas, o rosto torcido em concentração. Estava tão silencioso, um tipo de silencio pesado, que era surpreendente que o som das partículas de poeira se acumulando no chão depois do recém-chegados baterem os sapatos não fizessem barulho ao se assentar novamente ao carpete.
Grace apertou os lábios e dirigiu seu olhar ao garoto.
—O que você e sua irmã vão fazer?
Ele levantou uma sobrancelha para ela, distanciando-se do balcão.
—É aí que está. Sarah vai fugir. Vai se esconder no mundo trouxa. –Ele hesitou. –Eu tenho outros planos. Não posso continuar o treinamento de auror, porque o ministério está tomado. Mas Tonks prometeu seguir me ajudando, para que eu possa voltar se, quando, essa situação passar.
—Então vai se esconder? –Amy perguntou.
—Não. –Ele sorriu fracamente. –A Ordem está criando um tipo de disfarce. Vão me incluir na árvore genealógica dos Jones. Vou ser sobrinho de Héstia e Guga Jones.
Cho se inclinou para frente, interessada.
—Vai funcionar? –Ela questionou, os olhos brilhando.
—Acho que sim. A Ordem tem gente trabalhando nos arquivos do Ministério, pessoas que podem mover uns pauzinhos para tudo ser plausível. –Então ele direcionou seu olhar para Grace. –Acho que Fred está planejando o mesmo para você.
—Ele não me disse nada. –Apontou, mas então deixou que um pouco de esperança crescesse dentro dela. Ela se levantou, arrumando os cabelos e passando a mão nos olhos para secar algumas lágrimas que surgiram sem sua permissão. –Bem, o que mais há?
A pergunta foi dirigida para Cho e Edward, que trabalhavam no ministério, mas foi Melinda que falou:
—Snape vai assumir como diretor de Hogwarts, dá para acreditar? –Ela fingiu ter arrepios. –E todas as crianças mágicas serão obrigadas a atender à escola. Isso significa, é claro, que o Ministério vai manter um olho em todas elas.
—E que os pais podem ser chantageados. –Observou Amy.
—Como? –Cho levantou as sobrancelhas.
Amy encolheu os ombros.
—Vocês sabem... se os pais... se comportarem mal... provavelmente as crianças vão pagar.
—Você não pode estar falando sério! –Cho exclamou. –Ainda é Hogwarts.
—Não a Hogwarts que conhecemos. –Grace se apressou em concordar com a outra lufana. –Acho isso provável.
A garota asiática virou o rosto redondo para o outro lado, o cabelo escorrido escondendo sua expressão. Os pais de Cho eram bastante incrédulos nas teorias sobre Voldemort, e Grace achava que ela ainda tinha dificuldades em aceitar que as coisas não eram como os pais dela imaginavam. Não era como Melinda, cujos pais grifinórios haviam sido próximos de Dumbledore, ou Amy, cujo avô seguia desaparecido.
Eles passaram mais alguns segundos de silêncio. O fato de que Cho e Grace não faziam ativamente parte da Ordem claramente impedia os outros colegas de conversarem mais claramente sobre o que estava ocorrendo, por isso a garota lufana, trocando um olhar com a amiga corvina, se levantou finalmente.
—É melhor eu ir. –Anunciou. –Eu mantenho vocês informados sobre... bem. Até depois.
Amy se levantou de supetão.
—Eu vou com vocês. –Disse. –Deixei Thomas sozinho na loja vendendo varinhas, e, com a aproximação de setembro, a loja deve estar cheia...
Os dois que ficaram acenaram para a saída deles. As três meninas andaram juntas por alguns minutos, mas então Cho ficou para trás na Floreios e Borrões para comprar alguns livros para o seu estágio no Ministério, e Amy e Grace seguiram sozinhas na direção na Ollivanders.
-Você acha que ela está sendo muito otimista? –Perguntou Amy sobre Cho, a cabeça ligeiramente virada na direção que a menina tomara.
Grace apertou os lábios.
—Não. Acho que está sendo inocente. –Grace conjecturou. –Não é o mundo que ela conhece.
—O mundo que nós conhecemos não existe mais. –Amy respondeu duramente e as duas pararam de frente para a sua loja de varinhas. Ela olhou para o balcão como se esperasse ver o velho Sr. Ollivander lá dentro. Ao invés dele, Thomas Twelvetree se enrolava cercado de crianças acompanhadas de seus pais. –Bem, eu fico aqui. De verdade, Grace, me avise sobre como as coisas vão ficar.
—Eu irei. –Ela prometeu, e saiu novamente à rua enquanto a amiga ficava para trás.
Fred havia saído para a loja, que continuava funcionando na medida do possível diante das circunstâncias. Grace ficara na Toca com a Sra. Weasley, que fazia as coisas com menos eficiência do que o normal, parando por longos momentos para olhar pela janela como se seu filho fosse surgir dela. Grace estava de licença do trabalho; dissera para o Sr. Bloxam que se apresentaria à comissão de registro dos nascidos trouxas, para apresentar seus parentes bruxos ao Ministério. Ele a olhara por debaixo dos olhos redondos, os olhos verdes preocupados, mas não fez nada além de a liberar do trabalho.
Gina estava ao seu lado na sala, pois a senhora Weasley não havia aceitado ajuda de nenhuma das duas para lavar os pratos do almoço. A casa estava bem mais silenciosa do que há alguns dias, no casamento de Fleur. Fleur e Gui haviam se mudado para uma casa no litoral, a família dela havia voltado para a França e Carlinhos estava de volta à Romênia, sem muitas cerimônias.
As três bruxas se sobressaltaram com as três batidas na porta, mas, como o alarme não havia soado, tinha de ser pessoal autorizado. Grace se levantou do sofá, ficando de pé de costas para a lareira apagada, e Gina se ajeitou em seu lugar, o olhar curioso. A sra. Weasley foi quem se adiantou a atender a porta.
Três figuras entraram na sala, batendo os sapatos no tapete de entrada, enfeitiçado para absorver a sujeira. Tonks, com os cabelos castanhos e um aspecto saudável, mas o rosto sorridente; Cordélia Bloxam, altiva, o queixo alto, os olhos verdes atentos imediatamente se grudaram em Grace. A terceira figura era um rapaz vagamente familiar, de pele escura e olhos castanhos, alto e magro, seguindo as outras duas de perto.
Os três trocaram cumprimentos com a Sr. Weasley, que foi para a cozinha pegar biscoitos para que eles comessem. O garoto trazia um bocado de papelada consigo, e Tonks também parecia toda negócios.
—Muito bem. –Tonks começou quando eles se sentaram no sofá, após terem pedido a uma Gina chateada para que os deixassem a sós. –Grace, esses são Theodore Clearwater, inominável, e você conhece Cordélia Bloxam, pocionista. Eles têm ajudado na falsificação de árvores genealógicas. Muitos nascidos-trouxas têm feito isso, e muitos têm sido pegos, como Dirk Cresswell foi apenas ontem. Mas eles não tinham os contatos que nós temos. Theo aqui trabalha no departamento de mistérios, com magias de sanguinidade. Cordélia é muito boa é magia antiga, e tem uma poção especial para a memória, de forma que mesmo que tentem legilimência, a mentira ainda perdure.
Parecia muita informação, mas Grace tentou acompanhar tudo mesmo assim.
—Então... vocês vão planejar tudo de forma a parecer que eu sempre fiz parte de uma família bruxa?
—Isso seria difícil. –Cordélia apontou. –Você terá crescido no mundo trouxa, como aconteceu. Sua mãe morreu quando você era criança, não é isso? –Ela não esperou Grace responder para continuar. –Bem, faremos parecer que sua mãe era uma bruxa abortada. Parente dos Diggory, na verdade. É muito comum que famílias de sangue-puro coloquem seus abortos para crescer no mundo trouxa, frequentando escolas trouxas, etc.
Eles foram interrompidos pelas chamas esverdeadas da lareira, que no segundo seguinte expeliram um Fred Weasley afobado.
—Já estão aqui. –Ele notou, fazendo um feitiço em si mesmo contra a fuligem e dando um passo à frente para cumprimentar Tonks. –Como está Remus?
Ele tomou lugar ao lado de Grace, segurando sua mão.
—Bem. –Tonks respondeu um tanto rígida, e levou mais um segundo para voltar ao assunto. –Já fizemos alguns feitiços em antigas fotografias dos Diggory, como se Amos tivesse uma irmã. Também já tomaram as poções. Trouxemos algumas fotografias para você, e um exemplo da árvore genealógica da família, com anotações. Cordélia precisa de um fio de seu cabelo para completar a poção, e Theodore vai repassar com você os detalhes da audiência.
Eles passaram assim o resto da tarde. Grace leu todos os pormenores, e decorou as respostas para o interrogatório, que ainda seria dali a uma semana. Havia apenas uma coisa que a desagradava.
—Estaremos expondo o nome do meu pai. –Ela apontou. –Ele é um trouxa, não vai ter como se defender.
Tonks e Cordélia trocaram um tipo de olhar.
—As melhores mentiras são baseadas na verdade. –Cordélia apontou, sem se apiedar. –Você talvez deva sugerir à sua família que saia do país. Ou faça alguns feitiços de proteção em torno da casa.
Fred precisou convencê-la de que aquela era a melhor alternativa que tinham quando Grace quis desistir completamente do plano diante daquele pormenor.
—Muito bem. –Disse Theodore quando notou que já escurecia do lado de fora. –Eu vou acompanhar você ao julgamento na próxima semana; nesse meio tempo, revise a árvore genealógica, porque perguntas serão feitas. A poção de Cordélia deve cobrir qualquer teste mágico no seu sangue também.
Antes de dois saírem –pois Tonks ficaria para jantar –Cordélia se virou para ela de supetão.
—Aliás, é melhor que saiba fazer um Patrono. –Ela avisou, sombria. –Eles estão em toda parte agora. Até em Hogwarts; meu padrinho disse...
Então, notando os olhares que recebeu, se interrompeu e empinou o nariz arrebitado, girando em torno de si mesma, a capa revoando ao seu redor, na direção da porta. Era difícil dizer se ela ficara ofendida ou envergonhada; certamente não deveria estar em contato com Severus Snape, o assassino de Dumbledore. Sem se despedir, ela aparatou, e Theodore Clearwater fez o mesmo caminho em seguida.
Tonks passou um segundo olhando o ponto onde eles desapareceram, então notou como todos ainda mantinham olhares enviesados.
—Ela poderia ser uma Comensal, sabem. –Comentou. –Mas não é. Cordélia não vê as coisas do jeito que nós vemos; não é uma questão nem de sobrevivência, nem de princípios para ela, mas está ajudando mesmo assim.
O grupo se reuniu, então, em volta da mesa para comer, com Gina finalmente permitida a voltar entre eles. George chegou pouco tempo depois, e também Arthur. Grace se perguntou como era para os gêmeos estarem apenas eles e Gina em casa; eles estavam n’A Toca porque era mais segura do que o pequeno apartamento acima das geminalidade, mas Grace achava que realmente era porque eles não queriam deixar os pais sozinhos apenas com a caçula, que logo iria para Hogwarts.
—Tonks, você tem notícias de Ted? –Perguntou Arthur, levando uma colherada à boca, e depois arfando ao se queimar.
Tonks não deu atenção à queimadura.
—Não, não... –Ela respondeu tristemente. –Bem, ele está fugido, e acho que se o pegarem vai acabar por sair no jornal, então... mamãe está realmente arrasada.
—Nem consigo imaginar. –Disse Molly, embora tivesse apertado a boca um tanto. –Lembro de Andrômeda na escola. Era um pouco distante, mas não parecia ser má pessoa. Ela deve estar muito solitária.
—Sim. –Tonks concordou, mas não deu mais detalhes. Talvez o fato de que ela estivesse ali, e não com sua mãe solitária tivesse algo a ver com isso. Grace ouvira falar que os pais de Andrômeda não aceitavam bem sua relação com o professor Lupin, por ele ser um lobisomem.
Houve um ligeiro silêncio em que Arthur lançou um tipo de olhar para a esposa, como se a dissesse para não insistir no assunto. George pigarreou.
—Vocês têm lido O Pasquim? –Perguntou. –Não dá para acreditar. Na última edição, Xenofílio nem falou em zonzóbulos. Ela começa toda edição com uma capa que diz que apoiar Harry Potter é ser contra o partido das trevas.
—Ele tem se arriscado muito. –Apontou Grace, ao que Arthur concordou com um aceno.
—Não sei quanto tempo o deixarão fazer isso.
O jantar correu surpreendentemente ligeiro depois disso. Tonks foi embora com um aceno, e Gina se trancou em seu quarto não muito tempo depois. Fred acompanhou Grace até a porta, para que ela aparatasse do lado de fora das proteções.
—Fique essa noite. –Ele pediu, como sempre pedia quando ela jantava n’A Toca.
Grace quis aceitar, mas tinha outra coisa em mente.
—Tenho muito o que pensar essa noite. –Disse, e agarrou sua pilha de papéis contra o peito. –Além disso, tenho que decorar isto o mais rápido possível. –Mas ainda não era nisso que estava pensando. –Fred, você viu o meu colar? Eu o deixei aqui na véspera do casamento?
Ele trocou o peso do corpo desconfortavelmente de uma perna para a outra.
—O colar de esmeralda? –Tirou-o do bolso como se estivesse esperando aquele tempo todo que ela o mencionasse e pedisse de volta. –Por que ainda o usa?
Grace o recebeu em suas mãos com alívio. Estava frio, mas esquentou um pouco em contato com a sua pele; ela não pediu a ajuda de Fred para colocá-lo ao redor de seu pescoço.
—Não acha um belo colar? –Grace sorriu docemente, apenas querendo distraí-lo da questão.
Fred piscou.
—Por não ter crescido no mundo bruxo, você talvez não note isso. –Ele conjecturou, sem querer ofender. –Mas é claramente um colar de uma família sangue-puro. Deve ser encantado. Talvez seja encantado para que Malfoy possa achar você? Ele sabe que você está envolvida com a Ordem, não sabe?
—Não acho que seja. –Grace, que sabia qual o encantamento do colar, respondeu. –E eu não estou envolvida com a Ordem, estou envolvida com você.
O pensamento a levou direto para outra corrente; o Vira-tempo que ela tinha guardado na gaveta ao lado de sua cama e que, em alguns dias, ela pegava, temendo e cheia de vontade de girá-lo em sua mão. Mas ela precisaria de mais do que algumas horas para consertar uma confusão daquele tamanho, isso era certo.
Fred olhou para longe, mas, depois de um segundo de deliberação, pareceu querer deixar o assunto para lá.
—Eu posso dormir na sua casa manhã, se você quiser. –Ele ofereceu, um dedo se enrolando em uma mecha solta do cabelo dela.
Grace se sentiu culpada. Tanta coisa vinha acontecendo nas últimas semanas, de repente, como ondas, que ela mal tivera tempo para dar a Fred alguma atenção; ou tirar um tempo para que eles fossem um casal. Ela se inclinou na ponta dos pés e beijou sua boca rosada, um dedo passeando nas suas bochechas, acariciando por cima das sardas.
—Claro. Vamos fazer isso.
A semana correu desesperadamente. Ela esteve cheia de trabalho de escritório no Gringotts; teve que avisar aos duendes para manterem um olho no cofre de Harry Potter. O Gringotts também estava passando por problemas, porque bruxos estavam tentando tomar controle da administração do lugar, causando desconforto e até revolta entre os duendes. Grace, que havia estudado o suficiente de história da magia, achou que Você-Sabe-Quem estavam comprando uma guerra perigosa com criaturas mágicas poderosas, mas não disse isso ao seu chefe.
Se Arcturo sabia que seu julgamento aconteceria em breve, não demonstrou. Não deixou de manda-la tarefas pesadas –às vezes literalmente pesadas, como quando ele a fez levar pilhas e pilhas de documentos para os registros. Ela não viu Narcisa ou qualquer outro Malfoy naqueles dias, mas não deixava de levantar a cabeça, curiosa, quando qualquer passo se aproximava pelo corredor.
Dois dias antes havia sido primeiro de setembro, e Grace estranhou não ter ido pegar o trem com o resto dos estudantes, para voltar à escola. Estar formada era estranho, como dar um passo a mais numa escada que já havia acabado, e tropeçar em seus próprios pés. Sentia falta de Hogwarts; não havia tido tempo para pensar nisso na correria das férias. Ansiava pela visão dos jardins e do lago, pela comida dos elfos e, mais do que tudo, pela sensação de segurança que o castelo sempre passara, mesmo em seus tempos mais sombrios.
Não ajudava o fato de que nesse meio dia o ministério havia sido invadido por Harry, Ron e Hermione. Ela se sentiu aliviada em saber que estavam bem; e podia dizer que Fred sentia o mesmo. Arthur chegara afobado no jantar e contara a eles a notícia, já que o Profeta Diário a havia omitido, ou a mudado a ponto de a verdade ser quase inteligível.
—Não acredito que não note... –Arthur murmurou para si mesmo a noite toda. –Na minha cara, os três!
Em seu tempo livre, ficava no apartamento estudando para o julgamento; Fred passou várias daquelas noites com ela, fazendo as perguntas para que ela respondesse, e julgando seu nível de segurança. Lino Jordan, mestiço, havia passado pelo julgamento apenas alguns dias antes da sua data, e se saído bem. Edward ainda estava para se apresentar à comissão, quando chegou a notícia, através de Cho, que estava estagiando no Departamento de Leis.
—Umbridge é a juíza da comissão. –Ela disse, um tremor na voz. –Grace, talvez fosse melhor...
A lufana sabia que ela tinha as melhores das intenções, e estava grata de ser avisada e não pega de surpresa, mas queria que Cho não fosse tão pessimista; apenas fazia suas próprias dúvidas parecem muito reais. Não precisou dizer nada, porém, Amy a interrompeu:
—Não vai dar errado. –Disse a outra lufana com mais segurança do que Grace achava que ela sentia. –Vai ficar tudo bem.
O átrio do Ministério parecia mais sombrio do que da última vez que Grace estivera ali, em um tipo de expedição com Cho nas férias do quarto ano. Antigamente, uma grande fonte dourada ocupava o centro do saguão, projetando focos tremeluzentes no soalho e nas paredes de madeira lustrosa. Agora, uma gigantesca estátua de pedra negra dominava o ambiente. Era um tanto apavorante essa enorme escultura de uma bruxa e um bruxo sentados em tronos entalhados, contemplando os funcionários ejetados das lareiras abaixo.
Gravadas em letras de trinta centímetros de altura na base da estátua, havia as palavras: MAGIA É PODER.
Grace olhou com mais atenção e percebeu que aquilo que imaginou serem tronos ornamentados eram, na realidade, esculturas humanas: centenas de corpos nus, homens, mulheres e crianças, todos com feições idiotas e feias, torcidos e comprimidos para sustentar os bruxos com belos trajes.
—São trouxas. –Grace observou para Amy, que a havia acompanhado. Fred não pudera fazer isso porque talvez sua relação fosse prejudicial para o julgamento de Grace, sendo ele um conhecido traidor do sangue. –Esmagados pelo poder bruxo.
Passaram pelos portões e entraram em um hall, onde se formavam filas diante das vinte grades douradas que encerravam igual número de elevadores. A grade dourada diante deles abriu estrepitosamente, e as duas meninas entraram em um elevador. Uma garota não mais velha que elas entregou um panfleto quando elas entraram:
SANGUES RUINS
E os perigos que oferecem a uma sociedade pacífica de sangues puros
Sob o título, havia a foto de uma rosa vermelha, e, entre suas pétalas, um rosto afetando um sorriso estrangulado por uma erva verde com presas e aspecto feroz. Grace se sentiu tão enojada que quase largou o panfleto, querendo lavar de sua mão a ideia de tê-lo segurado, mas, como não podia fazer isso ali, apenas o apertou com força na mão.
—Estamos indo aos tribunais. –Amy anunciou para a garota, que apertou um dos botões do elevador, fazendo este começar a descer.
As portas do elevador abriram. Tinham chegado ao átrio. Quando as portas reabriram, elas desembarcaram em um corredor com piso de pedra, iluminado por archotes, muito diferente dos corredores com painéis de madeira e carpetes, nos níveis acima. Quando o elevador partiu chocalhando, Grace sentiu um leve arrepio ao avistar, ao longe, a porta preta que assinalava a entrada para o Departamento de Mistérios. Ela foi andando, seu destino não era a porta preta, mas o portal à esquerda, que, segundo lembrava, levava à escada e às câmaras dos tribunais.
Quando alcançou o pé da escada e virou à direita, deparou com uma cena pavorosa. O corredor escuro ao longo das câmaras judiciais estava repleto de vultos altos e encapuzados, seus rostos completamente ocultos, sua respiração entrecortada o único som que se ouvia. Paralisados de terror, os nascidos trouxas trazidos para interrogatório tremiam apertados nos bancos duros de madeira. A maioria escondia os rostos nas mãos, num gesto instintivo para se proteger das bocas vorazes dos dementadores. Alguns estavam em companhia da família, outros sentavam-se sozinhos. Os dementadores deslizavam de um lado para outro diante deles, e o frio e a desesperança que impregnavam o local atingiram Grace como uma maldição...
Sua varinha não havia sido confiscada na entrada, e ela tinha impressão de que havia sido por causa de Amy e o fato de que seu sobrenome ainda tinha algum poder, mesmo na sociedade comandada por Comensais da Morte. Grace teve vontade de tirá-la, de produzir um feitiço que a protegesse, a fizesse se sentir aquecida, mas, ao mesmo tempo, pensou que não seria capaz de produzir um Patrono de maneira alguma.
Caminhar entre os altos vultos negros era aterrador: os rostos sem olhos, ocultos sob os capuzes, se viraram quando ele passou, dando-lhe a certeza de que o sentiam, sentiam talvez uma presença humana que ainda possuía esperança, resiliência...
Então, de modo abrupto e chocante, no silêncio gelado, uma das portas da masmorra, à esquerda, abriu-se violentamente, deixando ecoar os gritos em seu interior.
—Não! Não, eu sou mestiça! –A voz ecoou em desespero. –Por favor, minha mãe era pocionista, estudou no Instituto Flammel, por favor...
— Este é o seu último aviso. – Ouviu-se a voz suave de Umbridge, magicamente amplificada de modo a se sobrepor com clareza aos gritos desesperados do homem. – Se resistir, será submetido ao beijo do dementador.
A voz foi contida com um soluço alto. Grace sentiu um arrepio.
—Próximo: Grace Moore. –Chamou Umbridge, cuja voz Grace temia poder reconhecer em qualquer lugar.
Amy apertou sua mão; não podia entrar com ela, mas murmurou que estaria ali.
A sala em que Grace adentrou tinha um teto alto, que a fazia ter a claustrofóbica sensação de estar no fundo de um poço sem fim. Havia outros dementadores ali, cobrindo o local com sua aura congelante; estavam postados como sentinelas sem rosto nos cantos mais afastados da imponente plataforma. Ali, atrás de uma balaustrada, sentava-se Umbridge com Yaxley. Ao pé da plataforma, um gato de pelos longos e prateados andava de um lado para outro, e Grace percebeu que sua função era proteger os promotores do desespero que emanava dos dementadores: aquilo era para afetar os acusados e não os acusadores.
— Sente-se – disse Umbridge, com sua voz suave e sedosa.
Havia um único assento no centro da sala, e Grace se dirigiu para ele, sentindo-se úmida, não sabia se de suor, ou pelo hálito gelado dos dementadores. Qualquer que fosse o motivo, a ocorreu que não conseguiria. Era isso que Cho havia temido no dia anterior. Grace havia sido tola em ignorar seu conselho... dementadores eram detectores de mentiras, saberiam imediatamente que ela era uma farsa. Não adiantara de nada; ela estaria indo para Azkaban em apenas algumas horas.
—Você é Grace Moore? –Indagou Umbridge, do alto de seu púlpito, agindo com o mesmo poder que ela agia diante do púlpito de Dumbledore em Hogwarts. A memória esquentou-a por um segundo, de raiva.
Grace acenou com a cabeça, firme.
—Graduada apenas ano passado na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts? –Questionou novamente, e Grace respondeu com mais um aceno, olhando nos olhos de Umbridge, se perguntando se ela a reconheceria das detenções que dera à Armada. –Faz estágio no Banco Gringotts com o Desfazedor de Feitiços Arcturo Bloxam?
—Faço.
—Sua varinha é de madeira de acácia, trinta e um centímetros, pelo de unicórnio e flexível? –Ao que Grace respondeu que sim, Umbridge continuou, dessa vez com perversidade. –E você afirma tê-la comprado na loja Ollivanders aos onze anos?
—Isso mesmo.
—Você afirma que sua mãe era uma bruxa. –Ela a analisou.
—Um aborto. –Grace corrigiu. –Por isso cresceu no mundo trouxa, onde conheceu meu pai.
—Não me lembro de Amos Diggory ter tido uma irmã. –Ela deu uma risadinha cínica. É isso, Grace pensou.
—Ela... –Grace respirou fundo. –É comum que abortos de famílias sangues-puro não sejam mencionados. A senhora certamente sabe disso.
O rosto da interrogadora se contorceu feiamente.
—Claro que sei. –Respondeu. –É conveniente que ela esteja morta, no entanto, não é? Além disso, abortos não transmitem magia, por não terem nenhuma.
—Isso não é verdade. –Agora Grace falou com certeza, porque sabia que Umbridge, como sempre fizera, estava usando de inverdades. –Sugiro que você faça um feitiço de rastreamento sanguíneo em mim.
A interrogadora abriu os olhos, desconcertada. Aquela era uma cartada sugerida por Cordélia e Theodore. A poção da bruxa devia disfarçar o sangue de Grace por alguns dias, quase como se mudasse seu DNA, e a colocaria na árvore genealógica dos Diggory. Era uma poção cara, difícil de ser produzida, além de amplamente desconhecida, por isso, não muito utilizada.
Umbridge se virou para Yaxley, que assistia à cena com desinteresse. Passou pela cabeça de Grace, quando ela desceu do púlpito, que a professora lembrar-se-ia dela de Hogwarts. Que a amaldiçoaria. Mas conforme ela se aproximava, seu patrono ao seu lado para protegê-la da presença dos dementadores, Grace foi se sentindo mais confiante.
—Seu braço. –Ele pediu, coaxando, e, quando Grace o ofereceu, não fez nenhum esforço para diminuir a dor do feitiço.
Por quinze longos segundos, enquanto o feitiço não fazia efeito e seu sangue escorria lentamente pelo braço, Grace pensou que a poção de Cordélia não funcionaria. Então, seu sangue, fora do braço, ficou roxo e espirais de fumaça de ergueram dele como se estivesse queimando, mas a sensação ainda era fria. Lentamente, a fumaça foi formando palavras e linhas interligadas. Umbridge observou com os olhos estreitos e, quando disse alguma coisa, foi quase com decepção.
—Você é mestiça. –Declarou, largando seu braço como se o mero toque de Grace pudesse infectá-la.
Ela não era a única decepcionada. Acima de sua cabeça, os dementadores, agitados, revoavam, parecendo famintos. Grace se apressou para fora da sala como se estivesse fugindo do próprio inferno; e era como se sentia.
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