Editora Trovão Azul estava escrito com letras grandes na fachada do prédio, localizado no interior de Santa Catarina em uma pequena cidade. Muitos nos chamaram de loucos por investir em uma editora, ainda mais em uma cidade pequena, mas o negócio deu certo no fim das contas.

Camile era uma pessoa muito comunicativa, conseguia fechar negócio até mesmo com um macaco, conhecia tudo sobre o mercado e estava sempre antenada. Já eu era a fanática por leitura dentre as três, e o maior motivo por ter aberto a editora foi para poder trazer uma chance para escritores iniciantes entraram no mercado de trabalho. Assim que terminei administração comecei o curso de letras, enquanto Camile cuidava dos números, eu cuidava das palavras. Sarah tinha muito bom gosto, e sabia como chamar a atenção, qualquer banner, capa, fleyer, tudo, tinha que passar por sua aprovação. Ela conseguia fazer uma pessoa comprar o livro pela capa, e não pela história. E mesmo não tendo terminado a faculdade, sabia muito.

— Bom dia Srta. Torres. – nossa recepcionista cumprimenta-me com um sorriso, como de costume um café já me aguardava sobre a mesa – Já estou preparando o café da Srta. Nogueira.

— Muito obrigada Pamela. Só me repasse ligações urgentes, ou de familiares, hoje estarei atolada até o pescoço de trabalho.

— Imagino que devo deixar uma aspirina a sua espera no final do dia.

— Muitas aspirinas.

Eu passava quase todos os dias lendo, o que me deixava muitas vezes com dores de cabeça terríveis, já tinha até uma companhia para essas horas: um óculos. Me sentia extremamente nerd com ele, e só o usava na editora.

Uma placa com meu nome, Rebeca Torres, estava pendurada em minha porta. Aos 25 e anos poderia dizer que era extremamente feliz, tinha minha própria editora, consegui uma irmã, e o meu trabalho era o mais prazeroso de todos. Só faltava um marido, mas de acordo com Sarah eu morreria solteira se continuasse ranzinza.

Minha mesa está atolada de originais, antes de serem aprovados ou negados, passavam pelo meu consentimento final. Na pilha ao lado encontra-se livros novos de nossos autores, e de autores Brasileiros e estrangeiros com interesse em publicação. É, meu dia vai ser longo.

— Bom dia Beca. – Camile entra sem bater, com seus cachos loiros esvoaçando atrás de si. Tanto ela, como eu e Sarah, tínhamos os olhos muito parecidos, em um tom de verde escuro.

— Só vai ser um bom dia se vendermos Querida Pricila para a maior editora americana.

— A segunda maior já não está de bom tamanho?

Olho para Camile por cima das pilhas de livros, sem acreditar.

— Tá de brincadeira?

— Não. Nosso primeiro contrato internacional.

Em um piscar de olhos estamos nos abraçando e gritando pelo escritório. Erra fácil de mais voltar a ser criança na companhia de Camile.

— Agora me diga, – diz ela – O que eu não consigo vender?

— Agora e para sempre para os italianos? – lembro-a.

— Italianos não leem. – ela dá de ombros.

— Como você sabe disso?

— Porque eles não compraram nosso livro. – Camile pisca para mim. Reviro os olhos – Janta hoje à noite para comemorar.

— Eu não sei... Sarah já voltou para o interior...

— Contratamos um gato para cuidar da diagramação. Garanto que ele vai na janta.

— Quantas vezes vou ter que dizer, eu vou achar um namorado no tempo certo.

— Seu tempo certo demorou vinte e cinco anos.

— Falando assim até parece que eu nunca namorei.

— Se você não se aligeirar, vai acabar ficando para titia... Não... Espera um pouco, você não tem irmãos. Nem para titia você serve. – dou-lhe um beliscada no braço.

— Sarah é minha irmã, vou ser tia dos filhos dela. – na verdade os planos eram Sarah ser a madrinha dos meus filhos, mas deixo essa parte de fora, ou o cara da diagramação vai entrar de novo no assunto.

— Bom, se você não quiser ficar com o garoto novo, eu fico. – com uma piscadela Camile deixa o recinto – A janta vai ser as nove.

— Só vou se Sarah for. – nem termino a frase e a porta se fecha – Não embebede nossos funcionários! – grito para que possa ser ouvida.

Digito uma mensagem para Sarah: Prepare seu passaporte, vamos para os EUA. A resposta não tarda a chegar: VIVA! Foto para o passaporte: Com peruca ou sem peruca? P.S: Eu disse para não trazer muita comida. P.S2: Roma comeu o pastel de brócolis.

— Roma... – sussurro, os brócolis eram para Sarah!

Sem peruca. Carecas lustrosas arrasam no passaporte. P.S: Se ela passar mal, a culpa vai ser da dinda.

Haha. Você não tem provas.

Geralmente enquanto trabalhava, trocava mensagens o dia todo com Sarah, mas nos últimos meses ela vêm respondendo com menos frequência, de acordo com ela havia enjoado do celular, mas acredito que seja por causa do braço. Digitar apenas com uma mão não é fácil. As vezes sentia muita raiva pela vida ter dado essa doença a uma pessoa tão boa como Sarah. Se Deus permitisse trocar de lugar com ela, eu trocaria, porque vê-la sofrer é muito pior do que eu mesma sofrer.

Burlei o jantar de Camile com a desculpa de ter que fazer um trabalho para a faculdade de letras. Eu não sou do tipo que gosta de socializar, e se tiver que socializar é apenas ao lado de Sarah, sem ela não tem socialização para mim.

Os dias se passaram lentamente naquela semana, Camile viajou para uma feira em Londres em busca de best-sellers internacionais, por isso fiquei com todos o trabalho de Dear Priscila. Enquanto meu trabalho consumia toda a semana, encontrei alguns poucos minutos para falar com Sarah, mas sua preguiça para mensagens estava maior que o normal.

Na sexta feira recebi uma mensagem sua informando que veio ao hospital fazer alguns exames, pois estava com anemia. Pedi para que passasse na editora me dar um abraço, mas ela acabou não vindo, teria que ir para Florianópolis ainda hoje fazer transfusão de sangue. Questionei o porque de ir tão longe só por causa de uma anemia, e ela respondeu que era por causa do cateter.

Sábado conversamos normalmente.

Domingo conversamos sobre sua coceira interminável, claro que Roma foi a culpada de transmitir pulgas. Roma não tinha pulgas, protestei. O assunto passou para sua colega de quarto no hospital, ao qual perguntava o que ela estava fazendo a cada minuto, enchendo sua paciência e não deixando Sarah em paz.

Segunda-feira houve apenas silêncio. Ela não respondeu nenhuma de minhas mensagens.

Na terceira-feira o elevador da editora fez seu barulhinho habitual, indicando que alguém parara em meu andar. Uma batida na porta, era Júlia minha secretária, seu rosto não carregava o sorriso habitual.

A porta abriu mais um pouco, revelando minha família ali, meu avô ao lado de minha avó, e minha mãe na frente da dupla.

Foi meu avó quem disse a primeira palavra. Foi ele quem transmitiu a notícia que transformaria meu mundo em escuridão.

— Nossa guerreira se foi.