La Prophétie - 2ª Temporada
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Isnaria entregou a bebida a Heron e aconchegou-se em seu colo.
– Elas estavam me levando a loucura. Por isso deixei tudo nas mãos delas. O que me importa é que você esteja lá. – ela acariciou o rosto do amado – Essas questões de tradição podem ser decididas por nossas mahmens.
Em resposta o macho pode apenas beijá-la apaixonadamente.
– Faltam apenas alguns dias agora, nalla, e estaremos juntos. Não haverá ninguém mais para interferir ou opinar.
– Serei malvada se disser que mal posso esperar por isso? Estar longe do julgo de nossas famílias?
– Não, não será. – ele a abraçou e apoiou o queixo sobre a cabeça de sua prometida – Nós sabemos quão pesado esse cuidado pode ser.
Isnaria se moveu para fitar o amado.
– Sabemos mesmo. – suas mãos foram para a camisa dele e começou a desabotoá-la – O que me diz de aproveitarmos esses instantes roubados agora?
Heron riu, deliciado com a ideia.
– Eu digo que sou todo seu para que faça o que quiser. Sabe que amo essas suas ideias.
[...]
Beth ainda remoía a discussão que tivera com seu hellren, ouvindo uma e outra vez a frase na qual ele confessava que havia tornado a Eleita sua segunda shellan.
Agora era oficial a fêmea estaria permanentemente em sua vida, pois, de acordo com as palavras de Wrath, os dois haviam cumprido um ritual ainda mais tradicional que uma Cerimônia de Segunda Vinculação.
Ela mal podia administrar a informação de que seu amado fora tão desleal para com ela e para com os sentimentos que os unia, por isso havia se hospedado temporariamente na Casa Segura de Marissa.
Ele havia dito que seu amor por ela não havia sido alterado, apenas que seu coração havia encontrado mais amor para com aquela fêmea e isso de alguma forma fazia tudo parecer ainda pior. Fazia com que se perguntasse em qual momento ela não fora o suficiente para que ele lhe entregasse todo seu amor.
– Beth. Podemos lhe fazer companhia? – Marissa observou a rainha esperançosamente.
Beth acenou em concordância e assistiu Marissa adentrar a sala acompanhada por Bella e Mary, que trazia uma bandeja com quatro xícaras de chá.
Nenhuma das fêmeas expressou mais do que sorrisos amistosos até que todas estivessem acomodadas e com xícaras de chá em suas mãos.
– Vocês já sabem. – Beth sentenciou.
– Sim. A discussão de vocês foi acalorada e acabamos ouvindo. – Marissa tentou soar casual.
– Lógico... Afinal, o fato de eu ter gritado ao sair do escritório não teria nenhuma relação com o fato.
– Bem, pode ser que isso tenha contribuído, mas não importa. – Bella comentou – O que importa é como você está se sentindo e o que podemos fazer por você.
Beth bebeu um pouco do chá, pensando que aquele momento exigia algo mais forte do que isso, porém teria que bastar.
– Eu não sei nem mesmo o que pensar dessa situação toda, muito menos o que fazer. – ela desabafou – Eu fico me perguntando repetidamente, se eu não sou o problema. Será que eu não fui suficiente para ele? E como não percebi que faltava algo em nosso relacionamento?
– Não se torture deste modo, Beth. Eu tenho certeza de que não se tratou de nada disso. – Mary segurou a mão da rainha. – Wrath deve ter dado alguma explicação. O que ele disse?
– Ele não pretendia me contar da maneira que contou, disso eu não tenho duvidas. Ele pareceu arrependido no momento em que percebeu minha reação. Não que isso mude algo. – a fêmea suspirou pesadamente – Ele me disse que o amor que sente por mim não mudou, que eu sempre serei sua primeira shellan, sua amada rainha. E que o espaço que ela ocupa em seu coração é completamente diferente. Não sei se posso acreditar nisso.
– Bem, talvez seja esse o caso. – Mary comentou cuidadosamente.
– Você consegue realmente acreditar nisso? – Beth se voltou para a fêmea.
Mesmo com toda sua decepção, ansiava por acreditar nas palavras de seu hellren quanto à ausência de mudanças de seus sentimentos para com ela.
– Ouça, Beth. Nós duas tivemos uma criação humana, portanto, para nós, isso sempre será complicado de se imaginar. – a humana colocou a xícara de chá sobre a mesa de centro – Mas, eu estive estudando sobre os costumes vampíricos e a questão da segunda shellan aparece muitas vezes e em nenhuma delas é dito algo sobre desmerecimento de uma ou de outra. Ao que parece é algo instintivo, faz parte do lado mais animal do macho vampiro.
Beth se levantou, era difícil engolir essas informações.
– Então, porque não há casos assim atualmente?
O silencio que se seguiu foi estranhamente desconfortável até que Marissa se pronunciou:
– Sendo brutalmente honesta, não podemos dizer que não há casos atualmente, apenas que não existem casos conhecidos. Afinal, parte da raça vive escondida e, é provável, que esse fato seja um fator determinante para essa realidade. Podemos simplesmente desconhecer os casos atuais ou estes serem raros devido a menor interação entre os membros da raça.
– Do jeito que falam, parece até algo natural.
– Fomos criadas sob a verdade de que é, Beth. – Bella sorriu fracamente – Não sei qual seria minha reação, se estivesse em seu lugar. Acredito que nada me prepararia para isso, mas, a educação tradicional das fêmeas da raça, nos relata o costume como algo natural. Basicamente, nos ensinaram a encarar que assim como um pai não deixa de amar seu primeiro filho quando um segundo filho nasce, uma hellren não deixa de amar sua primeira shellan.
– Todo esse assunto é uma grande loucura. — Beth voltou a sentar-se e se virou para Marissa. — Me diga sinceramente, quando você estava com Wrath, imaginava que ele tomaria uma segunda shellan?
– Sim. Para mim, era algo tão natural quanto certo, Beth. E eu até mesmo esperava que isso ocorresse e que servisse para que ele se sentisse completo. Para mim, um macho como Wrath jamais se sentiria satisfeito com apenas uma companheira. – a fêmea deu de ombros – Claro que essa minha certeza se devia também a natureza estranha de nosso relacionamento durante aqueles anos. A fêmea que eu sou hoje, talvez precisasse refletir um pouco mais sobre o assunto.
– Isso tudo é uma insanidade. Estou completamente perdida. – a rainha fechou os olhos – Meu hellren, aquele que eu amo com minha vida, simplesmente me disse que não pode evitar o que sente por outra fêmea... Aquela fêmea em especial, e que nós duas somos parte dele. Ele simplesmente a ama, assim como me ama. Eu não tenho ideia do que fazer.
– É difícil, Beth. Só você pode decidir o que fazer. – Mary comentou – Talvez, a melhor maneira seja buscar uma convivência pacifica. Houve muitos relacionamentos assim em meio a raça vampira e os envolvidos fizeram funcionar. Até mesmo entre os humanos existem relações desse tipo, mesmo fora dos seguidores das religiões mulçumanas. Apenas procure dentro de você os limites para o seu amor e terá a resposta.
Beth fitou suas amigas, sabia que elas estariam ali para o que ela precisasse.
– Acreditam mesmo que o melhor caminho seja a paz e a concordância?
– Pode ser... Apenas você pode decidir... Mas, no seu lugar, se eu realmente amasse meu hellren, lutaria por ele e por nossa união. Independente do que isso viesse a significar. – Bella comentou – No fundo amar é isso. Aceitar aquilo que torna quem amamos feliz.
– Continua parecendo loucura para mim... – Beth disse com a cabeça baixa.
Mary riu.
– Tudo por aqui é uma loucura para pessoas criadas como nós, Beth, não apenas isso. – ela afirmou – Volto a dizer que apenas você saberá sobre os limites de seu amor e seu relacionamento.
Beth olhou para a única humana dentre elas, ainda que isso não fizesse nenhuma diferença real. Mary era a mais próxima dela em questão de criação, expectativas e experiências.
– E se fosse com você, Mary? Bella e Marissa disseram que precisariam pensar devido a sua criação... mas, você foi criada dentre os humanos... Se o Rhage aparecesse com uma nova shellan, o que você faria?
A humana suspirou.
– Se ele realmente a amasse e precisasse dela para ser feliz, eu aceitaria. – as fêmeas olharam para ela admiradas – Não me olhem assim. Não posso ignorar nossas diferenças a meu bel prazer. Sou imensamente abençoada por ter encontrado Rhage e a felicidade que ele me proporciona. Diante disso, jamais poderia fazer qualquer coisa que diminuísse a felicidade dele. Essa é minha visão de amor.
[...]
Aileen sorriu para a amiga, enquanto lhe estendia uma taça de champanhe.
– Você está magnífica. – em suas mãos também havia uma taça, porém cheia de suco de laranja, e ela a ergueu em forma de brinde.
Isnaria imitou o gesto e tomou um pequeno gole da bebida, antes de voltar a se olhar no espelho.
– Você acha que Heron irá gostar?
O vestido de Isnaria era um longo rodado estilo grego de uma alça só azul marinho, camadas de saias esvoaçantes camuflavam parcialmente uma grande fenda que se iniciava em sua coxa. A cintura era bem marcada por um cinto de delicadas flores azuis de onde saia uma calda de um tom mais escuro que se arrastava atrás dela. Seus cabelos estavam modelados em cachos adornados por uma fina coroa com as mesmas flores do vestido. Os lábios brilhavam com um batom vermelho, a única maquiagem que se permitira.
– Heron amaria vê-la até mesmo vestida como mendiga, não se preocupe. – ela sorriu para o reflexo da amiga – Mas, tenho certeza, de que ele te achará divina essa noite.
– Mal posso esperar para vê-lo. – a fêmea a fitou – Apesar de não estar ansiosa pela parte mais tradicional da cerimônia, será horrível vê-lo ser ferido. Não entendo porque ele insistiu nisso.
A Eleita desocupou as mãos de ambas, para segurar as da amiga.
– Tudo faz parte da forma mais pura da Cerimônia de Vinculação, apenas respire e aceite a honra que ele lhe dará. Tudo o que acontecer hoje será para dar provas do amor de vocês e sinalizar o inicio de suas vidas juntos.
O sorriso da outra fêmea foi resplandecente.
– Obrigado. Hoje é o dia mais feliz da minha vida, mas, confesso que estou uma pilha de nervos.
– Não tenho experiência, mas imagino que isso seja normal, Is. Então termine seu champanhe e tente relaxar.
A loira se apressou em recuperar sua taça e bebericar rapidamente.
A hora marcada já se aproximava, o que significava que logo sua mahmen e a de Heron entrariam em um rompante e começariam a apressá-la, apesar de já estar pronta.
Foi como convocá-las pelo pensamento, pois, no momento em que ela esvaziou sua taça, Pelena e Hala invadiram o quarto parecendo apressadas.
– Pela Virgem Escriba... – Pelena soltou em um suspiro, enquanto sua acompanhante apenas ofegou.
– Algo errado? – Isnaria sentiu a insegurança retornar.
– Não. – Hala praticamente guinchou – Nada errado. Está tudo perfeito.
– Você está magnífica, parte do meu coração. Nunca antes te vi tão linda ou tão esfuziante – Pelena se aproximou e abraçou a filha – Estou imensamente feliz por você.
– Obrigado, mahmen. – os olhos das fêmeas estavam úmidos.
– Bem! Chegou o grande momento. – Hala uniu as mãos em forma de prece – Hora de descer, Isnaria, para seu grande momento. Nós a esperaremos lá embaixo.
As duas fêmeas mais velhas beijaram as faces de Isnaria e saíram apressadas.
– Pronta? – Aileen questionou, próxima a porta.
– Mais do que isso. Esperei por esse momento durante toda minha vida.
A Eleita abriu a porta do quarto e deu espaço para a amiga passar, ajeitando a calda do vestido.
Tasso aguardava pela filha no corredor.
– Está linda, parte do meu coração. – ele tomou sua mão direita e adornou seu pulso com uma delicada pulseira de prata com um pingente em forma do brasão de sua família – Eu não esperei ansioso por esse momento, porém me consolo em saber que um macho de valor a aguarda.
Pai e filha desceram as escadas de braços dados.
Aileen seguiu atrás deles e arrumou rapidamente a cauda do vestido de Isnaria quando alcançaram o salão, antes de se posicionar em seu lugar.
O salão estava completamente decorado com flores brancas. Todos os convidados – esmeradamente vestidos – estavam posicionados em um semicírculo, no centro havia uma mesa com um pequeno baú de madeira ricamente trabalhado, uma jarra com água, uma pira com sal e uma adaga com cabo de ouro e uma bainha de veludo vermelho bordada em dourado. O lídher do Conselho de Princeps aguardava próximo à mesa e posicionados nas laterais estava Pelena, Hala e Gael.
A caminhada de Isnaria foi embalada por uma suave musica clássica.
Tasso posicionou a filha em frente à mesa, beijou sua testa e se colocou ao lado de sua shellan.
Momentos depois, Heron entrou no salão e caminhou calmamente para se posicionar ao lado de sua prometida, ele trajava as tradicionais calças de seda negras e túnica da mesma cor presa a um cinto de joias. Os dois apenas se olharam e sorriram um para o outro em reconhecimento.
Não demorou para que o lídher desse início a cerimônia na Língua Antiga:
– Ouçam-me, todos reunidos diante de mim. Nos reunimos nessa noite para testemunhar a união deste macho e desta fêmea de acordo com os costumes mais nobres de nossa raça. – então ele se voltou para Isnaria – Isnaria, filha do princeps Tasso, este macho pede que o aceite como seu hellren. Aceitá-lo-á como seu se for digno?
– Aceitarei. – Isnaria respondeu com a voz um pouco tremula de emoção.
O lídher assentiu e voltou-se para Heron.
– Heron, filho do princeps Gael, esta fêmea o respeitará. Dará prova de seu valor por ela?
– Eu o farei. – a voz de Heron era firme e clara.
– Sacrificar-se-á por ela?
– Eu o farei.
– Defendê-la-á contra aqueles que pretendam lhe fazer mal?
– Eu o farei.
– Dê-me sua mão, filha.
Isnaria estendeu sua mão com a palma para cima e o macho a segurou.
– Macho.
Heron repetiu as ações de sua prometida e o lídher segurou as mãos de ambos com as suas.
– Esta é uma excelente união. – ele soltou as mãos deles – Agora deves provar seu valor a sua shellan.
Heron beijou Isnaria rapidamente, livrou-se de sua túnica e ajoelhou-se próximo a mesa, seus olhos jamais se desviando de sua amada.
Um macho membro da glymera se adiantou e empunhou a adaga que jazia sobre a mesa. O macho era corpulento e trajava uma túnica vermelho sangue presa por uma faixa de tecido negro ricamente bordado e um capuz que deixava seu rosto encoberto.
Era possível sentir a excitação dos convidados com o desenrolar da cerimonia, afinal há muito tempo, os machos haviam deixado de gravar o nome de suas shellans, deixando esse ritual voltado para os machos da Irmandade.
– Qual é o nome de sua shellan? – o macho perguntou levantando a adaga.
– Isnaria.
O ritual se repetiu por todas as sete letras do nome da fêmea, com Heron aguentando bravamente, enquanto o macho talhava o nome de sua shellan em suas costas.
Após isso, o macho jogou a agua sobre o sal e passou a espessa mistura nas feridas dele, depois retirou um tecido branco do baú que estava sobre a mesa, secou as feridas e guardou o tecido novamente.
– Levante-se, macho. – o lídher comandou.
Heron levantou-se ostentando com orgulho o nome de sua amada em suas costas.
O lídher apresentou o baú para ele.
– Dê isso à sua companheira, como símbolo de sua força, assim saberá que é digno dela e que seu corpo, seu coração e sua alma estão agora a suas ordens.
Heron pegou o baú, ajoelhou-se diante de Isnaria e o estendeu para ela.
– Tomar-me-á como seu?
Ela aceitou o baú com um sorriso.
– Sim, tomarei.
Heron se levantou, sorrindo orgulhosamente. E Isnaria se apressou em beijá-lo, sob os aplausos dos presentes.
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