Línea - Os 10 Anciões
2 Pesadelos
Notas iniciais

A lua brilhava com grande esplendor, iluminando a relva e enfeitiçando os vagalumes que brilhavam apaixonados, numa serenata de amor. Dragan fez um chá medicinal anestesiante e dormiu como um bebê, roncando despreocupado. Alice estava deitada sobre o ventre de Luna, que ronronava e esquentava a pequena criança com o seu pelo macio. Heskan estava pensativo, mas logo pegou no sono. Tudo parecia bem, o vento suave trazia um conforte magnifico e a fumaça da fogueira espantava os mosquitos.
Já estava amanhecendo e podia-se escutar o cantos dos pássaros. A lua com todo seu resplendor se mostrou humilde e se pôs dando espaço para o sol nascer. Fulminante e magnifico, o sol de Línea iluminava a paisagem verde e cheia de vida. Um rugido enorme ecoou na caverna e todos acordaram assustados. Era Heskan que teria se assustado e batido a cabeça no teto da caverna ao acordar e dar de cara com um rato de duas cabeças, que a curta distancia parecia um Cérbero infernal. Todos caíram na gargalhada e Heskan, mais vermelho do que nunca, murmura algo e sai da caverna para um banho de sol.
O dia estava lindo. Era primavera e as flores coloridas davam a paisagem um tom alegre. Alice remexeu na mochila procurando umas folhas especiais para tomar banho e por pouco pegou as folhas ásperas, no exato momento lembrou que havia presenciado um Dragão ancião liberando uma baforada de fogo colossal. Pegou as folhas macias e desceu até o rio junto de Luna. As duas se limparam e brincaram na agua, se refrescando e bebendo aos gargalos. Dragan ainda mancava um pouco, mas sua poderosa mistura de ervas que havia aprendido com uma bruxa do norte fez um belo trabalho. Heskan voava no céu azul como uma andorinha que está voltando para casa depois de um rigoroso inverno. Ele se perguntou como aquela imensa criatura conseguia fazer tais movimentos com tanta sutileza. Dragan viveu com Heskan desde a sua infância. Numa manhã nublada Heskan encontrou um cesto de palha com um bebe menino e um colar de rubi escarlate. Havia uma cabra e uma mamadeira, que Heskan usou para amamentar Dragan, apesar de a cabra entrar numa crise de tremedeira toda vez que o dragão chegava perto para retirar o leite.
Dragan cresceu se alimentando de carne e seu cabelo foi ficando ruivo como à escama de Heskan. Os dois mantinham uma relação muito afetiva, algo que era impossível de se esperar já que os humanos extinguiram todos os dragões, pois consideravam tais uma ameaça à raça humana, já que dragões adoravam carne e atacavam vilarejos em busca de alimento. Heskan era o ultimo dragão existente e se sentia solitário todas as vezes que pensava sobre o assunto. Porem, ele sentia algo especial quando falava com Dragan, como se o seu coração pulsasse mais forte e todos os pesadelos de sua mente fossem embora. Dragan também se sentia muito solitário, pois não conhecia os pais e carregava um fardo muito grande em suas costas.
Dragan apanhava muito quando pequeno, pois ninguém aceitava o fato de ser criado por um dragão. Era rejeitado nos bares e a guarda imperial o interrogava diversas vezes para saber onde o ultimo dragão se encontrava. Porem, Dragan nunca revelara o segredo para ninguém, pois considerava Heskan como seu pai e daria a vida por ele, resultando em ser espancado e torturado totalmente despido em praça publica. Teve suas costas rasgadas por um chicote rabo de gato, seu cabelo raspado e foi chutado com botas de ferro, deixando hematomas grotescos pelo corpo todo. Ninguém sentia pena de Dragan, como se ele estivesse pagando os pecados dos dragões (se eles tivessem cometido algum). E ali se encontrava ele, a deriva, machucado, pisado, com seu orgulho esmagado. Passou três dias agonizando com os ossos da perna quebrados, as costas rasgadas e cheio de hematomas. Bebia a agua da chuva e estava magro de fome. Sentia-se perdido, perguntava a si mesmo o porquê de tudo aquilo e sem perceber uma pequena lagrima, contendo toda sua dor e angustia, escorreu em sua bochecha e ele pode sentir o gosto da dor em sua boca. Fechando os olhos vagarosamente, desistiu de sua vida e conseguia sentir a foice da morte sobre o seu pescoço, quando de repente sentiu um pé em seu peitoral, virando o seu castigado corpo e banhando seus olhos com a leve garoa. Sentou-se com o resto de suas forças e lá estava ela, de aparência exótica, olhos castanhos, cabelos grisalhos longos, lisos e um sorriso que por um momento o fez ter esperanças. Vestia um manto preto e calçava botas de couros pretas. Segurava na mão direita um pote de ferro cheio de agua e na mão esquerda uma cereja um tanto quanto estranha.
— Coma. — Disse a misteriosa moça.
Dragan estava tão ferido que não conseguia mastigar, pois estava com o maxilar dolorido dos chutes. A moça então coloca a cereja na própria boca e mastiga sem engolir. Pega uma folha qualquer no chão e cospe a cereja na folha.
— Aqui está, é só engolir.
Dragan sem questionar, engole a cereja que, ao passar pela garganta , libera um hormônio misterioso. Dragan sente seus olhos queimarem e uma dor terrível no estomago, deita no chão involuntariamente e começa a agonizar. Não consegue se mover, pois seus ossos estão muito fraturados. Então, como se ele fosse banhado no berço dos deuses, sentiu uma revigoração enorme, como se pudesse mudar o mundo com suas próprias mãos.
— Esta cereja é de uma cerejeira encantada muito rara, você me deve essa. — Disse a moça num sorriso misterioso.
Dragan então começa a chorar sem saber o porquê, e estranhamente suas lagrimas começaram a evaporar antes de chegar à boca.
— Muito obrigado, você tem a minha vida. — Disse Dragan um pouco espantado pelas lagrimas evaporando.
— Venha comigo, você precisa de cuidados. — Disse a moça dando uma olhada nos ferimentos.
— Estou com as pernas quebradas e as costas rasgadas. — Responde Dragan gemendo.
— Então espere aqui, irei buscar algo para te transportar.
E a moça parte floresta adentro deixando Dragan no chão, que se deita e observa o céu nublado agradecendo os deuses por terem enviado aquela jovem moça. Ele passa a língua em sua boca para retirar o sangue e cospe no chão. Para sua surpresa a sua saliva evapora antes de tocar o solo lamacento. Ele olha para seu corpo e percebe que estava nu, se tornando vermelho como pimenta, pois nunca tinha ficado nu diante de uma mulher cara a cara. Ele rela em seu corpo e sente que esta muito quente, seus hematomas sumiram num passe de magica o deixando perdido. Será este o efeito dos hormônios produzido pela digestão da cereja? Então ele escuta o barulho de gravetos sendo quebrado e percebe que é a jovem moça trazendo consigo um carrinho de mão.
— Venha te ajudo a sentar, vai doer um pouco então morda este pedaço de pano.
Sem demoras, Dragan usa todas as suas forças e se joga no carrinho dando um gemido que é abafado pelo pedaço de pano.
— Obrigado. Qual seu nome? — Pergunta Dragan ofegante, retirando o pano da boca.
— Me chamo Blair e moro nas redondezas, te levarei para casa.
Dito e feito, Dragan é carregado pela jovem que faz pequenas pausas, pois não esta acostumada a carregar peso. Chegando à casa de Blair, Dragan é colocado em uma cama virado de bruços e tem seus ferimentos costurados, suas pernas imobilizadas e seus ossos colocados no lugar.
— Te devo minha vida, obrigado por tudo o que você tem feito por mim. — Disse Dragan de cabeça baixa.
— Bobinho! Tudo nessa vida tem um preço. — Afirma Blair com um sorriso simpático oferecendo um copo de água.
— Não tenho dinheiro, apenas este colar de rubi e meu orgulho foi quebrado em pedaços. — Retrucou Dragan.
— Homens... Homens... Sempre ingênuos! — Disse Blair se aproximando lentamente de Dragan levantando seu queixo e beijando sua boca, paralisando seu sistema nervoso completamente.
As veias de Dragan saltaram e seu sangue começou a esquentar. A água do copo que Dragan segurava começou a ferver e evaporar. Assustado e paralisado Dragan não entendeu o que aconteceu enquanto Blair caminhava lentamente até a estante e pegava um pequeno tubo de vidro tampado com uma rolha. Caminhou dando uns pulinhos e cantarolou até um armário. Retira uma seringa e diz calmamente caminhando até Dragan, com os materiais em mãos.
— Dragan, Dragan... Não preciso do seu dinheiro, nem de sua vida. Quero apenas o que se encontra dentro de você e que nenhum lixo humanóide consegue perceber.
Dragan desnorteado e confuso tenta jogar e acertar o copo na bruxa que facilmente desvia.
— Na na na ni na não garotinho, essa água fervendo poderia ter causado serias queimaduras nesse rostinho lindo, e você não iria querer isso não é ? — Disse Blair tirando o manto e sentando ao lado de Dragan.
— Sabe Dragan, neste nosso mundo só existem três coisas capazes de tornar uma pessoa imortal, resistente a todas as doenças, pragas e venenos, nunca envelhecendo. Morrendo somente se tiver o coração queimado. — Afirmou Blair
— E estas três são:
— O néctar da pessegueira encantada, protegido pelos gigantes das montanhas glaciais.
— A lágrima do Cérbero, retirada do próprio nos confins do inferno.
— E, por último, mas não menos importante... O sangue de um dragão. Disse Blair excitada, enfiando a seringa precisamente na artéria carótida (uma das mais importantes do corpo localizadas no pescoço, responsável por levar o sangue do coração direto ao cérebro), retirando uma porção de sangue draconiano de Dragan.
— Esse seu colar também é algo muito precioso, posso sentir um poder muito forte cintilar nele.
O sangue de Dragan rapidamente derrete a agulha de ferro e a dor da paralisia afeta a sua visão.
— Não se preocupe, o beijo de uma bruxa não lhe fará nenhum mal, só irá te foder um pouquinho, hihihi! — Disse Blair, passando sua afiada unha na garganta de Dragan, dando um beijo em sua bochecha e libertando o mesmo da paralisia após guardar o pequeno frasco na estante. Dragan desmaia e quando acorda desfere um soco em algo peludo e fofo, e rapidamente sente algo macio e pesado acertando sua cara. Era Luna trazendo-o de volta a realidade.
— Também está tendo pesadelos não é Dragan? — Perguntou Heskan
— Eu vi o meu passado. Não, eu não vi, eu vivi. Eu senti a mesma dor que eu senti anos atrás, e de novo o colar aparece nos sonhos.
— Espere, esse rubi.... Eu também fui abandonada e deixada somente com uma jóia. — Afirmou Alice excitada, mostrando a todos o colar de safira que ela guarda na mochila.
— Fui criada pelos tigres das montanhas, e pelos outros animais presentes.
— Isto explica o porque de não ter medo de mim quando me viu pela primeira vez, e de conseguir controlar aquele falcão peregrino tão facilmente. — Afirmou Heskan.
No momento em que Alice toca no pingente de safira, Luna se arrepia e como um raio entra em posição de defesa. Todos olham para Luna e espantados dizem:
— SEU PELO ESTÁ BRILHANDO!
As listras azuis de Luna cintilavam como o oceano e também espantada, Luna retrucou:
— SEUS OLHOS!
E para a surpresa de todos, os olhos azuis de Alice também cintilavam com a mesma intensidade.
— Dragan, toque no seu pingente! Agora! — Disse Heskan angustiado.
Quando Dragan tocou o pingente, seus olhos castanhos passaram para uma cor escarlate tão intensa que poderia se enxergar o próprio inferno sendo queimado. Então Dragan olha para Heskan e suas escamas começam a brilhar num vermelho intenso, deixando o ar turvo, como se fosse derreter o próprio ar. E com um olhar preocupante Heskan diz em voz firme:
— Merda, se é o que eu estou pensando, precisamos visitar um oráculo, temos apenas 12 meses antes da destruição de planeta.
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