Notas iniciais
Boa Leitura!

Aileen deu os últimos retoques em seu penteado, enquanto usava a respiração para acalmar seu ânimo.
Aparência era tudo para a glymera e, em situações como esta, poderia ser uma arma poderosa. Por isso, seu vestido violeta era extremamente sóbrio e discreto, porém a semelhança com a cor de seus olhos garantia algum atrativo, e seus cabelos estavam presos em um coque francês lateral.

Não havia duvidas de que ela seguia para um campo de batalha nesta noite e ninguém poderia afirmar que não estava preparada. Ela não podia se permitir este luxo.

Mansur entrou no quarto sem aviso, como de costume.
Seu porte estava longe de ter semelhança com o de um guerreiro, mas havia uma aura de poder e orgulho que sempre o acompanhava.

– Está na hora de irmos. Chegarmos atrasados não será de bom tom. – o tom era autoritário como sempre.

– Já estou pronta. – Aileen se levantou e ficou a mercê do olhar avaliador de seu pai. Ele sempre fazia isso, pois não suportaria que ela se apresentasse em público de alguma maneira que pudesse embaraça-lo.

– Perfeitamente adequada. – Mansur aprovou – Você realmente aprendeu a se portar.

Aileen manteve-se calada, como sabia ser o melhor a fazer, afinal Mansur não deixava de ressaltar que uma boa fêmea mantinha o poder em seu silêncio. Argumento que ela acabou constatando ser verdadeiro com o tempo.

– Vamos! – foi a ordem do macho antes de se desmaterializar.

Sem demorar mais de um segundo, Aileen o seguiu, se materializando alguns instantes depois de Mansur no saguão da mansão do lídher da glymera.

Uma doggen bem vestida os esperava e após uma saudação bastante formal os guiou até o local da reunião. A sala já estava cheia, contando inclusive com a presença de Phury.

Como Mansur desejava, eles não foram os últimos a chegar, por isso a reunião não se iniciou imediatamente, abrindo margens para as conversas tolas usadas pela glymera para passar o tempo.
Bastaram apenas alguns minutos para que o ultimo membro se juntasse a eles e todos foram direcionados a sala onde ocorreria a reunião.

O lídher se acomodou na cabeceira da mesa e todos os demais membros do conselho pareceram saber exatamente onde o lugar que deveriam ocupar.
Aileen e Mansur foram acomodados em frente ao lídher no extremo oposto da extensa mesa, enquanto Phury foi acomodado ao lado do mesmo.
Marissa mantinha-se em seu lugar costumeiro ao lado de Havers.

– Sejam bem vindos a essa reunião extraordinária do Conselho de Princeps. – o lídher se pronunciou – Fatos recentes nos trazem aqui para novamente tratarmos a respeito da Profecia da Renovação.

Imediatamente Aileen e Phury se olharam, tendo conhecimento de modo instantâneo do esforço que o outro fazia para evitar revirar os olhos.
O nome escolhido pela glymera para a profecia era, no mínimo, peculiar.

Alheio a isso, o lídher continuava com seu discurso:
– Devido às peculiaridades desse assunto, temos convidados especiais para esta reunião: o membro da Irmandade da Adaga Negra, Phury, filho de Ahgony; que vem até nós como representante do Rei Cego; o membro da glymera Mansur, filho de Malque, e sua filha Aileen, a Eleita da Profecia da Renovação.

O macho fez uma pausa apenas para garantir uma dose extra de drama em suas palavras. Não havia duvidas de que ele poderia ser um grande ator, se desejasse.

– Estou certo de que todos os presentes estão cientes de todo o conteúdo da Profecia da Renovação. Nossa reunião se deve a confirmação da vinda do herdeiro da profecia e estamos aqui para conhecer a opinião das partes e deliberar o assunto. Todos estão de acordo?

As palavras de aprovação eram apenas formalidade, todos ali já conheciam de antemão a pauta daquela reunião.

– Imagino que o Irmão Phury possa nos revelar a posição do Rei. – um dos machos mais próximos ao lídher tomou a palavra.

– Esse é exatamente o motivo de minha presença – Phury falou com firmeza, deixando claro que ninguém o iria intimidar ou persuadir – A Corte do Rei e a Irmandade estão prontos para apoiar Aileen em tudo o que ela necessitar. A fêmea terá apoio incondicional.

Não houve hesitação em sua fala, nem espaço para duvidas.
Não que isso tenha impedido a réplica.

– Os senhores estão preparados para apoiá-la, porém nenhum de vocês pretende assumir a responsabilidade de perto? – Mansur questionou – Nenhum dos machos pretende assumi-la?

– Isso não está discriminado na profecia, nada liga essa fêmea aos machos. – a voz de Marissa era ríspida, surpreendendo a todos – Os guerreiros estão livres para seguir com suas vidas e com suas shellans. – ela terminou de modo claramente maldoso.

O olhar do lídher para ela foi mais do que gélido.

– Peço que se mantenha em silêncio, fêmea Marissa. Podes até ser membro deste conselho e ser companheira de um guerreiro da Irmandade, porém o representante escolhido pelo próprio Rei Cego foi o Irmão Phury, não a senhora. Apenas ele pode se pronunciar pelo Rei e responder aos questionamentos.

Os presentes observaram a fêmea engolir a reprimenda em seco, por não ter como combatê-la.
Marissa tinha consciência de que acabara de meter os pés pelas mãos ao permitir ser dominada pelas emoções. Envergonhando a si mesma desnecessariamente.

Visando amenizar a situação, Phury rapidamente retomou a palavra:
– Até o momento, Aileen permanece livre de um compromisso deste porte, porém ela não está ou será desamparada. Aileen é a protegida do Rei e da Irmandade da Adaga Negra, está é sua posição desde o principio.

O silêncio que se seguiu após tal revelação era mais do que esperado, aquela era a posição mais elevada que uma fêmea sem companheiro e não relacionada por sangue poderia alcançar dentro da Corte e em relação à Irmandade.
Após isso o Conselho de Princeps tornou-se um pouco irrequieto.

– Por certo a posição do Rei Cego e da Irmandade da Adaga Negra está firmada e devidamente comunicada. Igualmente com a posição de Aileen perante a raça. – o lídher retomou a palavra, seu tom novamente era pomposo – Por parte da glymera, este célebre conselho em especial, também estamos prontos a oferecer apoio à fêmea e garantir que a criança tenha a melhor educação que possa ser oferecida. Esta criança será instruída com o melhor, pelo melhor e para o melhor.

Os membros do conselho murmuraram em aprovação.

– Com licença. – Aileen chamou a atenção para si. Mais uma surpresa para os presentes – Sinto por frustrar os planos brilhantes que tiveram tanto trabalho para traçar, porém a criança está sendo gerada em meu interior, eu serei sua mahmen, e apenas eu decidirei seu futuro.

O espanto foi geral e o lídher ameaçou retomar a palavra.

– Espere. – Aileen disse com firmeza, mas ainda mantendo a voz moderada – Eu os ouvi em silencio até o momento e agora eu devo falar. Agradeço por terem se dedicado traçar o melhor plano diante da situação, mas preciso declinar a gentil oferta. Todos estão dispostos a oferecer apoio, mas ninguém está disposto a arcar com a responsabilidade da proximidade, apenas eu estarei por perto. Portanto, apenas eu decidirei sobre meu bebê e seu futuro.

– Você não tem ideia do que está falando, menina. – um dos machos presentes exclamou – Essa criança não será comum e precisa ser tratada conforme sua importância.

– Eu sei exatamente do que estou falando. Falo de uma criança, do meu filho. E não deixarei que o comandem e moldem como a uma marionete infeliz, cheia de preconceitos e medos, apenas porque acreditam que isso seja o melhor.

– Como a senhora se atreve? Estamos lhe oferecendo apoio e instrução para lidar com esse problema da melhor forma. – o lídher se levantou visivelmente furioso.

– Me atrevo porque sou a maior interessada. Meu filho não é ou será um problema, portanto dispenso esse tipo de apoio. – Aileen se recusou a baixar a cabeça.

Ela havia sido criada de acordo com os moldes da glymera e conhecia bem o que ocorria se a criança não alcançasse o desempenho almejado por seus tutores e definido pelo padrão da sociedade vampira. Seria uma amaldiçoada se permitisse que seu filho vivesse a mesma sina, quando acabara de receber o poder para evitar.

– Independente do modo pelo qual foi gerado ou para qual propósito, meu filho será uma criança amada, cuidada e guiada por mim. É meu filho, minha dádiva e minha responsabilidade! Quanto a vocês, devem se manter atentos aos seus próprios assuntos, seus filhos e interesses.

O ar no ambiente era tenso e surpreso.
Todos na glymera tinham conhecimento do comportamento sempre discreto e plácido da filha de Mansur, o que tornava aquela reação da fêmea praticamente inacreditável, além de ultrajante.

– Não pense nem por um momento, fêmea, que permitiremos que corrompas a preparação da criança da profecia. Nós garantiremos sua educação, independente de sua vontade. A afastaremos, se necessário. – o tom do lídher era de escárnio.

– Apenas se eu estiver morta. – Aileen desafiou sem alterar o tom de voz.

– Isso não ocorrerá assim, definitivamente. – Phury se colocou de pé imediatamente, sua figura atraindo a atenção de todos os presentes – Aileen é a protegida da Corte e da Irmandade, assim como seu filho também será. Ela será responsável pela criança e sua vontade será respeitada por todos da raça. Caso ela venha faltar, a Corte se responsabilizará pela criança. Nesse assunto, não cabe a glymera autonomia para qualquer decisão.

O silencio que e seguiu estava carregado de indignação, o Conselho de Princeps não costumava ser tão incisivamente contrariado. Há muito tempo seus desígnios não eram desafiados por ninguém, nem mesmo pelo rei.
Porém, eles não poderiam mudar o que já estava decidido, ninguém ousaria refutar a declaração do macho indicado para transmitir a vontade do Rei de toda a raça. Ao menos, não direta e imediatamente.

Em todo o cenário, apenas Mansur mantinha um ar inegavelmente satisfeito.

Aileen permitiu-se respirar aliviada e observou Phury com gratidão.
Ela já esperava por essa reação da glymera e sabia que não desistiriam, mas agora iriam tentar de maneira mais sutil, tentariam convencê-la e não subjugá-la.
Seriam forçados a reconhecer que a melhor estratégia, para eles, seria atuar ao lado dela e não contra.

– Acredito que já tenhamos tratado de todos os assuntos necessários por hora. – Mansur tomou a palavra – Se esse for o caso, peço licença para me retirar em companhia de minha filha, pois ela não pode se expor a momentos de stress contínuo.

Não houve reação para essa solicitação.
Talvez porque os princeps ainda estivessem absorvendo o que o guerreiro havia lhes dito, ou por não considerarem a saúde de uma fêmea mais importante que uma finalização adequada para aquela reunião.
Fosse qual fosse o motivo, Mansur se aproveitou daquele momento de inércia para se levantar e indicar, sem palavras, que Aileen fizesse o mesmo.

– Nos despedimos. – Mansur falou no Antigo Idioma – Que as bênçãos da Benigna Virgem Escriba estejam sobre este lar.

Mansur se dirigiu a porta principal da mansão e Aileen, após um breve olhar a Phury, o seguiu.

Ela sabia que Mansur não estava interessado em sua saúde, o macho visava apenas uma saída estratégica, antes que estourasse uma discussão maior que pudesse manchar sua imagem ou diminuir a autonomia de Aileen sobre o “herdeiro da profecia”.

Quando Aileen se materializou em sua casa Mansur não estava à vista.

O fato não era surpresa, com certeza, o macho se trancaria em seu escritório acompanhado de alguma bebida bastante cara para deliberar sobre os resultados daquela reunião e suas possibilidades, para assim planejar seus próximos passos. Ele sempre era meticuloso e pensaria em algo do qual pudesse conseguir o máximo de proveito.

Aileen seguiria seu exemplo. Era chegado o momento de se preparar para a longa batalha que estava por vir.

[...]

Isnaria analisou os papeis a sua frente com curiosidade.

– Aileen, para que você está equipando o porão de um chalé nos arredores da cidade?

A fêmea não desviou o olhar do computador ao responder:
– Estou planejando uma rota de fuga. Ninguém pode prever o momento de necessidade.

Isnaria fitou a amiga com a sobrancelha esquerda arqueada, atitude típica de quando estava interessada em receber maiores informações.
Porém, Aileen voltou sua atenção total para os arquivos financeiros que analisava com agilidade.

– Nem pense que irá se safar apenas com isso. – Isnaria se levantou e sentou ao lado da amiga – O que você quer dizer com rota de fuga? Para que realmente você precisaria de algo assim?

Aileen suspirou e fitou a amiga.

– Eu estou disposta a garantir que meu filho tenha uma infância melhor que a minha, sem a tirania de Mansur ou da glymera, porém não irei mendigar apoio de ninguém. – ela fez uma pausa – Ocorre que nem o Rei ou a Irmandade procuraram manter contato comigo. Mansur já está impaciente e logo irá explodir. Eu temo seus planos particulares e quero estar preparada, caso precise desafiá-lo.

Isnaria ergueu os papeis que tinha em suas mãos.

– Algo que certamente acontecerá. – a fêmea sentenciou — Esse será seu novo lar, então, caso seja necessário?

– Sim. Já está adaptado e decorado, sem falar que conta com o melhor sistema de segurança que pude encontrar. Se for preciso sairei da casa de Mansur e irei para lá. A boa noticia é que tenho como me manter, precisarei apenas encontrar um macho que possa me alimentar.

– Tenha certeza de que Heron irá ajudá-la, queira ele ou não. – Isnaria sorriu de modo suspeito – Agora eu entendo todo seu empenho para que a boutique estivesse em ordem e expandindo. Você queria estar preparada.

– Exatamente, Is. Eu aprendi algumas coisas vivendo com Mansur e ele não é exatamente imprevisível em suas ambições.

– Independente do que você decida, Heron e eu estaremos com você, tenha certeza. – Isnaria segurou a mão da outra.

– Eu sei. – Aileen sorriu brevemente – Agora, é hora de voltarmos ao trabalho, afinal ele não se fará sozinho.

– Certo, chefinha. – Isnaria bateu continência.

As duas riram, ainda que de modo forçado. Haviam tratado os fatos como possibilidades, mas sabiam, em seus íntimos, ser algo certo, porém com consequências imprevisíveis.

[...]

Aileen virou-se na cama e tentou normalizar a respiração para que seu mal-estar passasse mais rápido.
Tornara-se comum que ela acordasse assim e, segundo Havers, era normal em seu estado. Até mesmo as humanas sofriam com isso.

Ela tentara todo o tipo de remédio ou pratica indicada pelo médico para eliminar a situação, mas não havia conseguido êxito. Por fim, o melhor era se acalmar e controlar a respiração até se recuperar.

Estava tão concentrada nesta tarefa, que se assustou com Mansur irrompendo pela porta de seu quarto.

– Eu já tenho a solução para nossa situação. – ele anunciou com firmeza, enquanto Aileen se esforçava para se sentar – Na próxima noite teremos uma reunião com o líder do Conselho de princeps e o macho Gilihans, filho do princeps Gailey, para que possamos acertar os últimos detalhes.

– Desculpe-me, ainda estou um pouco atordoada do sono. – ela enrolou os cabelos em um coque, tentando ignorar a sensação de mal estar – A quais detalhes estão se referindo?

– Aos detalhes de sua união com Gilihans. – O macho disse como se Aileen fosse uma obtusa por não saber do que ele falava. – O Rei e a Irmandade não parecem estar tão interessados em acompanhar sua situação de perto. Nesse caso, os machos parecem ser mais fluentes em suas palavras do que com suas ações. – ele divagou brevemente – O importante é que não passaremos por essa vergonha sozinhos, aceitaremos o apoio da glymera e, como prova disso, firmaremos seu enlace com um macho escolhido por eles.

– Não sei de que vergonha você está falando. Eu não me unirei a um macho para firmar uma ligação com a glymera, independente das ações do Rei ou da Irmandade. Esse não é o proposito de uma união. – Aileen se levantou. Não estava exatamente admirada por este ser o plano, era até mesmo bastante simplista para um macho como Mansur.

– Deixe de frescuras, menina. Precisamos tirar proveito dessa situação ou seremos os únicos prejudicados. – Mansur foi categórico – Se um lado se omite, iremos tirar proveito do outro.

– Meu filho não é uma situação e isso não é um simples jogo de poder no qual valem apenas as estratégias. Não me vincularei com esse macho, nem com qualquer outro por hora. – o tom de voz dela era definitivo – E, definitivamente, não me unirei a nenhum macho que não for escolhido por mim.

Mansur se moveu com uma rapidez impressionante e segurou Aileen com força pelos braços.

– Enquanto estiver em minha casa e sob minha responsabilidade fará o que eu ordenar. Irá se vincular ao macho escolhido pela glymera.

– Não! – Aileen respondeu com firmeza, apesar do espanto e da dor que sentia – Minha união com um macho não será tratada como um negócio, mesmo contra sua vontade. Eu decido minha vida!

– Não se atreva a me desafiar! – o macho a sacudiu com violência – Se você se voltar contra minhas ordens, estará sozinha e por sua própria conta. Ou você se vincula a Gilihans, ou ficará a mingua. Eu a expulsarei e a renegarei. Pense bem, Aileen.

Aileen foi jogada na cama, mas não se deixou abater.
O tempo de defender seu futuro e o futuro de seu filho havia chegado. Não havia mais retorno.

– Então, economize seu tempo e me renegue. – Aileen se levantou novamente munida de toda sua coragem – Não me vincularei com ninguém que não seja de minha escolha. Me recuso a ser uma peça neste jogo de poder sórdido. Eu não estou à venda.

– Pense bem, Aileen. Sem mim você não é nada, não terá como sobreviver. – o macho ameaçou – Você sabe que eu não brinco e que não volto atrás com minhas decisões.

– Então estamos em um impasse, porque eu não mudarei de opinião, Mansur. – a firmeza em sua voz, era surpreendente até mesmo para Aileen. – Não me unirei a nenhum macho que não for escolhido por mim.

Mansur parecia extremamente furioso e surpreso com o comportamento dela. Jamais fora desafiado por sua filha e não admitiria isso.

– Se está certa disso. Junte apenas seus objetos pessoais e saia de minha casa. Nem pense em levar as joias da família. – Mansur ordenou – Se estiver aqui quando voltar da reunião da glymera, farei com que se arrependa e você sabe que eu falo sério.

– Eu não estarei aqui, fique tranquilo.

[...]

Aileen recebeu seus amigos com alegria, fazia alguns dias que não conseguiam se encontrar.

– Então é aqui que você se esconde agora? – Heron brincou a abraçando.

– Sim. Este é meu novo lar.

Era um chalé modesto com um quarto simples, porém o porão estava devidamente equipado para ela e o sistema de segurança fora o melhor que ela pode conseguir.

Aileen não tinha doggens por não poder arcar com mais essa despesa, então a limpeza e organização ficava por sua conta. Mas, ela não reclamaria, estava livre e poderia pensar no futuro de seu filho em paz.

– Sabe que se precisar de algo, basta nós dizer. – Isnaria ressaltou ainda abraçada amiga.

– Não se preocupem comigo, eu tenho tudo o que preciso. – Aileen os convidou a sentar – Querem beber algo?

– Estamos bem, Aileen. – Heron sorria – Não precisa mais ser tão formal, Mansur não está aqui.

– Eu sei. – a fêmea também riu – Mas, sou a prova de que velhos hábitos não morrem.

Isnaria bufou neste momento.

– Eu nem sei porque ainda me surpreendo com o cinismo de Mansur. – ela comentou – Ele ainda continua dizendo que resolveu deixar você livre para voar com as próprias asas, agora que está encarando uma nova fase de sua vida.

– Eu imaginei que ele diria algo assim. – Aileen deu de ombros levemente – Mansur jamais admitiria que foi desafiado por sua filha, que ele tanto alardeou ser perfeita, e acabou por expulsá-la de casa. Aparências são tudo para ele e assim ele mantem o que tem intacto.

– Ele é um biltre e merece ser desmascarado.

– Nem pense nisso, Isnaria. – Heron segurou a mão da namorada como se precisasse contê-la naquele momento – Algo desse tipo apenas dificultaria ainda mais a vida de Aileen e respingaria em todos os que participam da vida dela. Definitivamente, nenhum de nós precisa disso.

– Eu sei. Não sou tão tola. – ela apertou a mão do namorado levemente – Apenas expressei meu desejo secreto de que Mansur caia de seu pedestal. Tenho fé de que um dia isso irá acontecer e, com um pouco de sorte, assistiremos de camarote.

Foi impossível não rirem. E Aileen expressou a concordância de todos:
– Não posso negar que penso nisso algumas vezes. Acredito que seja normal, considerando as circunstâncias.

– Certo... Vamos falar de coisas felizes. – Isnaria se animou – Como está sua gravidez?

– Normal, Is. Nós não nos vemos apenas há alguns dias, não é como se houvesse tempo para grandes mudanças. – Aileen simulou um revirar de olhos – Mas, eu separei um espaço no porão para montar um quarto de bebê e pensei em montar um aqui em cima. Até agora, foram as únicas decorações que eu ainda não concluí e conto com vocês para me ajudarem nisso.

– Posso ajudar apenas pintando as paredes e montando os moveis. – Heron ergueu as mãos em rendição – Não conte comigo em nada mais.

– Você é tão bobo. A melhor parte em decorar são as compras. – Isnaria brincou – E falando em compras, como andam as coisas na boutique? Eu não pude ir até lá nos últimos dias.

– Uma loucura. Com esse estranho baile da glymera se aproximando, as fêmeas estão loucas atrás de vestidos e o fato de abrirmos durante as madrugadas garante a clientela.

– Ótimo. Deixe as gralhas nos darem dinheiro. O importante é que nossos vestidos sejam melhores. O que não é difícil, na busca por se destacar algumas fêmeas acabam se fantasiando de arvores de Natal.

– Amor, nem sabemos se Aileen irá ao baile depois de tudo o que aconteceu. – Heron disse em voz baixa.

Heron era um macho sempre preocupado em evitar dores de qualquer gênero naqueles aos quais amava. Aileen e Isnaria nunca conheceram alguém tão leal e interessado.

– Mas, é claro que ela irá. Não aceito qualquer outra resposta. – Isnaria foi enfática – Aileen precisa entrar naquele salão de baile com a cabeça erguida e o orgulho intacto. Não pode dar motivos para a glymera acreditar que conseguiu te assustar ao falar mal de você e de seu filho.

– Isnaria está certa. Decidi manter minha cabeça erguida e seguir com minha vida normalmente. – Aileen disse com firmeza – Não irei me esconder. Não fiz nada de errado e não devo nada a ninguém.

Isnaria acenou em concordância.

– E nos estaremos com você em todos os momentos. – Heron declarou – Como sempre, enfrentaremos a glymera unidos.

Notas finais
Então amores... ?! Acho esse capitulo um dos mais importantes, pois garante uma dimensão maior do que vocês podem esperar de LP, ainda que muitas coisitas ainda estejam ocultas. Bjos e sorrisos. Até o próximo capitulo.