Laços inquebráveis
6 Capítulo Seis
Não, ela não usou a palavra ficante, nem mesmo rolinho, ou namorado. Até noivo estaria bom, mas não, ela usou a palavra marido. Marido é algo tipo, muito, muito sério.
Do nada caio na gargalhada.
— Eu sei que é uma tarefa quase impossível, – diz ela – Mas você não precisa rir.
— Se essa é sua missão, prepare-se para ficar comigo eternamente.
— Primeiro, eu estarei contigo eternamente. Segundo, nós vamos encontrar um homem perfeito para você. Desde que ele ignore suas chatices. Você tem um péssimo gosto para namorados, e quando acha um que preste, larga ele em poucos meses. Não é fácil achar um cara que leia, jogue videogame, que goste de filmes e séries, e ainda por cima que viva no mundo da lua igual a você.
Paro de rir quando vejo que ela está falando sério.
— É sério?
— Eu pareço estar brincando? – olho para sua expressão, eu sei bem quando ela está brincando, e esse não é um momento de brincadeira.
— Por que isso? Eu sei que você tentava me atirar para cima de um monte de homens antes, mas é isso mesmo que você quer fazer com o seu... Pós vida? Perder seu tempo no paraíso para encontrar um namorado perfeito para mim?
— Eu disse marido. Rebeca, eu conheço você. Eu vi você durante todo o velório, parecia que estavam enterrando duas pessoas. Eu e você. Se tem alguém que te conhece, essa pessoa é Sarah Valentina Nogueira, e ninguém mais. E você não vai suportar.
Um silêncio cai entre nós. Ela sabe que não consigo viver sem ela.
— Talvez se você encontrar o grande amor da sua vida, alguém para se encaixar com você, para te ajudar a carregar a dor, talvez assim você não sofra tanto.
— Sarah, você morreu, não há nada nesse mundo que me faça superar isso.
— Eu preciso acreditar que existe.
Roma aconchega-se em meu colo, implorando por carinho. Passo a mão em seu pelo, enrolando em meus dedos. O silêncio ao lado de Sarah nunca foi realmente um incomodo, era algo gracioso. Só com ela eu poderia deitar tranquilamente para ler, enquanto ela ficava no celular, e o silêncio daquele momento não era constrangedor. Sentia isso com poucas pessoas, sempre tinha aquela sensação de que o silêncio era um peso, que algo precisava ser dito.
— Por que você não está com seus pais Sarah? Eu não quero te prender aqui, sabendo que você poderia estar com eles. – ela suspira como se tivesse muito cansada.
— Os pais nunca superam a perda de um filho, não de verdade. Eu já os fiz sofrer de mais, não vou conseguir vê-los sofrendo pela minha morte também. Por que será que eu sinto que você não quer que eu fique? – sei que está brincando com a última parte da conversa – Eu tenho uma dívida com você.
— Sarah, você nunca teve uma dívida comigo.
— A não ser o investimento da editora Trovão Azul. – ela da um meio sorriso – Mas não estou falando de dinheiro. Você cuidou de mim todo esse tempo Rebeca, nunca pediu nada em troca, aliviou minha dor, e agora é a minha vez de aliviar a sua. Me deixe fazer isso por você, a última coisa que eu, sua irmã, poderei fazer por você.
— Está bem. – respondo depois de algum tempo – Mas só depois que o período de luto passar.
— E quanto tempo dura isso?
— Quatro meses de acordo com a tia Bia.
— Quatro meses?! Nem pensar. E para começo de conversa, eu estou aqui para você não ficar de luto. Vamos sair passear agora mesmo. – ela se levanta, faço o mesmo, na tentativa de protestar, mas a porta da frente abre.
— Beca? – assim que ouve a voz de minha mãe, Roma corre para encontrá-la – Oi querida. – recebo um beijo de minha mãe. Fico congelada no lugar, será que ela está vendo Sarah? E se tiver, o que vai fazer? – Espero que você já tenha comido o macarrão que deixei.
— Eu... é... Não. – digo enquanto ela ultrapassa Sarah, indo para a bancada da cozinha deixar as sacolas que carregava. A sala e a cozinha eram um único cômodo em minha casa, ideia de tia Bia.
— Tia Nessa é bonita por dentro também. – diz Sarah e ri. Olho preocupada para minha mãe.
— Você ouviu alguma coisa? – pergunto a Vanessa.
— Não, deveria ouvir? – responde ela.
— Nem vendo? – ela olha ao redor.
— Não. Algum problema?
— Só você pode me ver e ouvir, Beca. – diz Sarah.
— Nenhum mãe. Você não deveria estar trabalhando? – sento-me na bancada da cozinha, observando ela guardar as compras do supermercado.
— Peguei folga essa semana para ficar com você.
— Mãe, não precisava fazer isso.
— Precisava sim. Trouxe seu chocolate favorito, vamos colocar um filme e descansar a tarde toda.
— Acho que não estou no clima para filmes.
— Chegou aquele filme de terror que você queria ver. – ela balança uma capinha de DVD nas mãos. Olho para Sarah e ela faz uma careta.
— Terror? Sério? – diz ela.
— Não tem nenhuma comédia romântica? – pergunto a Nessa, esse era o gênero que Sarah mais gostava.
— Junto e misturados.
— Então vai ser juntos e misturados.
Enquanto ouvia a risada de Sarah ao longo do filme, foi fácil relaxar e acreditar que ela não se foi. Até acreditei que poderia sorrir de novo, mas como seria quando ela realmente fosse embora? Talvez ela tivesse certa, eu preciso encontrar alguém para compartilhar a dor, ou vou sucumbir a ela.
O celular toca quando os créditos do filme começam a passar, olho para tela e vejo os cachos de Camile na tela do aparelho.
— Alô?
— Oi Beca, como você está? – percebo que a voz dela transmite seu cansaço.
— Estou indo, e você?
— Também. Me desculpa te incomodar, mas precisamos de sua assinatura em um contrato, você poderia passar aqui na editora?
— Você não poderia passar aqui pegar minha assinatura?
— Acho que seria bom para você sair um pouco de casa.
Sarah, que estava com seu ouvido quase colado ao telefone, diz que eu deveria ir ou ela iria soltar seu poltergeist interior e destruir minha casa.
— Está bem. Daqui a quinze minutos estou ai. Você vêm? – minha pergunta era para Sarah, mas é minha mãe quem responde.
— Não querida, vou preparar o jantar.
— Não, – responde Sarah rindo – vá que o garoto novo da diagramação queira falar com você a sós. – reviro os olhos.
— Não acredito que ela contou isso pra você.
— Isso o que? – pergunta minha mãe, fazendo Sarah rir mais.
— Nada não. Bem eu vou indo, até depois.
Pego as chaves do carro e me dirijo até a garagem. Para uma cidade pequena, nosso trânsito era bem movimentado. Desta vez não ligo o som, não tenho vontade nenhuma de ouvir música. Estou a uma boa distância da minha casa, quando escuto uma voz.
— Roma, sua mãe vai ficar muito brava contigo! – Sarah aparece do nada no banco do carona, ela olha para mim, eu olho para ela, ambas com uma expressão assustada no rosto. Gritamos por conta do susto, perco o controle do carro por um momento e piso forte do freio, quase batendo minha cabeça no volante.
— O que você está fazendo aqui? – quase grito, o coração acelerado – Quase me matou de susto!
— É o que eu diga, quase morri de novo! Eu estava em sua casa xingando a Roma quando de repente puff, não estou mais. Eu fui teletransportada para seu carro... Ahh, — ela olha pra mim, pelo seu olhar sei que ela percebeu algo – É o colar.
Toco o pingente de coração dividido ao meio, lembro que a outra parte está em suas mãos. Aquele era o símbolo de nossa amizade, fazia sentido ela estar ligada a ele.
— É como em sobrenatural, quando os espíritos se ligam a um objeto. – digo – Isso quer dizer que aonde o colar for, você vai.
Buzinas soam atrás de mim, ninguém tem paciência no trânsito. Volto a dirigir.
— Então quando você não me quiser por perto, é só jogar o colar fora. – brinca ela.
— Você disse que estava brigando com Roma, o que ela fez?
— Digamos que ela tenha feito xixi onde não deve.
— Aonde? – sinto meus músculos travarem.
— No seu sofá.
— O quê?!
Sarah ri o caminho todo da minha expressão, eu não vejo graça nenhuma em ter que pagar para lavar um sofá mijado.
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