Laços de Sangue

11 Que as preparações comecem


—Acho que podemos fazer o baile aqui sem nenhum problemas. O salão é grande, mesmo se vier muita gente ainda irá sobrar espaço para as maldi… digo, para as danças. — Charlotte falou, observando o salão de festas da mansão da prefeita, a qual ela tinha total certeza que ele era duas vezes maior que sua própria casa. — E como temos que passar pela sala de visitas para chegarmos aqui, podemos tirar os móveis e aproveitar o espaço de lá, já que ela é grande e ampla. Assim ninguém precisa estar colado em ninguém com a desculpa de falta de espaço. — ela encarou a prefeita. — Isso se você não se importar em perder sua sala de visitas por três semanas. —

—Está tudo bem. Eu recebo os convidados na sala de estar, sem problemas. — abanou a mão no ar, como se dissesse que isso não era nada. — Mas, Charlie, esse é um evento para toda a cidade. Tem certeza que caberá todos aqui? —

—Nem todo mundo virá, acredite em mim. — Charlie murmurou. — A decoração não é muito complicada. Temos que investir na iluminação, em arranjos de flores e na mesa de comida, porque aposto que ouviremos reclamações se não tiver, no mínimo, uma mesa de doces. —

—Temos que contratar um buffet, comprar champanhe e… seria estranho ter uma torre de taças com champanhe no canto do salão? — Lucy questionou.

—Um pouco. Sem contar que vestidos de época são cheios, então não quero correr o risco da torre cair porque a saia de alguém esbarrou sem querer nela. —

—É verdade. O que mais precisaremos? —

—Uma orquestra. — respondeu, caminhando pelo salão e fazendo o som dos seus saltos ecoar pelo espaço. — Podemos deixá-los aqui, em uma formação diagonal. Do outro lado pode ter a mesa com alguns doces ou canapés, o que você achar melhor, Lucy. —

—Posso definir isso com o buffet depois. —

—Arranjos com rosas vermelhas. Temos que procurar algumas cadeiras que remetem a época e elas tem que ficar próximas às paredes, para não interromper as valsas que você com certeza irá exigir. —

—Isso é óbvio. No mínimo três. — respondeu com um sorriso.

—Esse era meu medo. — murmurou.

—O que? —

—Eu disse que seria interessante usarmos lustres que aparentassem ser antigos. — desconversou com um sorriso. — Você quem vai ficar responsável pela compra do material, certo? — encarou Hazel que assentiu. — Certo. Você poderia tentar encontrar também alguns objetos dourados que possamos usar nas paredes? Se não conseguir, tudo bem, não é tão importante. E lembre-se também que as cores que usaremos serão dourado, vermelho e preto. Talvez um prata, também. —

—Mais alguma coisa, senhorita Harrington? —

—Fotógrafos. — a mulher assentiu, digitando tudo no tablet em suas mãos. — E tem que falar com o pessoal do marketing e publicidade para darem início nos flyers. Eles têm que serem espalhados pela cidade ainda essa semana para que as pessoas tenham tempo para arranjarem vestimentas apropriadas para a ocasião. E neles tem que constar que roupa de época é necessária. —

—Prefeita Jones, o almoço já está pronto. — a governanta avisou.

—Vamos comer? — perguntou a Charlie e Hazel que assentiram.

As três mulheres seguiram a governanta até a sala de jantar e logo Lucy e Hazel iniciou uma conversa durante o almoço sobre o quão animadas elas estavam para o Dia da Fundação. Charlotte teve que colocar seu melhor sorriso falso no rosto e concordar quando elas perguntaram se ela também estava animada com o evento.

Durante a sobremesa, Charlotte aproveitou que Hazel precisou atender uma ligação para poder falar sobre Amber com a prefeita.

—Lucy? —

—Sim, querida? —

—Por acaso minha irmã andou dando as caras por aqui? — perguntou, levando um pouco do pavê a sua boca.

—Aqui não, mas nos encontramos no restaurante no sábado. Eu estava com as crianças. — sorriu.

—Ah, e sobre o que conversaram? —

—Trivialidades. Ela perguntou sobre a cidade, disse que estava animada para saber o que iríamos fazer no Dia da Fundação, Olivia contou sobre a escola… a Amber é uma garota adorável. —

—Ah, sim. Ela é. — sorriu.

—Ela disse que vocês tinham brigado no dia anterior. — encarou a ruiva. — Está tudo bem entre vocês? —

—Nós não nos dávamos muito bem antes. — respondeu, suspirando. — Até que chegou um cara e acabamos brigando mesmo por causa dele. — sorriu.

—Oh, não me diga que vocês gostavam do mesmo rapaz. —

—Ah, não. Ela apenas não gostava de me ver com ele, dizia que não me fazia bem. — limpou seus lábios após terminar a sobremesa.

—Então ela só queria lhe proteger. —

—É, mas Amber acabou fazendo isso do jeito errado. — falou. — E isso acabou nos afastando mais ainda. Até agora esse cara ainda é motivo das nossas brigas, mesmo eu não estando mais com ele. — bebeu um pouco de água.

—Nossa, mas vocês não deviam estar tentando se resolverem? — perguntou levemente confusa.

—Amber e eu não vamos nos resolver nunca. Ela definiu isso já faz um tempo. — suspirou.

—Se quiser, minha querida, posso falar com ela. Sei que eu só a conheci a pouco menos de uma semana, mas… — Charlotte a interrompeu.

—Não precisa, Lucy. — sorriu. — Eu tenho pessoas maravilhosas ao meu lado. Já não sinto mais falta da Amber na minha vida. —

A prefeita esticou sua mão até a de Charlie, segurando-a enquanto sorria para a ruiva. Um simples gesto que Charlotte sabia o que queria dizer. Se ela precisasse, Lucy estaria ali para acolhê-la.

***

Quando Charlotte saiu da casa da prefeita já estava escurecendo. Lucy a convidou para ficar para o jantar, mas ela recusou gentilmente dizendo que tinha gente lhe esperando em casa.

Girou o volante para a esquerda, entrando na rua que levava apenas a sua casa enquanto ela sussurrava a letra da música que tocava na rádio do carro. O som de notificação do seu celular atraiu sua atenção e como a rua não era movimentada, ela se atreveu a olhar o que era.

Sorriu ao ver o visor mostrar o nome de Christian seguida por uma mensagem e voltou seu olhar para estrada a tempo de ver alguém parado bem no meio da rua. Charlotte rapidamente virou o volante para o lado tentando não atropelar seja lá quem for o idiota suicida, mas o carro acabou derrapando e capotando consequentemente. E a pessoa parada na estrada também foi atingida.

Charlie passou pouco menos de cinco minutos inconsciente. Sentia algumas partes do seu rosto doerem assim como o ombro esquerdo e lateral do braço esquerdo. Abriu os olhos com certa dificuldade e notou que o carro estava de lado. Por ironia do destino, talvez, o lado do motorista estava para cima.

Ela tentou enxergar alguma coisa, mas além de já estar de noite o carro tinha ido parar próximo às árvores da floresta. Bufou, segurando-se na porta ao seu lado com uma mão e puxando com força o cinto de segurança que tinha emperrado. Antes que a inércia puxasse seu corpo para baixo, ela rapidamente saiu pela janela quebrada, olhando para o carro e uma carranca tomando conta do seu rosto quase que automaticamente.

—Ah, fala sério! — ralhou, notando o estado em que seu Jaguar conversível se encontrava.

Janelas quebradas, arranhões por todo ele causado pelo asfalto, o parachoque tinha sido arrancado e os amassados estavam tanto na parte da frente como do lado.

—Pensando bem, podia ser o Corvette. — murmurou um tempo depois, virando o carro sem nenhum problema.

Charlie tentou movimentar seu braço esquerdo, mas não conseguiu, se dando conta de que acabou deslocando o ombro e tratou logo de colocá-lo no lugar. Foi aí que ela lembrou do suicida parado no meio da pista e procurou por ele, encontrando seu corpo caído na estrada.

A ruiva então saiu desfilando até o corpo imóvel, como se não tivesse acabado de sofrer um acidente e seu carro tivesse capotado inúmeras vezes pela estrada. Assim que parou ao seu lado, empurrou o corpo para o lado com seu salto. E em um piscar de olhos a pessoa levantou e pulou em cima dela, a levando ao chão.

—A vadia e assassina Charlotte Harrington. — a mulher loira falou, apertando o pescoço da ruiva que revirou os olhos ao se dar conta de quem se tratava.

—Só pode ser brincadeira! —

—Você matou o meu marido. — falou, apertando com mais força o pescoço da mulher sob si. — Você o matou depois de dormir com ele! —

—E eu já te disse em 1857: eu não sabia que aquele idiota era casado. — a encarou.

—Ainda sim, você o matou. — vociferou, fazendo com que as veias ao redor de seus olhos ficassem levemente saltadas e seus olhos vermelhos. — Lembra? Você arrancou o coração dele fora. Não tivemos nem tempo de nos despedir. —

—Devia me agradecer. O cara estava enfeitando a sua cabeça. —

A mulher aproximou seu rosto do de Charlie, mostrando seus caninos afiados. A ruiva apenas arqueou a sobrancelha e suspirou, sabendo que ouviria reclamações sobre seu atraso para o jantar. E antes que a loira pudesse saber o que lhe atingiu, Charlotte arrancou sua cabeça fora com a mão.

Fez uma careta ao sentir o sangue dela sujar seu rosto e empurrou o corpo para o lado, ficando de pé e batendo em sua roupa, tentando tirar a sujeira. O que era impossível já que estava suja de sangue e felugem.

—Eu gostava tanto dessa jaqueta. — murmurou, suspirando.

Ela caminhou até o carro e forçou o porta-malas para abri-lo, voltando para o corpo da mulher loira e o jogando sobre o ombro, indo logo depois até a cabeça que tinha rolado para o outro lado da rua. Os jogou no porta-malas e o fechou, indo até a porta do carro e pegando sua bolsa e celular que tinha trincado a tela. Isso a fez lembrar que seria a segunda troca de celular em menos de uma semana.

E então ela se pôs a caminhar em direção a sua casa, agradecendo pelo carro não ter capotado muito longe. Após alguns minutos ela já conseguia ouvir as vozes do pessoal, risadas e até os xingamentos gratuitos.

Abriu a porta, fazendo a conversa cessar e assim que a fechou, virando na direção da sala, soube que devia ter entrado direto para seu quarto, pela varanda que dava para o lago.

—Charlie, o que aconteceu? —

Encarou o pessoal presente. Os únicos que não estavam em casa era o Caleb e a Madeline e Charlotte agradeceu internamente por isso. Só de imaginar a preocupação que a Maddie exalaria já a deixava com dor de cabeça.

—Eu preciso de um banho. — disse simplesmente, não se atrevendo a olhar seu reflexo no espelho do hall de entrada.

—Você está parecendo a Carrie, a estranha, depois do baile da escola. — Dylan comentou, recebendo uma encarada da ruiva. — O que aconteceu? Esse sangue não é seu, é? —

—Não. É da vagabunda que fez meu carro capotar no meio da estrada. — resmungou, se dirigindo em direção a cozinha para subir a escada. — Ela teve a pachorra de aparecer do nada no meio da rua e eu achando que era um humano suicida tentei desviar e isso só fez a porra do carro capotar. — continuou resmungando, sabendo que todos a ouvia mesmo já tendo alcançado as escadas. — Aí eu acordei com meu corpo dolorido, ombro deslocado e a raiva latente pelo carro ter sido destruído. Quando chego perto do corpo do idiota suicida, descubro que de suicida ele não tinha nada. Era uma mulher que me viu matando o marido dela em 1857. — parou no corredor, encarando os quatro homens na sala. — Aí eu arranquei a cabeça dela fora. — sorriu.

—E você já se livrou do corpo? — Nicholas questionou.

—Não, está no porta-malas do carro há uns 500 ou 600 metros daqui. — deu de ombros.

—Por que não se livrou do corpo logo, Charlie? — perguntou, impaciente.

—Eu precisava de um banho, ok? Tem sangue até na minha orelha, dá um desconto. — revirou os olhos. — Sem contar que ninguém vai ver o carro, porque caiu um pouco dentro da floresta. Então está tudo bem. Amanhã me livro do corpo e chamo o reboque. —

E então ela deu as costas para eles e seguiu para seu quarto.

—Eu vou me livrar do corpo. — Nicholas suspirou, saindo de casa.

—Alguém devia ir ver como ela está. — James falou, encarando Christian e Dylan.

—E por que está olhando para gente? —

—Porque as chances dela se irritar com um de vocês são menores. — respondeu a Christian.

—Deixo essa com você. — Dylan deu alguns tapinhas no ombro do Garcia. — Os carros da Charlie são o xodó dela, então… eu que não quero estar perto até ela se acalmar de vez. —

—Vocês são dois medrosos. — Chris revirou os olhos, caminhando até a escada.

Quando chegou no quarto da ruiva, notou que ela estava no banheiro, tentando tirar sua blusa com um pouco de dificuldade.

—Ajuda? —

—Acho que tem alguns cacos de vidro no meu braço e ombro. — respondeu, vendo Christian caminhar até ela e rasgar sua camisa em duas, passando seu braço esquerdo com cuidado pela manga da camisa. — Se eu soubesse que iria fazer isso não teria aceitado sua ajuda. — resmungou.

—Não ia dar para usá-la de novo mesmo. — deu de ombros, observando o braço dela e encontrando cacos de vidro nele. — Pinça? —

—Na necessaire no armário. — respondeu, apontando para o armário ao lado do espelho e sentando sobre a superfície da pia.

Christian ficou entre suas pernas e segurou o braço dela com cuidado, começando a retirar todos os cacos de vidro com a pinça. Ele sempre passava seu dedo pela pele de Charlotte, tentando encontrar algum pedaço de vidro perdido.

Após retirar todos do braço e ombro esquerdo, ele jogou algumas mechas do cabelo sujo de sangue para trás, notando que tinha cacos também em seu rosto.

—O estrago foi feio. — falou, começando a removê-las cuidadosamente mesmo tendo consciência que vidro não doía tanto em vampiros.

—Precisa ver meu Jaguar. Ele está em um estado muito pior. — resmungou.

—Podia ter sido o Corvette. — falou, a olhando rapidamente.

Charlotte sorriu, se dando conta de que foi justamente isso que ela disse após ver o estrago do seu carro. Aproveitou o momento para observar os detalhes do rosto de Christian. Ele tinha o olhar levemente preocupado, suas sobrancelhas estavam franzidas mesmo que minimamente e seus lábios tão convidativos pressionados um no outro.

A barba estava por fazer e seu cabelo estava bagunçado, fazendo com que Charlie achasse os fios rebeldes a coisa mais adorável do mundo.

—Espero que esteja me imaginando nu de tanto que olha para mim. — Chris falou com a voz rouca, fazendo um leve calafrio percorrer pela coluna de Charlotte.

—Completamente nu, não. — falou com um sorriso. — Mas você de cueca, meias e um avental enquanto prepara um jantar para mim, talvez. —

O Garcia sorriu, retirando o último caco de vidro que estava próximo ao olho dela e largando a pinça na pia. Caminhou até a banheira e ligou a torneira, enchendo ela com água quente.

—Eu consigo e sei tomar banho sozinha, sabia? — falou, vendo ele pegar seus sais de banho.

—Tenho total consciência disso, mas ainda sim irei ajudá-la. —

Charlotte arqueou a sobrancelha quando notou que ele escolheu justamente seus sais de banho preferidos e os despejou na água na mesma ordem que ela costumava fazer. A ruiva acabou não conseguindo evitar um sorriso ao se dar conta de que Christian decorou um hábito tão trivial seu.

Ela desceu da pia e tirou sua saia, logo após sua lingerie e caminhou até o box a fim de tirar o máximo de sangue que pudesse. Odiaria ter que entrar na banheira e encher a água com o sangue daquela vadia.

Após alguns minutos, ela desligou o chuveiro e caminhou até a banheira, entrando nela com a ajuda de Christian. E ao sentir a água quente entrar em contato com sua pele, ela finalmente relaxou.

Chris puxou o puff que tinha embaixo do armário sob a pia e sentou atrás de Charlotte, pegando o shampoo e lavando seus cabelos enquanto ela começava a sussurrar a letra de Pillowtalk de olhos fechados.

Notas finais
Comentários são bem vindos e contribuem com a continuação da história.