Laços
13 ESPECIAL: SENDO PROBLEMÁTICOS! Os dois lados da mesma moeda
Notas iniciais
Os dois lados da mesma moeda
Coitado daquele que, por amor
Nunca se jogou
Nunca se arriscou no vazio de um precipício
Nunca se machucou
Nunca perdeu
Coitado daquele que, por amor
Nunca sorriu
Ou chorou
E nunca sofreu
Coitado daquele que, por amor
Nunca viveu*
Shikamaru dava passos cautelosos na direção da muralha que protegia a Vila da Areia. Apenas Temari estava lá. Ele suspirou pesadamente sobre aquilo. Quando ela estava de guarda, não havia necessidade de reforços. A loira era perfeitamente capaz de dar cabo de qualquer inimigo sozinha.
Ela estava sentada no chão, olhando tediosa e distraidamente para o horizonte. Seus olhos arregalaram-se um pouco ao ver Shikamaru caminhando em sua direção.
–O que está fazendo aqui? – ela perguntou, levantando-se.
–Precisamos conversar, Temari.– falou ele, com a expressão mais séria que a ninja já havia visto em seu rosto.
–Aconteceu alguma coisa? – questionou, preocupada.
–Não quero continuar com esse teatro.
–Que teatro? Do que está falando?
–Você sabe. Essa história de “carnal e casual”. Já passou da hora de pararmos com isso.
–Você... não quer mais me ver? – ela perguntou, a expressão confusa.
–Não. Não dessa forma. Quero colocar as cartas na mesa. Quero saber se você sente realmente algo por mim.
A ninja piscou, surpresa com as palavras diretas de Shikamaru. Não sabia como reagir.
–Por que quer saber disso agora? Achei que você gostasse das coisas como estão.
–Não. Não gosto de ter que ir e vir o tempo inteiro e fingir que estou em missão para poder ver você. Minhas desculpas estão acabando, e acredito que as suas também.
–Não... não quero conversar sobre isso. Volte para a sua vila. – disse ela, dando as costas para Shikamaru.
–Do que você tem medo?
Aquela pergunta fez algo formigar dentro dela. Virou-se para ele, a fúria já começando a se instalar em seu peito.
–De nada! Eu não sou mulher de ter medo!
–Eu sei. É por isso que estou perguntando.
Temari o fitava, completamente desnorteada. Shikamaru nunca a tinha encurralado daquela maneira. Na maior parte do tempo, ele evitava tocar em assuntos sentimentais com ela, provavelmente porque sabia que ela tinha sérias dificuldades em lidar com esse tema, e ela dava graças silenciosas por isso. O que ele queria com aquilo?
Ele tinha a expressão carregada de seriedade, sua voz sequer tremia. Ela não podia fugir daquela situação. O terror começou a ganhar terreno em sua mente.
–Vou me recolher agora. – falou ela. –Espero que quando voltar a te encontrar, você tenha voltado a si.
Ele segurou o braço da loira:
–Não vai, não. Você só sai daqui depois que me disser o que sente.
Ela lançou um olhar incrédulo para a mão que segurava seu braço.
–Quer perder a mão, Nara? – falou, trincando os dentes.
–Você não vai entrar agora.
–Se alguém vir você me segurando desse jeito, a segurança da muralha vai aparecer. – avisou, a ferocidade evidente em sua voz. –Me solte.
–Então vamos sair daqui. Kage Mane no Jutso realizado com sucesso – disse, exibindo para Temari um sorriso torto.
Ele começou a correr para longe da muralha, embrenhando-se nas montanhas de areia, distante o suficiente para que não fossem vistos. Seu jutso obrigava Temari a correr ao seu lado, enquanto ela lhe lançava um olhar venenoso.
–Esse seu jutsu é uma praga... – falou entre os dentes –Me solte ou vou arrancar sua cabeça na primeira oportunidade que eu tiver.
Ele não respondeu, apenas continuou correndo. Quando enfim parou, olhou para ela.
–Aonde quer chegar com isso, Nara?
–Você já sabe. Quero acabar com esse teatro de uma vez. Ou você me diz como realmente se sente com relação a mim, ou paramos por aqui.
–Pra quê quer saber disso? As coisas não estão boas o suficiente desse jeito? Por que quer estragar tudo?
–Não quero estragar nada. Quero apenas entender você, entender o que estamos fazendo. Ou você me odeia, ou gosta de mim. Não consigo lidar com as duas possibilidades juntas.
–Para referências futuras, quando você me prende nesse jutsu maldito, eu te odeio. – ela disse, estreitando o olhar.
–Velhos hábitos nunca morrem. – ele respondeu, e quase sorriu. – Prossiga.
–Prosseguir com o quê? Não quero falar sobre isso. Não tenho nada a dizer.
Ele então andou na direção de Temari, libertando-a do jutso.
–Pois muito bem. Você está livre para ir. E fique tranquila: não voltarei a te procurar nunca mais. – falou, dando as costas para ela.
–O que? Por que está sendo tão infantil? Pra quê toda essa palhaçada?
Ele sequer se virou para olha-la. Continuou andando, sem preocupar-se em controlar seus pensamentos confusos.
Algo atingiu o chão ao seu lado esquerdo, levantando uma cortina de areia.
–Estou falando com você! –gritou Temari, pegando de volta o leque que havia arremessado.
Ele continuou andando.
–NARA!!! – berrou ela, com tanta raiva que precisou se controlar para não decapitá-lo.
Vendo que ele realmente estava levando aquela situação a sério, ela começou a perder o controle.
–O que você quer ouvir de mim, afinal?! Por que está me forçando a isso?!
Ele parou e finalmente se voltou para ela.
–Porque você só pensa em si mesma! Queria saber se você se importa pelo menos um pouco comigo, ou se só está me usando para se satisfazer! Mas pelo visto, você já me deu sua resposta!
–Bem, essa sou eu! Insensível, sem coração, cruel! Não é isso que você pensa sobre mim?! Não é isso que todos pensam?! – ela berrou. Os gritos dos dois ecoavam pela imensidão de areia, quebrando o silêncio do deserto.
–É porque você não se abre, Temari! Você não me deixa saber como você realmente pensa, como realmente se sente!
–Eu te odeio! Odeio você, Nara, é assim que eu me sinto!
–Ótimo! Obrigado por finalmente me contar! – ele berrou de volta. E recomeçou a andar, pisando com força na areia sob seus pés. O leque de Temari levantou outro véu de areia do seu lado direito.
–Pra onde pensa que está indo?!
–Vou voltar para a minha vila. –respondeu, sem olhar para trás. Sentia a raiva espalhando-se por todo o seu corpo como uma corrente elétrica. Nunca havia ficado nervoso e descontrolado daquela maneira. Tinha medo de fazer alguma bobagem.
–Shikamaru! – ela chamou. Ele parou de andar imediatamente, surpreso por ela tê-lo chamado pelo nome. -O que você quer de mim?! – ela gritou. Aproximou-se alguns passos dele, o leque em sua mão posicionado para um novo ataque.
–Você sabe o que eu quero!
O leque novamente veio em sua direção, e dessa vez quase o atingiu. A proximidade deixava a mira da ninja mais certeira.
–Quer saber, Temari? Eu desisto! Você é completamente doida, violenta, arrogante e egoísta!
–E você é preguiçoso, idiota, lerdo e retardado!
–Você é insensível, cruel, problemática e fica brava sem nenhum motivo!
–Você é um inútil, covarde, estrupício, desgraçado!
–Tá vendo?! A gente nunca ia conseguir fazer isso dar certo, Temari!
–Sai daqui, Nara! Vai embora, volta correndo pra sua vila!
–Eu vou! E te prometo que você nunca mais vai me ver, Temari! Acabou!
Vendo que ele falava sério e que já se preparava para ir embora, Temari percebia que o pânico ocupava não só sua mente, como seu corpo, deixando-a paralisada.
–Shikamaru! – chamou novamente. E novamente ele ficou surpreso por ouvi-la chama-lo pelo primeiro nome.
–Eu odeio você! EU TE ODEIO!!!
Os lábios de Shikamaru contraíram-se numa linha rígida. Não conseguia mais reagir àquelas palavras.
–Tudo bem, Temari. Já acabou. Adeus.
–Eu ainda não terminei!
Ele olhou para ela novamente.
–Mas eu também... – ela tentou continuar, mas era difícil demais.
Temari fechou os olhos com força, cerrou os punhos, todo o seu corpo tremendo, cada célula de seu ser contraindo-se involuntariamente contra o que estava prestes a dizer.
–EU AMO VOCÊ, NARA IDIOTA!!!
O grito irado de Temari ecoa por todo o deserto, fazendo os olhos de Shikamaru arregalarem-se. A loira continua de olhos fechados, o corpo ainda trêmulo. Mas ela logo sente as mãos de Shikamaru tocando seus ombros suavemente.
–Temari... olhe para mim.
Mas ela se recusa a abrir os olhos. Praguejava mentalmente, xingando todos os Kages de que se lembrava, com todos os palavrões que conhecia.
–Temari, por favor. – ele pediu, a voz baixa, quase um sussurro.
Mas ela não abria os olhos. Ele então fez a única coisa que poderia fazer: a beijou.
Pela primeira vez, precisou forçar a passagem por entre os lábios de Temari. Mas ela não cedia. Quando enfim conseguiu, colou seu corpo ao dela de forma tão intensa que conseguia sentir as batidas aceleradas do coração da ninja. Ela não o abraçou de volta, os músculos rígidos de tensão, os braços esticados ao lado do corpo.
–Desculpe, amor. –pediu, após desgrudar os lábios dos dela. Sabia o quanto era difícil para ela demonstrar seus sentimentos, e força-la a dizer aquilo tinha sido um momento de fraqueza seu. –Por favor, abra os olhos, Temari. Olhe para mim.
Ainda envolta pelo abraço gentil de Shikamaru, ela abriu os olhos, devagar. Lá estava ele, tão próximo dela, a expressão serena, como se quisesse acalmá-la. Sua vontade inicial era de aproveitar aquela proximidade e torcer o pescoço dele. Também tinha vontade de abraça-lo e beijá-lo. Presa entre essas duas vontades, ela não se moveu.
–Se quiser que eu vá embora, vou entender.
–Não... não quero. – ela finalmente falou.
–Tudo bem. Não vou. – ele disse, sorrindo para ela, aliviado.
Ela apoiou a cabeça no peito de Shikamaru, as lágrimas rolando incontrolavelmente. Odiava demonstrar seus sentimentos, odiava demonstrar sensibilidade.
–Eu te odeio, Nara maldito... – praguejava entre as lágrimas.
Ele passou a mão por seus cabelos carinhosamente.
–Eu sei. Mas eu te amo, sua doida problemática.
Ela apertou o colete verde de Shikamaru, tentando se acalmar e puxá-lo para ainda mais perto. Respirou profundamente.
Ele fez com que Temari se sentasse ao seu lado, ainda envolvendo-a em seu abraço. Aos poucos, Temari se acalmava. E quando suas lagrimas finalmente cessaram por completo, ela o fitou:
–Por que fez tudo isso?
Ele deu de ombros.
–Sou apenas humano. Precisava saber.
Ela continuava olhando para ele, a testa franzida.
–Vai voltar para a sua vila agora?
–Se você quiser que eu vá, eu irei. – respondeu, tranquilamente.
–Pode... ficar?
–Você é quem decide quando irei partir.
Ela ponderou sobre aquelas palavras.
Shikamaru olhava para a imensidão de areia ao seu redor, e também procurava manter a calma. Ela o amava, afinal. Tudo estava bem. Tudo fazia sentido. Seu coração agora batia tranquilo.
–Quero que você fique.
–Então eu ficarei.
Ela deu um meio sorriso, e apoiou a cabeça no ombro do rapaz. Sentia o vento gelado batendo em seu rosto em contraste com o calor do corpo de Shikamaru, e enroscou-se nos braços dele um pouco mais.
Aquela proximidade o despertou. Logo procurou os lábios de Temari, e dessa vez, os dois se encontraram num doce enlace. Pela primeira vez, sentia algo além de desejo no beijo de Temari.
Devagar, ele rolou seu corpo sobre o dela, apoiando-se no chão de areia. Temari o abraçava com um carinho que não imaginava ser capaz de sentir ou demonstrar. Sentia-se como se Shikamaru a tivesse libertado da prisão emocional que ela mesma havia criado em torno de si, durante toda a sua vida. Admitir amá-lo a despertou para a vida. A verdadeira vida, que queria passar ao lado... dele.
Enquanto a beijava, Shikamaru sentia o desejo e o amor turvando seu raciocínio, mas pela primeira vez, não se importou. Ela era o perigo e a calmaria de sua vida, o temor e o amor. Temari era a única mulher capaz de completa-lo daquela maneira, e não poderia viver sem ela.
Ela era a contradição.
Ela era os dois lados da mesma moeda.
Ela era a única pessoa que ele nunca poderia entender.
Naquela noite, fizeram amor nas areias do deserto, iluminados pela lua e pelo sentimento que, finalmente, ambos se deixavam livres para sentir.
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