— Ah, como é bom estar aqui. – diz Sarah assim que passamos pelas portas de correr da editora – Tinha me esquecido da sensação.

— Há quanto tempo você não vem aqui?

— Mais tempo do que eu gostaria. – ela observava o lugar como se fosse a primeira vez que entrava ali.

— Nada mudou desde a última vez.

— Parece que tudo está diferente.

A figura magra de Pamela desliza pelo hall de entrada em nossa direção, a expressão preocupada.

— Bom dia Srta. Torres, com quem está falando?

— Com ninguém. – observo enquanto a mulher olha ao redor, procurando a pessoa com quem eu estava falando.

— Fiz seu café. – ela estende em minha direção uma xícara fumegante – Mocaccino com chantilly. Alguém andou tomando todo o cappuccino, mas não se preocupe já providenciei mais.

— Obrigada Pamela. – anseio por sair logo dali, não gosto do jeito como ela me olha, como se eu fosse quebrar a qualquer momento.

— Imagino que queira uma aspirina. – pelo seu olhar parece mais que ela quis dizer antidepressivo do que aspirina. Ela corre até o balcão e volta com uma cartelinha do medicamento – Eu queria lhe dizer alguma coisa. – diz ela lentamente – Mas não sei o que pode ser dito, a amizade de vocês era tão linda.

— Obrigada. Não precisa dizer nada.

— Sinto muito. – ela me abraça repentinamente, quase deixo o café cair em seu casaco lilás.

Assim que me liberto dos seus braços vou em direção ao elevador, há um homem parado na frente, penso ser talvez algum cliente. Seus cabelos era castanhos claros, pelo formato do seu corpo, diria ter uns vinte e cinco anos, mas se vestia como um adolescente que acabou de descobrir a jaqueta de couro.

— Srta. Torres, é um prazer conhecê-la. – diz ele enquanto segura a porta do elevador para mim – Meu nome é Pietro, fui contratado por Camile para cuidar da diagramação das obras.

— É um prazer conhecê-lo. – aperto sua mão estendida.

— Eu vou dar uma volta pelo prédio. – avisa Sarah, desaparecendo antes mesmo de ouvir minha resposta.

— Sinto muito por sua irmã. – diz ele enquanto as portas do elevador se fechavam.

— Obrigada. Ela não era minha irmã de verdade. Quer dizer... Ela era minha irmã sim, mas não era, sabe? – mesmo em luto, aquela parte de mim que fica tímida na frente de homens, não desaparece.

— Irmãos não precisam ser de sangue. – olho para ele de uma maneira diferente depois daquela singela frase, seu sorriso parece bonito de repente.

— Não precisam mesmo.

— Eu sei que está doendo agora, mas um dia vai passar.

— Parece que esse dia está muito longe. – olho para o painel exibindo os andares, mais um e estaria em meu destino.

— E sempre vai parecer longe. Só aguente firme. Se precisar de mim, sabe onde me encontrar, estou na sua folha de pagamento. – ele sorri novamente e para minha surpresa me abraça.

O elevador para e as portas abrem, ele sai primeiro. Sigo meu caminho, na direção oposta a que ele tomou. Cumprimento à secretaria de Camile e bato em sua porta, ela logo abre, com seus cachos balançando.

— Beca, querida, é muito bom te ver. – diz ela. Apenas sorrio, sem dizer uma palavra. Sou conduzida até sua mesa enquanto ela me indica aonde devo assinar os papéis, como se já não soubesse – E como você está?

— Indo. – respondo – Era só isso? Já posso ir?

— Mas já? Não quer dar uma olhada nas capas para os livros novos?

— Não estou com cabeça para isso.

— Eu sei. Recebemos mais dez originais para avaliação esta manhã. Estão todos vindo parar na minha mesa. – ela aponta com a cabeça para uma pilha de papeis – Você sabe que eu vou recusar todos aquelas que não sejam sobre amor.

— Lembre-se que trabalhamos com todos os gêneros.

— Porque você quis. Eu por mim trabalhávamos só com coisas normais. Quem é que quer ler uma história sobre um vampiro sugador de sangue que lê a mente das pessoas e brilha no sol?

— Isso é crepúsculo. E eu li, para sua informação, toda a saga duas vezes.

— Tanto faz. – ela dá de ombros – Tenho uma coisa para te entregar. – ela abre a gaveta de madeira escura de sua escrivaninha e tira um envelope de lá. Há o selo de uma agência aérea.

— O que é isso?

— Sua passagem de avião. A editora americana quer publicar Querida Priscila o quanto antes, marcaram uma reunião para semana que vêm, com nós duas e com a autora.

— Garanto que eles me liberam dessa. – jogo o envelope sobre sua mesa.

— Você precisa ir! – Sarah atravessa uma parede, me matando do coração, dou um pulo, assustando Camile com meu movimento.

— Você tem que parar com isso, ou vou achar que sua verdadeira missão é me mandar para o céu junto com você.

— Parar com o que? – diz Camile sem entender nada – Do que você está falando.

Olho de Sarah para Camile, com uma decisão pairando sobre mim. Sarah balança negativamente a cabeça.

— Nós éramos um trio, ela precisa saber. – digo a ela.

— Quem precisa saber do que? – pergunta Camile – Com quem você está falando? – com um longo suspiro, respondo.

— Com Sarah.

— Sa... Sarah? – Camile fica pálida. Ela me conduz até uma cadeira e me senta – Eu sei que você amava ela, eu também amava, mas Sarah se foi, Beca, você precisa aceitar isso.

— Eu sei que ela morreu, mas o espírito dela ainda está aqui. – olho para Sarah que exibe um meio sorriso.

— Eu sabia que ela não ia acreditar. – diz ela.

— Eu a vejo, Camile, e falo com ela. – Camile mede suas palavras com cuidado.

— Já contou para sua mãe sobre isso? – balanço a cabeça negativamente – Eu tenho uma amiga, que adoraria conversar com você sobre isso, o nome dela é Eliza...

— Eliza?! Ela é uma psiquiatra Camile! – levanto de um salto da cadeira – Você acha que estou louca?

— Não... Não é isso Rebeca. Você passou por muita coisa, é normal...

— Estar louca?

— Beca, não coloque palavras em minha boca.

— Não preciso, é só olhar em seu rosto para ver que você não acredita em mim. Sarah, me ajude. – imploro para minha amiga com lágrimas nos olhos.

— Diga a Camile que eu contei sobre Pietro para você. – diz ela.

— Pietro? O garoto da diagramação? – questiono.

— O que foi, Beca? O que tem Pietro? – diz Camile.

— Diga que foi ela quem mandou ele te esperar no elevador hoje, que disse para Pietro, tudo o que ele precisava dizer para conquistar você.

— Você armou o encontro com Pietro hoje! – digo furiosa voltando minha atenção para Camile.

— Como você sabe disso? – sua expressão fica espantada – Eu combinei tudo com ele hoje pela manhã. Ele te contou, não foi?

— Foi Sarah quem me contou.

— Eu ouvi ele conversando com os amigos sobre isso agora. – completa Sarah, repito suas palavras.

— Como você descobriu, Beca? – insiste Camile.

— Foi Sarah! – quase grito para ela – É tão difícil assim acreditar em mim?

— Diga a ela o seguinte: Você faz um favor para mim? Cuide de Rebeca, ela é uma garota difícil de se entender, mas quando você entende, ela é maravilhosa.

Repito suas palavras automaticamente, como um robô.

— Ela te contou isso? Sarah te contou isso antes de morrer? – Camile leva a mão ao peito e senta-se em sua cadeira.

— Ela me contou agora. O que isso quer dizer Cami?

— Quando ela foi para Florianópolis ela me mandou essa mensagem, disse que não era para mim falar nada para você. Era nosso segredo. Ela está aqui, não está?

— É o que eu estou tentando dizer esse tempo todo.