Laços de Sangue

7 Amber aparece novamente


—Uh, alguém está arrumada e eu diria que vestida para matar. — James falou assim que avistou Charlotte descendo as escadas.

—Matar todo o orçamento do Dia da Fundação só se for. — a ruiva murmurou mexendo em algo na sua bolsa. — Que droga. Eu não encontro as chaves do meu Corvette. — bufou.

—O Nick pegou o Corvette emprestado. Ele disse que te avisou. — disse Christian do sofá sem se dar o trabalho de virar para olhá-la.

—Aquele desgraçado. — praguejou, não recordando-se de pedido algum.

—Estou ouvindo o som do motor do seu Corvette então… uau. — o moreno sorriu, passando seus olhos pelo corpo de Charlotte sem nenhum pudor quando virou seu tronco para finalmente olhá-la.

—Como estou? —

Ela deu uma voltinha, mostrando seu vestido de moletom preto de mangas compridas que iam até metade das suas coxas e botas cor de ameixa até a coxa e de salto quadrado. Seu cabelo ruivo estava preso em uma trança lateral e seus lábios avermelhados por conta do batom.

—Normalmente eu acho botas coloridas feias. — respondeu, levantando e caminhando até a ruiva, parando na sua frente. — Mas é bem difícil algo ficar feio em você, sweet child. — Charlotte sorriu e Christian sorriu junto, aproximando seus lábios até a orelha dela. — Contudo, você sabe que fica muito melhor sem nada, não sabe? — sussurrou em seu ouvido.

—Quando eu chegar talvez você possa me ajudar com esse problema. — sussurrou de volta, mordendo de leve o maxilar dele.

—Meu Deus. — a voz de James se fez presente, causando uma risada na ruiva. — Vocês não estão nem aí se estão sozinhos ou não. —

—Você ouviu por sua conta em risco. — o irmão falou, enfiando as mãos nos bolsos da calça. — Se eu puder perguntar, é claro, para onde vai, ruiva? —

—Almoçar com a prefeita. Temos que resolver os detalhes do Dia da Fundação até amanhã. —

—Você participa mesmo da organização desse evento? Achei que era brincadeira quando comentou sobre ele. —

—É, Chris, eu participo mesmo. — respondeu. — Eu estive presente quando a cidade foi fundada. Seria falta de educação da minha parte não ajudar a organizar o evento. — comentou, com um tom falso de solidariedade.

—É, você tem razão. Bom, então aqui vai minha reclamação para você, fundadora: o nome da cidade é horrível. — disse, sentando novamente no sofá.

—O nome da sua cidade é Little Cube, então você não tem local de fala. —

—Não fui eu quem escolheu o nome da cidade! — justificou.

—Bom, muito menos eu escolhi o daqui. — retrucou, dando de ombros. — Estive presente, mas estava ocupada quando a votação para o nome da cidade estava acontecendo. — deu de ombros.

—Cidade do Carvalho. É, podia ser Cidade das Palmeiras ou Cidade das Flores. — ponderou. — City of the Lakes. —

—Por Deus, ainda bem que você não existia quando a cidade foi fundada. — James falou da cozinha, fazendo Christian arremessar uma almofada em sua direção. — Então, Charlie, você pode dizer como vai ser o evento? — perguntou com um sorriso.

—Não, eu não posso dizer. Lamento, James. — sorriu de volta, ouvindo a porta de casa sendo aberta. — Nick, quantas vezes eu já falei que não gosto que ninguém dirija meu Corvette? — cruzou os braços.

—Se eu pedisse você me emprestaria? —

—Óbvio que não. —

—Então está explicado porque eu pego ele sem você saber. — sorriu, erguendo as chaves do carro.

—Idiota. — resmungou, pegando o molho de chaves.

—Para onde vai? — perguntou, servindo-se de whisky.

—Almoçar com a prefeita. Depois vou visitar o Louis, então não me esperem com hora marcada. — respondeu, caminhando até o hall de entrada.

—Quem é Louis? — Christian indagou.

—Meu afilhado. — respondeu distraída, parando em frente ao espelho e checando se estava tudo ok.

—Espera. Você tem um afilhado? — Chris questionou surpreso. — Por quê? Achei que não gostasse de crianças. —

—O Louis é exceção. — sorriu, olhando para eles. — Não destruam a casa, crianças. Até mais tarde. —

E então saiu de casa.

—O que ela vai dizer quando o pirralho notar que ela não envelhece nunca? — o Garcia mais velho perguntou, recebendo um erguer de ombros de Nicholas e uma risada de James.

***

—Precisamos rever a questão da iluminação. O orçamento que a cidade tem para o Dia da Fundação está estourando já e não posso tirar do caixa da prefeitura, porque tem alguns pontos da cidade precisando de uma reforma. — Lucy falou

—Eu cubro. — Charlotte falou, bebendo um gole do seu suco de laranja.

—O quê? —

—É, eu cubro, Lucy. — repetiu, vendo a sobrancelha arqueada da prefeita. — Está tudo bem. Se você souber já qual o valor que será necessário eu faço um cheque agora mesmo. — sorriu.

—Estou começando a achar que devia começar sua campanha para prefeita. — falou, procurando pelo arquivo que constava o orçamento dos preparativos para o evento em seu tablet.

—Ah, não. A cidade está muito bem tendo você como prefeita. — respondeu, colocando um pedaço do bacon na boca e mastigando-o.

—Aqui, Charlie. —

Lucy deslizou o tablet pela mesa, voltando a comer seu almoço. Charlotte observou o valor, não se assustando com a quantidade de zeros. Pegou sua bolsa e retirou o talão de cheque, anotando o valor e destacando a folha, entregando-a para a prefeita junto com o tablet.

—Obrigada, Charlie. Sabe que não precisava fazer isso, não sabe? — sorriu, guardando o cheque na sua carteira para não correr o risco de perdê-lo.

—Sei, Lucy. Eu faço isso porque quero. Não se preocupe. — a tranquilizou, levando o copo com suco até os lábios.

O celular da prefeita começou a tocar e ela levantou para atender, pedindo licença. Charlotte assentiu, vendo ela sair do restaurante enquanto ouvia sobre algum problema que teve na cidade e que necessitava da atenção da prefeita.

—Não podia esperar nem o lugar dela esfriar? — perguntou, assim que notou que alguém tinha sentado na cadeira a sua frente onde Lucy estava a poucos segundos.

—Falando assim parece que a prefeita morreu, Charlotte. — a voz soou com um tom de sarcasmo.

—Sabe, eu bem que estava esperando por esse reencontro. — ergueu o olhar para a mulher a sua frente. — Aposto que aquele dia na casa da prefeita não foi exatamente planejado. Você gosta de um bom drama, Amber, então com certeza tinha planejado um primeiro encontro mais dramático, com ameaças e todo aquele papo de vingança. — a ruiva sorriu.

—Tem razão, eu tinha planejado um reencontro diferente. — confessou, tombando a cabeça um pouco para o lado. — Não sabia que a prefeita tinha te ligado pedindo para ir na casa dela aquele dia, mas tudo bem. Não atrapalhou muita coisa. — abanou a mão no ar, como se dissesse que aquilo não importava.

—O seu tão famigerado plano de vingança elaborado durante três séculos. — ela colocou o último pedaço do bife na boca, saboreando lentamente. — Uau. Mal posso esperar pelo segundo passo, porque, acredito eu, que o primeiro tenha sido atrair os irmãos Garcia até aqui. Estou certa? —

—O que te leva a pensar que eu vim aqui atrás de vingança? — arqueou a sobrancelha. — Eu posso ter aberto mão dela e decidido viver uma vida tranquila aqui em Oak City. Conhecer novas pessoas, fazer amigos… quem sabe até mesmo me apaixonar. —

—Hum… 6/10 para a história. O enredo é bom, mas… faltou um pouco de veracidade, sabe? —

Amber riu, inclinando um pouco o corpo para a frente.

—Eu senti falta disso, sabia? Durante esses três séculos. — falou, apoiando o rosto em sua mão fechada sobre a mesa. — Desse humor ácido tão característico seu. Você o usava comigo, com o Nicholas e até mesmo com a mamãe. E o Caspian? —

—Ah, maninha, lamento te decepcionar, mas Caspian e eu não tínhamos nenhum segredo. — retrucou, também inclinando seu corpo para frente, deixando seus rostos a poucos centímetros de distância.

—Ah, é mesmo. Afinal, ele te tratava como uma bolsa de sangue humana. — sorriu com certo desprezo.

—Agora veja só quem trata as pessoas como bolsa de sangue humana. — rebateu, arqueando a sobrancelha. — Aliás, já que é a primeira vez que nos reencontramos desde que você me matou, devo te dizer que fiquei surpresa por você ter completado a transição. — um sorriso provocador apareceu nos lábios de Charlotte.

—É verdade. — suspirou, encostando o tronco na cadeira novamente. — Eu realmente não planejava completar a transição, mas, convenhamos, ninguém quer morrer, não é mesmo, irmã? —

—E para evitar a morte fazemos de tudo. — assentiu, compreendendo, sussurrando logo depois: — Até vender a alma para o diabo. —

—E se tornar o monstro que eu até então odiava. — sorriu. — Contudo, a ideia de um dia me vingar de você compensou o fato de eu ser um monstro bebedor de sangue. —

—E aí está. Acabou de se perder no personagem que montou para esse almoço. — sorriu, abrindo sua bolsa e pegando o dinheiro para pagar o almoço dela e da prefeita, deixando as notas sobre a mesa.

—Oh, droga. — Amber fingiu frustração, balançando a cabeça. — Terei que melhorar na próxima. —

Charlotte pegou um lápis que encontrou em sua bolsa enquanto procurava pela sua carteira e o enfiou na mão de Amber que estava exposta sobre a mesa. Viu ela reprimir o que seria um grito de dor e levar a outra mão até o pedaço de madeira enfiado em sua destra, cobrindo o sangue que se acumulava.

—Da próxima vez, no lugar desse lápis vai ser uma estaca bem no meio do seu peito. — ameaçou, vendo uma chama de ódio brilhar nos olhos da irmã mais nova.

Charlotte sorriu, passando sua bolsa pelo braço e levantando. Deu alguns passos e parou ao lado de Amber, agachando-se até estar próxima a orelha dela, sussurrando ameaçadoramente:

—Se eu fosse você, pensaria duas vezes antes de ameaçar meus amigos, irmã. — e depositou um beijo em sua bochecha para provocar.

Pegou a bolsa da prefeita que estava sobre a cadeira ao lado e saiu sorrindo do restaurante ouvindo Amber a chamar de vadia.

***

—Então tem vários amigos seus morando com você? Achei que você odiasse tumultos. — Olivia comentou, jogando os dados e movimentando sua peça no tabuleiro de banco imobiliário.

Era a terceira rodada que elas jogavam a pedido do pequeno Louis que, mesmo tendo apenas 4 anos, amava jogos de tabuleiros. Charlotte tentou ensiná-lo xadrez algumas vezes, mas em todas as vezes o Jones mais novo movimentou as peças como se estivesse jogando Damas.

—E odeio, mas a casa é enorme e eu não gostaria de vê-los em um hotel. — respondeu, observando Louis arremessar os dados para o alto rindo.

—E como eles são? Muito bagunceiros? —

—É, um pouco. — riu, pegando os dados e os jogando já que era sua vez. — E a escola? Como está? —

—Um saco. Achei que por ser meu último ano as coisas seriam incríveis, mas… —

—Problemas com o namorado? — perguntou ao ouvir o suspiro pesado de Olivia.

—É, eu… peguei ele me traindo ontem. —

—O que? — a encarou, surpresa. — Liv. —

—É, mas não se preocupe, Charlie. Já dei um pé na bunda dele e acredito que acabei quebrando o nariz dele quando soquei a cara dele. — soltou uma risada, tranquilizando a ruiva.

—Minha garota. Aprendeu direitinho. — sorriu, voltando a atenção para o tabuleiro a tempo de ver Louis roubando. — Ei, ei, ei! Pode para de roubar aí, está me ouvindo? —

—Mas eu não roubei. — mentiu, tombando a cabeça para o lado inocentemente.

—Além de ladrão de jogo você também é mentiroso, rapaz? — colocou as mãos na cintura, fazendo o garotinho rir.

—Você não me viu roubando e nem sabe se eu menti, tia. Não tem provas. — cruzou os braços, tentando parecer sério, mas acabou rindo e Charlotte sentiu seu peito aquecer com tamanha fofura.

—Ah, é? Pois agora você irá receber a visita do doutor cócegas, advogado. — disse a ruiva, erguendo suas mãos e mexendo seus dedos, fazendo o garotinho levantar do chão rindo.

—Não, tia! Liv, me ajuda! — pediu entre risadas enquanto corria pela casa com Charlotte atrás dele.

Olivia riu, levantando e correndo atrás deles. Passou por Charlotte e pegou o irmão no colo, correndo com ele enquanto as risadas se misturavam e preenchia os cômodos da mansão.

Notas finais
Comentários são bem vindos e contribuem com a continuação da história.