Laços Profanos

8 O QUE OS OLHOS NÃO VEEM


Quase um mês.

Quase um mês desde que eu atravessara o portão de ferro de Ravenwood Manor como quem volta a um túmulo que ainda respira.

O Aston Martin parou na entrada circular com o ronco baixo e satisfeito de sempre. Eu desliguei o motor e fiquei sentada longos segundos, as mãos ainda no volante de couro frio. Os dedos formigavam. Não de frio. De outra coisa. A mansão se erguia à minha frente, impecável sob a luz cinzenta e doentia do final da tarde. As janelas do segundo andar refletiam o céu carregado como olhos mortos. A hera controlada subia pelas paredes de pedra escura como veias dilatadas de um corpo que se recusava a apodrecer.

Eu deveria ter me sentido em casa.

Em vez disso, a nuca inteira se arrepiou.

A sensação era antiga. Primordial. O instinto de predadora reconhecendo o peso de um olhar que não pertencia a nenhum animal comum. Saí do carro. O ar frio e úmido invadiu os pulmões carregando o cheiro de terra molhada, pinheiro resinado e folhas em decomposição. Fechei a porta com um clique suave demais para o que eu sentia. Fiquei parada no meio da entrada de pedra, o casaco preto aberto sobre os ombros, o vento gelado entrando pela blusa de seda e lambendo a pele fria.

Os olhos percorreram a linha das árvores que cercavam a propriedade com a precisão de quem já caçara em florestas muito mais antigas que aquela.

Carvalhos retorcidos. Pinheiros altos demais. A sombra densa entre os troncos, onde a luz morria antes de tocar o chão. Eu forcei a visão — a visão que me permitirá contar os batimentos de uma carótida a trinta metros de distância em noites sem lua. Os detalhes saltaram nítidos, quase ofensivos: a textura áspera da casca, o tremor mínimo de uma folha prateada de umidade, o brilho viscoso de uma teia de aranha balançando. Nada. Nenhum corpo escondido. Nenhum coração batendo além do ritmo apressado de um esquilo ou de um coelho aterrorizado.

Ainda assim, a pele do meu pescoço continuava erguida. Cada fio de cabelo parecia um sensor.

Alguém — ou alguma coisa — estava observando.

Eu segurei a respiração. Escutei.

O vento baixo arrastando folhas mortas. O farfalhar distante. O silêncio pesado demais, denso demais, como se a própria floresta estivesse prendendo a respiração junto comigo.

Foi então que a coruja veio.

Um vulto escuro explodiu de entre as árvores em minha direção, asas abertas como uma maldição, olhos amarelos fixos e sem alma. O corpo reagi antes da mente. Dei um passo brusco para trás, o casaco esvoaçando, o coração — aquele órgão preguiçoso e quase decorativo — deu um único e irritado impulso contra as costelas. Eu praguejei baixo, a palavra antiga e suja saindo em um idioma que ninguém nesta cidade miserável entenderia.

— Porra.

A coruja passou raspando tão perto que eu senti o vento das asas no cabelo. Desapareceu no outro lado da propriedade com um piado grave e ofendido. Eu fiquei parada, o peito subindo e descendo uma única vez, o gosto metálico de adrenalina inútil na boca.

A porta da frente se abriu com um rangido suave.

Helena estava no limiar, braços cruzados sobre o peito, a expressão já carregada daquela desconfiança crônica que parecia ter herdado junto com o sobrenome. O vestido azul-marinho impecável. O cabelo preso em um coque que puxava a pele do rosto de um jeito que só fazia as linhas de preocupação ficarem mais profundas. O cheiro dela chegou até mim: café passado há horas, perfume floral barato e o ácido inconfundível do medo contido.

— O que foi isso?

— Nada — respondi, ajustando o casaco com um movimento deliberadamente lento e subindo os degraus. Os saltos clicavam no pedra como um metrônomo de irritação. — Uma coruja com senso de humor tão duvidoso quanto o seu.

Ela não se moveu para me deixar passar imediatamente. Os olhos castanhos me estudaram com a intensidade de quem procura rachaduras em uma máscara que já deveria ter caído.

— Você está pálida.

— Eu sempre estou pálida, Helena. É uma das minhas características mais consistentes. Junto com a paciência limitada e o desprezo por perguntas óbvias.

Passei por ela. O ombro quase tocou o dela. O hall cheirava a cera de móveis caros e madeira polida até o ponto de parecer artificial. Tirei os saltos e os deixei ao lado da porta com um cuidado teatral. Os pés descalços tocar o mármore gelado mandou um arrepio subindo pelas panturrilhas até a base da coluna. Eu ignorei.

Helena fechou a porta com mais força do que o necessário e me seguiu até a cozinha como uma sombra irritada.

— Precisamos conversar.

Eu abri a geladeira. A luz branca e fria iluminou meu rosto. Peguei uma maçã vermelha, brilhante, perfeita demais para ser real. Rolei o fruto entre os dedos, sentindo a casca lisa e gelada contra a pele. O peso era satisfatório.

— Sobre o que, desta vez? — perguntei, já cansada. — Sobre o fato de eu ainda estar viva? Sobre o fato de você ainda não ter conseguido me expulsar? Ou sobre o fato de a cidade inteira estar cochichando meu nome como se eu fosse uma peste medieval?

Helena apoiou as mãos na bancada de mármore branco. Os nós dos dedos ficaram brancos.

— Sobre os dez milhões.

Eu sorri. O tipo de sorriso que não chegava perto dos olhos. Mordi a maçã. O estalo da casca ecoou na cozinha silenciosa como um osso quebrando. O sabor ácido e doce explodiu na língua — uma das poucas coisas humanas que eu ainda permitia que me desse prazer real. O suco escorreu pelo canto da boca. Eu o limpei com o polegar e chupei o dedo devagar, mantendo o olhar nela.

— Achei que era isso que você queria — disse, mastigando com calma deliberada. — O hospital. A reforma. A cidade agradecida de joelhos. Os Wycliffe voltando a ser os salvadores bondosos de Ravenwood Valley. Não era esse o seu sonhinho molhado de sobrinha responsável?

Helena endireitou a coluna. O cheiro do medo dela se intensificou, misturado agora com raiva.

— Eu queria. Quero. Mas você mudou de ideia de um dia para o outro, Aurora. Na festa você tratou o hospital como se fosse um estorvo. No dia seguinte… dez milhões. Sem negociar. Sem hesitar. Sem sequer fingir que pensou duas vezes.

Eu me sentei no banco alto da ilha central com uma lentidão quase obscena. Cruzei uma perna sobre a outra. A seda da calça escorregou fria contra a pele. A maçã girava entre os dedos, o suco ainda doce na língua.

— Nem tudo tem segundas intenções, Helena.

Ela ergueu uma sobrancelha tão alto que a testa inteira se enrugou.

Eu mordi de novo. O estalo foi mais alto desta vez. Mais agressivo.

— Mas nesta doação… — admiti, a voz baixa, quase íntima, quase cruel — tem um interesse.

O silêncio que se seguiu foi tão denso que eu quase pude mastigá-lo. Helena endireitou ainda mais a coluna, como se o corpo inteiro tivesse sido atravessado por um fio elétrico.

— Julian.

Não era uma pergunta. Era uma acusação.

Eu continuei comendo a maçã, o olhar fixo nela, o verde-esmeralda dos meus olhos sem piscar. Deixei que ela se afogasse no silêncio. Deixei que o nome dele pairasse entre nós como um cheiro que nenhum dos dois queria admitir.

— Você não pode se aproximar dele — disse Helena, a voz mais firme do que eu esperava, mas ainda assim trêmula nas bordas. — Ele é um homem ferido, Aurora. Perdeu a esposa. Carrega isso no rosto como uma cicatriz aberta. Não merece que você brinque com ele.

A palavra me atingiu em cheio.

Brincar.

Como se eu fosse uma criança entediada escolhendo um brinquedo novo para desmontar.

Como se o interesse que eu sentia — aquele interesse frio, afiado, perigoso — fosse apenas um capricho de imortal enjoada.

Eu pousei a maçã na bancada. O som do fruto contra o mármore foi seco, final, como um ponto final em uma sentença de morte. Levantei-me devagar. O banco arrastou. Caminhei até ela e parei perto o suficiente para que o perfume frio e caro do meu corpo se misturasse ao cheiro de café azedo e ansiedade dela. Perto o suficiente para que ela tivesse de erguer o queixo.

— Jamais pensei em tamanho absurdo.

A mentira saiu redonda, elegante, perfeita. Do tipo que eu lapidava há séculos.

— Na verdade — continuei, inclinando a cabeça com uma doçura venenosa —, quero deixar minhas intenções bem claras. Até porque… — fiz uma pausa longa, deliciosa, deixando o sarcasmo escorrer como mel envenenado — não tem ninguém interessante nesta cidade. Ninguém. Só um monte de humanos medíocres, um hospital carente e uma sobrinha que envelhece mais rápido de tanto franzir a testa.

Helena me encarou. Eu vi a decepção. Vi o medo. Vi a teimosia familiar que já enterrara outras mulheres desta linhagem.

— Então vá embora.

A frase saiu baixa. Cansada. Quase um pedido.

Eu ri.

O som foi curto, sem humor real, cortante como vidro quebrado.

— Não. Não vou te dar este gosto, sobrinha. Você pode rezar, pode torcer, pode até tentar me envenenar com aquele chá horroroso que você insiste em oferecer… mas eu não vou embora. Não enquanto eu não quiser.

Levantei a mão e toquei de leve a linha profunda entre as sobrancelhas dela com a ponta do dedo indicador. A pele estava quente. Humana. Frágil.

— E aplica um botox, pelo amor de Deus — acrescentei, a voz doce e cruel. — Essa cara de preocupação permanente está te envelhecendo mais rápido do que o necessário. Daqui a pouco ninguém vai acreditar que somos parentes.

Helena recuou um passo como se eu tivesse queimado a pele dela. Os olhos brilharam de pura irritação e algo que parecia dor.

Eu virei as costas antes que ela pudesse responder. Subi as escadas sem olhar para trás, a maçã ainda na mão, o sabor ácido ainda na língua, o coração preguiçoso batendo uma única vez com força desnecessária.

No corredor do segundo andar, parei diante da janela que dava para a linha de árvores escuras.

A sensação de ser observada ainda estava lá. Fina. Persistente. Como uma unha suja arranhando a nuca de dentro para fora.

Eu forcei a visão outra vez até os olhos arderem. Nada. Apenas troncos retorcidos, folhas úmidas e o silêncio pesado demais para ser inocente.

A coruja piou ao longe, um som grave e zombeteiro.

Eu mordi a maçã com mais força do que o necessário. O suco escorreu pelo queixo desta vez. Eu não limpei.

Julian Vane.

Um homem ferido, um homem cujo coração acelerava quando eu o olhava — eu ouvira. Eu sentira. O sangue dele bombeando mais rápido, quente, traidor, descendo para lugares que a mente racional dele tentava desesperadamente ignorar.

Um homem que Helena achava que eu ia “brincar”.

Eu sorri sozinha, o verde dos meus olhos refletido no vidro escuro da janela como duas pedras frias e antigas.

Ela não fazia ideia.

Ninguém nesta cidade fazia, porque o que eu queria de Julian Vane não era um jogo. Não era um passatempo, não era uma distração para uma imortal entediada.

Era interesse.

Puro. Afiado. Perigoso.

E interesse, depois de quinhentos anos de tédio e sangue e noites vazias, era a coisa mais assustadora e viciante que eu podia sentir.

Eu mordei a maçã outra vez, o sabor ácido encheu a boca. Lá fora, entre as árvores, alguma coisa ainda observava e, pela primeira vez em muito tempo, eu não tinha certeza se o predador era eu… Ou se, finalmente, alguém estava caçando de volta.