Lacrimosa
10 Amnésia
Notas iniciais
“Eu conheço o seu coração, e sei de tudo
O que ele jamais faria para me machucar
Mas eu não percebia que me sentia tão confiante
E me sentir tão bem sobre mim mesma
Ter isso completamente destruído por uma coisa.
Algo tão estúpido
Mas aí, ele me faz ficar tão louca.
Faz parecer como se fosse minha culpa
Eu estava machucada”
Lembro-me de ouvir uma voz chorosa ao lado de fora do Boar Hat às sete da manhã. Havia acordado assustada, mas Meliodas ainda continuava dormindo profundamente.
Levei meus passos até a sacada do segundo andar e lá vi King discutir algo com Diane. A gigante parecia agitada, e seus olhos violetas brilhavam como se quisesse chorar; aquilo me preocupou, mas eu pensei se deveria interferir.
– O que está fazendo, Elizabeth? – disse Meliodas com a voz manhosa. – Algo de errado?
Eu havia me assustado, e por reflexo tampei sua boca com as mãos, ele me olhou sem entender então fiz um sinal para que Meliodas mante-se em silêncio.
Ele caminhou até meu lado e olhou pela janela, e naquele momento King havia proposto algo a Diane, que concordou com a cabeça e limpou suas lágrimas.
– King está se confessando a Diane? – sussurrou Meliodas.
– Na verdade – olhei novamente para o lado de fora e vi os dois adentrar a floresta em silêncio. – acho que é algo mais delicado que uma confissão.
Aquilo me fez lembrar o dia anterior e uma preocupação tomou conta de meu peito, desde ontem King agia estranho, e ele permaneceu pálido durante algumas horas antes de finalmente cair em um sono profundo. Lembro-me de vê-lo carregar um objeto vermelho e brilhante ao sair do templo; o que me parecia um colar. Mas depois daquilo não perguntei mais nada. Será que seu desejo havia sido atendido?
– Quer segui-los? – perguntou Meliodas com um sorriso brilhante.
– Não acho que devemos interferir.
Na verdade estava insegura, aquele sorriso macabro de Yusuke-san antes de nos retirarmos do tempo ocupou minha mente, e o medo de ter feito algo com King tomava conta.
– Hm – resmungou Meliodas, e assim calçou suas botas e vestiu seu colete preto. Ele me olhou esperando algo de mim, e se retirou do quarto.
Suspirei. Então caminhei até o armário e retirei o meu típico uniforme vestindo-o, olhei novamente pela janela e ouvi um grito agudo ecoar pela floresta.
Aquela voz era de Diane.
Não pensei novamente antes de sair correndo até a porta do quarto, e ao abri-la me deparei com Meliodas que me esperava escorado na parede ao lado de fora, ele me olhou e sua expressão mudou quando viu que estava assustada.
– Aconteceu algo? – ele perguntou.
– Ouvi um grito lá fora.
Ele arqueou as sobrancelhas.
– Diane?
– Acho que King-sama pode estar fazendo algo a ela.
– Como assim? – perguntou confuso.
Não tinha tempo para explicações, segurei a mão de Meliodas e o puxei rapidamente pelas escadas. Ban e Gowther estavam acordados como de costume, apenas pude sentir os olhares de ambos sobre nós.
Ao lado de fora do Boar Hat o sol queimava minha pele, mas não tive tempo para me incomodar com aquilo. Fui até a floresta em silêncio, Meliodas ainda mantinha aquela mesma expressão confusa de antes, mas me seguia sem questionar. Então ouvi logo a frente um barulho. Empurrei Meliodas para um arbusto que caiu por entre as folhagens ainda molhadas, e fui puxada junto a ele no ato, caindo sobre o mesmo quase bruscamente, nossos rostos estavam tão próximos que pude sentir sua respiração ofegante, corei levemente, mas pedi desculpas baixinho.
O barulho continuava, e parecia se aproximar de nós, até que ouvimos novamente a voz de Diane.
– N-não olhe!
– Espere... D-Diane. – desta vez era King, sua voz estava falha, como se algo tirasse a concentração de suas palavras.
Empurrei alguns galhos do arbusto para poder ver o que havia acontecido. O que me fez corar bruscamente, Meliodas tentou olhar também, mas empurrei seu rosto imediatamente. Ele me olhou como se questionasse meu ato, mas eu não podia permitir aquilo. Diane estava completamente nua, e seu tamanho havia encolhido novamente como daquela vez, e bem atrás pude ver aquele gigantesco cogumelo se afastar assustado.
–T-tome – King retirou seu casaco azul e entregou para a garota que deixava algumas lágrimas escorrerem pelo rosto, parecia imensamente constrangida.
– Idiota! – Ela gritou, e então puxou o casaco de King bruscamente, parecia zangada. – Eu disse para não assusta-lo!
– Perdoe-me Diane. – King escondeu seu rosto avermelhado entre as mãos. – Eu não fazia ideia de que ele se assustaria tão facilmente.
– Então por que você está do tamanho normal?! – Ela perguntou enquanto vestia o casaco azul de King, parecia ter se acalmado, mas ainda estava corada.
King parecia hesitante.
– É que... Eu voei antes de ser atingido. – disse arrependido.
Diane o encarou incrédula, mas desistiu de discutir.
– Bem, eu estou esperando. – ela cruzou seus braços em frente ao corpo e desviou o olhar. O casaco de King havia ficado justo de mais em seu corpo volumoso, mas aquilo não parecia incomoda-la.
King olhou para baixo com uma expressão distante, seus olhos piscavam várias vezes, parecia deveras nervoso, mas então retirou um objeto vermelho e brilhante de seu bolso. O mesmo objeto do templo, e realmente era um colar, e em seu pingente exuberante envolvo por ouro brilhava uma pedra escarlate. Diane não havia percebido aquilo.
– Você disse que iria me contar o que houve entre você e o Yusuke-san no templo. – Diane inflou as bochechas. – E-eu sei que está escondendo algo de mim, King.
Ele não havia se incomodado com a pergunta da garota, ainda estava cabisbaixo, mas apertava cada vez mais o colar entre os dedos, queria desistir, mas não o fez.
– Diane.
A garota ergueu as sobrancelhas e o encarou.
– Quero que use isso. – ele hesitou, até que decidiu segurar o colar frente ao corpo para que a garota o visse claramente.
Os olhos violetas de Diane se estalaram em surpresa, e suas bochechas antes infladas havia tomado uma coloração roseada.
– I-isso é para mim? – ela pegou o colar de sua mão e um sorriso brotou em seus lábios. – É tão lindo!
Ela deixou uma risada tímida escapar e então se virou de costas para King, envolvendo o colar em seu pescoço, mandou-lhe um olhar de canto para que ele abotoasse o cordão em seu pescoço. Aquela cena com toda certeza faria King explodir em vergonha, mas seu olhar estava tão distante que não percebeu a doçura da garota.
Ele acolheu o colar novamente em suas mãos e abotoou por trás do pescoço de Diane, a mesma ainda estampava em seu rosto um sorriso radiante, e parecia esquecer totalmente da raiva que sentia antes.
– Ficou ótimo em você – sorriu King, mas era um sorriso entristecido, porém a garota não percebeu os olhos do garoto brilhar como se quisesse chorar.
Diane abriu seus lábios levemente e sussurrou algo, a voz aguda e doce de antes começara a falhar, e então ela levou suas mão até a cabeça e bambeou. Ela iria cair se não fossem os braços de King para segura-la, ele a fez sentar sob a grama lentamente e a apoiou até que seus olhos voltassem a abrir lentamente.
Meliodas parecia inquieto, e naquele momento ameaçou revelar nossa presença, mas não o fez quando percebeu que Diane havia se erguido novamente. Segurei sua mão forte e acenei com a cabeça, tentando avisa-lo que estava tudo bem. Ele ainda parecia confuso, mas resolveu mante-se em silêncio.
Diane permanecia sentada ao chão, o brilho radiante em seus olhos fora substituído por um roxo fosco e sem vida, mas aos poucos voltaram ao normal. Ela estava fora de si, olhava em volta como se não reconhecesse o lugar.
Parecia assustada.
Até que King segurou sua mão, então os olhos inquietos de Diane tomaram uma direção, e naquele momento encarava o garoto fixamente, um sorriso recolhedor se formou em seu rosto levemente pálido.
– Harlequin.
Ele não aguentava mais se segurar, as lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto rapidamente, e antes que Diane percebesse a envolveu em um abraço aconchegante.
– O que houve? –perguntou, ainda deslocada – onde estamos? Quanto tempo se passou?
– Diane...
A garota sessou suas perguntas e apenas retribuía seu abraço.
– Saiba que eu cumpri nossa promessa... – ele sussurrou. – saiba que... Sempre irei mantê-la. Então por favor, lembre-se.
– Do que está falando, Harlequin? – ela parecia confusa. – Lembrar-me? Promessa?
King levou suas mãos até o rosto de Diane, o segurou com delicadeza e a fez encarar diretamente, ele não parecia envergonhado como antes, e sim desesperado.
– Eu vou ama-la para sempre. – disse, e então fechou seus olhos deixando as poucas lágrimas que ainda restavam escorrem lentamente. – Então peço algo em troca... Pode me odiar se desejar, mas apenas lembre-se. Todos os momentos que passamos juntos, todas as rizadas, todas as lágrimas, todas as dores. Tudo. Apenas lembre-se de mim.
– Eu nunca vou me esquecer de você. – o respondeu em um tom baixo, mas foi o suficiente para fazer King cessar o choro e erguer um sorriso fraco.
– Me perdoe... Eu cometi um erro terrível, e se pudesse voltar no tempo mudaria tudo, e então poderíamos ser felizes, mas eu sou um idiota. – se lamentou – Eu sempre faço tudo errado, por isso não mereço que você goste de mim, estou apenas sendo egoísta. Vou aceitar seu ódio.
– Não diga isso, eu não posso odiar você.
– Por que não?
Ela sorriu, mas desta vez a ternura fez seu rosto radiar.
– Porque eu o amo.
King ergueu as sobrancelhas surpreso, não parecia esperar estas palavras da garota, levou alguns segundos para recapitular aquilo, e quando realmente o fez crer que era real apenas fechou os olhos, ao mesmo tempo seu rosto corou levemente, mas estava feliz por ouvir daquilo.
Tudo parecia tão surreal, mas Diane voltou a empalidecer, sua tontura havia voltado e King de desesperou.
– Não! Por favor! – Ele a acolheu em seus braços novamente, e quando percebeu que ela mal podia manter seus olhos abertos o fez angustiar. – Ainda não, oh Deusa, por favor, nos dê mais tempo!
King parecia suplicar por algo, mas quando percebeu que suas preces não seriam atendidas apenas focou em Diane novamente, e as palavras que ecoaram pelos seus lábios eram repetitivas, parecia uma suplica tão distante.
– Lembre-se! – ele a apertou mais em um abraço. – Lembre-se, Diane!
– C-certo... – ela sussurrou, e esforçou um sorriso em seus lábios fracos.
King não soube mais como controlar, apenas levou seus dedos até o queijo da garota e o ergueu, então só pode selar seus lábios levemente sobre os dela antes de uma luz radiante envolver os dois, aquele colar brilhava em um vermelho escarlate, mas enquanto aquela luz não se apagasse King apenas a beijaria como se fosse o último gesto que podia fazer.
Ver aquilo me angustiava, e uma dor inquietante tomou conta de meu peito, Meliodas havia notado minha inquietação, envolveu seus dedos novamente entre os meus e apertou minha mão, como se quisesse acalmar aquele sentimento de tristeza. Eu sempre tomava as dores dos outros para mim, e ver como King sofria só me fez crer que não podia olhar aquilo com indiferença.
Diane parecia despertar novamente, mas desta vez levantou-se o mais rápido que pode. Ela olhou nervosa em sua volta e parou quando viu King ainda sentado ao chão cabisbaixo.
– O que aconteceu, King?
Ele esfregou seus olhos antes de erguer seu rosto em um sorriso forçado.
– Não é nada Diane. Você ficou linda com este colar.
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