Laços de Sangue
3 Olá, irmã
—Atende, inferno. Atende. —
Charlotte andava de um lado pelo outro na sala de estar da sua casa. Assim que teve a confirmação de que a ruiva que estava conversando com a Maddie era a Amber, ela apenas arrastou Caleb e Madeline até o carro da loira — já que o Corvette só tem dois lugares — e voltaram para Oak City.
O caminho inteiro ela não falou nada, apenas que tinham que sair de lá. E desde que saíram da universidade, ela tentava ligar para Dylan. Sem sucesso.
—Mas que porra! — esbravejou quando a ligação caiu na caixa postal de novo.
—Charlie, você poderia, por favor, explicar o porquê de ter nos tirado da festa? — Caleb indagou entediado. — Eu estava me divertindo com aquela garota, sabia? —
—Eu preciso saber do Dylan primeiro. Preciso saber se aquele idiota está bem. — respondeu, discando o número do caçador novamente.
—E por que ele não estaria bem? — fora Maddie quem perguntou.
Ela vinha da cozinha com duas xícaras de café nas mãos. Entregou uma para o Caleb e sentou no sofá ao lado dele, bebendo um generoso gole da bebida quente.
Charlotte ergueu seu indicador, pedindo silêncio.
—Por que tem tantas ligações suas? Aconteceu alguma coisa? —
—Sim, aconteceu. Por que caralhos você não atendeu minhas ligações? O que aconteceu? —
—Eu estava caçando. Achei que você estaria no festival que a Maddie organizou. —
—Aconteceu uma coisa e precisamos voltar. Você está bem? — perguntou preocupada.
—Estou. Alguns cortes pelo corpo, mas não é nada grave. — respondeu. — Estou voltando para Oak City. —
—Vem rápido. Toma cuidado, não fale com ninguém. Principalmente se esse ninguém for uma ruiva. —
—O quê? Charlie, o que está acontecendo? —
—Explico quando você chegar aqui. —
—Ah, não. São quase 7 horas de Charleston até aqui! — Caleb protestou. — Eu não vou aguentar de curiosidade. —
—Eu também não. — Madeline concordou.
—Gente, por favor. — Charlotte pediu, suspirando.
—Coloca no viva-voz. Eu escuto o que tiver que ouvir no caminho. — Dylan falou, fazendo Charlie revirar os olhos.
—Isso não é o tipo de coisa que se diz por ligação. —
—Agora você está me deixando mais preocupado ainda. Anda, desembucha. —
A ruiva suspirou, colocando o celular no viva-voz e deixando o aparelho sobre a mesinha de centro. Caminhou até a mesa de mármore que tinha atrás do sofá e encheu um copo com Bourbon, seu whisky favorito.
—Que demora é essa? —
—Ela está enchendo a cara. — Maddie respondeu, bebendo mais do seu café.
—Ok, vocês lembram da história do meu casamento com o Caspian, certo? — perguntou, recebendo respostas afirmativas dos três. — Lembram também que eu tenho mais dois irmãos, um irmão mais velho e uma irmã mais nova. Eu também contei como o Caspian morreu e eu, consequentemente, fui transformada. —
—Sua irmã que odeia vampiros descobriu sobre o Caspian e te matou porque achou que ele tinha te transformado em uma vampira. — Caleb lembrou.
—Mas você estava com o sangue do Caspian no organismo e acabou voltando e completando a transição. — Madeline completou.
—Aí, você matou sua irmã como vingança. Nós sabemos disso. — Dylan falou e no fundo Charlie podia ouvir ele arrumando suas coisas.
—Exatamente. Só que o que eu não contei foi que a minha irmã tinha sangue de vampiro no organismo. Sabe, quando eu a matei. — bebeu mais um pouco do whisky, observando as expressões surpresas dos dois amigos em seu sofá.
—O quê? Não faz sentido. Se ela odiava vampiro porque estaria com sangue de vampiro no organismo? — a voz de Maddie soava confusa.
—Porque eu forcei ela a beber. O meu sangue. — a ruiva sorriu.
—Transformou ela em vampira? — o tom de voz incrédulo de Dylan preencheu a sala.
—Que doideira. — Caleb murmurou.
—Ela tinha matado o Caspian só porque ele era um vampiro. Nada mais justo eu transformar ela na criatura que ela mais odiava. —
—É, Charlie, e embora seja uma boa vingança isso nunca dá certo. Eles sempre voltam para se vingar. —
—Ah, meu Deus. — Madeline murmurou, levantando o olhar para encarar Charlotte. — A ruiva que estava falando comigo hoje. Era ela, não era? —
—Bingo. —
—Espera. Ela chegou na Maddie? —
—Espera. Ela quer vingança? —
O tom dos dois rapazes tinha um quê de desespero. Maddie tinha o olhar preso em algum ponto qualquer da sala e Charlotte enchia seu copo novamente.
—Sim, e sim. — respondeu, sentando no sofá e cruzando as pernas. — Ela provavelmente vai querer usar vocês para me atingir, então, desde já, já peço desculpas. Contudo, não tem com o que se preocuparem. Eu vou achá-la e arrancar o coração daquela vadia fora. Amber já passou tempo demais se odiando. — bebeu um gole do whisky.
—Está maluca? Você não vai resolver isso sozinha. — o caçador avisou.
—Ah, gente, relaxem. A Amber é incapaz de matar alguém. Eu dou conta. — disse, tentando os tranquilizar.
—Ela matou o Caspian. E você, consequentemente. —
Charlotte encarou Caleb que engoliu em seco, notando a besteira que falou.
—Desculpa. —
—Charlie, mesmo assim. Você não vai resolver isso sozinha. Por favor, espera eu chegar para resolvermos isso. —
—Não vou colocar vocês em perigo para resolver meus problemas. Eu transformei ela contra sua vontade, eu vou matar ela. —
—Não devia ter nos escondido essa parte da história então. — Maddie falou, atraindo a atenção da vampira. — Nos prometa que não irá fazer nada estúpido. Por favor. —
—Eu não quero prolongar isso. Quanto mais rápido eu a achar, mais rápido eu mato ela. — falou simplesmente.
—Se ela só deu as caras agora é porque está tramando algo. — Caleb falou, deixando a xícara sobre a mesinha de centro. — Então significa que ela já deve ter pensado no caso de você ir atrás dela. Não acho que ela arriscaria aparecer para você sem um bom plano. —
—Caleb está certo. Não podemos arriscar que você ao conseguir matá-la, acabe morrendo também. —
Charlotte suspirou.
—Como vocês são chatos. —
—Somos chatos por impedir que você morra pela segunda vez nas mãos da sua irmã mais nova? — Maddie arqueou a sobrancelha.
—Já arrumei minhas coisas. Vou só tomar banho e então pego a estrada. — Dylan informou. — Caleb e Maddie, por favor, não deixem a Charlie cometer nenhuma burrada. —
—Sou muito mais velha que vocês, pivetes. Me respeitem. —
***
—Eu deixei a Maddie e o Caleb em casa depois da ligação ontem a noite. — Charlotte disse, servindo café a Dylan que tinha acabado de chegar de Charleston. — Eles queriam faltar o primeiro dia de aula, acredita? —
—Conhecendo a Maddie, acredito sim. E o Caleb, bom, ele faz de tudo para não estudar. — sorriu, bebendo um gole da bebida preta. — Como você está? —
—Bem. Sempre acreditei que a Amber viria atrás de mim um dia, mas nunca pensei que demoraria tanto. — sentou em uma das banquetas da cozinha, secando uma bolsa de sangue. — Três séculos inteiros. Estou curiosa para saber o porquê da demora. —
—Não. Você não vai atrás dela. —
—Eu não disse que ia. — mentiu.
—Eu sei que você pretende ir. — sorriu. — Eu te conheço, Charlotte. —
—Vai para o seu quarto, descansar. Uma viagem de quase 7 horas não é moleza. — falou, levantando. — A prefeita ligou, precisa da minha ajuda com a organização para evento do Dia da Fundação. — Dylan arqueou a sobrancelha. — Estou falando a verdade, garoto, me respeita. Liga para ela se quiser confirmar. — beijou o rosto do caçador e saiu da casa com a chave do Corvette em mãos. — Inferno. — resmungou, voltando para a casa.
—O que foi? — Dylan questionou confuso.
—O Corvette só tem dois lugares então não tinha como voltar da universidade com ele. —
—Deixou seu carro na universidade? Você foi corajosa. — soltou uma risada.
—Pode buscar ele para mim? Por favor. — fez sua melhor cara de pidona, recebendo um balançar de cabeça do caçador.
—Não deixe a prefeita esperando, Charlie. Eu busco seu carro mais tarde, pode deixar. —
—Obrigada. —
Charlotte deixou a chave do Corvette sobre a mesa no hall de entrada e pegou a chave do Jaguar conversível preto. Dirigiu até a mansão da prefeita com o teto aberto, sentindo os raios solares em sua pele.
Estacionou o carro atrás de um Porsche bege e saiu do mesmo logo em seguida, caminhando até a porta. Antes que pudesse apertar a campainha, a porta abriu, revelando a filha mais velha da prefeita.
—Olivia. —
—Charlie! Oi! — a garota abraçou a ruiva com um sorriso. — Como você está? —
—Estou bem, e você? — devolveu a pergunta com um sorriso.
Durante os últimos 7 anos que esteve em Oak City, Charlotte acabou desenvolvendo um grande carinho tanto pela perfeita Lucy como pelos seus dois filhos, Olivia, a adolescente de 17 anos, e o pequeno Louis, de 4 anos.
Acabou conhecendo Lucy em um bar e a prefeita estava caindo de bêbada, o que não pegava bem para um figura política. E sabe-se lá porque, Charlotte ajudou para que ela mesma não destruísse sua própria imagem de mulher poderosa e responsável apenas por causa de uns drinks. A partir daí, elas começaram a interagir através de almoços e quando se deu conta era amiga e conselheira da prefeita.
Acabou se tornando amiga da filha dela e esteve presente na criação do Louis, tanto que se tornou a madrinha dele. E mesmo que ela não admitisse em voz alta, amava cuidar do afilhado e conversar com Lucy e Olivia.
—Estou bem. A caminho da primeira aula do ano letivo e já me preparando para as possíveis reclamações da minha parte. — sorriu, passando por Charlie. — Minha mãe está te esperando na sala de estar, pode entrar. Ah! E, Charlie, por que você nunca me disse que tinha uma irmã? —
O sorriso que Charlotte tinha nos lábios sumiu quase que instantaneamente.
—O quê? —
—A Amber. Ela tem alguns traços que lembram você. — suspirou. — E é tão bonita quanto você. —
—Sim, ela é. — disse, colocando um sorriso nos lábios novamente. — Nós não nos damos muito bem. Por isso não comentei com ninguém. Maddie, Caleb e Dylan também só souberam dela ontem. —
—Entendo. Bom, eu vou indo, não quero me atrasar. Depois você tem que prometer que vai me contar sobre ela. Amber parece legal. —
E então acenou, caminhando até o Audi branco e saindo da propriedade com ele. O olhar de Charlotte caiu sobre o Porsche que estava estacionado na frente do seu Jaguar e deduziu ser o de Amber já que nunca vira esse carro com a prefeita.
—Maravilha. — murmurou, entrando na mansão.
Ela conseguia ouvir as risadas da prefeita e da sua irmã vindo da sala de visitas. Lucy comentava sobre alguns pontos da cidade que Amber precisava visitar nem que fosse uma única vez e a Downey concordava, dizendo que visitaria todos eles.
Charlotte deu leves batidas na porta de correr que levava a sala, as empurrando em direção opostas logo em seguida e com um sorriso estampado no rosto.
—Prefeita Jones, licença. —
—Ah, olha ela aí! — Lucy levantou do sofá, caminhando até Charlotte e a abraçando. — Como você está, querida? —
—Bem, obrigada. E você? —
—Igualmente, Charlie. — sorriu, afastando-se. — Venha, sente-se conosco. — apontou para os sofás brancos.
Amber já estava de pé, com um sorriso tão falso como ela, na visão de Charlie.
—Charlotte. — caminhou até ela, abraçando-a.
—Olá, irmã. O que faz aqui? — perguntou. — Achei que ficaria mais tempo viajando. —
—Decidi voltar. Passar um tempo com a minha irmã. Espero que não se importe, é claro. —
—Por que eu me importaria? Você é a minha irmã caçula. — sorriu, tombando a cabeça para o lado. — Vejo que já conheceu a prefeita e sua filha, Olivia. —
—Ah, sim. Elas são adoráveis. — olhou para a mulher que servia café em uma xícara, sorrindo. — Eu vim falar com a prefeita sobre a cidade, aquelas baboseiras de morador novo e essas coisas. —
—Entendo. —
—Ela me disse que você iria ajudá-la na organização do evento do Dia da Fundação. Perguntei quais eram os planos, mas a Lucy me disse que você prefere que seja segredo. —
—Não tem graça se todos saberem como será o evento antes do tempo, convenhamos. Todos nós gostamos de uma boa surpresa. — pegou a xícara de café que a prefeita ofereceu, sentando-se no sofá. — Obrigada, Lucy. —
—Bom, acho que já vou indo. Deixarei vocês duas conversarem a sós. — Amber falou, sorrindo gentilmente para a prefeita. — Lucy, foi um prazer conhecê-la. Espero que possamos almoçar juntas qualquer dia desses. —
—Claro! Será um prazer. Eu levo você até a porta, Amber. —
—Charlotte, vejo você mais tarde. —
—Claro, maninha. Até depois. — sorriu, levando a xícara aos lábios.
A prefeita acompanhou Amber até a porta, despedindo-se com beijos no rosto e uma possível data marcada para um almoço. Charlotte ouviu os passos da mulher voltando para a sala de visitas logo em seguida.
—Você nunca comentou sobre uma irmã. Por quê? — indagou, sentando-se no sofá da frente.
—Nós não nos damos muito bem. Fazia anos que não nos falamos. — respondeu com um suspiro.
—Jura? Vocês pareciam íntimas, pelo menos um pouco. —
—Fingimento, não é, Lucy? Eu não sou mal educada ao ponto de lavar roupa suja com a minha irmã na sua casa. — sorriu de lado, vendo a prefeita rir.
—Entendo. Se quiser conversar sobre, não hesite em me chamar, ok? Podemos trocar o posto de conselheira por um tempo. — ofereceu gentilmente.
—Obrigada, Lucy. —
—Dia da Fundação. Precisamos organizar os últimos detalhes essa semana para dar início de vez aos preparativos. —
—Tudo bem. O que está faltando organizar? —
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