Laços

3 Mudanças


O youkai era enorme — um corpo de escamas escuras que se erguia mais alto que as árvores ao redor, garras capazes de arrancar pedras do chão com um único golpe.


Levou menos de um instante para cair.


Sesshoumaru balançou seu chicote apenas uma vez. Um único golpe, quase casual, foi suficiente para atravessar a criatura de lado a lado. O corpo desabou entre as árvores com um estrondo surdo, e o silêncio da floresta voltou como se nada tivesse acontecido.


Ah-Un, que permanecera alguns passos atrás durante o combate, aproximou-se apenas quando tudo já havia terminado.


Sesshoumaru já não era jovem, nem em aparência, nem em postura. Os cabelos prateados desciam agora além da cintura, sempre impecáveis. As feições haviam perdido qualquer resquício de suavidade infantil, substituídas por uma frieza que nem os anciãos do clã ousavam desafiar.


Ah-Un também não era mais o filhote desajeitado.


Seu corpo alongara-se até alcançar proporções que exigiam respeito só pela presença. As escamas haviam escurecido, endurecido, as patas — antes desajeitadas demais até para um pequeno salto — agora cortavam o ar com a mesma precisão fria de seu companheiro.


Sesshoumaru deu um último olhar para o corpo imóvel da criatura antes de seguir o caminho de volta ao Palácio do Oeste. Ah-Un o acompanhou, os passos pesados afundando levemente a terra macia da floresta.


Chegaram aos portões pouco antes do entardecer.


Um criado já aguardava para recolher Ah-Un e conduzi-lo aos estábulos. Fazia anos que o dragão crescera demais para atravessar os corredores do palácio como fizera quando filhote — a passagem estreita demais para o novo tamanho de seu corpo.


Sesshoumaru não disse nada quando o criado se aproximou. Apenas seguiu sozinho pelos portões principais, o som de seus passos sendo engolido pelos corredores internos.


Ah-Un permaneceu observando até que ele desaparecesse de vista.


Nos últimos tempos, alguma coisa havia mudado.


O palácio continuava o mesmo. Os jardins eram regados todas as manhãs, os soldados trocavam a guarda nos mesmos horários e os criados percorriam os corredores carregando bandejas, pergaminhos e tecidos como sempre haviam feito.


Ainda assim…


O cheiro havia mudado.


As duas cabeças erguiam-se sempre que algum servo passava. Havia inquietação em seus passos. As conversas tornaram-se baixas demais, mas não para um dragão.


"...ouvi dizer..."


"...outra vez..."


"...o senhor voltou apenas ao amanhecer..."


As palavras vinham em pedaços. Nunca faziam sentido.


Ah-Un não saberia dizer o que havia mudado. Apenas sabia que havia. Um silêncio dentro do silêncio, quase imperceptível para qualquer um que não passasse décadas aprendendo a lê-lo.


O dragão também percebeu que o grande Inu no Taisho aparecia cada vez menos. Às vezes passava dois ou três dias longe do palácio. Outras vezes retornava apenas para uma única refeição antes de partir novamente.


Cada ausência os servos pareciam mais agitados.


Numa tarde, o dragão percorria os jardins atrás de uma borboleta quando ouviu vozes. As reconheceu de imediato.


Sesshoumaru.


A outra…


Seu pai.


Ah-Un aproximou-se em silêncio.


Encontrou os dois junto ao lago.


— Não entendo.


A voz de Sesshoumaru era baixa. Controlada.


— Então procure entender.


O Inu no Taisho mantinha o mesmo tom calmo de sempre.


— Há assuntos que ainda não lhe dizem respeito.


Sesshoumaru não desviou o olhar.


— Sou seu herdeiro.


A voz não se elevou, mas havia um peso a mais nas palavras, como se cada uma tivesse sido escolhida a dedo antes de ser dita.


Os olhos dourados do Inu no Taisho voltaram-se lentamente para o filho.


— E eu sou o senhor destas terras.


Sua voz permaneceu baixa. Controlada, como a do próprio filho.


— Não confunda sua posição de herdeiro com a liberdade de exigir explicações de seu senhor.


O silêncio que se seguiu pareceu pesar sobre toda a margem do lago.


As duas cabeças de Ah-Un abaixaram-se instintivamente. Nem mesmo ele compreendia o motivo daquela discussão, mas o ar parecia mais pesado do que qualquer outro que já sentira entre os dois.


Sesshoumaru permaneceu imóvel. Apenas os dedos, quase imperceptíveis, fecharam-se com mais força ao redor da bainha da espada. Se algo nele quis responder, engoliu a resposta antes que ela chegasse a superfície.


O Inu no Taisho respirou discretamente. A dureza desapareceu de seu semblante quase tão rápido quanto surgira. Ergueu a mão na direção do ombro do filho.


— Sesshoumaru…


O jovem inu-youkai deu um passo para trás antes que o toque o alcançasse.


Fez apenas uma breve reverência.


— Senhor.


Virou-se e foi embora.


Ah-Un lançou um último olhar para o grande inu-yokai antes de correr atrás de Sesshoumaru. Quando olhou para trás mais uma vez, o senhor do Oeste continuava parado junto ao lago.


A mão ainda permanecia suspensa no ar por um breve instante, antes de voltar lentamente ao lado do corpo.


—


Na manhã seguinte, Sesshoumaru não apareceu nos estábulos.


Ah-Un, como sempre, esperava.


Caminhou até a porta, farejou o corredor e voltou a deitar. De tempos em tempos erguia uma das cabeças sempre que ouvia passos, apenas para descobrir que era algum criado.


Foi então que os portões do Palácio do Oeste se abriram.


Ah-Un estava deitado próximo aos jardins quando ouviu o som.


Não era o passo apressado dos soldados. Nem o trote de cavalos. Era uma pequena comitiva.


Humanos.


As duas cabeças ergueram-se ao mesmo tempo.


Servos atravessavam os corredores com uma rapidez incomum, preparando a chegada dos visitantes. Ninguém corria, mas todos pareciam mais atentos do que o habitual.


Curioso, Ah-Un caminhou até uma varanda de pedra. Dali conseguiu vê-los.


À frente vinha uma jovem de longos cabelos negros. As vestes eram simples para os padrões do Palácio do Oeste, mas ainda assim elegantes. Caminhava com postura serena, embora seus olhos percorressem discretamente tudo ao redor.


Atrás dela seguiam alguns acompanhantes, igualmente humanos. Ah-Un nunca havia visto humanos tão perto. Não pareciam soldados. Nem caçadores. Nem invasores.


Mesmo assim, bastou sua chegada para que o palácio inteiro parecesse prender a respiração.

Uma rajada de vento atravessou os jardins.

Do outro lado da varanda, Sesshoumaru também observava a comitiva. Seu rosto permanecia completamente imóvel.


Ah-Un aproximou-se do amigo e esfregou uma das cabeças contra seu braço.


Sesshoumaru não desviou os olhos da jovem humana. Apenas pousou a mão distraidamente sobre a cabeça do dragão, mantendo-a ali por um instante. Então voltou toda a sua atenção para a recém-chegada.


—


Nos dias seguintes, a humana, que Ah-Un descobrira se chamar Izayoi, tornou-se uma presença cada vez mais frequente pelos corredores do Palácio do Oeste.


Sesshoumaru, por outro lado, parecia cada vez mais distante.


Foi numa dessas tardes, enquanto vigiava os jardins de sua varanda de pedra preferida, que Ah-Un sentiu o cheiro atravessar o corredor mais uma vez.


Ergueu as duas cabeças.


Izayoi caminhava lentamente, acompanhada por uma criada mais velha. Seus passos eram cautelosos, como os de alguém que ainda não conhecia bem aqueles corredores. De vez em quando lançava um olhar discreto para a arquitetura ao redor, admirando detalhes que os moradores do palácio já nem percebiam.


Foi então que Sesshoumaru surgiu na direção oposta.


Ah-Un ergueu-se de imediato.


Os dois seguiram em linha reta, um em direção ao outro.


Izayoi diminuiu o passo. Fez uma breve reverência, a cabeça baixa, o corpo levemente curvado — um gesto de respeito que qualquer nobre teria retribuído, ao menos, com um mínimo aceno.


Sesshoumaru não.


Seu olhar permaneceu fixo à frente, como se o corredor estivesse tão vazio quanto um instante antes. Passou por ela sem desacelerar, sem dirigir-lhe uma única palavra, sem sequer deixar que os olhos a registrassem.


Izayoi permaneceu curvada um segundo a mais do que o necessário. Quando finalmente se ergueu, seus olhos já não tinham a mesma serenidade curiosa de instantes atrás. Também não parecia surpresa, como se não fosse a primeira vez.


Sesshoumaru finalmente desapareceu no final do corredor, só então Izayoi retomou a caminhada, um pouco mais rápida do que antes.


—


Foi na manhã seguinte que Ah-Un o viu atravessar os portões.


Sozinho.


Não houve aviso. Não houve destino declarado. Apenas os passos de sempre. Sem hesitação. Sem rodeios.


Ah-Un esperou, como sempre fazia.


Os primeiros dias passaram de forma lenta — o dragão nos estábulos, as orelhas atentas a qualquer som que pudesse ser passos conhecidos. Depois vieram as primeiras semanas. O verão cedeu lugar ao outono sem que ele retornasse. Ah-Un aprendeu, aos poucos, a reconhecer a ausência.


Foi durante essas semanas que o cheiro de Izayoi voltou a cruzar os jardins do palácio, sozinho, sem a criada que sempre a acompanhava.


Estava deitado à entrada dos jardins internos quando a percebeu atravessar o pequeno portão de madeira. Segurava as próprias mangas do quimono como se sentisse frio, embora a tarde estivesse amena.


Izayoi caminhou devagar entre as árvores, os olhos percorrendo o jardim como quem busca um lugar onde ninguém a observe.


Não percebeu o dragão até estar quase ao lado dele.


Parou.


Por um instante, nenhum dos dois se moveu.


Então ela recuou um passo, a respiração presa. As duas cabeças ergueram-se lentamente, sem pressa, mas o tamanho de Ah-Un — mesmo deitado — já era o bastante para fazê-la levar a mão ao peito.


— Desculpe…


A voz saiu baixa, insegura.


Ah-Un não se moveu. Apenas a observava, as duas cabeças inclinadas no mesmo ângulo, com a mesma cautela de quando era filhote e alguém novo se aproximava.


Izayoi manteve distância, mas não fugiu. Aos poucos, os ombros pareceram relaxar um pouco.


— Você deve ser o dragão do jovem senhor.


Nenhuma das cabeças respondeu, é claro. Mas uma delas farejou o ar em sua direção, e Izayoi ficou imóvel enquanto isso acontecia, como se soubesse, por instinto, que não devia se mexer naquele momento.


Foi então que um rosnado baixo cortou o silêncio do jardim.


Não veio de Ah-Un.


Entre as raízes de uma árvore próxima, uma criatura pequena — pouco maior que um gato, com pele escamosa e olhos amarelados — arrastava-se para fora da sombra. Um youkai menor, dos que viviam à margem do palácio.


Farejou o ar.


Encontrou o cheiro humano.


E avançou.


Izayoi deu um passo para trás, mas o susto a fez tropeçar na própria barra do quimono. Caiu sentada sobre a grama, um som assustado escapando de sua garganta.


Ah-Un já estava de pé antes mesmo que ela tocasse o chão.


A cabeça da esquerda rosnou, os dentes à mostra, colocando-se entre Izayoi e a criatura. A da direita ergueu-se em toda a altura que tinha.


O youkai menor congelou.


Hesitou.


Um segundo rosnado, mais grave, foi suficiente. A criatura recuou, arrastando-se de volta para as sombras entre as raízes, até desaparecer por completo.


O jardim voltou ao silêncio.


Ah-Un manteve-se parado por mais alguns instantes, ambas as cabeças atentas, antes de finalmente relaxar e se voltar para Izayoi.


Ela ainda estava sentada na grama, uma das mãos apoiada no peito, respirando depressa.


Devagar, Ah-Un aproximou-se. Baixou uma das cabeças até a altura dela, não em ameaça, apenas curiosidade.


Izayoi hesitou.


Então, com a mão ainda tremendo ligeiramente, Izayoi estendeu os dedos e tocou de leve na cabeça da direita do dragão.


— Obrigada.


Ah-Un permaneceu imóvel. Para a criatura, aquele toque era estranho — a pele humana era morna, suave e terrivelmente frágil contra a rigidez de suas escamas. A cabeça da esquerda apenas acompanhava o gesto com um olhar curioso e atento, enquanto a da direita se inclinava sutilmente para facilitar o contato.


— Você está esperando por ele?


Ao ouvirem a pergunta, as duas cabeças se voltaram, em sincronia, na direção dos grandes portões do palácio — para o mesmo horizonte vazio por onde o jovem senhor havia partido.

Izayoi acompanhou o movimento. Havia em seus olhos negros uma tristeza silenciosa e profunda, o peso velado de quem sabia ser a razão involuntária daquela ausência.


— Ele não vai voltar tão cedo, vai? — murmurou ela, a voz quase engolida pelo vento, falando mais para si mesma do que para a montaria.


Com um último afago suave sobre a pele escamosa, a humana recolheu as mãos para dentro das mangas do quimono. Levantou-se e afastou-se devagar pelo mesmo caminho de pedras por onde viera.


Ah-Un continuou deitado sobre a relva do jardim. As duas cabeças permaneceram voltadas para a estrada distante. O vento do outono começava a esfriar a tarde, mas o dragão permaneceu ali, imóvel, guardando a espera de seu senhor.


—


Antes que a estação mudasse por completo, o cheiro da humana deixou o palácio.


Izayoi fora levada de volta ao feudo de seu povo. Nos corredores, Ah-Un ainda ouvia seu nome entre conversas abafadas. Falavam sobre o lugar que ela agora ocupava ao lado do grande Senhor do Oeste, embora o dragão não compreendesse exatamente o significado daquelas palavras.


Com a partida dela, a tensão que pairara sobre o palácio durante meses começou, aos poucos, a desaparecer.


Para Ah-Un, porém, os dias continuaram longos.


Esperava nos jardins. Nos estábulos. Às vezes, junto aos portões, mantendo as duas cabeças erguidas sempre que algum cheiro conhecido surgia com o vento.


Nunca era ele.


Até que as primeiras folhas secas começaram a cobrir a relva.


Foi então que, certa noite, passos conhecidos cortaram o silêncio dos portões.


Ah-Un reconheceu imediatamente o cheiro.


Sesshoumaru estava de volta.


O menino que um dia brincara nos jardins já não existia mais, mas para Ah-Un nada disso importava. O dragão apenas colocou-se de pé e o seguiu, guardando os passos de seu senhor como sempre fizera.