Laços
2 Capítulo 2
– Me solte!
– Cale a boca, seu moleque imprestável! Vou te dar uma lição por não cumprir com suas obrigações como deveria ser feito. Duas carteiras apenas! DUAS! E sem praticamente nada dentro! É para isso que eu te alimento?
James não disse nada para tentar não aumentar ainda mais a raiva do seu pai, mas há dias ele não era alimentado.
– É melhor você não abrir mais a boca se não quiser morrer essa noite mesmo.
O pai de James o arrastava pelo um braço até o beco escuro. Não era a primeira vez que ele apanhava do pai, e ele sempre se perguntava quando seria última. Cada vez mais seu pai ultrapassava limites, chegando a deixá-lo inconsciente. Na maioria das vezes James aguentava tudo em silêncio, e eram raras as vezes em que ao menos chorava. Isso deixava seu pai ainda mais bravo, mas era a única coisa da qual James se orgulhava de fazer. Resistir.
Normalmente os golpes eram em lugares que a roupa conseguia cobrir, principalmente quando ele estava em aula. Porém, não foram poucas as vezes que James foi parar no hospital com algum membro quebrado. Seu pai subornava as pessoas para não ser denunciado, como aconteceu com a assistente social que foi verificar a denúncia feita pela professora Claire.
Quando ele furtou um lápis colorido de um colega da sua turma, porque precisava pintar um desenho que havia feito através de uma foto de sua mãe e não tinha lápis coloridos, a professora viu e contou para o seu pai. O seu corpo doía tanto depois da surra que levou que ele não pode ir para a escola por alguns dias devido a costela que fora quebrada. Mas, para todos era só um resfriado.
Agora ele estava de férias e era sua “obrigação” cometer pequenos furtos para seu pai. Por estar sem se alimentar há dias, ele estava com fome e usou parte do dinheiro que roubou para comprar algo para comer. É claro que seu pai se enfureceu e era por isso que ele apanharia. A palavra férias o assustava, porque seu pai não teria medo de deixar marcas agora. Não haveria ninguém para ver.
E foi assim que começou, com um soco em seu rosto que o lançou para o chão. E então dor, dor e mais dor. Até que sangue começasse a sair de seu nariz e sua boca. Muito sangue. James sorriria se pudesse, talvez a morte estivesse vindo trazendo um alívio que ele desconhecia.
A única coisa que ele conseguia ver era a cor escarlate do seu sangue brilhando no chão. Seu pai fora embora e o abandonara ali para morrer, e ele queria que a morte viesse logo e rápida. Que o livrasse daquela dor.
– Socorro! Alguém me ajude! – Não era sua voz. Era uma voz ao longe. De uma menina que não parecia ser a morte.
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Molly caminhava de forma rápida e cuidadosa, estremecendo ao avistar na frente o beco pelo qual teria que passar em frente para chegar até sua rua. Acelerou o passo ao passar, mas um som estranho a fez olhar para dentro dele. Um som como alguém se afogando.
O que ela viu a fez se desesperar. Havia alguém caído, um garoto, em uma poça de sangue. E o barulho que ela ouvia era do sangue que saia de sua garganta e nariz, fazendo com que ele mal conseguisse respirar, afogando-se no próprio sangue.
– Socorro! Alguém me ajude! – Ela começou a gritar, precisava de um adulto. Sentia lágrimas em seus olhos e todo seu corpo parecia tremer. – SOCORRO! Por favor...
– O que houve, garota? Meu deus...
O homem a empurrou para o lado e foi até James. Só agora a garota conseguiu reconhecê-lo. Era James, da sua turma na escola. Lágrimas quentes escorriam por seus olhos agora. O que tinha acontecido com ele? O homem o pegou no colo com carinho e rapidamente começou a caminhar para uma casa.
– Vamos lá. Seja forte, rapaz. Você vai conseguir.
Era Summer. E Molly o seguiu.
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Ela sabia que não deveria fazer isso aquela hora da noite. Que sua mãe ia ficar chateada e brava, que ela receberia uma enorme bronca e talvez até mesmo um castigo, mas simplesmente não poderia virar as costas e ir para a casa como se nada tivesse acontecido.
De repente, sem que Molly percebesse, uma dose de responsabilidade foi depositada em suas costas. De forma rápida e grosseira as portas de um mundo que ela não conhecia se abriram. Um mundo onde garotos da sua idade eram espancados pelo próprio pai, como ela viria saber mais tarde, quando soubesse os detalhes do que aconteceu.
A garota seguiu Summer até sua casa e ele pareceu não se importar ao ver que ela ainda estava ali, ao seu lado. Abriu a porta com dificuldades e depositou James, que já beirava a inconsciência, em um sofá velho e mal cuidado.
– Como você se chama? – Ele disse sem olhar para ela.
– Molly.
– Ótimo, Molly, ali é a cozinha. Vá até lá e me traga um pano limpo. Há também um armário onde estão alguns remédios e... – Summer começou a dar instruções para Molly para que ela pegasse medicamentos e ajudasse a cuidar dos inúmeros ferimentos de James. O rosto dele, mesmo após ser limpo, estava inchado. Quase totalmente deformado. Talvez não tivesse sido uma boa ideia ter comido tantas coisas no jantar, porque agora tudo se revirava no estômago dela. – Você está pálida, vá até a cozinha e beba água. Controle-se. A vida não é fácil para todos.
Seguindo as instruções, Molly serviu-se de um grande copo de água gelada na cozinha e sentou-se à mesa, tomando consciência pela primeira vez que algo tinha mudado dentro dela a partir de agora. Não havia volta.
– Ele vai ficar bem. O garoto é forte, apesar de tudo.
Molly estremeceu ao ouvir a voz de Summer que agora também estava na cozinha. Ele vai ficar bem. As palavras retumbavam em sua cabeça. Quase não o conhecia, mas parecia que agora tudo dependia disso.
– O senhor é médico?
– Já fui, em um passado distante. E não precisa me chamar de senhor.
Mesmo se perguntando o porquê dele não ser mais um médico, ela não verbalizou, apenas assentiu.
– Vamos, Molly. Vou levar você para casa, seus pais devem estar preocupados.
– Eu... Eu posso visitá-lo amanhã?
Summer a analisou por alguns momentos como se pudesse ver a inocência e a maturidade tentando dividir espaço dentro daquela pequena garota a sua frente.
– Acho que sim... Er... Não sei se ele vai querer ver você. Quero dizer que é bem possível que ele se sinta envergonhado pelo o que aconteceu. – Ele corrige ao ver que ela ficou surpresa com a resposta.
– Tentarei mesmo assim.
Dando de ombros, Summer a acompanhou até a porta e os dois caminharam juntos até a casa de Molly. Quando seu pai apareceu, ela pode ver que a noite seria longa. Principalmente porque sua mãe chorava e falava com alguém ao telefone, possivelmente a polícia.
Sua mãe desligou o telefone e encarou Summer com fúria em seus olhos. Foi preciso várias tentativas até que ele conseguisse explicar o que havia acontecido. Summer pediu para que os pais não culpassem Molly, que ela só fez o que qualquer pessoa teria feito e o ajudou muito. De qualquer forma quando ele partiu, Molly foi obrigada a ouvir um sermão enorme de como poderia ter ligado e avisado. Como se com todo aquele sangue ela pudesse ter pensado em usar o telefone da casa de alguém. Também foi lembrada de ter que se manter longe de Summer e James. Molly, que até pouco tempo ficava com a consciência pesada por esconder algo da mãe, sabia que essa era a primeira de muitas coisas que ela iria mentir. Porque não, ela não iria ficar longe deles.
Foi só quando finalmente subiu para seu quarto que Molly reparou que havia sangue de James em suas roupas. Não, definitivamente a Molly que saiu de casa aquele dia não era a mesma que voltara.
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