Laços de Sangue

6 Se eu tivesse te conhecido primeiro...


—Eu sinceramente não sei como a Charlie e o James te aguentam! Você é um poço de estupidez, Christian! —

Charlotte revirou os olhos pelo que seria a terceira vez seguida.

Madeline e Christian não pararam de alfinetar um ao outro e isso estava fazendo a cabeça de Charlie doer. Ela achava a briga deles divertida, mas passar a manhã toda ouvindo esse drama dos dois era demais, até para ela.

—Algumas pessoas são mais interessantes que outras, bruxinha. Você, por exemplo, namora com um cara que só te… —

—Christian, chega. — a ruiva o interrompeu. Seu tom de voz era firme e sério, mostrando que não estava para brincadeiras. — Madeline, você também. Por favor, só tentem não se matar ou alfinetar um ao outro por cinco minutos. — os olhou por cima do ombro que ficaram calados.

Charlotte respirou fundo, caminhando até a porta da sua casa e a abrindo. Entrou em casa já indo em direção a sua mesa de bebidas e pegando uma garrafa de whisky, girando os calcanhares e andando até a escada.

—Uau, ela nem notou minha presença. — uma voz masculina falou do sofá da sala, fazendo Charlie parar próximo ao balcão da cozinha, não acreditando no que estava acontecendo.

—Por que caralhos todo dia tem uma pessoa a mais nessa casa? Por que caralhos vocês não ficam nas suas próprias casas em cidades e Estados longe de Oak City, em vez de vir arriscar a vida aqui, hum? — questionou, virando-se para encarar a figura sentada no sofá.

—Por que está dizendo isso? E por que está tão emburrada? — ele levantou do sofá, caminhando até ela.

As lágrimas em seus olhos retornaram e, tão rápido quanto elas apareceram, elas caíram pelo seu rosto fazendo o rapaz a abraçar sem nem pensar duas vezes.

—Hey, está tudo bem. Estou aqui, maninha. Estou aqui. — sussurrou, acariciando seus cabelos.

—Me tira daqui, Nick. Por favor, me tira daqui. — sua voz soou baixa e frágil e em um piscar de olhos, os irmãos Downey não estavam mais na casa.

—Aconteceu alguma coisa enquanto vocês estavam no cemitério? — James perguntou um pouco preocupado com a atitude de Charlotte.

—A culpa é toda do Christian. —

O moreno virou a cara para a bruxa com uma feição indignada.

—Minha culpa? Você fritou o meu cérebro, bruxa! —

—Porque você flertou comigo e é muito irritante! — retrucou.

—Aí só por isso fritou meu cérebro por diversão? Se a Charlie está assim é por culpa sua que atrapalhou o dia de luto dela! — Christian rebateu, pegando uma garrafa do whisky de Charlotte e subindo as escadas.

—Sabia que eles dois juntos iriam brigar e acabar irritando a Charlie. — James suspirou.

—Não acho que tenha sido isso. — Dylan falou após um tempo, vendo Maddie ir até a cozinha irritada e enchendo uma xícara com café. — Charlie está preocupada conosco. Não quer nenhum de nós arriscando a vida por ela. Não gostou de saber que você e o Christian decidiram ficar aqui mesmo sabendo que foram convidados pela Amber. E agora tem o irmão dela. —

—Mas pelo que o Nick contou, ele sempre vem ver como ela está no dia de hoje. — falou, levemente confuso. — Então não tem como ter dedo da Amber, tem? —

—Charlie não contou a ele que a Amber deu as caras. Se ela contasse, Nick decidiria ficar e ajudar também, e ela não quer que mais ninguém se arrisque por ela. —

—Por isso você me pediu para não comentar sobre. — lembrou, vendo Dylan assentir. — Bom, acho que agora é questão de tempo até ele descobrir. —

***

—A Amber o que? — a voz de Nicholas soou alterada e levemente incrédula. — Você me prometeu que se ela tentasse fazer alguma coisa me contaria na hora! —

Eles estavam no alto da pedreira que tinha quase que do outro lado da cidade. Passaram o caminho todo em silêncio, secando a garrafa de whisky que veio junto com eles. Charlotte só explicou tudo quando chegaram no destino.

—Pode, por favor, gritar comigo amanhã? Eu não estou com cabeça para isso hoje, Nick, sério. — falou baixinho.

Sentada em uma pedra enorme, Charlotte observava a água derramando da cachoeira. O som da água caindo a deixava mais calma junto com o farfalhar das folhas das árvores próximas.

Nicholas suspirou, sentando ao lado de Charlotte e entrelaçando seus dedos com os dela, acariciando a mão da irmã com o polegar.

—Desculpa. — sussurrou.

A ruiva balançou a cabeça como se dissesse que estava tudo bem. Encostou sua cabeça no ombro de Nicholas e o irmão passou seu braço pelos ombros dela, a abraçando de lado e ali ficaram por um bom tempo. O silêncio era quebrado apenas pelo som da cachoeira e das folhas das árvores balançando.

—Se eu pedisse, você não iria embora, iria? —

—Jamais deixaria você para lutar com a Amber sozinha. —

—Esse é o problema, Nick. Eu não estou sozinha. — ergueu seus olhos para encará-lo. — Era para eu estar sozinha. Eu sei que a Amber vai machucar vocês para me atingir. Por favor, convença eles a irem embora, a se afastarem de mim. —

—E do que adiantará? Hum? — indagou. — Vamos supor que todos eles vão para um lugar diferente do mundo. Um na Austrália, outro no Haiti, Indonésia e assim por diante. Eles ainda continuariam sendo importante para você, certo? A Amber poderia ir atrás deles mesmo espalhados pelo mundo, e eles morreriam, porque estamos separados. —

Charlotte fechou os olhos, imaginando a situação e sabendo lá no fundo que seu irmão estava certo.

—Você pode estar preocupada com todos eles e não tiro sua razão, mas sabe que estarmos todos juntos é melhor do que cada um por si. —

—Nos filmes sempre tem alguém do grupo que morre. —

—Então, se os filmes nos ensina a sobreviver nesse tipo de situação vamos saber evitar que um dos nossos morra. — sorriu. — Vamos ficar bem. Prometo. —

Nicholas depositou um beijo no topo da cabeça de Charlotte que sorriu com o pequeno gesto.

—Odiava vir aqui. Quero dizer, no século XVII quando a pedreira era terreno da igreja. — confessou, observando a paisagem.

—Eu gostava de ir a igreja. Sempre tinha moças belíssimas. — o Downey falou, causando uma risada na irmã.

—Eu odiava. Odiava ter que entrar naquela carruagem e vir quase todo o caminho chacoalhando dentro dela. — Charlie revirou os olhos, lembrando dos dias como se fossem ontem. — O castelo do Caspian ficava quase do outro lado da cidade e o caminho era longo. Sem contar que tínhamos que aguentar a mamãe e a Amber tagarelando durante o caminho. —

—É verdade. Mas você amou vir a igreja no dia do seu casamento. — sorriu para a irmã, notando que os olhos dela começaram a brilhar com a lembrança.

—Um dos dias mais felizes da minha vida. — disse sorrindo. — Nunca achei que casaria com um amigo do papai. Sempre achei todos velhos, chatos e entediantes. —

—Bom, o Caspian era mais velho que todos eles juntos só você que não sabia. —

Charlotte deu uma cotovelada de leve nas costelas de Nicholas, fazendo-o rir.

—E, ainda sim, ele não era chato e nem entediante. Talvez fosse porque ele era um vampiro. — ponderou, tombando a cabeça para o lado.

—A vida de nenhum vampiro é entediante ou chata. Com exceção da Amber, eu acho. — Nick falou, encarando a irmã mais nova. — Imagina ter que ficar te seguindo durante 354 anos para poder organizar uma vingança perfeita? —

—Céus. Que vida triste. — Charlie entrou na brincadeira e logo os dois caíram na risada.

Os irmãos ficaram mais um tempo ali na pedreira, relembrando alguns acontecimentos do passado. Quando ela transformou a Amber, achou que ficaria sozinha no mundo já que seu pai já tinha morrido e sua mãe nunca se dera bem com ela. Então Nicholas a encontrou em outra cidade, atacando e matando quase todos os moradores e a aparou. Como um bom irmão mais velho, ele cuidou dela e a ensinou a lidar com a sede constante de sangue.

Os momentos que ela passou ao lado de Nick foram os melhores da sua longa vida de vampira. Charlotte achava que nunca conseguiria agradecer o suficiente pelo irmão ter a ajudado em um momento tão difícil.

***

—Quais flores você levou para ele hoje? — perguntou, já avistando a mansão da irmã de longe.

—Amor-Perfeito. — sorriu, já esperando pelo comentário do irmão.

—Jura? Não tinha uma flor mais clichê? — indagou irônico, recebendo um empurrão da ruiva.

—Não foi por causa do nome, idiota. — respondeu, abrindo a porta de casa.

—Por Deus! Eu achei que por algum motivo a Amber tinha achado vocês, os matado e jogado os corpos em uma vala qualquer! — Madeline falou assim que viu os irmãos passarem pela porta.

—Pelo visto, ela não deixou de ser dramática com o tempo, não é? — Nick perguntou, recebendo um balançar de cabeça de Charlie.

—Não mesmo. — respondeu o irmão com um sorriso. — Estamos bem, Maddie. Não se preocupe. Cadê os hóspedes da casa? — perguntou, avistando apenas James na cozinha.

—Christian está no quarto e o Dylan saiu com o amigo lobisomem de vocês. — o Garcia mais novo respondeu. — Ele disse que veio ver como você estava, mas quando viu a casa muito cheia desistiu. —

—Amanhã é lua cheia. — Maddie lembrou, fazendo Charlie suspirar.

—Entendo. — murmurou, encarando o chão até que ergueu o olhar para o irmão. — Você bem que podia ajudar ele, não é? Já que mordida de lobisomem não te mata. —

—Achei que você tivesse dito, há séculos atrás, que era para manter isso em segredo, não? — arqueou a sobrancelha.

—Ah. — murmurou, sorrindo amarelo ao se dar conta do que acabou de dizer.

—Como assim o Nick é imune a mordida de lobisomem? — James indagou, curioso. — Tem algo que deixa um vampiro imune a mordida? —

Charlotte olhou para Nicholas que apenas deu de ombros, não se importando se ela contaria ou não.

—Tem. — respondeu após um suspiro. — Você tem que ser um lobisomem. —

—O que? — ele e Maddie soltaram confusos.

—Chris não te contou? Achei que ele contaria. — perguntou a James que franziu as sobrancelhas.

—O Christian sabe? —

—Eu disse que ele era fofoqueiro e enxerido. — deu de ombros. — Bom, de forma resumida, minha mãe traiu meu pai com um lobisomem e dessa pulada de cerca veio o Nick. — o Downey acenou do sofá, nenhum pouco incomodado com a forma que a irmã contava sobre a pequena história. — Ninguém sabia sobre a traição, nem mesmo meu pai. Só soubemos quando Caspian transformou o Nick em vampiro em 1664 e ele acabou matando alguém enquanto bebia todo o sangue da pessoa. —

—Então ele só ativou a maldição quando já era vampiro? — Madeline questionou, vendo os irmãos assentirem. — E o que você é? Uma espécie de lobivampiro? —

—A termo correto é híbrido. — Nicholas respondeu rindo. — Quando Charlie descobriu sobre o lance dos vampiros e eu contei a ela sobre mim, ela pediu para manter minha parte lobisomem em segredo já que nunca tínhamos ouvido, até hoje, alguma história ou lenda sobre híbridos. — explicou.

—Mas você não se transforma em lobisomem na lua cheia? —

—Só se eu quiser. —

—Isso é incrível. — James falou, sorrindo de lado. — Nunca achei que pudesse existir alguém de duas espécies diferente. Ainda mais duas espécies que se odeiam. —

—É bom saber que sou o único. Meu orgulho agradece. — Nick sorriu arrogante.

—E mais um segredo da família Downey foi revelado. Bum! — Charlotte disse sem emoção. — Sem me derem licença, eu vou tomar um banho. — avisou, subindo as escadas.

Empurrou a porta dupla de correr do seu quarto e encontrou Christian deitado na sua cama. As mãos entrelaçadas sobre o abdômen e o olhar cravado no teto.

—Eu não lembro de ter te convidado para o meu quarto. — sorriu, retirando sua jaqueta e jogando-a sobre o divã recamier.

—Meu quarto estava muito sem graça. O seu é mais divertido. — ele a olhou, apoiando o peso do seu corpo em seus cotovelos.

—O que tem de divertido no meu quarto se eu nem estava aqui? — arqueou a sobrancelha.

—Bom, sua gaveta de lingerie estava. — disse, dando seu melhor sorriso cafajeste.

—Estava fuçando a minha gaveta de lingerie? — perguntou, cruzando os braços.

—Talvez. Você nunca saberá. — disse, sentando-se na cama e segurando a mão de Charlotte, fazendo-a sentar no divã recamier cinza. — Desculpa por ter passado a manhã toda brigando com a bruxa loira. Devíamos estar do seu lado e a ajudando a não desabar em um dia como esse e… —

—Eu não acabei chorando mais cedo por causa de você e da Maddie. — explicou, o interrompendo. — Lógico que teve uns momentos que estava prestes a bater em vocês, mas não foi por isso. — sorriu, o tranquilizando.

—Mesmo assim, me desculpe. — pediu, virando o tronco um pouco para o lado e pegando algo que estava sobre a cama, entregando a Charlotte. — Aqui, para você. — sorriu.

—Flores? Você não faz esse tipo, Chris. — falou, pegando o buquê de flores pretas de Amor-Perfeito.

—Eu notei que você realmente gostou dessas flores então, enquanto você estava fora com o irmão híbrido, voltei na floricultura e as comprei. — respondeu, observando a ruiva olhar para o buquê com um sorriso. — Você pode plantá-las no seu jardim. Junto com as outras flores. —

—Tem razão. Obrigada, Chris. — ela sorriu agradecida, segurando a mão do moreno.

—Não por isso. — sorriu de volta. — Janet perguntou porque você não pega as flores do seu próprio jardim já que as cultiva. Eu também estava curioso sobre isso. — perguntou, brincando com os dedos de Charlie.

—Não gosto de arrancá-las do jardim. Eu as planto e cuido delas com a ajuda da Maddie. Se elas morrem, começo a plantar novas sementes. — pressionou os lábios por um momento. — Quando minha família e eu fomos passar a primavera no castelo do Caspian, o jardim se tornou minha parte favorita de todo o castelo. Foi lá que dançamos juntos pela primeira vez, que nos beijamos pela primeira vez… e foi no jardim que ele me pediu em casamento. Quando nos casamos, o jardim se tornou nosso lugar, entende? Um lugar só nosso. —

Charlie olhou para Christian com um pequeno sorriso. O Garcia assentiu, a olhando sempre nos olhos. Como Charlotte, ele já foi casado um dia, há muito tempo, mas diferente do amor que ela e o Caspian tinham um pelo outro, o amor de Elizabeth por ele não era puro e muito menos sincero como ele achou que fosse.

—Quando Caspian morreu, por mais que eu tenha passado um bom tempo longe daqui já que tudo me lembrava ele, fiz de tudo para que todo o terreno do castelo estivesse no meu nome. Durante esses três séculos hipnotizei quem precisou ser hipnotizado para que o terreno fosse apenas meu e de mais ninguém. — confessou, voltando a encarar as flores de cor preta em seu colo. — Por muito tempo essa parte da cidade não era nada além de ruínas, mato ao redor do lago e um ponto de encontro para drogados. Aí eu conheci o Dylan e decidi me mudar para cá, para tentar viver uma parte da minha vida ao lado de pessoas que eu gostava de verdade. Então construí essa casa e resolvi fazer um pequeno jardim. Um jardim para o Caspian. — um sorriso melancólico apareceu em seus lábios.

—Não quero fugir dessa sua linha de raciocínio, mas já fugindo, eu pisei nessa casa pela primeira vez ontem então desde então uma dúvida não sai da minha cabeça. — ele falou, fazendo uma risada escapar dos lábios de Charlotte pois ela já sabia o que Christian iria perguntar. — Por que diabos a escada fica na cozinha? —

—Você sabe que eu tive uns anos que resolvi bancar a universitária, não sabe? Eu usei meu diploma de arquiteta para projetar a casa do jeito que eu queria. — respondeu, ainda rindo um pouco. — E quando desenhei a parte da escadaria para o segundo andar eu estava bêbada. —

—Ah, não. — murmurou.

—Ah, sim. Quando eu vi que a escada estava sendo feita na cozinha eu fiquei: "mas que porra é essa?" E o engenheiro civil: "senhorita Harrington, esse foi o projeto que você nos entregou" — lembrou, rindo. — Eles já tinham adiantado boa parte da obra então eu nem pedi para eles demolirem aquela parte e fazerem a escada em outro lugar. Mas até que não ficou ruim, não é? — o encarou.

—Não, para um projeto que foi desenhado por uma vampira bêbada ficou incrível. — falou, vendo ela rir mais uma vez.

Christian ergueu sua mão até o colar antigo de prata no pescoço de Charlotte, o segurando entre os dedos e passando o polegar pelo cristal de safira azul lapidado. Da primeira vez que ele notou que Charlie nunca tirava esse colar, a ruiva respondeu que foi um presente do seu marido Caspian e disse que ele a pediu para estar sempre com a jóia. O mesmo com o aliança do casamento.

—As vezes… tenho raiva pelo duque ter te conhecido primeiro. — sussurrou, erguendo os olhos para encarar os olhos castanho claro de Charlotte. — Porque sei que passe o tempo que passar, você sempre amará o Caspian. —

Charlie sorriu, inclinando um pouco sua cabeça para o lado.

—Se continuar falando assim, senhor Garcia, começarei a achar que você está se apaixonando por mim. —

Christian soltou uma risada nasalada, fechando os olhos por alguns segundos.

—Talvez eu devesse parar então. Seria um desastre se isso acontecesse de verdade. — falou, inclinando seu corpo para a frente e beijando a testa de Charlie delicadamente. — Boa noite, sweet child. —

E então ele saiu do quarto, deixando Charlotte sozinha com seus pensamentos e um buquê no colo.

Notas finais
Comentários são bem vindos e contribuem com a continuação da história.