Línea - Os 10 Anciões
3 O Ligre Branco Régio
Notas iniciais

Alice resmungava enquanto abanava seu rosto inchado e vermelho com suas delicadas mãozinhas brancas. Dragan amassava cuidadosamente algumas folhas roxas de malva (planta medicinal contém ácido múcico, que ajuda a aliviar a irritação da pele, sem causar alergias). Ponderadamente aderiu um pouco de gordura de coelho branco élfico na mistura criando uma pasta roxa e viscosa. A azarada Alice teria dado de cara com uma nuvem de mosquitos vampíricos, um minúsculo animal que quando se encontra na época de desova, é atraído por sangue fresco. Por serem vampíricos, uma vez que começam a sugar o sangue não conseguem parar e explodem liberando os ovos no ar, que aderem na primeira superfície que tocarem, criando raízes. O problema é que, ao criarem essas raízes, eles liberam uma neurotoxina que paralisam a vítima, se tornando parasitas sugadores de sangue até eclodirem e formarem uma nova nuvem de mosquitos, procurando uma nova vitima para depositar seus ovos.
Heskan carbonizou os ovos do rosto de Alice com uma simples expirada de fumaça pelo nariz. Deixando a mesma um pouco zonza, mas logo recuperando a consciência.
— Agora entendo como as abelhas se sentem — Disse Alice ainda desnorteada.
— Teve sorte de Dragan estar perto para te ajudar. Neste momento você estaria no chão agonizando de dor sendo sugada por uns ovinhos esquisitos. — Refutou Heskan
— Silencio isso vai doer um pouco no inicio, mas logo ira parar de arder. — Afirmou Dragan trazendo consigo o pote de madeira com a mistura roxa.
Dragan aplica na bochecha de Alice a mistura viscosa, que solta um leve gemido.
— Essa mistura contem um ácido que neutraliza a toxina e ajuda a conter a inflamação — Explicou Dragan aplicando a pomada caseira.
— Tudo isso é culpa de você Heskan! Se não tivesse sido tão rude com Luna eu não teria que sair correndo atrás dela. Agora se sabe lá onde ela se meteu. — Disse Alice irritada.
— Qual é gente, foi apenas uma brincadeira. — Respondeu Heskan despreocupado.
— Você sabe como ela se sente Heskan, tendo que se isolar de tudo, sendo a ultima de sua espécie... — Retrucou Dragan
— Ultima de sua espécie? — Perguntou Alice confusa.
— Todos os 10 anciões não são animais comuns vistos nos dia a dia. — Explicou Dragan
— Luna não é uma Tigresa qualquer. Ela é um Ligre Branco Régio. — Completo Heskan
— Ligre Branco Régio? — Perguntou Alice confusa.
— Sim. Do cruzamento de um leão com uma tigresa, surge uma nova poderosa raça, o ligre. Seus genes especiais a transformaram em um animal fabuloso. — Disse Heskan com um ar triunfante.
— Genes especiais? De onde você e os outros onze anciões vieram? — Perguntou Alice animada.
— Isso é algo que eu não posso revelar minha pequena. Mas quem sabe, se você se comportar, um dia saberá a verdade. — Disse Heskan voltando-se para a nascente e bebendo um pouco d’agua.
— E o que aconteceu com a juba de Luna? Perguntou Alice curiosa.
— Muito tempo atrás os 10 anciões foram perseguidos e Luna teve seu couro cauterizado... — Disse Heskan com um olhar triste.
Alice estava curiosa e mil perguntas fluíram em sua cabeça. Porem se calou ao ver que os olhos de Heskan já não demonstravam nenhuma alegria.
Heskan estava cansado e percebeu como todos estavam cabisbaixos. Passou uma hora procurando pedras grandes, colocando-as no rio e criando uma espécie de represa temporária.
— O que você esta fazendo Heskan — Perguntou Dragan curioso.
Dando um passo para trás, Heskan lançou uma poderosa labareda de fogo na água, fazendo com que a mesma esquentasse num piscar de olhos. Entrou vagarosamente em sua mais nova banheira e se deliciou.
— Venham antes que os mosquitos apareçam. — Disse Heskan respirando calmamente.
Já dentro da banheira, Alice intrigada pergunta para Heskan:
— Como você consegue esquentar a água lançando fogo diretamente sobre ela?
— A maioria dos dragões cospem fogo porque possuem uma glândula na região torácica chamada glândula lumieira. Que produz gás metano, que ao ser liberado em alta pressão se incendeia automaticamente. — Explicou Heskan.
— No meu caso, por ser um ancião, a minha glândula lumieira não produz gás metano, e sim gás hidrogênio. A violenta pressão no interior da glândula faz com que os átomos de hidrogênio se juntem para formar átomos de hélio. Essa união também libera luz e calor, mas numa escala incomparavelmente maior. O mesmo processo de combustão do sol.
— O que?! Você consegue expelir a mesma chama do sol? Você não pode ter vindo do reino de Línea! De onde você veio Heskan? — Perguntou Alice olhando profundamente nos olhos do já muito vivido dragão.
Heskan permaneceu em silencio e continuou a se banhar nas aguas quentes de sua confortável represa.
Passaram-se 3 horas desde que Luna fugira do bando e o céu estava se tornando escuro novamente. Os animais indefesos já estavam entrando em suas tocas e as feras estavam deixando seus ninhos e covis. Todos estavam exaustos e preocupados com Luna, pois apesar de conseguir derrubar um elefante com apenas uma patada, a guarda real não perderia a oportunidade de aprisionar um ancião e tortura-lo para conseguir informações.
Caminhavam pela floresta em direção à montanha, pois o próximo ancião supostamente estaria escondido lá. Alice andava com uma tocha em plena luz do dia, pois tinha pegado trauma dos mosquitos vampíricos. Dragan cortava os cipós e plantas em seu caminho com sua espada, trocando de turnos com Heskan que apenas andando esmagava qualquer coisa em seu caminho. Alice começa a suar frio, mas não comentou nada com ninguém.
Estavam chegando ao fim da floresta quando Alice apontou para uma arvore e gritou:
— Olhem aquela arvore, algo arranhou ela!
Heskan colocou sua garra em cima dos arranhões e só pensou em um animal capaz de realizar tal proeza. Luna.
— Creio que Luna percebeu que você estava seguindo ela. Ela deixou sinais para que você pudesse segui-la. Só que não esperava que você fosse de encontro com uma nuvem de mosquitos vampíricos. — Afirmou Heskan
— Vamos seguir os sinais e veremos aonde isso irá nos levar. — Sugeriu Alice
E então o bando embrenhou-se floresta adentro seguindo os rastros deixados por Luna, tendo cuidado para não se confundir com marcas territoriais das feras locais. Heskan assume o seu turno para esmagar matos e devora algumas frutas que consegue alcançar. O ar está muito húmido e a tocha de Alice apaga.
— Esperem, tenho que acender minha tocha novamente. — Disse Alice tocando o ombro de Dragan.
— Que saco, não podemos perder tempo. — Disse Heskan irritado.
— Espere Heskan. Lembre-se que você é o culpado disto tudo. — Retruca Dragan.
— Tudo bem, tudo bem! Mas vamos logo. — Disse Heskan sentando e expirando lentamente em tom de decepção.
Alice batia duas pedras criando faíscas na esperança de acender novamente a tocha com gordura de coelho. Rapidamente a chama estava viva novamente e Alice sorriu dizendo:
— Consegui! Agora podemos continuar andando. — Disse Alice satisfeita.
Dragan olhou para Alice e pulou em seu ventre, derrubando bruscamente a mesma no chão. Ela sente um bafo quente passar perto da sua orelha e algo caindo e rolando ao seu lado. Esfrega os olhos e vê vários vultos de coloração cinza e branca ao seu redor. Era uma matilha de lobos.
— Corram! — Gritou Dragan.
O animal rosnava e firmava suas garras no chão. Heskan não podia fazer nada, era um dragão e estava no meio de árvores imensas. Não conseguia impulso suficiente para chegar ao animal e se liberasse uma baforada acabaria incinerando Alice e Dragan. Heskan então morde o calcanhar de Dragan que está segurando Alice e o joga em seu pescoço. Num simples bater de asas, Heskan desnorteia a matilha e de cima das árvores, lança uma baforada curta, mandando os animais famintos de volta para o covil.
Apressadamente Heskan pousa e ordena que todos chequem se estão machucados. Estava com pressa, pois sua localização estava comprometida depois de ter voado acima das árvores e a fumaça das árvores queimadas era um alvo fácil para os guarda e outros curiosos. Seguiram floresta adentro. Dragan mancava por causa da mordida em seu calcanhar, mas não reclamou porque aquilo salvara sua vida.
Chegaram ao fim da floresta e se encontravam em uma planície. Estavam perdidos e o sol estava se pondo. A temperatura de Alice começou a subir depois do choque de ser quase morta por um lobo. Heskan sabia que próximo dali se encontrava um forte e uma decisão errada custaria sua vida. Forçou sua visão e a aproximadamente três quilômetros dali se encontrava uma caverna.
— Vamos, encontrei uma caverna, passaremos a noite lá e tomaremos as decisões com calma.
Dragan resmungava e carregava Alice nas costas já que a mesma apresentava uma febre estranha. Alice estava quente e sua respiração estava lenta e pesada. Apertava firmemente o peito de Dragan, que conseguia sentir o sofrimento da pobre garotinha. Agora precisavam ajudar Alice e procurar Luna ao mesmo tempo.
— Por que temos... Que perder tempo... Andando... Se podemos... Voar. — Disse Alice totalmente sem força.
— Estamos em uma planície perto de um forte da Guarda Imperial, podemos ser vistos e entrar em uma batalha com uma criança adoecida não é muito recomendado. — Respondeu Heskan.
No momento em que Heskan termina de falar, Dragam sente algo quente escorrer em seu pescoço. Quando olha para seu peito, se encontra banhado em sangue.
— Mas que merda é essa! — Gritou Dragan colocando Alice no chão.
Alice havia vomitado uma boa porção sangue e seus olhos estavam perdendo o brilho azulado. A pele já não estava mais quente e ela mal conseguia respirar. Seu colar de safira já não cintilava com a mesmo vigor. Luna estava em perigo.
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