Laços de Sangue
12 Quem é vivo sempre aparece
—Onde você está com a cabeça hoje? — James perguntou, encarando Charlotte que tinha deixado uma xícara cair no chão.
—Eu não sei. — suspirou, abaixando-se para juntar os cacos. — Acordei desastrada hoje. Meu perfume caiu da minha mão enquanto eu me arrumava, quando eu desci decidi beber e a garrafa de whisky escorregou e caiu. — levantou, jogando os cacos de vidro no lixo. — E essa já é a segunda xícara que cai da minha mão em menos de três horas. —
—Segunda? —
—É, hoje eu acordei primeiro então decidi fazer o café e quando fui entregar a xícara para o Dylan ela caiu e se estraçalhou toda. — Charlie abriu o armário para pegar outra xícara, mas bufou desistindo da ideia de tomar café e fechando a porta do armário. — Eu não sei o que aconteceu comigo hoje. Não consegui fazer nada direito desde que acordei. —
—Não tem a ver com o acidente de carro? — sugeriu, aproximando-se dela.
—O quê? Não. Isso já faz dois dias e, embora eu ainda esteja puta pelo carro, não estou mais preocupada com isso. — Charlotte sentou na banqueta, curvando seu corpo para a frente e encostando sua testa no balcão frio. — E eu ainda tenho que trabalhar na organização do baile do Dia da Fundação. Eu não aguento mais. Dois dias é meu limite! —
—Ver você tão estressada com a organização desse baile é um pouco divertido, admito. — disse rindo.
—Claro que você acha divertido. Você é homem. Homens não tinham que se preocupar com a organização de bailes, ficava tudo nas costas das mulheres. — revirou os olhos, levantando a cabeça do balcão. — Eu vou ser eternamente grata pelo Caspian nunca ter me pedido para organizar um baile. —
—Nunca? — arqueou a sobrancelha. — Nunquinha mesmo? —
—Na verdade, ele me pediu ajuda em uns dois bailes e um desses bailes era para comemorar nosso casamento. A ajuda era pouco, apenas para escolher quais comidas seriam servidas e quais famílias seriam convidadas. — respondeu, franzindo a testa logo depois. — Se bem que esse último ele levou em desconsideração porque eu só queria convidar umas cinco famílias, eu acho. E uma delas era a minha, então… — deu de ombros vendo James se divertir com seu pequeno relato.
—O que você vai fazer hoje? Tem companhia? —
—Procurar uma boa orquestra nas cidades vizinhas. — respirou fundo. — E tenho zero companhia. Lucy queria ir comigo, mas ela está muito empolgada com essa história de baile e essa empolgação toda me irrita. —
—Entendo. — murmurou, sorrindo logo depois. — Pois não tema, senhorita Harrington, suas preces foram atendidas. — Charlotte ergueu a sobrancelha. — Hoje eu vou deixar de lado a minha agenda super lotada para te ajudar a encontrar sua orquestra. — falou, sorrindo. — Parece que você está desesperada por uma companhia divertida. — James falou irônico.
—Oh, não. Você faria mesmo esse sacrifício por mim? — a ruiva deu continuidade ao tom carregado de sarcasmo.
—Como eu poderia não fazer? Você aparenta estar desespero total por uma companhia. — ele colocou sua mão sobre a dela que tinha as sobrancelhas franzidas.
—Credo. Falando assim parece até que eu peço por atenção 24 horas por dia. —
—O fato de você querer uma companhia não significa que quer atenção 24 horas por dia. — sorriu, levantando. — Eu dirijo. —
—Nem fodendo. — devolveu, levantando e seguindo o Garcia.
***
James e Charlotte estavam na estrada já fazia mais de uma hora em direção a Richmond, onde ela ouvira uma vez que tinha uma boa orquestra. Eles já tinham cantado todas as músicas que passavam na rádio e vez ou outra a ruiva flertava com algum pedestre enquanto o sinal estava fechado.
O Garcia tinha sempre que lembrá-la quando o sinal ficava verde porque os motoristas dos carros de trás os xingavam loucamente.
—Once upon a younger year When all our shadows disappeared The animals inside came out to play Went face to face with all our fears Learned our lessons through the tears Made memories we knew would never fade —
James cantou fazendo da mão um microfone e "passando-o" para Charlotte logo depois.
—One day my father, he told me Son, don't let it slip away He took me in his arms, I heard him say When you get older Your wild heart will live for younger days Think of me if ever you’re afraid —
A ruiva cantou tirando os olhos da estrada para encarar James e os dois assentiram, cantando juntos o refrão.
—He said: One day you'll leave this world behind So live a life you will remember My father told me when I was just a child These are the nights that never die My father told me —
Os dois mexiam os ombros, braços e cabeças no ritmo da música, rindo um para o outro enquanto faziam algumas caretas e chamavam a atenção de uma criança do carro ao lado.
O celular de James começou a tocar e ele precisou baixar um pouco o volume para atender.
—Sim, irmão? —
—Levanta essa bunda do sofá e vem para a universidade. —
—Por quê? —
—Para você se divertir, não é, James? Diversão nessa cidade pequena é um pouco difícil e temos uma vampira vingativa atrás da gente por causa da Lottie, então você precisa relaxar. — Charlotte e James conseguiam ouvir a música alta no fundo, assim como adolescentes eufóricos gritando. — O evento vai até a noite. Tempo de sobra para você se divertir. —
Como se soubesse que Charlie quisesse fazer um comentário a respeito dessa última frase de Christian, James a encarou e viu ela assentir, como se dissesse que poderia deixar tudo com ela.
—Acredite, Chris, seu irmão está se divertindo bastante comigo. — sorriu.
—Lottie, você ainda está em casa? Não tinha que ir atrás de uma orquestra em outra cidade? — perguntou levemente confuso. — Espera. Isso que está tocando é The Nights? Isso é trilha sonora para viagem. Você levou o James para ir com você em vez de mim? —
—Calma, pequeno Chris. Tem Charlotte para todo mundo. — ela riu. — James e eu estamos chegando em Richmond. Você até poderia ser o cara sentado no banco do carona do meu Corvette, mas preferiu ir na festa da faculdade da Maddie com o Nick e o Dylan. —
—Seu irmão praticamente me arrastou para cá e as universitárias… bom, você sabe. São deliciosas. — Charlie imaginou um sorriso sacana no rosto dele e aquilo a fez sorrir.
—Deliciosas ou não, James é meu parceiro hoje então enquanto eu estiver fora você e os outros tentem não morrer, ok? E só liguem em caso de vida ou morte. Tchauzinho. —
—Você ouviu a patroa, irmão, e a voz da Charlotte é a voz de Deus. — James falou, encerrando a ligação.
—Ah, meu Deus! Eu amo essa música! — Charlie comentou empolgada quando os primeiros acordes de Livin' On A Prayer começou a tocar na rádio.
—Tommy used to work on the docks Union's been on strike, he's down on his luck It's tough, so tough —
***
Charlotte e James ouviram três orquestras e ambos entraram em um consenso de que a segunda foi a melhor, tanto que foi ela quem assinou o contrato para o baile do Dia da Fundação. Entre ouvir uma orquestra e outra eles paravam para beber no primeiro bar que encontrasse ou se alimentar da primeira pessoa desastrada que passasse na sua frente.
James não gostou de vir para outra cidade atacar pescoços alheios, mas acabou que a ruiva usou do mesmo argumento de Christian mais cedo e ele acabou se alimentando de duas pessoas. E então aquele procedimento básico de: curar, apagar e se afastar.
A Harrington não esteve mais área pelo resto do dia, não como estava de manhã cedo em sua casa, derrubando e quebrando coisas. Isso a fez pensar que devia ser tudo pressão de organizar aquele maldito baile.
E agora, poucos quilômetros antes de chegarem na sua casa, ela decidiu que iria tirar a próxima semana de folga. Já tinha organizado tudo que se podia organizar. Disse o que precisava ser comprado, quais serviços precisam ser contratados e até qual o modelo ideal para os flyers, escolhendo algo com o design mais antigo. Iria voltar a organizar esse baile faltando só cinco dias para o Dia da Fundação que seria para dizer onde o pessoal tinha errado na decoração e afins.
Quase uma semana e meia livre do baile da cidade. Aquilo a fez sorrir, parando o carro em frente a sua casa.
—Feliz por chegar em casa? Minha companhia foi tão ruim assim? — James brincou, fazendo um biquinho com os lábios.
—Não, é só que eu acabei de perceber que a última coisa que eu tinha que fazer relacionado ao baile era arranjar uma orquestra e agora que eu consegui, posso ficar uma semana e meia sem fazer nada. — sorriu aliviada.
—Parece uma boa recompensa para alguém que trabalhou tanto em uma coisa que ela odeia. — comentou, saindo do carro.
—E não é? — riu, fechando a porta do carro e seguindo James até a porta, entrando em casa. — Chegamos! — gritou, não obtendo resposta alguma.
—Ainda não chegaram? A festa deve estar boa mesmo. — o Garcia falou, caminhando até a cozinha para subir a escada. — Eu só sei que quero um banho. —
—Sabe como essa noite pode ficar ainda mais divertida? — perguntou, vendo o vampiro arquear a sobrancelha. — Maratona de Star Trek! — sorriu, vendo James sorrir também.
—Ou de Harry Potter. — sugeriu, vendo o sorriso da ruiva aumentar mais ainda.
—Sim! Ok, quem terminar o banho primeiro prepara os filmes e a pipoca. —
—Não sei porque disse isso. Sabe que o primeiro a terminar será eu. — revirou os olhos.
—Devia ser mais vaidoso então, bebê. — sorriu, passando por ele e subindo as escadas.
Charlotte tomou um banho quente e tentou não demorar tanto. Queria poder iniciar pelo menos o primeiro filme antes do restante do pessoal chegar e começar aquela bagunça toda. Com o filme já iniciado, ela podia gritar para eles calarem a boca.
Ela parou em frente ao espelho do banheiro e ligou o secador, secando seu cabelo para não molhar a camisa de James já que ela costumava ser espaçosa e gostava de ficar abraçada com alguém enquanto maratonava algum filme ou série.
Vestiu uma calça moletom e uma camisa larga branca. Amarrou seu cabelo em um coque e calçou pantufas, descendo logo em seguida.
James já tinha deixado o primeiro filme de Harry Potter no pause e os milhos da pipoca estouravam no microondas. Ela parou em frente a geladeira e a abriu, retirando alguns chocolates de lá.
—Vou buscar uma garrafa de vinho. —
—Vinho, é? —
—Você quer whisky? Ou cerveja? — sugeriu. — Ou prefere refrigerante? — zombou.
—Vai logo buscar o vinho, palhaça. —
Charlotte andou em direção a escada, mas virou a esquerda e desceu a escada que levava ao enorme porão e também a adega. Escolheu um safra de vinho dos bons e voltou para a cozinha, encontrando James já na sala com as coisas prontas.
—Aqui, Jay. — ergueu a garrafa em uma mão e duas taças em outra. — Esse dia tem grandes chances de entrar no top 10 de melhores dias. —
—Isso é muito importante para mim vindo de uma vampira de 376 anos. — sorriu, abrindo a garrafa de vinho e despejando o líquido nas taças.
Eles se aconchegaram no sofá e o Garcia deu play no filme. E mesmo eles tendo assistido o filme incontáveis vezes, eles ainda se enchiam de expectativas e empolgação.
Então a campainha tocou.
—Jura? Não podia deixar rolar nem os cinco primeiros minutos do filme? — Charlotte resmungou, revirando os olhos. — Nem deu tempo de comer umas pipoquinha, meu Deus. —
—Vai logo atender. Quanto mais rápido você mandar a pessoa embora, mais rápido a gente termina o filme. —
—Se for escoteiros vendendo biscoitos eu vou mostrar as minhas presas e eles vão aprender a nunca atrapalhar a sagrada maratona de Harry Potter. — bufou, levantando do sofá e calçando suas pantufas.
—Pode ser a prefeita querendo falar do baile. Ou algum vampiro a mando da Amber. — disse observando ela caminhar até a porta.
—Oh, céus. Qualquer coisa menos isso. — choramingou. — Prefiro até que seja os três patetas dizendo que perderam as chaves enquanto elas estão no bolso. — falou, finalmente abrindo a porta.
E acredite, Charlotte preferia que fosse a prefeita ou a Amber. Ou até mesmo os escoteiros vendendo biscoitos. Qualquer coisa menos aquilo.
Ela acreditava fielmente que seu cérebro tinha parado de enviar os comandos para o resto do seu corpo se movimentar. E só conseguia pensar que era por esse motivo que sua mão ainda permanecia na maçaneta, suas pernas ainda permaneciam firmes sem qualquer sinal de vacilo e seus olhos ainda permaneciam cravados na figura a sua frente. E sua boca, bom, ela também tinha parado de funcionar.
—Charlie, quem é? —
A voz de James tinha soado longe ao mesmo tempo que ouvia um zunido insistente em seus ouvidos. Do nada sentiu sua cabeça doer como das vezes em que Maddie fritava seu cérebro. E ela sabia que tinha perdido a noção do tempo, porque deve ter se passado um bom até ela reunir coragem para pronunciar aquele nome.
—Caspian? —
Sentiu sua garganta áspera, como se não bebesse sangue fizesse séculos. Seus olhos ardiam e ela sabia que era por causa das lágrimas que insistiram em vir.
—Charlotte… —
Aquela voz.
—Como… o que… — balbuciou, tentando formular alguma frase que fizesse sentido.
No entanto, um soluço vindo de alguém ao lado do homem parado na sua porta chamou sua atenção. Se seu cérebro até alguns segundos atrás não tinha religado o comando de informações para seus braços e pernas, agora ele estava 100% operacional. Bastou ver aquela figura frágil, pequena e de cabelos loiros para seus sentidos voltarem.
—Maddie? O que aconteceu? — perguntou, vendo que ela usava um sobretudo preto que Charlie tinha quase total certeza que pertencia ao homem a sua frente.
Notou que por baixo dele, a alça da blusa da Madeline estava rasgada e mostrava boa parte do seu sutiã. Ela abraçava seu próprio corpo, mas Charlotte saberia que se segurasse seus pulsos veria marcas vermelhas neles. Engoliu em seco, já tendo uma ideia do que aconteceu, mas estava rezando para que estivesse errada.
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