Laços de Sangue

2 Fantasma do passado


Oak City, Virgínia, Estados Unidos

Dias atuais

—Por favor, Charlie. —

—Não. —

—Por mim. Sua grande amiga. — Madeline insistiu.

—Hum… — Charlotte fez uma expressão pensativa. — Acho que não. — sorriu, indo para o outro lado da cozinha e pegando na geladeira o que restou da lasanha que ela e a amiga prepararam ontem. — Vai ser lasanha de novo no almoço, desculpa. —

—Está mudando de assunto. — a loira cruzou os braços, parando ao lado do balcão.

—Você passou a semana falando desse evento, Maddie. E na primeira vez eu disse que não ia. — respondeu, colocando a lasanha no microondas para esquentar. — Não entendo porque está insistindo. — a ruiva virou-se para encarar a amiga.

—Porque eu tinha esperanças que você mudasse de ideia. — suspirou. — Não queria ir sozinha. —

—Não vá. Vá com seu namorado idiota. —

—Sabe que o Hardin não gosta quando eu fico responsável pela organização dos eventos. — descruzou os braços, sentando no banquinho do balcão. — Ele diz que eu fico muito ocupada e não tenho tempo para ele. —

—E você sabe que eu não gosto de te ver nesse relacionamento abusivo. — contra argumenta a vampira.

—Meu relacionamento com o Hardin não é abusivo. — Madeline defendeu-se.

—Isso é exatamente o que uma pessoa em um relacionamento abusivo diria. — Charlotte sorriu, recebendo uma revirada de olhos. — O Caleb vai. Um amigo não é mais do que suficiente? —

—Seria se ele fosse a minha melhor amiga. O que não é. — enfatizou, sorrindo.

—Não gosto de adolescentes, Maddie. Você sabe. — suspirou.

—Você sabe que depois dos 21 as pessoas deixam de serem adolescentes, não sabe? E essa é a média dos estudantes de universidade. —

—Você já passou dos 21? — indagou confusa.

Madeline arremessou um garfo na direção da amiga que o pegou antes que a acertasse, rindo.

—E lembre-se que, para você, todos parecemos adolescentes. — sorriu. — Velhota. —

—Ai. — murmurou ofendida, caminhando até o balcão e deixando o garfo sobre ele. — Uma passada rápida. Apenas isso. — falou, apoiando os cotovelos sobre a superfície.

O sorriso nos lábios da bruxa aumentou e o som do microondas avisando que a comida estava esquentada preencheu o ambiente.

—Mas se você preferir, eu posso induzir alguém para ficar responsável pelo evento no seu lugar para que a gente possa ir a um show de alguma banda. Aposto que encontramos uma bem legal. — sugeriu com um sorriso. — Você não é obrigada a ir nesse evento só porque o organizou. —

—É tradição ter um evento organizado pelos alunos que dê início ao ano letivo, Charlie. — respondeu com um sorriso de lado. — E esse ano minha turma ficou encarregada de organizar. Quero estar lá para saber se fiz tudo certo. —

—Tudo bem. Espero ter bebida boa ou eu caio fora. — avisou, pegando a travessa e levando até a mesa na sala de jantar.

Madeline colocou os pratos e talheres sobre a mesa, sentando logo em seguida e começando a se servir.

—Teve notícias do Dylan? Ele me ligou hoje mais cedo, mas eu estava ocupada resolvendo as últimas pendências do evento e quando tentei retornar ele não me atendeu. —

—É, ele me ligou para dizer que vai ficar mais uns dias em Charleston. Teve problemas com o vampiro que estava caçando, parece. — a ruiva caminhou até a sala de estar, onde estava algumas garrafas de whisky. — Se eu não soubesse que ele gosta de você, eu ficaria ofendida por ele ligar primeiro para você. — falou, enchendo um copo com Bourbon e voltando para a cozinha.

—Charlotte, não começa com isso de novo. — pediu, olhando para a bebida na mão da amiga. — E você pretende mesmo comer lasanha com whisky? —

Charlotte olhou para seu copo por alguns segundos.

—Ah, desculpe. Você quer também? — ofereceu.

—Ridícula. — resmungou, voltando a comer.

***

—Como é esse evento mesmo? Preciso saber que tipo de roupa devo vestir. Não quero chegar aí vestida para matar e ser um evento chinfrim. — Charlotte falou, olhando sua inúmeras roupas em seu closet. — Olha, a música está boa. —

—Eu passei quase duas semanas inteiras falando do evento para você, Charlie! —

—Desculpe, eu só comecei a prestar atenção no que você dizia sobre ele faz uns três dias. — suspirou, pegando o copo de vidro com sangue e bebendo.

—É um festival musical. Vai ser na praça da universidade. —

—Quase uma hora dirigindo. Maravilha. — resmungou.

—Você está mais rabugenta que o normal hoje. Carol, a barraca de bebida precisa de mais bebidas. Você pode buscar mais no freezer? Obrigada. — Charlotte sorriu por um momento. Por mais que fizesse piadas e às vezes algumas reclamações, gostava de ver a amiga empenhada em eventos universitários. — Desculpa, Charlie. Mas então, está tudo bem ou é só você exalando seu mau humor? —

—Sou só eu exalando meu mau humor habitual. — a tranquilizou, bebendo o resto do líquido vermelho. — Chego aí em uma hora. —

—Tudo bem. Ah, não. Luka! O que diabos você está fazendo? —

E então encerrou a ligação.

Charlotte jogou o celular sobre a cama e optou por um vestido vermelho que ia até metade das suas coxas. Um cinto preto marcava sua cintura e nos seus pés estavam botas pretas de salto e cano longo até seus joelhos.

Arrumou seu cabelo, deixando-o solto. Marcou bem seus olhos e passou seu amado batom vermelho nos lábios. Colocou mais alguns anéis nos dedos e encarou por alguns segundos sua aliança, dando um sorriso ao lembrar de seu casamento com Caspian. Mais um colar que combinava perfeitamente com sua roupa e com seu outro colar, também presente do seu amado Caspian.

Charlotte suspirou, balançando a cabeça e levantou da penteadeira. Pegou seu celular e saiu do quarto, descendo a escada. Caminhou até o armário de casacos ao lado da porta da casa e vestiu sua jaqueta de couro preta, pegando a chave do seu Corvette C1 de 1962 preto e entrou no mesmo, dando partida.

Os quase quarenta e cinco minutos de estrada até a universidade de Madeline na cidade vizinha foi preenchida pelas músicas que tocavam na rádio.

Ainda teve que ficar cinco minutos inteiros atrás de uma vaga no maldito estacionamento lotado.

—O que eu não faço por você, Maddie. — sussurrou, saindo do automóvel assim que conseguiu, finalmente, uma vaga. — Agora onde você está, bruxinha? —

***

Acabou custando um pouco para Charlotte encontrar Madeline.

A praça estava lotada de universitários e convidados de fora. A banda tocava alguma música de Cage The Elephant, adolescentes pulavam e dançavam por todos os lados. Tinha gente bebendo para tudo que é lado, e também aqueles que fumavam em um canto escondido.

Ela pegou a garrafa de cerveja de um cara que deu em cima e seguiu em sua busca pela amiga. Acabou a encontrando um pouco afastada do palco que foi montado para a banda, discutindo com o namorado imbecil.

—Desde que eu cheguei você não me deu atenção, Maddie. Nem um mísero beijo! — a ruiva parou, observando a cena.

—Eu não o vi, tudo bem? Por que não foi atrás de mim? —

—E adiantaria de alguma coisa? Se eu pedisse, você deixaria esse evento ridículo para ficar comigo? —

—Está achando o evento ruim? — indagou, um pouco insegura. — Ou é só você reclamando por que não ganhou um beijo? —

—Não, Maddie, estou mesmo achando esse evento ridículo! Eu vim aqui na esperança de beber com alguns amigos e depois namorar com você, mas você tinha que dar tudo de si nesse evento de merda. —

Charlotte bebeu toda a cerveja que restou na garrafa, a largando no chão e caminhando em direção a eles. O namorado babaca da Maddie já estava indo longe demais.

—Tudo bem, Hardin. Já que o evento não está do seu agrado, acredito que tenham outros que não estão gostando. Então eu preciso trabalhar para melhorá-lo. — a voz de Madeline estava um pouco trêmula. — Com licença. — ela fez menção de se afastar, mas Hardin segurou seu braço.

—Não, você vai ficar e vamos conversar sobre estar sendo negligente com nosso namoro. —

—Hardin, do que você está falando? Me solta, você está me machucando! — puxou seu braço, contudo, Hardin continuou o segurando com força.

Charlotte parou ao lado da amiga e segurou o pulso do braço dele que segurava o de Maddie, sorrindo.

—Não ouviu ela? Ela mandou soltar. — e então começou a apertar o pulso dele com mais força.

Hardin soltou o braço da loira com um gemido de dor.

—Agora cai fora antes que eu esqueça que você é importante para a Maddie e te encha de porrada. — ameaçou com um sorriso nos lábios escarlates.

—Você sempre se mete no meu relacionamento com a Maddie, Charlotte. Da próxima vez, não vou deixar barato. —

—Dou 3/10 para a ameaça. Começou bem, mas o final… — pressionou os lábios, balançando a cabeça. — Precisa de uma melhorada. —

—Guarde minhas palavras. —

E então ele sumiu entre a multidão de pessoas.

—Você está bem? — virou para a amiga que tinha os olhos marejados.

—Eu fiz tudo direitinho. Como o evento pode estar ruim, Charlie? — o lábio dela tremeu, anunciando que logo mais o choro teria início.

—Não. — cortou, firme. — Não comece com isso, está bem? Você sabe muito bem que o evento está incrível, então não comece a chorar achando que ele está ruim só porque aquele idiota falou. — ela segurou a mão da loira. — Vem, vamos para um lugar mais calmo. —

Elas caminharam até a outra praça da universidade que tinha ali perto, uma menor e com mais assentos. No meio do caminho Charlotte hipnotizou um adolescente qualquer a levar duas bebidas para elas e levou Madeline até a mesa mais próxima. A música ainda podia ser ouvida com clareza.

—Ei. O que eu falei sobre chorar? — perguntou frustrada ao ver as lágrimas grossas caírem sobre o rosto da amiga.

—Eu não consegui evitar. — murmurou. — Por que ele não consegue ficar feliz com as coisas que faço? —

—Porque ele é um completo imbecil. Já falamos disso, Maddie. — sentou ao seu lado, colocando o cabelo dela atrás da orelha. — E toda vez você me diz que estou errada quando digo que esse relacionamento de vocês não dão bons frutos. Você merece alguém que goste das coisas que você faz apenas porque é você quem faz, alguém que não diga que você está sendo negligente com o namoro só porque decidiu tirar um tempo para você. — segurou sua mão, sorrindo quando os olhos azuis da amiga encarou os seus. — Você merece alguém que se for para deixar alguma marca no seu corpo que seja na hora do sexo e apenas com seu consentimento. —

—Charlie! — a loira abaixou a cabeça, as bochechas ficando vermelha.

—Estou falando sério, Maddie. — Charlotte virou o braço dela, mostrando a marca vermelha dos dedos de Hardin ao redor dele. — Se eu ver ele segurando seu braço com força de novo, não estou nem aí se ele é seu namorado ou não. Eu mato ele. —

—Charlie… — tentou argumentar.

—Não. Sem essa de Charlie nesse tom. Estou falando sério. — disse firme. — Não é porque você namora com ele que aquele imbecil tem direito de te tratar como se fosse propriedade dele. —

Madelaine não disse nada.

O garoto que Charlotte induziu a pegar as bebidas finalmente chegou, trazendo duas garrafas de cerveja.

—Até que fim! Você demorou, cara. — falou, pegando as garrafas da mão dele e o olhando nos olhos. — Agora cai fora. —

E então o garoto foi.

—Aqui, loirinha. Bebe. — empurrou uma garrafa para a amiga.

—Eu não quero. — negou.

—Sem essa. Você me chamou para esse festival para comemorar o início do seu ano letivo. Embora eu não faça a mínima ideia de quem comemora início de ano letivo. — murmurou. — Quero a senhorita se divertindo também. Se surgir algum problema eu deixo você resolver, mas até lá, você irá beber comigo. —

Maddie suspirou, pegando a garrafa da mão da ruiva e bebendo um generoso gole. Charlotte gritou um "isso aí" e bebeu junto com ela.

—Agora vamos procurar o Caleb. Nós três iremos nos divertir nesse festival. —

***

As duas amigas acabaram encontrando Caleb assim que voltaram para a multidão de pessoas dançando no meio da praça. Os três dançaram e beberam durante as próximas horas que se seguiram. Hardin não apareceu mais para perturbar Madeline e tanto ela como Charlotte agradeceu por isso.

A ruiva tinha aproveitado a deixa de ir buscar mais bebidas para fazer um lanchinho longe de Maddie, já que a bruxa não aprova a amiga atacar a jugular de alguém.

Ela retirou suas presas do pescoço da garota com cabelo azul e sorriu, segurando seu rosto com delicadeza. Olhou bem em seus olhos e disse, lentamente:

—Você vai esquecer o que aconteceu aqui, limpar esse sangue e ir para casa. —

A garota piscou os olhos algumas vezes, caminhando até a pia do banheiro em que estavam e limpando o sangue que escorria de seu pescoço.

Charlotte pegou alguns papéis toalha e começou a limpar seu rosto sujo de sangue. A universitária começou a caminhar em direção a porta, mas a ruiva segurou seu braço.

—Espera. Por algum acaso você tem um batom vermelho nessa sua bolsa? —

—Claro! — sorriu, abrindo a bolsa pequena e pegando o batom, entregando a Charlie.

—Obrigada. —

Após deixar seus lábios com um tom vermelho escarlate, ela saiu do banheiro e pegou três cervejas na barraca de bebidas, voltando para onde Maddie e Caleb estavam.

Charlotte conseguiu encontrar o amigo a alguns metros, dançando com uma garota aleatória. Procurou pela Maddie esperando que o namorado idiota não tenha dado as caras enquanto ela estava fora.

A encontrou um pouco mais a frente, longe do palco conversando com uma garota ruiva. Suspirou aliviada e foi entregar a cerveja para o Caleb que a agradeceu antes de voltar a se esfregar na menina.

Um calafrio percorreu a espinha de Charlotte quando ela voltou o olhar para Madeline e seu olhar encontrou o da ruiva. Seus dedos apertaram o redor das garrafas com força conforme ela apertava os passos para chegar até a amiga.

Aquela parte da praça parecia mais cheia de pessoas do que antes, o que acabou a atrasando um pouco mesmo com ela empurrando todos sem a menor delicadeza. Quando chegou perto de Maddie, a ruiva não estava mais lá.

—Charlie! Você demorou. — a loira riu, pegando a garrafa de cerveja da mão da amiga.

—Maddie, quem era aquela que estava falando com você? — perguntou, olhando ao redor.

—Ah, era uma amiga de um estudante de medicina. Ou era de um estudante de arquitetura? Não lembro direito. — soltou uma risada, bebendo o líquido da garrafa.

—O que ela queria? —

—Ela soube que fui eu quem organizou o evento. Veio elogiar. — sorriu animada. — Ela disse que estava melhor do que as outras festas da faculdade. O engraçado é que quando eu olhei para ela consegui ver alguns traços seus. Estranho, não é? — riu novamente.

Um alerta começou a apitar na cabeça de Charlotte.

—Então ela já esteve em outras festas daqui? —

—Acho que sim, não lembro de nada direito. Meu Deus. Quanto que a gente já bebeu? — perguntou, começando a rir.

—Ela por acaso se apresentou? Disse como se chamava? —

—Por quê? Você a conhece? —

—Se apresentou ou não, Madeline? — indagou impaciente.

A bruxinha franziu as sobrancelhas um pouco confusa com o comportamento da amiga.

—Ela disse que se chama Amber. —

Notas finais
Comentários são bem vindos e contribuem com a continuação da história.