Laços
2 Caminhos
Os corredores continuavam os mesmos. As cerejeiras floresciam toda primavera. Os servos ainda abaixavam a cabeça sempre que o jovem herdeiro passava.
Mas Sesshoumaru já não era a criança que atravessava aqueles jardins com passos curtos.
Seu cabelo prateado agora alcançava boa parte das costas, e a pequena espada de treinamento presa à cintura havia sido substituída por uma lâmina de verdade. Os mestres já não lhe ensinavam apenas etiqueta ou caligrafia. Os dias eram divididos entre estratégia, política, história dos clãs e longas horas de treinamento.
Ah-Un também crescera.
Ainda estava longe do tamanho dos grandes dragões das antigas lendas, mas seu corpo havia se alongado, os músculos tornaram-se fortes e as patas já não tropeçavam umas nas outras. Já não conseguia mais correr pelos corredores do castelo e nem dormir mais nos aposentos do príncipe. Era grande o bastante para que Sesshoumaru montasse confortavelmente sobre suas costas.
As duas cabeças continuavam exatamente iguais.
A da esquerda permanecia impaciente.
A da direita, mais tranquila.
E ambas ainda disputavam qualquer bola de couro que aparecesse pelo caminho.
Naquela manhã, os dois cortavam o céu do Oeste.
Não havia sido simples no início, mas agora Ah-Un voava com segurança, descrevendo círculos largos sobre as montanhas enquanto Sesshoumaru mantinha uma das mãos apoiada sobre seu pescoço. O vento agitava os longos cabelos prateados do jovem inu-yokai.
Não eram necessários comandos.
Um leve movimento da mão.
Uma mudança sutil no peso do corpo.
Ah-Un compreendia tudo.
Desciam entre as nuvens, voltavam a ganhar altura e passavam rente às copas das árvores apenas pelo prazer da velocidade.
Lá embaixo, o vasto domínio do Oeste estendia-se até onde a vista alcançava.
Sesshoumaru observava cada rio, cada aldeia e cada floresta em silêncio.
— Estão se divertindo?
A voz grave fez Ah-Un diminuir a velocidade antes mesmo de Sesshoumaru olhar para trás.
O Inu no Taisho aproximava-se voando tranquilamente, como se o próprio vento abrisse caminho para sua passagem.
Sesshoumaru fez uma breve reverência com a cabeça.
— Pai.
O senhor do Oeste lançou um rápido olhar para Ah-Un.
— Vejo que finalmente aprenderam a voar juntos.
A cabeça da esquerda ergueu-se, orgulhosa. A da direita soltou um som baixo, quase satisfeito.
— Ele aprende rápido — disse Sesshoumaru, afagando uma das cabeças.
O pai sorriu de leve, um traço de orgulho no olhar.
Enquanto sobrevoavam a região, um movimento chamou a atenção de Ah-Un. As duas cabeças inclinaram-se ao mesmo tempo.
Algumas crianças corriam por um campo aberto.
Uma bola de pano havia escapado por uma ribanceira, e todas disputavam quem a alcançaria primeiro. Um dos meninos tropeçou, rolou morro abaixo e terminou sentado na lama.
Por um instante houve silêncio.
Então todas as outras crianças começaram a rir.
Até o menino caído acabou rindo também.
Ah-Un soltou um som curioso.
Sesshoumaru lançou apenas um breve olhar.
— Que criaturas estranhas.
Ah-Un inclinou a cabeça da direita, os olhos ainda fixos nas crianças lá embaixo. O pai esperou que continuassem voando alguns instantes antes de perguntar:
— Por quê?
— São fracos.
Olhou novamente para a aldeia.
— Tropeçam em seus próprios pés. Vivem tão pouco e desperdiçam o tempo brincando.
O Inu no Taisho acompanhou o movimento das crianças lá embaixo.
— Talvez justamente porque vivem pouco.
Sesshoumaru permaneceu em silêncio.
— A mim parecem patéticos.
O pai sorriu discretamente.
— Sua mãe aprovaria esse comentário.
Sesshoumaru não percebeu o tom bem-humorado.
— Ela está errada?
O Inu no Taisho levou alguns instantes antes de responder.
— Ela enxerga o mundo pelos olhos de uma grande dama do Oeste. Você precisará enxergá-lo pelos olhos de um senhor.
Sesshoumaru voltou a atenção para ele.
— Há diferença?
— Muita.
O grande inu-yokai olhou novamente para a aldeia.
— A força existe para proteger um território. E um território não é feito apenas de yokais.
Sesshoumaru tornou a olhar para os humanos.
As crianças já haviam voltado à brincadeira, como se a queda de poucos instantes antes jamais tivesse acontecido.
— Ainda assim... continuam sendo frágeis.
— Sim.
O pai concordou sem hesitar.
— E justamente por isso, um verdadeiro senhor não mede o valor de alguém apenas pela força que possui.
Ah-Un, mantinha o voo estável, mas uma das cabeças virou-se por um instante — não para as crianças, nem para o pai. Para Sesshoumaru.
O jovem inu-yokai permanecia em silêncio.
Não parecia convencido pelas palavras do pai. Mas também não parecia disposto a esquecê-las.
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Quando retornaram ao Palácio do Oeste, o sol ainda iluminava os jardins.
Criados aguardavam junto aos portões para receber o senhor do Oeste. Alguns conduziram Ah-Un aos jardins internos, onde o dragão aceitou de bom grado um balde de água fresca antes de se acomodar à sombra.
Sesshoumaru despediu-se dele com um breve afago entre as duas cabeças e seguiu pelos corredores do palácio.
Naquela tarde encontraria sua mãe.
Não era um costume diário.
Na verdade, passavam longos períodos sem trocar mais do que algumas palavras durante as refeições ou cerimônias do clã. Ainda assim, de tempos em tempos, Inu no Kimi mandava chamá-lo para acompanhá-la durante a tarde.
Os aposentos de sua mãe ocupavam uma ala silenciosa do palácio, voltada para um amplo jardim onde cerejeiras antigas cresciam ao redor de um lago de águas cristalinas.
Ela já o aguardava.
Sentada diante da varanda aberta, mantinha a postura impecável de sempre. Os longos cabelos prateados desciam pelas costas como fios de seda, contrastando com o quimono branco bordado em delicados desenhos dourados. Seu rosto possuía uma beleza serena, quase irreal, mas havia algo em seus olhos que fazia qualquer criado evitar fitá-los por muito tempo.
Era uma beleza que impressionava.
E uma frieza que mantinha todos à distância.
Sesshoumaru fez uma breve reverência.
— Mãe.
Ela apenas inclinou levemente a cabeça.
— Sente-se.
Uma criada serviu chá para ambos e retirou-se em silêncio.
Durante alguns instantes, ouviram apenas o vento atravessando as cerejeiras.
— Como foi seu dia?
Sesshoumaru levou a xícara aos lábios.
— Ah-Un e eu voamos pelas montanhas do norte. Encontramos meu pai no caminho.
Pela primeira vez desde que a conversa começara, Inu no Kimi ergueu os olhos.
— É mesmo?
— Conversamos enquanto sobrevoávamos o território.
Ela esperou que ele continuasse.
— Passamos por uma aldeia humana. Eu disse que me pareciam criaturas frágeis e um tanto patéticas.
Um discreto sorriso surgiu no canto de seus lábios.
— Imagino que isso não tenha agradado ao seu pai.
— Ele disse que um senhor não deve medir o valor de alguém apenas pela força que possui.
O sorriso desapareceu quase tão depressa quanto surgira. Seu olhar desviou-se para o jardim. O silêncio prolongou-se por alguns instantes.
— Seu pai tem uma fraqueza antiga por essas criaturas.
A observação foi feita em tom calmo, quase entediado.
— Ele acredita que força sem compaixão é apenas crueldade disfarçada.
Sesshoumaru considerou aquilo em silêncio.
— E a senhora não acredita?
— Compaixão deve ser oferecida aos que se provam merecedores. Não a criaturas qu mal conseguem sobreviver ao inverno.
Ela girou lentamente a xícara entre os dedos antes de olhar diretamente para Sesshoumaru.
— Seu pai confunde as duas coisas. Espero que você não cometa o mesmo erro.
Sesshoumaru encarou o reflexo do chá na xícara antes de pousá-la de volta sobre a mesa. As palavras de sua mãe ecoavam com o peso de uma verdade inquestionável. Mas, no fundo de sua mente, a imagem do pai voando sereno sobre aquele campo aberto recusava-se a sumir.
Curvou-se suavemente.
— Não cometerei.
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