Sonhei com Sarah. Ela estava no hospital, sua mãe estava lá com ela. A maquina ao lado de sua cama começou a apitar, seu coração havia parado. Entro no quarto vestindo um jaleco branco, de algum modo sabia que era uma médica. Fiz massagem cardíaca nela, alguns minutos depois o aparelho voltou a bipar normalmente, Sarah abriu os olhos e sorriu. Conversamos sobre coisas banais, como se ela não tivesse quase morrido a segundos atrás.

As linhas do aparelho ficam retas novamente, a garota fecha os olhos, tento reanimá-la com massagem cardíaca novamente. E ela volta a vida. E o ciclo se repete e repete, incontáveis vezes.

Lentamente abro os olhos, deixando o pesadelo para trás, só para acordar em outro pesadelo. Ela havia partido, e eu não podia fazer nada para mudar isso. De repente lembro de outro sonho, onde eu estava chorando em seu túmulo e ela aparecia, tentava abraça-la mas meu corpo ultrapassava o seu.

O dia anterior volta em minha mente, avisei minha mãe que voltaria para casa, sem passar nos Nogueira, não sei como fiz isso, e nem como cheguei em casa, mas lembro da cama, que sempre foi quente e confortável, se tornar fria e dura quando o peso de minha dor acomodou-se nela. Meus olhos apagaram-se no mesmo instante.

Um barulho vindo da sala chama minha atenção. Jogo uma coberta em minhas costas e vou checar o barulho. O sol entrava pelas janelas, indicando que já passava do meio dia. A voz que me acordava era da mulher do tempo, prevendo sol para o dia de hoje. Havia esquecido a TV ligada?

Assim que entro na sala a vejo sentada no sofá, de costas para mim, sabia que era ela, apesar de seu cabelo estar diferente. Ela trocou a peruca?

Não, ela não poderia trocar a peruca porque estava morta.

— Hey, achei que você iria dormir o dia todo. – diz Sarah se virando em minha direção, seu rosto não estava mais inchado, e pelo visto movia livremente o lado do corpo que estava paralisando. – Se bem que ontem você praticamente dormiu o dia todo. Camile ligou umas cem vezes, sua mãe passou aqui, deixou o almoço na geladeira e um bilhete, ela foi resolver alguns problemas e logo volta.

Me dirijo lentamente para o sofá, então não foi um sonho, eu a vi ontem no cemitério. Caminho lentamente em sua direção, sento ao seu lado, quase esmagando Roma, que foge de mim e acomoda-se no meio de nós duas. Tento tocar sua mão, mas acontece o mesmo que ontem.

— Pensei que já tínhamos superado essa fase. – olho em seus olhos, há aquele brilho que ela tinha quando achava graça em alguma coisa.

— Como você pode estar tão bem? Você morreu. Digo, você agiu agora como se nada fosse.

— Você quer o resumo ou a explicação filosófica?

— Eu só quero a verdade. Quero saber como você está aqui. E você nunca foi filosófica.

— Tem razão, a filosófica era você. – ela sorri, sei que ela espera que eu retribua o sorriso, mas não o faço, não posso sorrir, não quando eu sei que Sarah não está ali de carne e osso. Ela suspira. – Uma vez na faculdade, você e Camile me perguntaram se eu tinha medo de morrer, e eu disse que não. A minha resposta não mudou nesses três anos que se passaram.

— Mas... Você merecia viver!

— Talvez fosse para ser assim. Talvez tudo em minha vida estivesse programado, o câncer, minha morte, tudo. – olho para ela sem saber o que dizer, sinto as lágrimas surgirem de um lugar profundo em meu corpo, e transbordar como uma barragem se rompendo – Não chore Beca, por favor. Ainda mais porque eu não posso te abraçar.

— Como não chorar Sarah?

— Na verdade é bem fácil, é só segurar as lágrimas.

— Você sabe que não é assim.

— Sei. Mas queria que fosse. Você nunca chorou por mim Beca, não comece agora.

— Chorei sim. Só nunca chorei em sua frente. – seu olhar assume uma pequena expressão de espanto, mas logo ela é substituída por outra que dizia “eu imaginei”.

— Bom, então não comece a chorar na minha frente agora. Que tal você comer um pouco?

— Não estou com fome. – respondo automaticamente.

— Você me fazia comer mesmo sem fome. Então é melhor você ir logo comer o macarrão funghi da tia Nessa. – Sarah adorava chamar minha mãe, Vanessa, de tia Nessa.

— O macarrão pode esperar. – enxugo minhas lágrimas na coberta, tento mudar de assunto antes que ela comece a ser chata como eu e me obrigue a comer – Como você está sentada no meu sofá mas eu não consigo te tocar?

— Aprendi isso ontem, legal não é? – legal seria poder tocá-la, mas não digo isso – Consigo interagir com os objetos de modo que eu não os ultrapasse, mas ainda não consigo movê-los. Seria legal ser um poltergeist. Veja só isso.

De repente o corpo de Sarah ultrapassa o sofá, desaparecendo no meio das molas e estofamento. Dou um pulo no sofá, Roma encara o lugar onde ela esteve a segundos atrás, virando a cabeça para o lado, como se não entendesse como ela sumiu.

— Legal né? Nível um de fantasma concluído. – diz Sarah quando volta a sentar ao nosso lado.

— Roma pode te ver? – digo espantada, o coração a mil, não havia me acostumado com o fato de Sarah poder ultrapassar coisas.

— Pode. Acho que os animais em gerais podem ver espíritos. – da próxima vez que ela olhar pro nada e latir, vou chamar um padre para benzer o local – Olha o que ensinei a ela.

Sarah gira seu dedo sobre o botão liga/desliga da TV, a patinha de Roma pula imediatamente no botão, desligando a TV. Sarah repete o movimento e a TV liga.

— Claro que há uma grande margem de erro, levando em conta a largura da patinha de Roma e o tamanho do botão. Você deveria pensar seriamente em colocá-la em um regime.

— Ela não precisa de regime, gosto do formato redondo dela. – Sarah ri, o som de sua risada me tranquiliza – Como pode você estar aqui?

— Se quiser eu vou embora.

— Não! É claro que não! – faço um movimento com a mão, como se tentasse a impedir de ir embora – Só queria saber como você conseguiu fazer isso. Quero dizer, ficar aqui.

— Foi Deus Rebeca, ele me permitiu ficar mais um pouco ao seu lado. – mais um pouco, não gosto destas palavras.

— Então quer dizer que todo mundo que morre pode ficar mais um pouco com seus entes queridos?

— Não. Só aqueles cujo laço de amor é forte de mais. Todos os anjos sabem da nossa ligação, eles dizem que isso é um laço inquebrável. Uma verdadeira amizade, e por isso temos a sorte de nos despedir de verdade.

— Isso quer dizer que você vai embora logo, tipo logo mesmo? – meu coração se aperta com a ideia.

— Não, eu tenho uma missão.

— E que missão seria essa?

— Achar um marido para você.