O jantar na casa de Hardin não saiu exatamente como Madeline esperava.

Assim que ela chegou e sentou a mesa para jantar com o namorado, notou que ele preparou um jantar recheado de carnes e outros ingredientes de origem animal. Quando ela o lembrou de que era vegana há 9 anos, Hardin começou os pedidos de desculpas pela segunda vez no dia por ter esquecido desse detalhe crucial.

Ela o desculpou e pediu uma pizza vegana para os dois, mas ele não quis comer nenhum pedaço por ser "nojento demais" e não agradar seu estômago. Isso a deixou triste e cabisbaixa pelo resto do jantar, e Hardin, percebendo isso, pediu desculpas novamente e agora tentava compensá-la pelo jantar com beijos quentes e carregados de segunda intenções no sofá da sala.

Madeline estava deitada no sofá com Hardin por cima dela beijando avidamente seus lábios e pescoço. Suas mãos passeavam por todo o corpo dela e quando paravam sobre suas partes íntimas, Maddie as colocava de volta em sua cintura, mas seu namorado sempre insistia em voltar a deslizá-las pelas suas curvas, seios e afins.

—Hardin, espera. — a loira murmurou quando notou que a destra dele sumiu dentro de sua blusa. — Hardin. —

No entanto, ele a ignorava. Mantia sua boca ocupada para que ela não pudesse falar nada e quando a Martínez tentou tirar a mão dele de dentro da sua blusa ele segurou seus pulsos com a mão livre, impedindo seus movimentos.

—Hardin, para. — pediu novamente entre o beijo, sua voz já adotando um tom de desespero. — Hardin, eu não quero. Por favor, para. — tentou puxar suas mãos, mas ele aumentou o aperto nos pulsos. — Eu pedi para parar! — gritou.

E usando seus poderes ela o fez ir para o lado do sofá.

Em um pulo Madeline já estava fora do sofá, no canto da sala longe do seu namorado que mantinha o cenho franzido, confuso com o que aconteceu.

Aproveitando a confusão dele, Maddie apenas pegou sua bolsa e saiu da casa, entrando no seu carro e dirigindo para sua casa enquanto as lágrimas rolavam descontroladamente pelo seu rosto. Pensou em ir para a casa de Charlotte, mas lembrou que a amiga não gostava do seu namorado e se ela soubesse o que ele quase tentou fazer, o mataria sem nem titubear.

Abriu a porta de casa e tentou subir para seu quarto sem fazer barulho, mas não contou com a presença da sua avó sentada no sofá da sala, lendo e bebendo chá.

—Já voltou, filha? — perguntou com um sorriso, mas ao ver as lágrimas descendo pelo rosto da neta deixou o livro de lado e levantou, indo até ela. — O que aconteceu? —

Madeline apenas balançou a cabeça, a abraçando com força. Alice passou seus braços ao redor do corpo frágil da neta, afagando suas costas e sussurrando palavras de carinho. A mais nova não contou o que aconteceu, apenas disse que tinha brigado com o namorado e a avó não insistiu, apenas preparou um chá e disse que se precisasse conversar ela estaria ali.

***

—Charlie? —

—Hey, Mad Max. — a ruiva sorriu do outro lado da linha. — Você não avisou que ia jantar com o namorado idiota ontem. Dylan ficou magoado por você ter furado com a gente. —

—Desculpe, eu esqueci completamente. Podemos jantar juntos outro dia, para compensar ontem. — falou baixinho. — Como você está? —

—Você já é a quarta pessoa que me pergunta isso hoje. — suspirou, revirando os olhos. — Caspian morreu há mais de 354 anos. Três séculos é tempo suficiente para eu superar a morte dele e não ficar que nem uma louca chorando pelos cantos da casa. —

—Ele era o amor da sua vida, Charlie. Não é porque se passaram três séculos que você tem a obrigação de superar a morte dele. — seu olhar caiu no porta retrato em cima da cômoda. A foto era uma de Maddie com Hardin. — E também tem a Amber. A volta dela pode ter trazido alguns fantasmas do passado. —

—Eu estou bem, Maddie. Estava saindo de casa para ir no cemitério quando você ligou. Aliás, pelo horário não era para você estar em aula? —

—Ah, eu não fui para a universidade hoje. Não estou me sentindo bem. — respondeu, encarando o teto e rezando para que Charlie não fizesse muitas perguntas.

—Você está bem? Aconteceu alguma coisa? — perguntou preocupada.

—É só uma dor de cabeça e falta de disposição para assistir aula. — suspirou. — Minha avó me fez um chá mais cedo e já estou melhorando. —

—Vou passar aí depois do cemitério, tudo bem? —

—Não precisa. — negou, pressionando os lábios. — Na verdade, Charlie, você se importa se eu for com você? —

—Não, claro que não. Se estiver bem para ir, por mim tudo bem. —

—Vou me trocar então. Passa aqui? —

—Claro. Manda mensagem quando estiver pronta. —

Charlotte encerrou a ligação e Madeline respirou fundo, levantando da cama e caminhando até o banheiro. Tomou um banho rápido, escovou os dentes e procurou por uma roupa confortável preta, em respeito a Charlotte.

Vestiu um vestido preto solto de alças e uma jaqueta jeans, calçou suas botas pretas sem salto e maquiou seu rosto com a finalidade de esconder as olheiras e olhos inchados de tanto chorar. Deixou seu cabelo loiro solto, mandou uma mensagem para Charlie avisando que estava pronta e desceu as escadas, encontrando sua avó sentada no sofá lendo.

—Vai sair? Isso quer dizer que está se sentindo melhor? —

—Sim, vovó. — sorriu, sentando ao lado dela. — Obrigada pelo chá. Eles realmente ajudam. — Maddie encostou sua cabeça no ombro de Alice.

—Que bom que se sente melhor, querida. Para onde vai? —

—Vou com a Charlie no cemitério. Hoje é o aniversário da morte do Caspian. —

—Entendo. — murmurou. — E seu namorado? Se resolveram? —

—Ainda não falei com ele. — confessou, suspirando. — Ele me ligou a manhã toda, mas não tive coragem para atender. —

—Brigas são normais em namoros, minha filha. No entanto, tem que tomar cuidado para essas brigas não desgastar o relacionamento de vocês. — falou, virando para encarar a neta nos olhos. — Você e o Hardin brigam demais. Acha mesmo que esse relacionamento está fazendo bem para os dois? —

Madeline não respondeu. Hardin já não era mais aquele cara carinhoso e educado que costumava ser no início do namoro, na opinião de Maddie. E ela já não estava tão feliz com ele como estava no início do relacionamento. Antes mesmo que ela pudesse dar uma resposta para sua avó, a campainha soou pela casa.

—É a Charlie. Eu vou indo, vovó. — avisou, beijando a bochecha da mulher ao seu lado e levantando.

—Não volte muito tarde. E se for passar a noite na casa dela, ligue avisando. —

Maddie assentiu, abrindo a porta e dando de cara com Charlotte trajando uma blusa preta justa e de alças finas com um decote de coração, uma saia preta que ia até a metade das suas coxas e botas também pretas de salto alto que iam até seus joelhos. A única coisa colorida era uma jaqueta de couro vermelha.

—Eu tenho uma surpresa para você no carro. — falou com um sorriso em seus lábios um pouco avermelhados por um batom. — Mas não pense que é uma surpresa boa, porque quando se trata dessa pessoa você diz que não tem nada de bom. —

—Ah, não. — murmurou, já sabendo de quem se tratava. — Ele não, Charlie. —

A ruiva deu um passo para o lado e o olhar de Madeline parou no Jaguar F Pace vermelho de Charlotte. A janela do passageiro estava aberta e revelava Christian de óculos escuro e um sorriso carregado de sarcasmo.

—E aí, bruxa loira. Sentiu saudades? —

—Charlie, o que ele está fazendo aqui? Por quê ele está aqui na cidade? Você não convidou ele, convidou? —

—Não. — a ruiva respondeu, fechando a porta da casa de Madeline. — Ele e o irmão chegaram ontem a noite dizendo que tinham recebido uma mensagem minha os convidando para passar uma temporada aqui em Oak City. — explicou, passando seu braço pelo da amiga e começando a caminhar até o carro. — Eu não mandei mensagem nenhuma, então logo deduzimos que tudo foi ideia da Amber. —

—Isso não é um ato de burrice? Por quê convidar dois vampiros para a mesma cidade que uma bruxa, um lobisomem, um caçador e você, uma vampira de 376 anos, vivem? — a loira parou, encarando Charlotte com as sobrancelhas franzidas. — Ela está em menor número. —

—Ou talvez não. Provavelmente ela tem alguns possíveis aliados e nós não sabemos. Eu diria que são dois. — abriu a porta traseira para Maddie. — Ninguém consegue aguentar a Amber por muito tempo. —

—Ok. Vamos supor que ela tenha dois aliados, ainda sim eles estarão em menor número e, dependendo de quem seja, menor força. Então por quê? — a Martínez perguntou assim que Charlie entrou no carro e deu a partida.

—Olha, ela é mais do que um rostinho bonito. — Chris sorriu para ela pelo retrovisor. Madeline revirou os olhos.

—Ela tem um plano, simples. Se a Amber só colocou a cara a tapa agora, depois de tanto tempo, ela deve ter um plano que envolva todos vocês. E eu, obviamente. — a Harrington respondeu a amiga. — Entretanto… eu quero saber qual será o próximo passo dela. Amber nunca foi boa estrategista e por mais que ela tenha tido tempo para elaborar um bom plano, eu só conheci vocês faz uns 6, 7 anos. Com exceção dos irmãos Garcia que eu conheci em 1916. —

—Está achando que tem outra pessoa por trás dessa vingança da Amber? — Christian perguntou, arqueando a sobrancelha.

—Talvez. — murmurou.

—Quem teria um motivo tão forte quanto a Amber para vir atrás de você por vingança? — a loira indagou do banco de trás.

Charlotte olhou rapidamente para Madeline antes de voltar o olhar para a estrada e respirar fundo, respondendo:

—Ficaria surpresa, Maddie. —

***

O cemitério de Oak City assustaria facilmente pessoas que tem medo de fantasmas, espíritos e mortos. Normalmente ele não era muito visitado, apenas em enterros e as vezes alguém aparecia para levar flores para o túmulo de algum parente ou ente querido.

Caleb gostava de dizer que o cemitério da cidade já foi palco para várias filmagens de filmes de terror famosos.

Para a infelicidade de Madeline, ela teve que esperar Charlie visitar o túmulo do marido ao lado de Christian. Sabia que a amiga precisava de um tempo sozinha, mas não tinha gostado nenhum pouco de estar acompanhada pelo Garcia mais velho.

Charlotte caminhou em silêncio até o túmulo que ficava quase no final do terreno do cemitério. Parou em frente a lápide de Caspian e sorriu, agachando-se para colocar as flores junto a pedra com o nome do seu amado marido.

—Oi, querido. — sorriu. — Mais um ano se passou e como é tradição, eu trouxe flores diferentes do ano passado. Essas são Amor-Perfeito e não, eu não as escolhi por causa do nome, e sim, pela cor. A Janet, dona da floricultura, estava me mostrando algumas flores diferentes dos outros 7 anos e acabei dando de cara com uma flor Amor-Perfeito preta. Fiquei encantada logo de cara e nem a deixei terminar de mostrar as outras, a escolhi logo. —

Charlotte sentou no banco que tinha em frente ao túmulo de Caspian. Ela tinha compelido o coveiro do cemitério para que colocasse um banco ali a fim de evitar que suas pernas doessem por ficar tanto tempo em pé.

—Contudo, Christian tinha ido comigo até a floricultura e aquele idiota não me deixou te trazer flores pretas. Segundo ele, toda essa história e situação já era mórbida demais para se ter flores pretas no túmulo. Então eu escolhi essas vermelhas e se você estiver por aqui vendo-as, deve notar que elas tem algumas partes pretas nas pétalas. Desculpe, foi mais forte que eu. — riu sozinha. — Não sei como funciona as fofocas aí no mundo dos mortos, mas Amber apareceu. O único contato que tivemos durante todos esses anos foi a alguns dias na casa da prefeita onde tivemos que fingir que éramos grandes irmãs que não se falavam há anos. — suspirou, pressionando os lábios por um momento. — Uma parte de mim queria que ela tivesse vindo para fazer as pazes, embora eu não tenho certeza se a perdoaria porque, convenhamos, ela não merece perdão nenhum. É por causa dela que estou tendo que falar com uma lápide em vez de estar deitada em seus braços. — sua voz adotou um tom raivoso, mas logo voltou ao normal.

—Eu digo para mim e meus amigos que ela não vai conseguir nos machucar porque é uma inútil, mas… lá no fundo tenho medo de estar errada. Tentei deixar o Dylan, Maddie e Caleb de fora e resolver isso sozinha, mas eles não aceitaram. Disseram que sabiam os riscos que estavam correndo e que protegeríamos uns aos outros porque somos uma família. — um sorriso apareceu em seus lábios. — Ouvir aquilo foi tão bom, por um momento me senti bem mesmo me esforçando para não demonstrar para eles que aquilo tinha mexido comigo. Queria poder afastá-los até resolver isso com a Amber sozinha, mas sei que eles fariam de tudo para ficar do meu lado. —

—Christian e James também deram as caras. Amber mandou uma mensagem para eles no meu nome e mesmo pedindo para eles voltarem para Little Cube, aqueles dois idiotas recusaram. Disseram que eu precisava de ajuda e que ficariam gratos em ajudar porque eu era amiga deles. Sério, meus amigos nenhum tem instinto de autopreservação, acabei de crer nisso. — falou, indignada. — Eu falo isso, mas se a situação fosse inversa e fosse um deles que tivesse um irmão psicopata atrás de vingança, não pensaria duas vezes em ajudá-los. —

Charlotte ficou um tempo em silêncio, encarando um ponto qualquer do cemitério silencioso.

—Eu devia ter ficado mais uns anos sozinha. — confessou. — Assim nenhum deles correriam perigo por minha causa. Não vou me perdoar se algum deles morrer por minha causa. — a voz de Charlie falhou um pouco e ela tratou de enxugar o canto dos seus olhos antes que as lágrimas caíssem. — Não posso perder nenhum deles como perdi você. E é por isso que se alguém tiver que morrer, não pensarei duas vezes antes de me colocar na frente deles. Aquele bando de idiotas são muito importantes para mim. — riu, respirando fundo.

—Sinto sua falta, querido. Todos os dias, todas as horas, minutos e segundos eu sinto sua falta. Talvez, com essa volta da Amber, a gente se encontre mais rápido do que esperei. E se for para morrer por um amigo, ficarei mais do que feliz em me juntar no Outro Lado com você. — uma lágrima atrevida rolou pelo rosto de Charlotte que a enxugou com a ponta dos dedos, levantando. — Eu amo você, Caspian. Sempre amarei você. — sussurrou com um sorriso.

***

—Por Deus! Você quer parar de bancar o idiota? Por favor? — Madeline pediu impaciente.

—Eu bancar o idiota? Você fritou o meu cérebro, bruxinha! — Christian retrucou.

—Porque você me irritou! —

—Eu só me sentei do seu lado! —

—E flertou comigo! Talvez seu cérebro esteja diminuindo com o passar do tempo, mas, caso não lembre, eu tenho namorado, está bem? —

Eles continuaram gritando um com o outro até Charlotte aparecer em seus campos de visão. Ela ria sozinha. Tinha ouvido a briga dos dois assim que começou a se afastar do túmulo de Caspian.

—Vocês não conseguem manter nenhuma conversa amigável? —

—A culpa não é minha se o seu amigo é um completo imbecil! — Madeline encarou Chris com a expressão irritada.

—Imbecil? Você que não sabe levar um flerte na brincadeira. — revirou os olhos.

—As crianças estão se comportando mal. Talvez eu devesse amarrar os dois no banco de trás, o que acham? —

Eles ficaram calados, mas permaneceram com a cara emburrada. Não testariam a paciência de Charlotte porque ela era bem capaz de amarrá-los juntos mesmo.

—Como você está? — a loira perguntou depois de um tempo.

—Bem. — sorriu, pegando as chaves no bolso da jaqueta. — Eu estou bem. —

—Que bom, mas por via das dúvidas, eu dirijo. — Christian sorriu, pegando as chaves da mão dela.

—Nossa, será que eu tenho escolha? — ironizou, abrindo a porta do passageiro e se preparando para entrar, mas parou no meio do caminho ao ouvir o som de galho quebrando.

Olhou ao redor, tentando encontrar quem causou o barulho e viu um vulto do outro lado da rua, atrás de umas árvores que levava a parte florestal da cidade. Quando viu o vulto novamente não pensou duas vezes em correr atrás dele, crente de que era alguma brincadeira sem graça de Amber.

—Charlie! — Madeline gritou, confusa com a atitude da amiga.

—O que aconteceu? — Christian indagou, podendo ver o tom vermelho da jaqueta de Charlotte a alguns metros.

—Eu não sei. Ela só correu para lá. — respondeu, apontando para a floresta. — Acha que pode ser a Amber? —

—Talvez. Fica aqui. — entregou as chaves do carro a ela e correu na direção da ruiva.

—Espera. O que? — revirou os olhos quando notou que estava sozinha. — Maravilha. — bufou.

Charlotte olhava ao redor da floresta, procurando por quem quer que tenha sido a pessoa do vulto, mas não via ninguém. No entanto, sentiu uma presença atrás de si e rapidamente segurou o pescoço da pessoa e o imprensou na árvore mais próxima.

—Calma, sou eu. — Christian falou, erguendo as mãos.

—Desculpa. — pediu, o soltando e olhando ao redor. — Eu acho que vi alguém. —

—Quem? —

—Não sei. — respirou fundo, levando as mãos a cabeça. — Mas eu vi dois vultos passando por aqui e achei que… achei que era a Amber. Ou algum capacho dela. —

—Não consigo sentir cheiro de nada. Nem ouvir nada. —

—Eu não sou louca. — ela falou, o encarando.

—Nunca disse que era. — disse sincero. — Só na cama. — e abriu um sorriso cafajeste.

Charlie balançou a cabeça, rindo um pouco.

—Vamos embora. —

Notas finais
Comentários são bem vindos e contribuem com a continuação da história.