Lacrimosa
2 É assim que se ama
Notas iniciais
“Momentos vazios
a esperança é roubada
e mais um amor que poderia ter sido eterno se perdeu.
E as almas gêmeas dispersam-se”
Naquela manhã todos estavam reunidos no Boar Hat, já estávamos a caminho de um vilarejo na divisa do reino de Liones e o devastado reino de Danafor. Reza a lenda que aquele reino simplesmente deixou de existir após uma catástrofe causada por um demônio, mas nunca se soube ao certo, apenas que Liones teve de carregar o peso e tomar as poucas áreas que sobraram intactas de Danafor. Uma vez meu pai me falou que aquela era minha terra natal.
Terminei de me arrumar e desci até o salão principal, Ban estava a tomar aquela mesma cerveja de costume, Hawk limpava os restos do café da manhã, já Gowther se encontrava em uma mesa aos fundos do bar, lendo seus livros de romance e encenando com as mãos. Mas Meliodas não estava lá.
– Bom dia – Cumprimentei-os e sentei-me à mesa próxima ao Ban, ouvi resmungar um bom dia, mas nem um deles dispensou a atenção por isso. – Ei, Hawk-chan, onde Meliodas-sama está?
– Hum? – ele lambeu o focinho antes de me olhar – Ah, aquele garoto? Quando acordei, ele já havia saído.
– Ele saiu tão cedo? – disse surpresa, olhei para a janela e pude notar que estávamos em locomoção. – Sabe onde foi?
– Sei lá – suplicou antes de voltar a sua refeição matinal.
Por um momento fiquei sem reação, deixei um suspiro escapar e deitei a cabeça sobre a mesa de madeira.
– Princesa, não vai comer algo? – Disse Ban, então ele estendeu uma bandeja com algumas torradas, ovos e leite quente, admirei aquele lindo banquete e o aceitei.
– Obrigada! – Sorri, e ao sentir o aroma daquelas torradas e ovos meu estomago se revirou. Me fez lembrar que não comia desde que havia melhorado do resfriado.
Aquilo estava realmente delicioso.
– Tem andado muito pensativa ultimamente. – Ban esbanjou aquele típico sorriso de sempre. – Isso tudo é preocupação com o capitão?
Um leve desespero me bateu naquele momento. Se fosse arriscar um palpite, deveria estar vermelha, de tanto que minhas bochechas ardiam. Ainda devo estar com febre.
– Ban-sama, não é nada disso – tomei um longo gole do leite, tentando afastar aquela agitação dentro de mim. – Meliodas-sama sabe se cuidar melhor que qualquer um.
– Hum... É mesmo? – Ele ainda continuava a sorrir – Mesmo depois de passar uma noite sem dormir com vossa senhoria?
Aquela bebida quente ameaçou subir pela garganta.
– Você viu aquilo?
– Sim, senhorita.
– O quanto viu?
– O bastante para supor que a princesa não pregou os olhos. – Ele apontou para meu rosto e continuou – embora nem seja preciso falar sobre o que vi desde que esteja estampado na sua cara que passou a noite em claro.
– B-Ban-sama! – Não sei o porquê, mas seu comentário me fez esfregar os olhos desenfreadamente. – Não é nada disso...
– Estou errado?
– S-sim...
– Princesa, você não sabe mentir. – Disse enquanto terminava de beber sua cerveja, pude ver sua embriagues tomar conta – O que acha disso, Gowther?
Gowther deixou escapar uma rizada maligna, naquele momento rezei para que fosse apenas mais uma de suas encenações pós-livros. Mas não.
– Eu acho que tudo isso é desnecessário.
– Seja mais claro, por favoooor. – Cantarolou Ban, enchendo outro copo de cerveja.
– Não tenho culpa se sua capacidade de entendimento é baixa.
– Como é maldito? Vou te mataaaar. – Ban se levantou da cadeira, mas não demorou muito para dar-se de cara ao chão.
– Princesa. – Balbuciou Gowther enquanto se aproximava. Ele raramente se socializava, apenas quando se interessava em algo, mas isso me fez lembra daquele dia em que gritou sobre meus sentimentos pelo Meliodas. Espera, meus sentimentos?
– Gowther-sama. – O cumprimentei assim que arrastou uma cadeira e sentou-se ao meu lado. Não era por mal, mas sua presença ainda me era estranha e tensa.
– Não precisa ficar tão receosa desta maneira, não farei nada de mais. – disse, ajeitando os óculos. – Desculpe por aquele dia, pelo o que vejo isso lhe causou certa insegurança e medo, e infelizmente surtiu o efeito contrário do que esperava.
– Ah – suas palavras me surpreenderam. – Não precisa pedir desculpas por algo assim, não fez nada errado.
– Então admite?
– O que?
– Que o que disse é verdade?
– M-mas isso...
– Brincadeira – disse tranquilamente, demonstrando aquela mesma expressão vazia de sempre. – Não tem como admitir estar apaixonada pelo capitão, estou errado?
– Não é verdade! – corei – Você entendeu errado, tudo que sinto pelo Meliodas-sama é... Respeito e fidelidade, eu apenas o admiro, e estou disposta a segui-lo até a morte. É apenas... Minha escolha.
– Você mente para si mesma ou apenas não sabe o que é estar apaixonada? – Retrucou o mesmo – não tenho direito de julga-la por isso, pois nem mesmo eu entendo esses sentimentos humanos, sou desprovido de emoções tão confusas como essas.
Aquelas palavras me tiraram o sentido da conversa, apenas deixei o silêncio responde-lo.
– Não precisa pensar tanto. – Gowther se levantou da mesa, recolheu a bandeja vazia e levou até o balcão. – Existe um motivo para o capitão agir de forma tão suspeita ultimamente.
Ele caminhou até a janela e olhou em direção a vila no qual seria nosso próximo objetivo.
– Mas da mesma forma que não posso desrespeitar sua privacidade, não irei fazer o mesmo com o capitão, isso é algo que apenas ele pode falar. Não serei eu e nem você que mudará isso. – Então Gowther tomou seus livros em mão. – Deixe-o por si só, como você mesma disse, ele sabe se cuidar.
~
O ar daquela manhã estava particularmente agradável, o que não combinada nada com aquela angustia que vinha sentido há alguns dias. Naquele momento queria apenas ficar sozinha, por isso resolvi me retirar do bar, e não é desejando ser rude, mas ficar ao lado daqueles Pecados não ajudava nem um pouco, ainda mais quando cutucavam a ferida no meu coração.
Sentei-me nos degraus do Boar Hat e me distrai com a bela vista das montanhas e florestas. Pensei se a mamãe do Hawk não se cansava das longas viagens; se aquelas nuvens carregadas de chuva viria em nossa direção, qualquer coisa que pudesse pensar seria o suficiente. Eu só queria deixar de pensar nele.
– Não dá. – deixei escapar um longo suspiro naquele momento, meu coração doía tanto – O que está acontecendo comigo?
– Ei, princesa. – Ouvi Diane me chamar com sua voz animada de sempre, ela carregava varias frutas e legumes aos braços. Pude ver King flutuando atrás dela se esforçando para carregar uma pequena bolsa com algumas maças. – Está tudo bem? Ainda se sente mal do resfriado?
– Diane-chan, bom dia! – forcei um sorriso, mas acho que não foi convincente. — Bem... Não me sinto totalmente disposta. Mas logo estarei melhor.
– Hum, mesmo? – Ela substituiu aquele sorriso por uma expressão chorosa, Diane era realmente fofa. – Não acha que seria melhor voltar para seu quarto? Fomos buscar algumas frutas como o Ban pediu, parece que ele vai fazer algo incrivelmente delicioso com essas maças, talvez isso te ajude.
Como podia retribuir toda sua gentileza apenas com palavras? Era desanimador. – Obrigada Diane, acho que apenas preciso respirar um pouco deste ar fresco.
Diane me olhou com desconfiança. – King, leve essas frutas para o Ban, por favor?
– C-claro, Diane! – Balbuciou King todo atrapalhado, então passou por mim e sussurrou um bom dia. Ele sempre estava corado perto de Diane, e aquilo se semelhava tanto a mim ultimamente.
– Esse é aquele momento em que precisamos ter aquele “papo de garotas”? – Diane sorriu e levou os dedos até o cabelo, enrolando uma mecha repentinas vezes. – Eu posso ser um pouco desligada algumas vezes, mas eu sinto que você não está bem, e não por conta do resfriado.
Diane era tão gentil, e isso me fez sentir o calor de ter alguém a quem chamar de amigo. Mas não é como se pudesse dizer a ela o motivo do incômodo.
Eu sabia que Diane nutria um sentimento diferente pelo Meliodas desde que a vi se lamentar por sua altura uma vez. E mesmo assim aquela garota tão frágil nunca se deprimiu por coisas tão simples, o que sentia era algo mais intenso, uma preocupação que queimava dentro de mim – inutilmente, talvez – mas não conseguia fazer meu coração parar de doer. Aquele sentimento de solidão me inundava a cada minuto sem vê-lo.
Eu não podia fazer aquilo, será muito egoísmo.
– Eu não sei o que se passa comigo, Diane. – deixava aquelas palavras escaparem como toda angustia no coração, mas não era verdade, eu estava começando a entender. – Me desculpe por lhe preocupar. Eu só causo problemas.
Diane balançou a cabeça querendo negar minhas palavras. – Isso não é verdade. Você é minha preciosa amiga, e é uma princesa tão forte. – ela sorriu, mas diferente dos outros sorrisos da garota gigante, aquele carregava certa tristeza. – Sua força brilha mais que a minha. Não consegue ver? Foi isso que chamou a atenção do capitão.
Suas palavras foram o suficiente para fazer meu coração se debater. Eu tinha perdido a determinação, o que havia acontecido com todas as promessas de luta que fiz? Sentia-me tão frágil, talvez aquela fosse a primeira vez que me vi uma garota.
Fui tão ingênua pensando que poderia ser forte sozinha.
– Eu entendo. – Era o que tinha de descobrir, e agora meu coração batia tão forte que queimava por dentro. – Gowther estava certo aquela vez.
É assim que se ama.
– Gowther nunca está errado, afinal, ele pode ver o coração das pessoas. – Proferiu uma voz. Vê-lo dar seus passos lentamente até mim fez meu coração parar. –Olá, Elizabeth.
– Meliodas...sama.
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