Laços Inquebráveis
19 Capítulo 19 — Pequenos Gestos Trazem Alegria
Emmett entrou na sala após uma conversa com Rosalie na cozinha. As meninas assistiam a um desenho animado na televisão, cada uma ocupando um espaço no sofá de três lugares. Luna abraçava a pelúcia enquanto apertava uma das orelhas do bicho entre os dedos.
— Hoje o jantar é por conta de Rose. Ela definitivamente dispensou minha ajuda. Pensei se poderíamos fazer algo juntos, nós três, enquanto isso.
Makena sentou-se com a postura ereta, mostrando interesse.
— É sério, papai?
— Por que a surpresa?
A menina deu de ombros.
— O que podemos fazer?
— Pensei em usarmos o material de pintura de Rose.
— Mas…
— Ela concordou, não se preocupe. Vocês aceitam?
— Luna aceita, papai. — Deixou a pelúcia de lado, chegando mais para a frente. — Vamos fazê pintula.
Ele olhou para a mais velha.
— E você?
— Aceito.
Ofereceu uma mão a cada uma das filhas. Sorriu ao ver suas mãos pequenas pousarem na sua palma com segurança.
— Luna tem o avental que Ose complô — contou a caminho do escritório onde ficava o material.
— O papai viu. E também as pinturas e desenhos que fizeram juntas. Ficaram lindas.
— As nossas vão ficar melhores — disparou Makena.
— Isso não é uma disputa, filha. É para ser um momento divertido entre pai e filhas.
— Luna e Kena são as filhas — a pequena se orgulhou.
O sorriso no rosto do pai foi inevitável.
— Exatamente, minhas lindas e preciosas filhas.
Ele forrou o piso do escritório com a toalha de piquenique manchada por tinta seca. Vestiu o avental em Luna e trouxe o material para perto.
Makena se distraiu olhando, sobre a mesa, o desenho feito por Luna que Rosalie emoldurou.
— Foi Luna quem fez isso?
Emmett olhou na direção onde ela estava.
— Sim. Sua irmã desenhou para Rose já faz uns dias. Ela gostou tanto que quis emoldurar.
Luna deu uma corridinha, colocando-se ao lado da irmã.
— Quelo vê? — pediu.
Makena chegou um pouco para o lado.
— Por que ela age como se fosse mãe de Luna? — queixou-se. — Ela é tão patética. O desenho nem é tão bonito assim.
— Agora não. Não comece com isso.
— Mas…
— Não faça isso com sua irmã.
Makena se afastou em silêncio.
— Podemos, então, começar?
Ela sentou-se sobre a toalha de piquenique.
— Obrigado.
Luna beijou a palma da mão e tentou alcançar o quadro com ela. Reparou na fotografia de Rosalie e Emmett sobre a mesa de trabalho, então encostou a mãozinha sobre eles.
— Vem, filha!
— Luna vai pintá um sol — contou.
— Por que você quer pintar um sol?
— Pô causa que Ose gosta de dias de sol. E amalelo é a cô dos cabelos dela.
A irmã bufou, batendo as mãos em punho sobre a toalha. A mão de Emmett em seu pulso a fez parar.
— O que mais? — continuou a falar com Luna.
— Também um gilasol, pô causa que é flô favolita da mamãe.
— E para o papai?
— Plo papai, uma lua.
— E por que uma lua?
— Papai cuida de Luna, agola.
— Entendi. — Sorriu. — E para sua irmã, o que vai fazer?
Se aproximou do pai, fez conchinhas com as mãos e cochichou ao ouvido.
— Um cavalo, mas pode sê um epinho.
Emmett deu uma risada sincera.
— O quê? — pediu Makena, sem entender. — O que foi tão engraçado?
— Nada, não é nada. — Ele piscou um olho para a caçula que, com o rosto risonho, voltou a sentar-se na toalha.
— Não fique brava. Para você, sua irmã vai fazer um cavalo.
— Até parece que ela vai conseguir.
— Não seja tão maldosa. O importante é o que ela quer transmitir.
— Tá bom. Mas ainda acho que não vai conseguir.
[…]
Rosalie foi chamá-los. Ouviu suas vozes mesmo antes de alcançar a porta do escritório. Falavam a respeito dos desenhos que fizeram. Os observou um instante. Emmett tinha uma mancha de tinta azul na testa. Luna, nos braços, mãos e avental, as cores se misturavam. Makena tinha algumas manchas de tinta nas mãos e pulsos.
— Está mentindo para mim, papai — acusou, após o pai dizer que a pintura que fez estava bonita. — Fale a verdade.
Emmett aproximou suas pinturas.
— Você herdou meu talento para pintura.
— O que quer dizer com isso, papai?
— Estamos empatados.
— Empatados em que nível?
— No nível de feiura.
Ambos não conseguiram segurar a risada. A covinha na bochecha esquerda de Makena apareceu. Nas bochechas do pai, duas covinhas se destacaram.
— O que é isso que você fez, papai?
— É um desenho abstrato.
— Está inventando, porque está com vergonha dessa coisa.
— Luna gostou, papai.
— Achou que ficou bonito, amorzinho?
Ela fez que sim, movendo a cabeça.
— Obrigado. O seu também ficou muito bonito.
Makena o encarou, sem acreditar.
— Que mentira. Você não tem vergonha, papai.
Emmett fez sinal, discretamente, para parar.
— Tá, eu consigo ver o girassol, a lua e o sol, mas essa mancha está mais para um monstro do que um cavalo.
— Não é monsto — Luna defendeu.
— Conte-nos o que é esse seu aí? — Emmett pediu.
Mostrou-lhe a pintura. — O celeiro, a casa… é sério, papai, não percebeu nada?
O pai virou o rosto na direção da porta. Makena olhou na mesma direção, o sorriso em seu rosto desapareceu no momento em que a viu.
Emmett sugeriu.
— Rose, você pode nos dizer qual ficou melhor?
— Não, não pode — Makena disparou.
Luna então olhou na porta.
— O jantar está pronto — avisou Rosalie.
— Vou organizar as coisas aqui. Makena, leve sua irmã para lavar as mãos.
— O que vai fazer com nossas pinturas?
Ele retirou o avental da caçula.
— Vamos deixar secar, depois decidimos.
Ambas as meninas se encaminharam à porta, mas Luna parou e deu a mão a Rosalie. Isso aborreceu a irmã, que desejou poder punir a madrasta.
— Quem está com fome? — Rosalie brincou.
O virar de olhos de Makena entregou o desagrado. Luna agitou as mãos no alto, dizendo:
— Luna.
O sorriso permaneceu no rosto de Emmett ao ouvir a filha.
— O papai também está com fome — apoiou. — O aroma me faz pensar que está delicioso.
— Eu não acho — rebateu Makena.
— Pare de ser tão ranzinza.
— Não sou ranzinza.
— Está sendo, sim. — Rosalie se atreveu a confirmar.
— Não falei com você.
O olhar constrangido de Rosalie cruzou com o olhar preocupado de Luna. Ofereceu um sorriso sem graça à criança, antes de saírem do escritório.
[…]
Antes de sair para a floricultura, Rosalie foi à praia na companhia de Luna. Ainda era muito cedo, a praia se encontrava vazia. O barulho das ondas quebrando na areia, a brisa salgada no rosto, trouxe um pouco de tranquilidade. Luna, correndo ao seu lado, de tempos em tempos lhe arrancava um sorriso. Pezinhos afundaram na areia quando tentava perseguir uma águia-pescadora. Parou, olhando o horizonte. Abriu os braços, sentindo a brisa soprar o rosto, os cabelos agitados. Fechou os olhos por um instante. As risadinhas de Luna se misturam ao som das ondas. Virou-se na direção de onde ficavam os veículos. Lhe ocorreu o desejo de pegar a prancha de stand up paddle. Seria bom uns minutos remando sem pensar em mais nada.
Um toque gentil em sua cintura atraiu a atenção, era Luna. Olhou a criança.
— Quer entrar na água?
Um sorriso lhe disse que sim. Elas foram juntas ao estacionamento. Ao retornarem à praia, Luna usava colete salva-vidas. E sua pequena mão ajudava a arrastar a prancha e o remo.
[…]
Emmett aguardava Makena na frente da escola. Não pôde deixar de notar que a maioria das crianças saía do prédio com entusiasmo, felizes ao retornar para casa. Então, a filha apareceu, e ela parecia tão infeliz. Um sentimento de culpa o atingiu. Observou-a caminhar em sua direção. Ela parou cabisbaixa em sua frente.
— Oi, papai.
Tocou seu queixo gentilmente.
— Oi, meu amor. Aconteceu algo? A mesma garota voltou a implicar com você?
— Não. Ela não fez nada.
— Por que o desânimo?
— Papai… — O tom de voz soou como um pedido de ajuda. — Tem uma menina na minha turma que se chama Aurora. Toda vez que alguém chamava seu nome, eu sentia um vazio. Pensei que a mamãe fosse entrar pela porta, mas isso não aconteceu.
A trouxe para um abraço carinhoso. A bochecha da menina se apertou contra a barriga do pai enquanto o abraçava de volta.
O abraço foi desfeito. Emmett segurou suas pequenas mãos.
— Vamos, eu tive uma ideia.
— Como assim?
Começou a caminhar de volta para o carro.
— Papai.
Abriu a porta traseira para ela.
— Entre!
— Estamos indo para o seu trabalho?
— Não dessa vez.
— Para a terapia?
— Também não.
— Para sua casa?
— A casa é nossa, embora a resposta a essa pergunta seja não.
— Então, para onde?
Fez sinal com a mão para entrar no carro.
— Vai saber quando chegarmos.
Ela deu de ombros antes de se acomodar no banco de trás. Pela janela, viu Jonah acenando antes de entrar no carro da mãe com a filha de Kate. Acenou de volta e ele deu um sorriso.
— Fico feliz que você e Jonah sejam amigos.
— Ele não é como a cent…
— Não — a interrompeu. — Não complete essa frase.
Makena fechou os olhos, respirou fundo pausadamente. Somente quando o pai se acomodou atrás do volante, voltou a falar:
— Não vai mesmo dizer aonde vamos?
— Que garotinha curiosa.
— Estou com medo de não gostar.
— Sua mãe costumava não gostar de surpresas. — Ele a olhou pelo espelho retrovisor, esperando a reação.
— Quase sempre a mamãe ficava brava — lembrou a menina, com um misto de saudade e tristeza.
— Você está bem?
— Gostei que lembrou dela, da mamãe.
Após alguns minutos no veículo em movimento, Makena percebeu pastos verdejantes com cercas de madeira branca. Uma súbita sensação de conhecimento e acolhimento preencheu o coração. Chegou mais perto do vidro da janela.
Ao perceber, Emmett abaixou o vidro. Quando estacionava no espaço de campo aberto e chão de terra, a menina retirou o cinto de segurança, ansiando estar do lado de fora.
— Calma, filha.
— Que lugar é esse, papai? — Abriu a porta, sem esperar nem mais um segundo. Correu para junto da cerca, deixando a porta aberta.
Emmett foi atrás dela. Se aproximou, vendo-a subir.
— Cuidado.
Ela sentou no alto da cerca e virou o rosto ao olhar para o pai.
— Podemos entrar?
Ele apoiou os braços na madeira pintada de branco.
Makena voltou a olhar para a frente, o queixo levemente inclinado. Havia cavalos pastando mais adiante. Alguns com pelagem vermelha alaranjada, outros com pequenas pintas brancas sobre o fundo preto, um ou outro completamente preto.
— Dessa vez, não. Nos fins de semana, a visita é liberada. Do outro lado da fazenda, há outros animais. Podemos vê-los de perto e até alimentá-los.
— Luna gosta de alimentar os animais da fazenda.
— E você?
— Eu também. — O olhou brevemente. — Queria poder montar um deles. Sinto falta do meu cavalo. Tenho saudades de casa.
Emmett passou o braço atrás das costas dela, uma das mãos da menina descansou em seu ombro.
— Espero um dia te ouvir dizer que está em casa, vivendo ao meu lado. É preciso recomeçar.
— Não gosto de recomeçar, papai. É doloroso e muito difícil.
— É necessário, filha. Isso pode acontecer algumas vezes ao longo da vida.
— Sei… tivemos de recomeçar quando nos deixou.
— Makena…
— Não precisa falar nada, papai. Você também recomeçou. A diferença é que esperei você voltar.
— O que te faz pensar que não te esperei?
— Você é o adulto. A decisão sempre esteve em suas mãos.
— Você está certa. — Percebeu inclinar o queixo com orgulho. De repente, desvencilhou-se do braço que a amparava e pulou para o interior do pasto. Suas mãos tocaram o gramado, as limpou na roupa ao se levantar.
— Makena! — Se pegou chamando, movido pelo susto que a ação lhe causou.
Ela passou uma mecha dos cabelos para detrás da orelha.
— Quero ir até lá.
— Não pode. Volte já para cá.
Ela deu um passo, andando de costas. Um sorriso desafiador no rosto.
— Não se atreva.
Makena sacudiu a cabeça, como se não importasse.
— Essa é uma propriedade privada.
No momento em que ela virou de costas para ele, Emmett pulou também a cerca. Uma curta corrida e ele a alcançou, pegando-a pela cintura com um só braço. O som de sua risada o desarmou.
— Menina travessa.
— Me põe no chão, papai.
— Só quando estivermos do outro lado.
Outra risadinha.
— Está com medo, papai?
— Estou garantindo sua segurança e a minha.
A colocou no alto da cerca e permaneceu segurando pela mão até que estivesse do outro lado, então pulou também de volta.
— Vem me pegar, papai.
Emmett sorriu, vendo-a correr beirando a cerca.
— Vai ficar parado aí?
— Ah, sua sapeca.
Correu atrás dela, alcançando-a em pouco tempo. A menina ria e respirava ofegante.
— Você me pegou.
— Vamos voltar para o carro.
— Estou cansada.
— Eu te carrego.
Ele se abaixou. Makena pulou nas costas do pai, os braços enlaçando o pescoço. Isso a fez lembrar de quando era menor.
— Obrigada, papai, por me trazer aqui.
Emmett beijou o braço que passava abaixo de seu queixo. Voltaram a se aproximar do carro estacionado. Makena se acomodou outra vez no banco traseiro. Ele olhou para o alto, satisfeito por tomar a decisão de levá-la ali.
— Coloque o cinto.
Começava a escurecer quando saíram do carro, na entrada de veículos na frente da casa deles. O pai percebeu que não tinha mais o mesmo brilho no olhar de minutos atrás. Tocou-lhe o ombro. Mas, ao abrir a porta, algo aconteceu. A casa cheirava a biscoitos caseiros assando no forno. Makena sorriu e cruzou inesperadamente a sala correndo, chamando pela mãe.
— Mamãe! — Parou no espaço que separava um cômodo do outro. A expressão em seu rosto tornou-se de tristeza quando encontrou Rosalie e Luna, ambas usando avental fofo. A pequena estava em cima da ilha, enquanto decoravam biscoitos. Ambas a olharam com surpresa.
Emmett parou atrás das costas de Makena. Ouviu sussurrar “mamãe”, na sequência fez o caminho de volta e subiu a escada correndo.
— O que aconteceu? — Rosalie tentou.
— Kena — Luna chamou.
— Pode deixar, eu falo com ela, continuem o que estavam fazendo.
Rosalie anuiu.
— Papai.
— Oi, meu anjinho?
A menina colocou dois biscoitos no guardanapo.
— Esse é da Kena.
Emmett chegou mais perto.
— Decorou esse para sua irmã?
Um sinal positivo com a cabeça lhe deu a resposta que esperava.
Ele deixou a mochila de Makena em cima da banqueta. Pegou o biscoito e beijou a bochecha de Luna. Beijou no canto dos lábios de Rosalie brevemente, na sequência se retirou.
Percebeu a porta do quarto aberta ao alcançar o patamar da escada.
— Makena? — Olhou o interior do quarto. A porta do closet aberta mostrou que poderia estar lá. Encontrou-a sentada no carpete, abraçando os próprios joelhos. O vestido de Aurora no colo. Parte da tristeza dela tornou-se sua também. — Posso me sentar aí com você?
Um sutil balançar de ombros mostrou não se importar.
Sentou-se ao lado dela e a cutucou com o braço.
— Olhe o que sua irmã mandou para você. — Estendeu a mão com o guardanapo que guardava os biscoitos.
Uma olhadinha de canto de olho.
— Luna sempre faz a mesma decoração nos biscoitos.
Emmett usou a mão livre para secar as lágrimas no rosto da filha.
— Dá um desconto, ela é muito pequena ainda. — Olhou o biscoito no guardanapo. — Achei fofo.
A menina concordou, balançando a cabeça sutilmente.
— O que aconteceu lá embaixo? Suas emoções mudaram quase que instantaneamente num curto espaço de tempo. Confesso que fiquei um pouco confuso.
— A mamãe costumava fazer biscoitos como esses. Quando eu chegava de um passeio a cavalo, sentia o mesmo cheiro e então ela e Luna estavam na cozinha decorando os biscoitos.
— O cheiro transportou você a um momento acolhedor e seu coração…
Makena abaixou a vista, reparando no vestido da mãe em seu colo.
— Sei que a mamãe não vai voltar, mas…
Emmett concluiu por ela.
— O amor que tem por sua mãe e o desejo de tê-la de volta a confundiu. — Insistiu para pegar os biscoitos. — Pegue!
Os biscoitos foram recebidos, mas não com a mesma alegria.
— Pode me dizer o que lembra quando morde um desses?
A menina aproximou o biscoito da boca devagar. Fechou os olhos à primeira mordida, mastigando sem pressa. O sabor e aroma a transportaram.
— A risadinha de Luna, o sorriso da mamãe. Alan Jackson, tocando ao fundo, o vovô estava no escritório quando isso acontecia. O cheiro e conforto de estar em casa. — Suspirou e então cantou um trecho da música Home, de Alan Jackson: “Senhor, nunca haverá outro lugar… Neste mundo que eu chamarei de lar… Nunca haverá outro lugar… Neste mundo que eu chamarei de lar…”.
Emmett passou o braço sobre os ombros da filha.
— É uma linda lembrança, meu amor. — Beijou no alto da cabeça dela.
— Obrigada, papai, por estar aqui… — Encostou a cabeça no braço dele. Olhou-o com surpresa quando ele mordeu um pedaço do biscoito.
— Esse olhar. Ele me fez lembrar de quando minha mãe dizia: “Você é um garoto guloso, Emmett, deixe biscoitos para sua irmã também.”
— Você não deixava biscoitos para minha tia?
— Ah, eu deixava. Acontece que sua tia era trapaceira. Ela não só comia os dela, como escondia para comer depois, sozinha no quarto.
— Acha que ainda faz isso, esconder os biscoitos?
— Pode apostar que sim. — Mordiscou novamente o biscoito na mão dela. — Sua tia é trapaceira.
— Papai! Pode ser que a vovó estivesse certa.
— Como assim? Claro que não.
Antes que ele pudesse pegar o último pedaço de biscoito, Makena o enfiou na boca.
— O que acha de irmos até a cozinha comer mais dessas delícias? — Ele sugeriu.
— Pode ser.
— Certo! Vá lavar esse rostinho no banheiro e me encontre lá embaixo.
— Tá bom.
Deixou a menina guardando o vestido da mãe. Havia acabado de descer os degraus na escada quando a ouviu chamar com entusiasmo.
— Papai. Papai.
Rosalie se encontrava a poucos passos dele.
Ambos olharam para o alto da escada.
Makena segurava uma pelúcia marrom, um cavalinho absurdamente fofo.
— Deixou para mim em cima da minha cama. — Ela sorriu, abraçando o cavalinho.
A expressão no rosto de Emmett foi de surpresa e confusão.
— Eu… — Sentiu a mão de Rosalie tocar seu cotovelo. Seus olhos se encontraram, naquele momento soube que havia sido ela a comprar o presente. Silenciosamente, os olhos dela solicitaram que não revelasse a verdade. Olhou novamente a menina no alto da escada. — Você gostou?
— Amei.
A resposta foi um afago ao coração aflito do pai e também de Rosalie.
— Vou deixá-lo na cama. Ele é tão fofo. Já desço para comermos os biscoitos juntos.
— Faça isso, meu bem. — Aguardou a menina sair do campo de visão para falar com a esposa: — Por que deixou pensar que fui eu quem comprou o cavalinho?
— Ela odiaria se soubesse a verdade.
Segurou o rosto de Rosalie entre as mãos gentilmente e lhe beijou os lábios.
— Obrigado por colocar aquele sorriso no rosto dela. Ela estava muito triste quando a encontrei no quarto há alguns minutos. — O sorriso surgiu em seu rosto. — Fez biscoitos com Luna, ainda presenteou Makena com algo que ela simplesmente adorou.
— Não foi nada.
— Você é uma pessoa incrível, sabia?
Uma vozinha chamou atrás das costas deles.
— Luna pode comê biscoitos agola?
Ambos olharam para ela ao mesmo tempo.
— Pode — disseram.
A pequena virou de costas, voltando correndo para a cozinha.
— Quantos biscoitos a minha princesa conseguir comer.
Rosalie tinha um sorriso no rosto quando ele a olhou.
— O quê? — pediu.
— Se ela comer todos os biscoitos que quiser, terá uma dor de barriga.
— Luna — chamou pela filha, porém, não esperou uma resposta.
Rosalie ficou olhando ele ir atrás da menina. Fez o mesmo caminho que ele. Parou no limiar da porta para olhar ele falando com a filha.
— Não coma muito, não, meu amor. Tem biscoitos demais nesse pratinho. Você vai ficar com dor de barriga.
— Não pode comê quantos quisé?
— De uma vez só, não. Depois do jantar, pode pegar mais alguns.
— E se Luna quisé mais um?
Rosalie não conseguiu segurar o riso. Pai e filha olharam onde ela estava.
— Foi engraçado — se entregou. — Sente-se para comer os biscoitos.
Emmett colocou Luna na banqueta.
Rosalie serviu um prato com biscoitos para Makena e colocou ao lado do de Luna, assim a menina poderia sentar-se na banqueta ao lado. Serviu também um copo de leite para cada uma delas.
— Papai. — Makena estava de volta. — Pode me ajudar com a lição de casa?
— Posso, sim. Mas vamos comer os biscoitos primeiro. — Mostrou a ela onde sentar.
Makena desviou o olhar para não ter de encarar Rosalie. Alcançou o primeiro biscoito com a mão e o mordeu devagar. Inicialmente, ficou olhando o prato, depois fechou os olhos, lembrando as palavras da mãe: “Não coma biscoitos demais, ainda tem o jantar.” E o avô defender: “Deixe que coma o que quiser.”
Abriu os olhos ao sentir a mão do pai afagar seus cabelos.
— Muito bons, não são?
Ela moveu a cabeça positivamente. Porém, respondeu:
— Os que a mamãe fazia eram melhores.
Rosalie moveu os lábios, murmurando para o marido:
— Está tudo bem.
— Esses são muito gostosos também — Luna elogiou.
— Obrigada, meu amor.
A feição no rosto de Makena foi de tédio ao ouvi-la chamar Luna de meu amor.
— O que vão querer para o jantar?
— Acabou de fazer biscoitos. Vamos pedir alguma coisa hoje. Pensem no que vão querer. Quando terminar de ajudar Makena com a lição, faremos o pedido. Preciso descobrir onde deixei meu celular, não saiam daqui. Eu já volto. Deixem biscoitos para mim.
Rosalie limpou o bigode de leite na boca de Luna com o guardanapo.
— Continuaremos aqui — disse ao marido. Makena também tinha um bigode de leite, e mesmo que tenha sentido vontade de limpar, como fez com Luna, não se atreveu. Passado um instante, a própria menina usou o guardanapo. Ficou imaginando se teria esperado seu cuidado, como talvez teria feito se fosse com a mãe, ou teria sido impressão sua.
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