Laços Imperfeitos
36 Quem precisa de um coração?
Notas iniciais
Capítulo vinte e nove — Quem precisa de um coração?
– Eu te amo.
Nunca imaginou que se sentiria tão bem e tão livre após proclamar aquelas três palavrinhas que o atormentaram por tanto tempo. Era como se um grande peso tivesse sido removido de suas costas. Nem se sentiu tão mal ao esperar a recusa, esta que viria logo após Hisagi se recuperar do baque. Inicialmente, ele não parecia ter compreendido direto, mas, em quando finalmente digeriu a informação, sabia que não se tratava apenas de um simples amor fraternal. Era isso que Kira vinha escondendo dele todo esse tempo. Ficou paralisado por um tempo, o rosto congelado em uma expressão de choque.
Mas aquela expressão não teve um efeito tão doloroso quanto à de um terceiro espectador que descia as escadas. Kira viu apenas um vislumbre, ainda assim entendia exatamente o sentimento por trás daquilo. Um segundo mais tarde, Kazeshini ostentava o sorriso debochado de sempre.
– Opa, acho que cheguei em má hora. Vou sair de fininho, finjam que não estive aqui. – Rumou ao lance de escadas seguinte e logo desapareceu.
'Tá, numa escala de esquisitice, aquilo poderia ser considerado um 8, levando em consideração que estamos falando de Kazeshini.
De qualquer forma, aquilo trouxe à tona uma recordação embaraçosa da noite anterior. Por Deus, Kazeshini tinha sido muito brando ao dizer que "quase" nada aconteceu. Aquilo era muito, e não parecia ser tudo.
Voltou sua atenção ao pobre amigo desnorteado. Ele tentava balbuciar algo, mas não conseguia nada muito coerente. Bem, Kira já havia vivenciado muita coisa naquele dia. Talvez fosse melhor simplesmente deixar toda aquela treta para depois.
– Hisagi, eu só queria dizer isso. Sei que deve ter muitas perguntas e que deve estar tentando me dar o fora de uma forma não muito traumática... Tudo bem, é sério. Eu sempre vou ser seu amigo... se você ainda quiser, claro. Vamos resolver isso depois, okay?
– Tu-tudo bem. – murmurou ainda meio em choque.
Kira se despediu e voltou para seu apartamento. A oba-chan tinha saído, pelo menos não teria que responder várias perguntas. Depois de tudo que aconteceu, ele só queria abraçar a inconsciência.
...
Seria pedir demais por uma soneca sem sonhos, mas, não precisava de uma retrospectiva minuciosa da noite anterior. Finalmente as coisas começavam a fazer sentido. Kazeshini o aconselhou a deixar de ser um bocó, porque Kira deu uma de bêbado sincero e contou todo o lance da promessa e que era apaixonado pelo Hisagi desde sempre e mais ladainhas de alguém sob efeito do álcool.
Por incrível que pareça, Kazeshini foi uma ótima companhia de bebedeira. Apenas tomou alguns drinks e ficou dando uma de babá do "loiro aguado", como ele dizia. De qualquer forma, tirando os apelidos pejorativos que inventava e as piadinhas, Kazeshini era bem legal.
Mas havia um ponto importante, Kira sabia que um momento revelador se aproximava.
Depois de muita persuasão, finalmente o malvado conseguia arrastar o loiro daquele bendito bar. Não antes de um pouco de vexame público, claro. Mas, tudo bem. Kira só precisava se lembrar de nunca mais pôr os pés naquele lugar. Izuru estava em um momento eufórico da bebedeira. As palavras saíam confusas e ele falava coisas sem nexo.
– Voxê, purum acaso já amo alguém? Apossto que naom. Nem tem moral pá dá conxelho pra ninguém. – falou em um tom excessivamente alto.
– Cara, você tá parecendo uma criança alcoolizada. Sério, ‘tô sentindo vergonha por você. — falou do jeito debochado de sempre. – Meus conselhos são muito bons, você tem que parar de ser bocó de muitas maneiras.
– Pirimero, naom sou quiriança. Teerceiro, voxê nem xabe o que diz.
– Izu-chan, se eu fosse você parava de falar. Você bêbado é broxante. Sua sorte é que não vai lembrar de nada amanhã.
O loiro nem prestou muita atenção, estava meio sonolento à essa altura. Nem percebeu o quão pensativo Kazeshini ficou ao constatar o que havia acabado de dizer. Então assim que chegaram ao apartamento do moreno, o malvado revelou algo bizarro e ao mesmo tempo tão óbvio, que Kira se sentiu tão burro quanto Hisagi. Provavelmente mais, se é que isso seja possível.
– Sabe a parte boa do fato de que você não vai se lembrar de nada? – nem deu tempo do loiro colocar o cérebro encachaçado para funcionar. – É que você não vai se lembrar de nada!
Kira engoliu em seco, Kazeshini estava com expressão assustadoramente pervertida. Mas o Mestre das Artes Ocultas apenas continuou a falar.
– Bem, você disse que eu não sei de nada, mas, quer saber de algo engraçado? – Não deixou que o loiro respondesse novamente. O fato de Kazeshini mudar de perversão para sinistramente irritado, era deveras assustador. – É você quem não sabe de nada! Você não fez aquela promessa para o Hisagi, foi para mim.
Kira estava alcoolizado o suficiente para não compreender direito sobre o que diabos ele estava falando. Ainda assim, seu humor de bêbado mudava rapidamente e de uma forma bem... surpreendente. Foi de deprimido para eufórico no bar, e agora de sonolento para estranhamente excitado.
Por algum motivo, estava num momento tão "foda-se, quero dar uns amassos" que o que ouviu antes só serviu para tornar Kazeshini o seu alvo. E também porque não havia mais ninguém disponível.
E meio que do nada, ele simplesmente agarrou o pobre Kazeshini. Por mais que "pobre" não combine com o malvado, ele realmente quase foi estuprado. Não que ele parecesse relutante, pelo contrário. Ainda assim, Kira havia adquirido uma força sinistra e rapidamente arrancava a roupa do moreno que só teve tempo de salvar seus preciosos óculos, o resto foi total ou parcialmente destruído.
"Deixá-lo bêbado mais vezes.". Kazeshini anotou mentalmente.
Vendo os dois tão magrinhos, poderia até parecer uma situação meio nonsense. Kazeshini, mesmo tendo a cara de Hisagi, era bem mais magro e um pouco mais alto que este. Mesmo assim nenhum deles se importava, nem mesmo quando ficou claro que o loiro bem mais baixo, pretendia ficar por cima, se é que você me entende. Era estranho imaginar que o moreno tivesse alguma coisa virgem naquele 1,85 cm de pura depravação. Ainda assim, sua bunda era um local sagrado. Não que o loiro magricelo se importasse.
Kazeshini sentia que as mãos de Kira tinham mais dedos que as de uma pessoa normal. Mas não reclamou, o loiro sem graça beijava bem 'pra cacete. Hisagi era mesmo um trouxa. Izuru apartou o beijo e rapidamente virou o corpo do outro. Gente, aquele comportamento seme não combinava nada com o loirinho emo e nerd de sempre. O álcool definitivamente faz milagres.
Não que Kazeshini gostasse de estar por baixo. Até lia yaoi de vez em quando. Qual é? Sendo pegação, não importa o sexo. De qualquer forma, tinha sonhado em manter sua bunda imaculada. Mas, abriu mão desse sonho assim que sentiu os dedinhos de Kira fazendo mágica.
Poderia conviver com revezamento, quem sabe.
Para a alegria de Kazeshini, Kira não era nada paciente. O moreno gostava das coisas mais rápidas e com força. Qual é? É o gosto dele, o que se pode fazer?
Quando os dedos se afastaram e a parte boa estava prestes a começar, o loiro babaca simplesmente caiu no sono. Em segundos roncava de forma irritante e já estava babando nos lençóis.
Malditos bêbados!
...
Kazeshini rememorava amargamente a noite anterior e a cena que havia presenciado. Bem, o plano dele era falar com o Hisagi mesmo. Kira só foi mais rápido. Aquilo era bom, ao menos ele pararia de choramingar feito um covarde pelos cantos.
Mas, ainda assim era terrível. Porque se o loiro estava seguindo seu conselho, significava que se lembrava da noite anterior. Mesmo assim, nada daquilo significou qualquer coisa. Esse lance de coração partido era mesmo uma merda.
No final das contas, o maior bocó sempre foi Kazeshini. Porque além de perder seu amigo de infância para o primo otário, ainda havia feito ele se apaixonar pelo mesmo babaca em questão.
O moreno malvado realmente quis ajudar Kira com o lance de namoro falso e tudo mais. Só não esperava rememorar coisas do passado. Não esperava se importar tanto. Voltou para Karakura por um simples capricho, agora partiria com um coração partido na mala.
{...}
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