Laços Profanos
9 POV: DR. JULIAN VANE - O FANTASMA E A REFORMA
Um mês.
Um mês desde que o dinheiro dela caíra na conta da fundação como uma sentença irreversível.
Eu estava de pé no que um dia fora o corredor mais degradado do Saint Jude. Agora as paredes tinham sido arrancadas até a estrutura de concreto. O cheiro de poeira antiga, úmida, de décadas de abandono, misturava-se ao de tinta fresca, metal cortado e madeira nova ainda resinosa. Operários passavam carregando tubos de cobre, rolos de fio, placas de drywall. O barulho metálico de uma serra circular ecoava lá do fundo da futura ala cirúrgica, ritmado, constante, quase hipnótico. Eu segurava o capacete de segurança branco sob o braço e observava tudo com uma satisfação quieta que doía no peito.
O sonho estava tomando forma diante dos meus olhos.
Leitos novos com sistemas de monitoramento de última geração. Salas de cirurgia com pressão negativa e iluminação cirúrgica que eu só vira em centros de excelência. Equipamentos de imagem que reduziriam o tempo de diagnóstico pela metade. A UTI deixando de ser um depósito improvisado de respiradores velhos e passando a ser um espaço onde pessoas realmente teriam chance. Tudo isso porque Aurora Wycliffe assinara um cheque de dez milhões como quem pede um café e depois se levanta da mesa sem olhar para trás.
E ainda assim.
Eu não conseguia parar de pensar nela.
Desde aquele encontro na cafeteria, ela se tornara uma presença constante, invasiva, quase parasitária na minha cabeça. Onipresente. Eu a via nos relatórios financeiros que chegavam toda sexta-feira com a assinatura dela no rodapé — a letra elegante, inclinada, antiga demais para uma mulher da idade que o rosto dela sugeria. Eu a via nas reuniões do conselho, sentada dois lugares à minha esquerda, a coluna reta, os ombros relaxados, a voz baixa e precisa quando decidia falar. Eu a via nos corredores do hospital quando ela aparecia para as auditorias mensais, sempre de preto ou verde-escuro, sempre com aquele casaco que parecia custar mais do que o meu primeiro salário de residente.
Ela era educada.
Exageradamente educada.
O tipo de educação que funciona como uma parede de vidro temperado: você vê através, mas não consegue atravessar. Cumprimentava-me com um aceno mínimo de cabeça, quase imperceptível. Respondia às minhas perguntas técnicas com frases curtas, corretas, cirurgicamente polidas, sem uma vírgula a mais, sem um segundo de calor. Nunca prolongava o contato visual além do estritamente necessário. Nunca sorria. Nunca oferecia qualquer abertura, qualquer rachadura, qualquer coisa que eu pudesse usar para me aproximar.
Era gelo.
E o gelo só fazia o resto de mim esquentar de um jeito que eu odiava.
Eu odiava o fato de que, mesmo depois de um mês inteiro, o corpo ainda reagia à simples menção do nome dela. Odiava acordar no meio da noite com a imagem dos olhos verde-esmeralda queimando atrás das pálpebras e a memória indesejada, visceral, do modo como meu sangue descera naquela manhã na praça — quente, determinado, direto para a virilha, deixando-me semi-duro no meio da rua como um adolescente sem controle. Odiava que a mente — a mesma mente treinada durante anos para salvar vidas, para manter as mãos firmes sob pressão, para separar emoção de ação — se recusasse teimosamente a soltá-la.
À noite, depois de revisar os prontuários e tomar o segundo café que eu não deveria beber, eu me pegava pesquisando.
Wycliffe.
A família aparecia em registros antigos de Massachusetts, em doações milionárias a universidades da Ivy League, em compras de terras que datavam de séculos. Fortuna obscena. Empresas de investimento com nomes genéricos e sedes em Delaware. Holdings dentro de holdings. Fundações filantrópicas que existiam mais no papel do que na prática. Mas Aurora Wycliffe… quase nada. Nenhuma foto recente em qualquer banco de imagens. Nenhuma entrevista. Nenhuma presença em redes sociais. Nenhuma menção em colunas sociais de Boston ou Nova York. Nenhuma formatura, nenhum casamento, nenhum escândalo. Era como se ela existisse apenas em papel timbrado, assinaturas eletrônicas e no olhar de pessoas que baixavam a voz quando falavam do sobrenome.
Um fantasma.
Um lindo, irritante, sexualmente perturbador fantasma.
Eu estava na sala de reuniões do conselho naquela tarde cinzenta quando ela chegou.
Pontual. Como sempre. O casaco preto aberto sobre uma blusa de seda esmeralda que fazia os olhos dela parecerem ainda mais intensos, quase sobrenaturais, sob a luz fria e cruel dos fluorescentes. O cabelo negro solto caía sobre os ombros, e as mechas avermelhadas só apareciam quando ela virava a cabeça e a luz as pegava de lado. Ela cumprimentou Arthur com um aceno educado, quase caloroso. Depois a mim. O olhar verde passou por mim como se eu fosse apenas mais uma cadeira vazia na sala. Como se o meu corpo, o meu cheiro, a minha existência inteira fossem irrelevantes.
— Doutor Vane.
— Senhorita Wycliffe.
Nada mais.
A reunião girou em torno dos novos leitos de UTI e da disposição das salas de recuperação pós-cirúrgica. Arthur falava demais, animado com os números, com o prestígio, com a possibilidade de finalmente colocar Ravenwood no mapa da medicina de qualidade. Eu apresentava os protocolos técnicos, as taxas de infecção projetadas, o fluxo de pacientes. E Aurora… Aurora ouvia. Tomava notas em um caderno de capa preta com uma caneta que parecia feita de ouro. De vez em quando interrompia com uma pergunta ou uma observação precisa demais para alguém que, teoricamente, só estava ali por causa do dinheiro.
— O fluxo de pacientes pós-cirúrgicos vai congestionar o corredor leste se vocês mantiverem essa disposição — disse ela, a voz calma, quase suave, mas com uma autoridade que não pedia licença. — Eu realocaria os leitos de observação para a ala norte. Mais perto dos elevadores de serviço. Menos tempo de transporte. Menos risco de complicações no trajeto. E o posto de enfermagem deveria ficar em posição central, não no final do corredor. Vocês estão priorizando a estética do projeto em vez da eficiência clínica.
Eu a observei enquanto ela falava.
A inteligência era irritante na mesma proporção em que era impressionante. Ela entendia de logística hospitalar melhor do que metade dos administradores que eu conhecera em Nova York. Não era opinião de leiga rica brincando de filantropia. Era análise fria, precisa, cirúrgica. Como se ela tivesse passado anos estudando o funcionamento interno de hospitais só para poder, um dia, doar uma fortuna e ainda assim controlar o resultado final com a ponta dos dedos.
Eu odiava como isso me atraía.
Odiava o modo como os olhos dela se estreitavam levemente quando concentrada, criando pequenas linhas que desapareciam assim que ela relaxava. Odiava a forma como os dedos longos e pálidos giravam a caneta entre o polegar e o indicador — um movimento hipnótico, quase sensual. Odiava a curva do pescoço quando ela inclinava a cabeça para ler um documento. Odiava que, mesmo depois de um mês de gelo absoluto, o simples fato de ela estar na mesma sala ainda fizesse meu corpo registrar a presença dela como um estímulo direto.
Eu me peguei imaginando coisas que não deveria.
Coisas sórdidas. Humanas. Viscerais.
Imaginei como seria quebrar aquela educação perfeita. Como seria ver a máscara rachar. Como seria ouvir a respiração dela mudar de ritmo, ficar mais funda, mais irregular. Como seria sentir o corpo dela reagir do mesmo jeito que o meu reagia sempre que ela entrava em uma sala — sangue descendo, calor concentrado, a pressão baixa e insistente entre as pernas. Imaginei a pele pálida sob a seda esmeralda. Imaginei o peso dos seios na palma da mão. Imaginei o som que ela faria se eu a pressionasse contra a mesa de reuniões e passasse a língua na carótida que eu via latejar tão calmamente sob a pele.
Forcei o pensamento para longe com uma violência mental quase física.
Concentrei-me nos números. Nos leitos. Nas vidas que aqueles dez milhões iam salvar. No menino de nove anos que eu operara na semana passada. Na senhora Whitmore que finalmente tinha um monitor cardíaco decente. Nas coisas reais. Concretas. Importantes.
Mas o corpo não esquecia.
A reunião terminou quase duas horas depois.
Arthur se levantou, satisfeito, batendo as mãos uma na outra como um menino que ganhara um brinquedo novo.
— Excelente. Acho que estamos alinhados em tudo. Julian, uma coisa — ele se virou para mim enquanto Aurora já recolhia o caderno com movimentos precisos e se preparava para sair. — Você deveria vir jantar em casa no sábado. Minha filha chega de viagem amanhã. Vai ficar algumas semanas. Acho que vocês se dariam bem. Ela é médica também, sabe? Pediatria.
Eu abri a boca para responder.
Mas os olhos foram, traidores, para o outro lado da sala.
Aurora estava de pé. O casaco já sobre os ombros. A pasta preta fina na mão. Ela passou por mim a menos de um metro de distância. O perfume dela — frio, sofisticado, com aquela nota antiga e quase metálica que eu nunca conseguia identificar completamente — chegou até mim como um soco baixo no estômago. Os olhos verde-esmeralda se ergueram por uma fração de segundo. Encontraram os meus.
Nada.
Nenhum reconhecimento. Nenhuma rachadura. Nenhum sinal de que ela se lembrava do modo como meu corpo reagira a ela na praça. Apenas a mesma educação cortês, distante, perfeita. O tipo de olhar que se dá a um colega de trabalho pouco interessante.
— Boa tarde, doutor.
E saiu.
O clique dos saltos dela ecoou no corredor de piso novo até desaparecer completamente. Eu ainda sentia o residual do perfume no ar. Ainda sentia o sangue um pouco mais quente do que deveria. Ainda sentia a pressão baixa e irritante entre as pernas, o lembrete físico de que, apesar de toda a cortesia, de toda a racionalidade, de toda a disciplina que eu construíra ao longo de vinte anos de medicina… eu continuava sendo um homem.
Um homem que desejava uma mulher que não lhe dava absolutamente nada.
Eu ainda estava olhando para a porta vazia quando a voz de Arthur me puxou de volta.
— Então? Sábado? Sete horas? Pode ser informal.
Eu forcei o olhar de volta para ele. O sorriso educado. A postura profissional. O homem racional que não ficava obcecado por uma mulher que mal lhe dirigia a palavra. O viúvo responsável. O diretor clínico que tinha coisas mais importantes com que se preocupar.
— Claro — respondi, a voz saiu firme. — Vai ser um prazer.
Mas enquanto Arthur falava sobre o vinho que ia abrir e sobre a filha que voltava de um fellowship na Europa, a única coisa que eu conseguia sentir era o residual do perfume dela ainda grudado na parte de trás da garganta.
E a certeza irritante, visceral, quase suja, de que eu preferia mil vezes passar o sábado inteiro tentando arrancar uma reação real de Aurora Wycliffe — um sorriso, um olhar mais longo, um único segundo de rachadura naquela armadura — do que conhecer qualquer filha de prefeito, por mais inteligente e adequada que ela fosse.
Um fantasma.
Um lindo, inteligente, sexualmente enlouquecedor, insuportavelmente distante fantasma.
E eu, um mês depois, ainda não conseguia parar de caçá-lo com a mente.
Nem de odiar o quanto eu queria ser caçado de volta.
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