Laços Inquebráveis

12 Capítulo 12 — Pequena Confiança, Forte Estardalhaço


Rosalie se preparou para sair com Luna depois da saída de Emmett e Makena. Entrou no escritório para pegar o celular, enquanto Luna assistia a desenhos animados na televisão. Quando voltou, não a viu no sofá da sala. Os batimentos cardíacos aceleraram de imediato, imaginando aonde teria ido. Não poderia perdê-la de vista nos primeiros instantes juntos.

— Luna — chamou. Olhou ao redor com mais calma. A menina estava junto à porta de saída. O alívio voltou a acalmá-la. Se aproximou da criança devagar.

Luna estava com as mãos no queixo, os olhos marejados e um beicinho nos lábios.

Se abaixou, ficando na altura dos olhos dela. Segurou as mãos pequenas nas suas com delicadeza.

— O que aconteceu? Por que está aqui?

A criança olhou para a porta que estava fechada.

— É por que seu papai e Makena saíram? — Limpou as lágrimas de Luna, assim que as viu molharem as bochechas. — Não se preocupe, eles vão voltar. Lembra que o papai explicou que levaria sua irmã com ele para o trabalho? Você iria comigo à floricultura? — Passou a mão no rostinho dela novamente. — Oh, querida, não chore. — Pegou a menina no colo e ficou de pé. — Não vou te deixar sozinha.

Luna olhou no rosto dela.

— Vai ficar tudo bem. Ficaremos algumas horas na floricultura, então estaremos de volta. Posso brincar com você quando voltarmos ou, quem sabe, assistir desenhos. Talvez te conte histórias ou podemos colorir com giz de cera.

Luna esticou o braço na direção do sofá. Rosalie foi até lá com ela. Pegou a pelúcia e entregou à menina. Desligou a televisão e saiu para o jardim.

Acomodou Luna na cadeirinha, no banco de trás do carro. A menina ficou abraçada a pelúcia por todo o caminho até a loja. Roxie estava lá quando chegaram. Ela ouviu a sineta na porta, logo avistou Rosalie chegando com a criança nos braços.

— Bom dia, Roxie. Olha só quem estará com a gente hoje.

— Bom dia. Teremos essa linda companhia? Eu adorei.

— Você já conhece essa lindeza, não é?

— Tive o prazer de conhecê-la ontem. Olá, gatinha! Que bom vê-la outra vez por aqui!

Rosalie passou para o outro lado do balcão, ficando ao lado de Roxie. Colocou Luna na cadeira giratória e guardou suas coisas no armário.

— Vou mostrar a floricultura para você, meu anjo. Só me dá um minutinho. — Mexeu um instante no computador.

Roxie perguntou em voz baixa:

— Onde está a irmã?

— Com o pai. — Olhou Luna de canto de olho. Ela estava tentando sair da cadeira.

Roxie demonstrou alívio ao dizer:

— Ainda bem.

Rosalie ajudou Luna a descer. E ficou segurando na mãozinha dela.

— Quer conhecer algumas das flores? — Elas foram andando pela loja. Rosalie parou, quando Luna mostrou interesse nas tulipas. — Essas são tulipas. — Se abaixou para continuar falando. — Elas simbolizam o amor-perfeito. Também são as primeiras flores a florescer na primavera, simbolizando também o renascimento. Isso significa uma nova existência, uma nova vida. Qual das cores delas você gosta mais?

Luna escolheu a tulipa de cor amarela.

Um sorriso iluminou o rosto de Rosalie.

— Elas significam luz do sol e prosperidade. Adoro ir à praia num dia ensolarado. Você gosta de ir à praia?

Luna sinalizou positivamente com a cabeça. Então, tocou numa tulipa roxa.

— Tranquilidade, paz e luxo — especificou Rosalie.

Luna olhou ao redor, peônias rosa em um vaso lhe chamou a atenção. Foi vê-las de perto. Rosalie foi logo atrás.

— Essas são peônias, meu buquê de casamento foi feito com flores iguais a essas.

A criança a olhou como se quisesse fazer uma pergunta. Pegou na mãozinha dela, aguardando. Luna avistou girassóis e, para surpresa de Rosalie, deu pulinhos enquanto se aproximava da flor. Ela teve certeza de que girassóis eram familiares para Luna.

[…]

De detrás da mesa de trabalho, Emmett observou Makena, emburrada, na poltrona. Pegou o ipad sobre a mesa e se levantou.

— Pode ficar com ele enquanto estamos aqui.

— Eu não quero.

— Meu amor, não gosto de te ver assim.

— Estou cansada de ficar aqui, papai.

— Daqui a pouco vamos dar uma saída. Podemos comer um lanche e ir comprar seu material escolar. Mais tarde, encontraremos um cliente numa das casas em visitação. Já conversei com Rose sobre procurarmos uma casa maior para nossa família também. Ela achou uma boa ideia.

— Não me importo com a opinião dela.

— A opinião de todas vocês são importantes.

— Luna nem está falando.

— Ela pode demonstrar o que quer de outras maneiras. Você sabe disso.

— A minha escolha é que voltemos para a fazenda.

— Podemos voltar, a passeio, durante as férias de verão.

— Isso significa ter de esperar mais tempo.

Emmett sentou-se ao lado dela e a abraçou. Ela não o abraçou de volta.

— Sinto falta da mamãe… do vovô… dos cavalos. Até de Brutus, aquele cachorro atrapalhado. Quero voltar. Quero voltar, papai.

Emmett se entristeceu ao vê-la voltar a chorar.

— Não chore, minha menina linda.

— Por que isso tinha de acontecer?

— Eu não sei. Nunca saberemos por que coisas como esta acontecem. Assim é a vida.

[…]

Rosalie voltou para casa com Luna por volta do horário do almoço. Elas levaram para casa um vaso com girassóis. Ele foi colocado sobre o aparador, perto da porta de entrada. Levou também uma rosa-vermelha que alguém deixou cair no estacionamento. A flor já estava murcha. Luna não quis se desfazer, então sugeriu que a colocassem para secar em um livro, assim, a teria para sempre.

Luna aguardou, de joelhos, na cadeira do escritório, olhando Rosalie escolher um livro na estante. Pela imagem de capa, imaginou que fosse um livro sobre flores, e estava certa.

Rosalie o colocou sobre a mesa. Luna tocou na capa com a mão ao estender o braço.

— Isso mesmo. — Sorriu para a menina. — Este é um livro sobre flores. Podemos guardar a sua rosa aqui. Depois, você pode levar o livro para o seu quarto.

A expressão no rosto da criança indicava estar gostando de sua companhia.

Mais cedo, Emmett telefonou para saber como estavam, a resposta o deixou bastante satisfeito. Rosalie mandou para ele uma foto de Luna mexendo nas flores enquanto a ajudava a preparar um arranjo de hortênsias azuis. Imprimiu a mesma fotografia em papel fotográfico, pensando em colocar no porta-retratos ao lado da caminha da menina.

Abriu o livro numa página qualquer.

— Quer fazer isso?

Luna se inclinou sobre a mesa, deixando a rosa murcha no livro. Rosalie centralizou a flor na página e deixou que ela o fechasse. Luna olhou para ela com expressão satisfeita no rosto. Em troca, recebeu um afago na bochecha e uma arrumadinha na franja que encobria a testa.

— Muito bem, querida. Vamos deixá-lo só mais um pouquinho aqui. Agora, faremos um lanchinho na cozinha. — Deu a volta no entorno da mesa, chegando ao lado da menina. Luna ficou de pé. Rosalie a colocou no chão. — Vamos lá! — chamou.

Luna lhe ofereceu a mão. Com um sorriso, acolheu a mão pequena gentilmente na sua. A conduziu pela casa até estarem na cozinha.

Abriu a geladeira, avaliando o que oferecer à criança. Sentiu ela tocar seu braço, quando sua mão encostou no pote de gelatina. Olhou para a menininha.

— É gelatina que você quer?

Luna ficou nas pontinhas dos pés, olhando na geladeira. Aguardou com ansiedade.

Rosalie segurou um potinho de sabor morango, outro sabor abacaxi.

— Qual você prefere?

Luna tocou no sabor morango.

— Imaginei que seria esse — disse, retirando a tampinha. — Vou pegar uma colherinha para você.

Luna a seguiu de perto. Rosalie não pôde deixar de sorrir. Abriu a gaveta de talheres onde encontrou a colher e entregou na mão da menina.

— Muito bem. Você quer sentar ali? — Mostrou o banco à ilha da cozinha.

Luna concordou com um leve balançar de cabeça. Rosalie a ergueu até estar sentada no banco. Aproveitou para pegar mais algumas coisas para ela comer; biscoitos goldfish sabor de cheddar e suco de maçã no copinho. Aproveitou para comer uma pera enquanto esperava Luna terminar.

Luna pegou um biscoito e lhe ofereceu.

— Ah, é para mim?

A criança concordou.

— Muito obrigada. — Colocou o biscoito na boca, olhando encantada para Luna, que voltou a comer da gelatina.

[…]

Emmett se despediu do casal na frente da casa que acabaram de visitar. Ele voltou lá dentro para chamar Makena. Durante todo o tempo que estiveram na casa, ela permaneceu sentada na escada como se fosse parte da estrutura.

Ele a olhou com ar de preocupação. Se aproximou devagar.

— Ei — disse ao lhe oferecer a mão. — Vamos! — Como não se moveu, sentou-se ao lado dela. — Eles já foram, nós também já podemos ir.

Makena juntou as mãos no colo em silêncio.

— Não quis olhar nada — comentou ele.

— Não.

Ele pôs mão no ombro dela.

— Vamos embora.

Ela levantou. Ele fez o mesmo.

— Eles são casados? — finalmente decidiu perguntar.

— Sim.

— Tem filhos?

— Pelo que disseram, dois meninos.

— Espero que ele não os abandone — continuou andando rumo à porta de saída.

— Makena.

Ela parou com a mão na porta.

— Ah, essa é sua história. Nem todos os pais abandonam os filhos. — Saiu para o jardim onde a placa de venda se destaca. Parou ao lado do carro, esperando.

— Makena.

— Vamos, papai.

Emmett a alcançou. A menina entrou no carro, assim que as portas foram destravadas. Instantes depois, ele parou o carro num estacionamento. Makena olhou ao redor e na fachada da construção, descobrindo ser um parque de cama elástica.

— Por que estamos aqui?

— Sei que gosta de lugares como esse.

— Ah — murmurou, sem muita motivação.

— Vamos até lá.

— Por que fica fazendo coisas que costumávamos fazer antes? Não sou mais a mesma Makena.

— Você ainda é a minha garotinha. Só está muito brava agora.

— Você me abandonou. A mamãe e o vovô morreram. Deixei minha casa, escola e amigos para trás. Luna está na sua casa, com aquela mulher.

— Luna está bem. Você viu que telefonei duas vezes. Viu a foto que Rose mandou. Não deixaria sua irmã com alguém em quem eu não confiasse.

— A mamãe não queria isso.

Emmett suspirou, voltando-se para frente.

— Já que não quer ir lá, vamos embora. — O carro voltou a estar em movimento.

— Mamãe disse que, quando tivesse filhos com a outra, Luna e eu não significaríamos nada para você. Não faria diferença saber que Luna nasceu.

Emmett apertou os dedos ao volante, sentindo muita raiva de Aurora.

— Não deveria acreditar nessas coisas. Como poderia apagar do meu coração e de minha vida alguém tão importante quanto você? Foi com você que descobri o amor imenso e puro. Você me ensinou a ser pai. Makena, você é um pedaço de meu coração fora do peito. Você e Luna são parte de quem sou. — Ele olhou para trás um segundo apenas. A menina tinha os olhos marejados, assim como os seus. — Nem tudo é da forma que lhe disseram. Pode duvidar de tudo, menos de meu amor por você.

[…]

Rosalie guardou a última mala vazia no closet das meninas. As caixas organizadoras, na garagem. Tudo que estavam nelas passou a ter um novo lugar. O quarto ficou livre para circular sem todas aquelas coisas no caminho.

Algumas miniaturas de cavalo, deixou em cima da cômoda. A réplica do touro de Wall Street juntou-se a eles.

Parou com as mãos na cintura, admirando a organização.

Luna brincava com blocos de montar no tapete.

— Agora tem mais espaço para você brincar.

A menina olhou para ela.

— Você gostou?

Luna concordou ao balançar a cabeça, segurando um bloco lilás.

— Vem cá! — Pegou a criança no colo e a beijou na bochecha. — Gostaria de mudar algo?

Ela negou outra vez, balançando a cabeça.

— Vamos descer para esperar por eles lá embaixo. — Colocou Luna no chão. Segurou na mão pequena até estarem na sala. Ligou a televisão, deixando em um desenho animado. Luna se aconchegou às almofadas do sofá. Rosalie ficou com a impressão de vê-la balançar os ombros durante a música de abertura. Não muito tempo depois, percebeu o barulho de chave na fechadura. Olhou na direção da porta.

Emmett estava cheio de sacolas, ainda assim, segurou a porta, deixando Makena entrar primeiro. Não encontrou no rosto da menina qualquer sinal que indicasse estar contente por voltar a vê-la. Ele trouxe duas caixas para dentro também.

— O papai e a Makena voltaram — contou para Luna, que imediatamente deixou de olhar a televisão para olhar para eles. Ela desceu do sofá, deu a volta por detrás dele para chegar ao pai.

Emmett deixou as chaves no aparador.

Makena se distraiu olhando os girassóis em cima do móvel.

O olhar de Emmett cruzou com o de Rosalie, eles sorriam um para o outro com reconhecimento.

— Olha só quem está aqui — falou a Luna.

A menininha agarrou suas pernas.

Rosalie se pegou pensando se ela teria gritado “papai” caso conseguisse.

Emmett a pegou no colo, beijou apertado a sua bochecha gordinha. Olhou-a nos olhos, notou-os marejados.

— É o papai, amor. Eu voltei. — Os bracinhos se entrelaçaram ao redor de seu pescoço. Ele beijou perto da orelha dela. — Pensou que o papai não voltaria? — Afagou as costas. — Papai está aqui com você. — Seu olhar voltou a cruzar com o de Rosalie. Ela ficou de pé, aguardando.

Makena acariciou os girassóis, com olhar distante. Então olhou para Rosalie.

— Aposto que maltratou Luna.

— Jamais faria isso.

Luna pôs as mãos no rosto do pai.

— Você gostou de ficar com Rose? — ele perguntou.

Quando a menina concordou, movendo a cabeça, ele sorriu para a esposa, que sorriu de volta. Diante do olhar severo de Makena, ambos fecharam o sorriso.

— Papai trouxe algumas coisas para você. Uma escadinha, o adaptador para vaso sanitário, também um assento de elevação para dar a altura necessária ao sentar à mesa. Mas tem mais uma coisa. — Ele a colocou no chão. Virou de costas enquanto mexia nas sacolas.

Luna aguardou com ansiedade, chegando a levantar os calcanhares do chão. Ele encontrou o que procurava: uma linda boneca de pano com vestido, sapatos e chapéu cor-de-rosa, os cabelos escuros presos por duas tranças e uma franja que encobria a testa.

— Aqui está. — Moveu as mãos, mostrando a boneca a Luna. Os olhinhos dela brilharam com entusiasmo, e a sombra de um sorriso surgiu no rosto. — É especialmente para você.

Luna estendeu as mãos para receber o presente.

— Você gostou?

Ela abraçou e beijou a boneca.

Sorrindo, Rosalie acrescentou:

— Acho que isso é um sim. — Mais uma vez o sorriso se desfez ao encontrar o olhar severo de Makena.

— Até tentei comprar uma para sua irmã também, mas ela não aceitou.

— Vou para meu quarto — Makena avisou, dando um passo em direção à escada.

— Leve suas coisas para o quarto — Emmett pediu.

Ela voltou, recolheu todas as sacolas que lhe pertenciam.

— Posso te ajudar? — ofereceu Rosalie. Porém, não teve nenhuma resposta.

Luna voltou a sentar no sofá, levando a boneca junto. Emmett e Rosalie ficaram observando. Ele beijou na têmpora esquerda dela, e ela fechou os olhos por um segundo.

— Então, como foi hoje? — ele tentou.

O grito no andar de cima os pegou de surpresa.

Makena soltou as sacolas no chão, olhando o interior do quarto com negativa. Todas as suas coisas, as malas, haviam sido guardadas sem sua autorização. As fotografias em um novo painel. As miniaturas de cavalos, a réplica do touro de Wall Street, que pertenceu ao seu avô, em outro lugar que não o que ela deixou. Os objetos pessoais, roupas e calçados, estão perfeitamente alinhados no closet. Da mesma forma, todas as coisas de Luna foram arrumadas. O vestido de Aurora não estava onde deixou.

Segurou a medalha prateada da virgem de Guadalupe, pendurada pela correntinha, no pescoço. Os olhos marejaram.

— Não fui eu, mamãe — lamentou. — Não fiz nada disso. Nem quero ficar. Não gosto dela. — Começou a bagunçar todo o quarto, ora empurrando, ora jogando no chão. A raiva foi ficando maior à medida que percebia o cuidado na organização.

Emmett alcançou a porta do quarto dela, ofegante. Não entendia o que estava acontecendo. Passou para o outro lado, tentando não pisotear as coisas no chão. Segurou Makena pelos braços.

— O quê? Por que de tudo isso? Makena, fale comigo. Filha? Por que está tentando destruir o quarto?

Ela parou de tentar se soltar, encarando-o com olhos em chamas.

— Ela entrou aqui, papai. Mexeu nas minhas coisas. Nas coisas da mamãe e do vovô. Avisei para não tocar em nada que me pertence.

— Do que está falando?

— Aquela nojenta entrou aqui enquanto não estava. Abriu as malas, guardou todas as coisas onde ela quis. — Tossiu com um engasgo.

Rosalie parou, horrorizada, no umbral da porta, vendo todo trabalho e dedicação sendo destruídos.

Makena virou o rosto ao olhar para ela, ainda raspando a garganta.

— Foi você. — Tentou se aproximar, mas o pai a impediu. — Sua nojenta. Nojenta, nojenta, nojenta.

— Pare com isso, Makena.

— São minhas coisas, você não tinha o direito de mexer nelas.

— Me desculpe, pensei que ficaria melhor com as coisas organizadas.

— Não aceito suas desculpas, sua cobra loura.

Emmett tentou remediar.

— Não dava para continuar com todas aquelas malas aqui. Estavam ocupando muito espaço. Não fale assim com Rose. Ela tentou tornar tudo mais agradável para você e sua irmã.

— Não quero.

— Olhe para mim, Makena. O que você não quer?

Um soluço antecedeu sua fala:

— Mamãe vai ficar triste comigo.

— Não, ela não vai. — Ele a abraçou.

Makena olhou Rosalie no limiar da porta.

— Saía daqui.

Emmett meneou a cabeça, pedindo silenciosamente que Rosalie saísse dali.

Ela abaixou a cabeça, recuando. Já no corredor, encontrou Luna agarrada à nova boneca de pano, tremendo da cabeça aos pés. Olhou uma última vez o vão da porta, Emmett se esforçando em manter a filha mais velha controlada.

Foi a passos apressados encontrar Luna. A pegou nos braços, abraçando, deitando a cabeça da menina em seu ombro.

— Shhhhhh — murmurou. — Está tudo bem. — Colocou a mão no ouvido da menina, se encaminhando à escada. Voltou a sentar no sofá, com a criança no colo. Alcançou o controle da televisão, ligou e aumentou o volume.

Luna ainda tremia. Os dedinhos se apertando em suas roupas enquanto a abraçava.

— Shhhh — voltou murmurar. — Não tenha medo. Já vai passar. — Beijou na cabeça dela. Olhou no alto da escada, desejando que Makena parasse de gritar ofensas. Que Luna não fosse submetida a situações como essa. Que pudessem apenas seguir em frente.

Passaram-se longos minutos até o barulho silenciar no andar de cima. Abaixou o volume da televisão. Luna a olhava, com o rosto molhado de lágrimas, encostado ao seu peito. Olhou-a com carinho, beijando-a na testa. A menina piscou os olhos sem deixar de olhar em seu rosto. Sentiu o carinho por ela crescer. Se pegou imaginando que seria fácil amá-la como a uma filha. Descobriu nos olhinhos de Luna, o mesmo sentimento.

O barulho de passos na escada causou medo à Luna, que se agarrou a ela em desespero. Rosalie a protegeu com braços afetuosos, olhando na escada, tentando descobrir o que aconteceria a seguir.

Emmett se aproximou, com ar de cansaço. Um pouco envergonhado, talvez.

— Makena se acalmou — disse. Observou a criança no colo da esposa. — Como Luna está?

— Um pouco mais tranquila agora. — Olhou no rosto da criança. Ela prestava atenção ao pai.

Emmett chegou mais perto. Segurou na mão pequenina de Luna e beijou.

— É um alívio saber que esteve com Rose o tempo todo, meu amor.

Luna olhou para Rosalie ao ouvir o nome dela ser mencionado.

Emmett afagou o rosto da esposa de modo a alcançar a nuca.

— Desculpe pelo que aconteceu lá em cima. Arrumarei tudo novamente. Já conversei com Makena. Até já devolvi algumas coisas ao lugar onde estavam.

— Está bem. — Quando ele recolheu a mão, ela completou: — Não achei que fosse agir assim.

— Sei que fez tudo com a melhor das intenções. Obrigado por tanta dedicação, mesmo ela não merecendo. Com tudo isso, acho melhor pedir o jantar novamente. O que você acha?

— Por mim, tudo bem.

Emmett anuiu, pegando o celular no bolso.

Luna tentou sair do colo de Rosalie.

— Quer ficar com o seu papai?

Ela mostrou com a mão o caminho do banheiro.

— Acho que ela precisa fazer xixi — Emmett observou.

— Eu a levo — Rosalie ofereceu.

— Leve o redutor para o vaso sanitário. São dois, um fica aqui e o outro no banheiro lá de cima.

Ela se levantou, pegou Luna pela mão, a sacola com o redutor e a levou pela casa.

Emmett as observou até que não fosse mais possível.

Quando o jantar chegou, Makena comeu sozinha na ilha da cozinha. Emmett, Rosalie e Luna ficaram na sala de jantar. Ninguém quis falar muito, o clima estava estranho. Depois disso, ele subiu com Makena para terminar de arrumar o quarto.

Luna permaneceu com Rosalie na cozinha, esperando-a terminar de colocar a louça na máquina. Antes de sair, Emmett deixou o leite de Luna no copinho. A menina bebeu o leite, indo de um lado a outro, seguindo Rosalie. Ela jogou as embalagens no lixo com a criança junto à sua perna.

— Tudo bem, vamos sentar um pouquinho.

Luna sentou-se no chão.

— Não precisar ser aqui, meu anjo.

O olhar de Luna pareceu dizer ter feito algo errado.

— Tudo bem, nós podemos sentar aqui. — Se abaixou, sentando de frente para ela. — Vem cá! — Estendeu as mãos. A pequena lhe estendeu uma mão, a outra permaneceu segurando o copo. Colocou-a no colo, passou uma mecha dos cabelos escuros para detrás da orelha e afagou a franja. — Gostaria de uma música?

Luna balançou a cabeça positivamente.

A voz de Rosalie soou baixa e suave aos ouvidos de Luna enquanto cantava “As Rodas do Ônibus”. Quando terminou, a criança tocou seu rosto com tanta delicadeza que podia dizer que foi tocada por uma borboleta.

— Sabe, pequena, iria adorar poder ouvir sua voz. O seu papai, ele está ansioso por te ouvir falar. — Tocou-lhe a pontinha do nariz. — Vamos levá-la a alguém que pode te ajudar. — Viu medo nos olhos de Luna. — Não se preocupe, não vai ficar com ela. Será só em tempo, bem pequeno. O seu papai estará por perto o tempo todo. — Um dedinho tocou seu ombro. — Quer saber se irei também?

Luna fez que “sim” devagar.

— Bom, você gostaria que eu estivesse presente?

Novamente um “sim” silencioso.

— Posso fazer isso.

Luna deitou a cabeça em seu peito. Rosalie sorriu ao abraçá-la.

Emmett observou as fotografias de volta ao painel. Numa delas, Makena estava pronta para entrar no rinque de patinação.

— Há quanto tempo faz patinação no gelo?

— Não importa.

Ele se virou de modo a olhar no rosto dela.

— É claro que importa. Importa muito.

— Não irei patinar mais.

— Por que está dizendo isso?

— Porque a mamãe não está mais aqui. Se a mamãe não vai mais me assistir competir ou treinar, não quero mais.

— Makena.

— Eu não gostava mesmo. Patinava para deixar a mamãe feliz.

Emmett abraçou a filha.

— Você também tinha de se sentir feliz, não apenas para agradar sua mãe.

Makena abaixou as vistas, Emmett segurou suas mãos.

— Se quiser continuar patinando, terá meu apoio. Mas se preferir não voltar em um rinque de patinação nunca mais, também terá. — Quase pôde identificar a presença de um sorriso no rosto da filha.

— Obrigada por não me obrigar.

— Não faria isso.

Emmett foi surpreendido pelos braços da filha ao redor de sua cintura. O sorriso de compreensão estava em seu rosto ao abraçá-la de volta.