La Vie En Rose
9 Marrom
Notas iniciais
Por um estranho momento, não sei por que, eu me lembrei de Emanuelle. Minha última, namorada.
Eu já fiquei, beijei, iludi muitas meninas, quase uma por festa que vou. No tópico ao que se refere namoradas, acho que tive duas ou três em toda minha vida. Eu sempre as ignoro de minha lista de mulheres com quem já me envolvi. Parei de acreditar na cogitação de possuir um relacionamento sério há muito tempo. Abracei meu estilo de vida com tanto entusiasmo, que acabei esquecendo quem eu um dia já fui.
Pra falar a verdade, eu não sinto falta de estar num relacionamento sério. Já tenho muitas responsabilidades com meu trabalho, uma namorada seria mais um fardo a se carregar. E, apesar de muitos julgarem, eu gosto do jeito que eu sou. Afinal, olhe para mim! Consigo satisfazer meus desejos num piscar de olhos, tenho dinheiro, fama e sou excepcionalmente bonito com um corpo incrível! A questão que me vem à mente é: Contudo, por que Rose ainda me incomoda?
Hipóteses vêm em minha mente, mas nenhuma delas parece encaixar na lógica. A mais coincidente com a situação presenciada em relação à vida que levo, é que estou desesperadamente louco para transar com Rose. Não sei se é algum tipo de abstinência. Só sei que é apenas uma teoria. Uma teoria. Não tenho certeza de nada. Eu olho para Rose, vejo uma mulher linda! Rose tem um tipo de beleza natural. Seu corpo é nem muito extravagante nem muito magro. Chego até a sentir repugnância de meus pensamentos maliciosos quando a olho. Aos poucos percebo sutilmente como ela pensa. Ela é louca para botar tudo àquilo que ela pensa para fora, e Deus, como ela pensa grande! Rose tem uma maneira de ver o mundo da forma mais realista e poética o possível, essa visão me contaminou de tal forma, que a diligência em meu ser apenas cresce.
O nome de Emanuelle aparece em minha cabeça mais uma vez.
Eu não me lembro muito bem como nós nos conhecemos, provavelmente estava bêbado. Faz uns dois anos desde que terminamos.
Lembro que Emanuelle era uma modelo negra e eu brincava com ela falando que ela era meu pedaço de chocolate, e eu sempre a acordava com mordidas nos ombros.
Eu me esforçava muito para que os paparazzis não invadissem nossa privacidade, afinal, quando dois famosos saem juntos, milhares de rumores falsos começam a se espalhar. O que me lembra de Rose. Vejo seu braço entrelaçado ao meu conforme caminhamos para meu trailer e olho para os lados desesperadamente em busca de paparazzis. Por via das duvidas, largo meu braço do dela para que não ocorra algum equivoco ao nosso respeito.
Rose apenas enfia as mãos em seus bolsos e encara suas botas.
Quando namorei Emanuelle, eu lembro que eu era um cara bem feliz. Sorria com mais frequência, estava sempre com os dedos entrelaçados com a mesma mulher, acordava com o mesmo cheiro de perfume da mesma dita cuja. O mais intrigante de todas essas memórias, é que eu não me lembro o que eu vi nela que me fez dar uma pausa em toda minha ordinária jornada de relacionamentos sexuais sem compromissos.
Ela não tinha nada de extravagante. Emanuelle tinha um sorriso magnifico e um senso de humor excepcional. Sou um cara que apesar de meu caráter malvisto, tenho um lado sensível e lírico. Gosto de reconhecer pequenos gestos únicos de cada mulher com que eu passo o tempo, pode até soar meio medonho, mas eu acho que é uma característica boa. De tempos em tempos, encontro uma mulher com qualidades que ajudam a concertar meus defeitos e com defeitos que eu sei lidar. Mas são casos raros. Vagamente eu concordo comigo mesmo em levar uma relação mais a sério.
Emanuelle convencera-me de que eu sou muito mais precioso do que penso, e eu tinha acabado de perder um prêmio, então acho que a – como Rose diria – doença do amor me atingiu naquele momento. Meu consolo foram as unhas pintadas de marrom acariciando meus cabelos, que longos estavam na época, me falando regalias e incentivos em forma de poesia com seu corpo. Em questão de semanas, assumimos o namoro. Foi tão súbito, assim como os pais de Rose.
Pensando bem, agora eu entendo claramente o sentimento que Rose quis transmitir na hora em que ela contava a historia de seus pais. Esse assunto de amor ser uma doença. Emanuelle no final das contas estava mais interessada em minha imagem do que de fato me consolar, foi isso o que levou nosso término depois de uns cinco meses.
Cinco meses, meu Deus! Sou capaz de lembrar de cada um como se fossem temporadas de uma novela. E o mais bizarro de tudo, é que eu posso descrevê-los e falar como se fosse um expert em namoro.
Os primeiros dois meses de namoro é mais como um teste. Um período loucamente apaixonado pelo alguém especial, mas é o mês em que se conhece profundamente a pessoa, é o tempo de repensar bem antes de mergulhar no relacionamento seriamente sério.
Depois é uma questão de confiança. Confiar que não vai trair; confiar que vai contar a verdade e outra série de fatores que aprendi assistindo filmes.
Nos meus meses primários eu fui um cara feliz. Levei Emanuelle para o topo da torre Eiffel, tiramos fotos imitando o filme “Funny Face”, comprei a ela quadros de renomados pintores, ficávamos até meio dia tendo como vestes lençóis e... Enfim, eu poderia listar inúmeras tarefas que qualquer casal parisiense faria, mas meu ponto é que, é bom estar nas nuvens por um momento. Até que é lembrado que você é humano, e humanos não voam, e então, a queda começa. O que me lembra que o melhor de tudo sobre o meu hábito anti-namoro é que ele é constituído apenas pela parte das nuvens, sem queda, sem dor.
Meus meses finais foram um desastre, foi quando eu decidi que eu não fui feito para manter um compromisso com uma mulher. Emanuelle começou a viver em meu apartamento e tudo estava ótimo, até que eu descobri que ela estava abusando de minha fama para se autopromover. Poupar-me-ei de relembrar os detalhes porque não gosto de pensar nas discussões que tivemos, foram feias e repletas de xingamentos e palavrões.
Mas o fato de recordar meus momentos com Emanuelle ainda me deixa intrigado. Afinal, por que ela me veio à cabeça? O que ela tem em relação com Rose e a conversa que tive com ela?
Rose não é minha namorada, nós não chegamos nem perto de ser um casal. Ela e eu temos opiniões similares em relação a namoro, mas isso é o que nos torna ainda mais distantes de possuirmos química juntos.
Porém uma coisa é inegável: Rose tem as qualidades que consertam meus defeitos e os defeitos que são aceitáveis. Esse é um fator primordial que percebo em todas as minhas ex-namoradas. Rose tem ajudando-me a enxergar coisas em mim que são feias e sujas, e com suas palavras diretas e polidas ela tem esculpido minha alma de forma involuntária. Minha percepção para a situação me deixa preocupado e estranhamente interessado em saber quais são os outros poderes que Rose esconde por de trás de sua pele.
—As chaves! – a própria exclama despertando-me de meus imensuráveis pensamentos que correm mais rápidos do que meu próprio raciocínio – Seu trailer está trancado.
Enfio uma de minhas mãos em meu bolso traseiro da calça jeans e abro não só a porta do trailer, mas uma infinidade de possibilidades para a compreensão de Rose Esme.
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