—Isso é engraçado. — Dylan murmurou, sentado no sofá.

—O que é engraçado? — Charlie indagou distraída do seu lado.

—O fato de que você tem uma irmã psicótica atrás de você há mais de três séculos por causa de uma vingança e que, pelo fato de sermos seus amigos, ela também virá atrás de nós. Já vai fazer uma semana que a Amber não fez mais nada além de atrair o Christian e o James para cá e mesmo depois de você ter a irritado enfiando um lápis na mão dela, não houve movimento algum. — falou, virando-se para encarar a ruiva. — E mesmo sabendo que esse silêncio todo é porque ela está planejando alguma coisa, você está aqui jogando xadrez com o James. —

—Xeque. — o Garcia mais novo falou, após o último movimento do seu cavalo.

—Droga. — resmungou, pensando em uma estratégia para sair do xeque e não acabar vindo um xeque-mate logo depois.

—E eu fui ignorado. — Dylan constatou após notar que nem ela nem James deu atenção para o que ele acabou de dizer.

—Xeque. — Charlotte proferiu, após proteger seu rei com sua torre. — O que você disse, Dylan? — perguntou, encarando o caçador que revirou os olhos.

—Que vamos todos morrer. — Christian falou do andar de cima, atraindo o olhar da ruiva. — Porque enquanto devíamos estar planejando uma forma de arrancar o coração da irmã do mal e acabar logo com isso, você, que é o centro da vingança dela, está na sala da sua mansão jogando xadrez com o meu irmão. —

—Sua vez, Charlie. — James avisou, fazendo o olhar dela voltar para o tabuleiro e fazer seu próximo movimento.

—Eu quero saber qual a próxima jogada da Amber. Preciso saber se ela está agindo sozinha ou não. — respondeu.

—Acontece, Charlie, que a próxima jogada dela pode ser justamente a morte de um de nós. E eu não sei vocês, mas eu não quero morrer. — falou, apoiando-se no balaústre de ferro.

—Então devia ter voltado para Little Cube quando eu disse que a minha irmã psicótica está atrás de vingança. — sorriu, movimentando sua peça no tabuleiro novamente e já imaginando seu sorriso vitorioso quando disser xeque-mate na próxima jogada.

—Sabe que eu jamais deixaria você lutar sozinha com a Amber. —

—Ei! — Dylan falou levemente ofendido, recebendo uma sobrancelha arqueada de Christian.

—Pois então, queridos, peço que fiquem no canto de vocês e esperem pelo próximo movimento da Amber. Até porque eu só entro no jogo para ganhar, não é? — disse cheia de si enquanto ostentava um sorriso orgulhoso.

—Xeque-mate. — James falou, sorrindo por sua vitória ter encaixado tão bem no momento.

—Espera. O que? — Charlotte perguntou confusa encarando o tabuleiro. O sorriso sumiu do seu rosto. — Ah, mas que merda! — praguejou.

—Só entra no jogo para ganhar, não é? — Dylan riu do seu lado.

—Não enche. — pegou uma almofada, acertando ela no caçador.

James e ela estavam arrumando as peças para a próxima partida quando o celular da ruiva começou a tocar. No visor tinha uma foto da prefeita junto com seu nome piscando.

Suspirou, pegando o aparelho e já imaginando que se tratava do Dia da Fundação.

—Hey, Lucy. — sorriu.

—Charlie, querida, eu só liguei para agradecer pela sua ideia incrível. — Charlotte franziu as sobrancelhas levemente, tentando lembrar de que ideia a prefeita estava falando. — Quando vi sua mensagem hoje pela manhã eu fiquei um pouco confusa por você querer mudar os planos, mas agora vejo que a ideia é realmente perfeita. Recriar o baile onde foi assinado os documentos para a fundação da cidade é muito melhor do que a festa que estávamos planejando. —

—Lucy, eu não estou entendendo. — falou, levantando do sofá e começando a caminhar pela sala já imaginando do que aquela ligação se tratava.

—Como assim, querida? Estou falando de mudar o evento do Dia da Fundação para um baile de época. — e ali estava. — Admito que eu não queria mudar o foco, porque o caixa da prefeitura para esse evento já tinha estourado. Contudo, após olhar todo o planejamento notei que dá para usarmos o mesmo material que usaríamos na festa. Temos que mudar toda a decoração, assim como encontrar um espaço já que para a primeira ideia ela seria feita na praça. — Charlie ouviu um suspiro cansado da prefeita. — Acredito que como a ideia foi sua, você irá tomar a frente, certo? —

—Claro, Lucy. Eu passo na sua casa segunda para dar início aos preparativos. — forçou um sorriso mesmo sabendo que a mulher não poderia vê-la.

—Muito obrigada, Charlie. Um baile de época. Isso vai ser tão emocionante. — comentou empolgada.

—Mal posso esperar. — forçou um tom animado na sua voz antes de encerrar a ligação. — Aquela vadia filha da puta! — gritou, apertando seu celular em sua mão e consequentemente o quebrando. — Argh! — o arremessou na parede, partindo-o em alguns pedaços.

—Você por acaso ouviu a ligação ao ponto de saber qual o motivo dessa raiva toda? — Dylan sussurrou para James enquanto ouvia Charlotte proferir todos os palavrões do mundo em diferentes línguas.

—Achei que era assunto da cidade entre ela e a prefeita então eu não ouvi. Desculpa. — sussurrou de volta, trocando de sofá a fim de ficar o máximo distante da ruiva enfurecida.

—Que gritaria é essa? — Nicholas perguntou assim que entrou na casa, vendo a irmã com fogo nos olhos enquanto praguejava Deus e o mundo.

—Não sei do que se trata, mas aí está o próximo passo da irmã psicopata. — Christian comentou com um sorriso, achando divertido o surto de raiva de Charlotte.

—Eu vou matar aquela desgraçada. Me ameaçar tudo bem, agora fazer isso? Isso já é demais! — esbravejou, passando as mãos pelo cabelo.

Nicholas, tentando reunir alguma coragem, respirou fundo e deu alguns passos na direção da irmã. Sendo um híbrido, ele tem força e velocidade em dobro, assim como os outros sentidos, mas até mesmo um híbrido poderoso como ele sabe que quando Charlotte está possessa de raiva é melhor ficar longe.

—Chuck, o que aconteceu? — perguntou baixinho, tocando delicadamente seu ombro.

—Aquela vaca sem escrúpulos da Amber! Ah, mas que ódio! — vociferou, tentando respirar fundo. — Acredita que aquela vadia desgraçada mexeu com o evento que eu estava organizando? —

—Ela matou alguém? — perguntou, rezando para que se sim, não tivesse sido a prefeita e nem os filhos já que Charlie gostava muito deles.

—Não, ela fez algo muito pior! — falou séria, encarando o irmão nos olhos. — Ela teve a pachorra de mudar o evento para um baile de época! Um baile de época, Nick! Tem noção da atrocidade que ela cometeu? —

Nicholas teve que reunir todas as suas forças para não arquear a sobrancelha ou soltar um "essa gritaria toda era apenas por isso?" A última coisa que queria era canalizar a raiva que a irmã estava sentindo por Amber para si próprio. Baile era um assunto delicado para Charlotte.

—Por que ela faria uma coisa dessas? Por que mexer com um evento idiota em vez de, sei lá, matar alguém? — perguntou, vendo sobre o ombro de Charlie que Dylan segurava a risada por causa de seu fingimento.

—E eu que vou saber? — gritou, jogando os braços para o alto. — Ela sabe que eu odeio bailes. Fez isso de propósito! Apenas para me provocar porque sabe que eu vou ter que ir por causa da prefeita. Não se pode mais enfiar um lapisinho na mão dela que ela já retalia com um baile idiota? — revirou os olhos, virando na direção da mesa de bebidas. — Ainda por cima um baile de época. Se fosse um baile funk eu ficava calada. —

O Downey mais velho suspirou não acreditando no que ouvira. Assim que Charlotte se serviu, ele próprio encheu um copo com whisky ou caso contrário mataria alguém.

—Então… — James começou, meio incerto do que devia falar. — Não houve mortes nem nada do tipo? —

—Pelo que parece não. Só a do evento organizado pela ruivinha. — Christian, que a essa altura já tinha descido do primeiro andar, respondeu, massageando os ombros de Charlotte.

—Não me faça quebrar esse copo na sua cabeça. — ameaçou.

—E qual foi a festa que você organizou? —

—Era uma festa que duraria uma semana. Cada noite era uma coisa diferente. Começaria com um desfile da banda da escola e outras atrações, queima de fogos, depois um festival musical com uma banda famosa de fora, no outro dia aqueles parque de diversões que todo mundo ama e outras baboseiras que gente de cidade pequena gosta. — deu de ombros.

—Lamento, Chuck, mas não é muito legal não. — Nick falou, bebendo seu whisky.

—Eu nunca disse que seria legal nem divertido. — respondeu. — Pelo menos não para nós. —

—E porque uma semana? — questionou James.

—O Dia da Fundação nunca foi só um dia, mas duas semanas. Charlie esse ano conseguiu convencer a prefeita a fazer em apenas uma. — Dylan respondeu.

—E a Amber conseguiu em um. — Christian falou, recebendo um olhar duro de Charlotte que lhe causou uma risada.

A ruiva sentiu os braços fortes do vampiro atrás de si, a abraçarem por trás enquanto Chris depositava um beijo na sua nuca.

—Ela conseguiu isso usando meu nome. — bufou, irritada. — Por que as pessoas acreditam em mensagens que não foram enviadas por mim, mas que tem minha assinatura? Eu tenho um celular, inferno. Custava ligar perguntando sobre o quão isso era estranho? —

—Reclamação anotada. Prometo que não acontecerá novamente. — James falou, sabendo que Charlie não falava apenas da prefeita.

—E você tinha um celular. Agora só tem pedaços. — Nicholas apontou para o aparelho espatifado no chão.

—Isso geralmente acontece, então não se preocupe. Eu tenho uma gaveta no quarto cheia de celulares novos. — respondeu despreocupada.

A campainha tocou, fazendo a ruiva se soltar dos braços de Christian e caminhar até a porta, abrindo-a.

—Chegamos para a noite de filmes. — Maddie sorriu, erguendo uma travessa com um prato culinário que só sua avó sabia fazer. — O que? Você disse que íamos continuar com a programação normal enquanto a Amber não faz a próxima jogada. — respondeu quando viu a sobrancelha arqueada de Charlie.

—Isso foi antes de notar que a casa está muito cheia e não vai dar para fazer a noite de filmes. Principalmente com você e o Christian no mesmo cômodo. —

—É só ele ir dormir fora hoje. — sorriu como isso resolvesse tudo e entrando na casa.

—E o Caleb? — perguntou.

—Pegando o travesseiro dele. Sabe que ele não consegue dormir sem ele. — respondeu, deixando a travessa sobre a mesa da sala de jantar.

—Vou logo avisando que não estou nem aí se a casa está lotada de vampiros. Não vou dividir meu sofá com ninguém! — Caleb falou assim que fechou a porta do seu carro, começando a caminhar em direção a casa.

A ruiva sorriu ao ver ele carregando seu travesseiro embaixo de um braço e na outra mão uma travessa com um doce que ele mesmo preparou. Charlotte notou alguma movimentação próxima às árvores que tinham em frente sua casa. Inclinou a cabeça um pouco para o lado enquanto semicerrava os olhos, tentando enxergar se era algum animal ou outra coisa.

Foi quando viu a luz da lua refletir no que parecia ser uma balestra que mirava em Caleb. Sem pensar duas vezes, largou o copo com whisky que estava em sua mão e correu em velocidade sobre humana até o amigo no exato momento em que o disparo foi feito e acertou suas costas.

—Charlie! — o lobisomem largou o travesseiro e a travessa, fazendo a mesma se estraçalhar quando atingiu o chão enquanto ele segurava o corpo da ruiva.

O pessoal dentro da casa, que a essa altura já tinha ouvido o barulho de vidro quebrando, saíram tentando entender o que aconteceu. Nicholas, assim que viu a irmã caída nos braços de Caleb, correu até eles chegando em um instante ao lado da Harrington, vendo uma estaca de madeira cravada em suas costas. Christian e James correram atrás do atirador que se enfiou no meio da floresta.

—Ah, meu Deus. — Maddie murmurou assim que chegou ao lado da amiga junto com Dylan.

—Tira logo essa droga das minhas costas. — pediu com dificuldade. — É de madeira, então dói pra caramba. — disse entredentes.

—Isso vai doer. — Nick avisou, segurando a estaca e a puxando rapidamente.

Charlotte mordeu o lábio inferior, evitando que o gemido de dor fosse mais alto e levantou com a ajuda de Caleb e Dylan.

—Cadê o desgraçado? — perguntou, entredentes.

—Christian e James foram atrás dele pela floresta, mas você não… —

Charlie não deixou o caçador terminar. Assim que ouviu para onde ele tinha corrido, correu na mesma direção.

—E lá vai ela. — murmurou.

O atirador acertou uma estaca no abdômen de Christian que soltou um urro de dor. James partiu para cima dele, mas foi arremessado com uma força descomunal em uma árvore, sentindo alguma parte do seu corpo quebrar.

—Vocês não irão me impedir de fazer a duquesa Harrington sofrer! —

O homem loiro falou, antes de correr a fim de fugir e tentar novamente outro dia, mas seu tronco acabou encontrando a mão de Charlotte que segurou seu coração e sem pensar duas vezes o puxou para fora. A ruiva observou friamente o corpo do homem cair no chão sem vida e soltou o coração dele ao seu lado.

Ela caminhou até James e ergueu a mão limpa para ajudá-lo a levantar que aceitou prontamente e colocou o osso do seu ombro no lugar, o qual tinha deslocado ao ser arremessado no tronco da árvore. Charlie andou até Christian que já tinha removido a estaca do abdômen, mas permanecia deitado no chão e ofereceu sua mão.

—Não devia ter feito algumas perguntas antes de arrancar fora o coração? — perguntou já de pé. — Sei lá, algo do tipo, "você está trabalhando com a Amber?" Ou "por que tá ajudando minha irmã a me matar?"

—Eu não faço perguntas a quais já tenho respostas. — disse, encarando a mancha de sangue em sua blusa e praguejando mentalmente.

—Então você o conhece? — James questionou, fazendo a ruiva olhar novamente para o corpo sem vida do homem.

—Vocês podem se livrar do corpo para mim? — perguntou após um suspiro. — Preciso de um banho. —

Os irmãos franziram a sobrancelha, mas acabaram assentindo e isso fez Charlie sorrir um pouco antes de agradecê-los e voltar para a mansão.

Notas finais
Comentários são bem vindos e contribuem com a continuação da história.