Línea - Os 10 Anciões
8 A esperança de Heskan

Adelheid ainda sobrevoava o céu nublado em sua vassoura enquanto cortava as nuvens ao meio com suas pequenas mãozinhas. Deixava um rastro muito bonito e ela adorava fazer isto desde que era criança. Blair sempre lhe ensinou a aproveitar os pequenos momentos e de certa forma, estar em harmonia com a natureza fazia ela se sentir muito melhor. Algo que ela andava precisando devido ao fato de ter que lidar com os pensamentos e pesadelos de sua mãe sendo queimada viva.
Avistou sua cabana e inclinou levemente o cabo da vassoura, se preparando para aterrissar. A aterrissagem teria sido realizada com sucesso se não fosse o fato de um pássaro ter ido de encontro ao seu rosto, acarretando na queda da jovem. Adelheild acabou sendo salva por uma árvore que ela mesmo teria plantado quando pequena e agora estaria grande o suficiente para amortecer o impacto de seu tombo. A natureza recompensou sua gratidão.
— Ai! Sou tão azarada que consegui ir de encontro a um passarinho na imensidão deste maravilhoso céu azul. — Pensou Adel retirando da árvore um cacho de ameixas amarelas.
Se ajeitou levemente no galho e mordeu uma ameixa. Ficou ali mesmo meditando e pensando na vida. Já fazia um bom tempo em que ela não subia em cima de uma árvore, pois tinha o costume de cair delas. Observava como as formigas-incendiárias trabalhavam arduamente para estocarem comida até o inverno. As formigas-incendiárias carregavam folhas cortadas até o formigueiro e sua mordia ateava fogo nas folhas fazendo com que elas queimassem rapidamente, agilizando o processo de decomposição. As folhas decompostas atraem os fungos, e são eles que servem de alimento para as formigas.
— Que ameixa deliciosa — Exclamou Adel falando consigo mesma.
Não deu tempo de colocar a próxima ameixa na boca. Adel sentiu a mão que dava equilibro se amolecer e de repente observou os galhos passarem sobre seus olhos como vulto. Tudo ficou escuro. Levou um tombo enorme e dormiu ali mesmo na grama gelada.
***
Ele sentiu o sol acalorar suas escamas enquanto a vento gelado o colocava em êxtase. Suas garras partiam o ar enquanto sua asa escarlate deslumbrava seu esplendor. Heskan parecia uma andorinha voltando para casa depois de um rigoroso inverno.
— Olha lá, o Heskan ta pensando na Magda de novo! — Disse Zerion caindo na gargalhada enquanto rodopiava ao redor de Heskan, já irritado.
— O Heskan ta apaixonado, o Heskan ta apaixonado! — Disse Verion rodopiando na direção contrária ao seu irmão.
Heskan bateu suas asas cessando o voo e encarando os dragõezinhos que pareciam duas lagartixas perto dele. Algo óbvio pois eles teriam um terço de seu tamanho.
— Ih, sujou! — Disseram os gêmeos olhando para Heskan e se jogando em queda livre.
Eram dragões pequenos e suas escamas eram como prata polida, que refletiam o sol de forma fascinante. Os olhos dos pequenos reptilianos eram como vinho. Dotados de um biotipo esquelético, eram ágeis e energéticos ao extremo.
— Acalme-se amigo, são apenas crianças. Sei que tudo isso que está acontecendo é difícil de acreditar mas temos que manter a calma e nos escondermos, por enquanto. — Disse Asgorr encostando suas mãos geladas no ombro de Heskan.
Existiam apenas duas criaturas que conseguiam tocar o duro coração de Heskan. Sua amada Magda e seu melhor amigo Asgorr, o ''Lorde do gelo''. Asgorr possuía escamas azuis e gélidas. Era capaz de congelar qualquer coisa com sua poderosa baforada.
— Está começando a entardecer, temos que encontrar um esconderijo logo, se acharem os filhotes tudo estará perdido. — Disse Heskan continuando a voar.
— Magda nos espera em uma caverna ao norte, me sigam! — Bradou Asgorr batendo suas asas e cristalizando as nuvens. A temperatura de seu corpo era muito baixa.
Voaram três quilômetros ao norte e desviaram por um caminhos a nordeste, pois teriam encontrado um grupo de vigilantes. Os dragões estavam sendo caçados e extintos da face da terra.
Chegando ao destino, todos adentraram a caverna e se juntaram ao redor de uma fogueira. La estava ela, uma dragoa-serpente de escamas albinas que pareciam neve. Os olhos rosados como uma flor de cerejeira. Possuía Olhos de tigre, corpo de serpente, patas de águia, chifres de veado, orelhas de boi, bigodes de carpa e garras longas. Tudo revestido com lindas plumas brancas em suas bases.
— Qual a situação em que nos encontramos? — Indagou Maga se enrolando ao lado da fogueira.
— Contando com a gente, creio que restaram apenas 10. — Disse Asgorr num tom sério.
— Se continuar assim, o a extinção de nossa raça será inevitável. Você sabe o que fazer se formos pegos, não é Heskan? — Disse Magda olhando profundamente nos olhos de seu amado.
— Se algo acontecer, lutarei até a morte. — Disse o dragão estufando seu peito.
A caverna permaneceu em total silencio.
— É isso aí cara, nós também iremos morder uns rabos! — Disse Verion batendo na cabeça de Zerion.
— Hey, volta aqui. — Disse Zerion pulando atrás de seu irmão dentro da caverna.
— É, parece que mesmo no fim a juventude ainda continua a brilhar. — Disse Magda sorrindo sinceramente pela primeira vez em anos. Nem mesmo Heskan conseguiu resistir e acabou sorrindo.
— Partiremos quando a lua estiver sobre nossas cabeças. — Disse Heskan indo pensativo para a entrada da caverna.
Magda sabia que as emoções de Heskan estavam a flor da pele. Ele teria de lidar com o fato da extinção de sua espécie. Magda era o último dragão fêmea e era sua ultima esperança.
Heskan pôde ouvir um ruído. Abriu os olhos e lá estava Alice com uma expressão emburrada.
— Morreu pela décima vez, garotinha. — Disse Heskan riscando mais um palitinho com sua garra na parede.
— Cansei desta porcaria, eu estou fazendo tudo direitinho e ele sempre acorda! — Disse Alice cruzando os braços.
— Você deve estar esquecendo de algum regra que eu te expliquei. Monte uma estratégia e continua tentando, você não pode errar hoje a noite. — Disse Heskan voltando a dormir.
***
A atmosfera da caverna estava tensa. Alice estava levando a sério a brincadeira de pegar a pedrinha. Não poderia errar na hora da missão e estava dando o melhor de si. Foi até o gramado e pegou uma outra pedra. Respirou fundo, inclinou os joelhos e começou a andar vagarosamente. Respirava lentamente pelo nariz e um de repente algo iluminou sua mente. Olhou mais atenta ao redor e pode perceber que Heskan teria colocado pequenas folhas secas no chão.
— Te peguei dragãozinho malandro! — Pensou Alice enquanto andava e se esquivava das folhas.
Alice então lembro que o olfato dos dragões eram bem apurados e se encostou na parede. Andou de lado até chegar na pedra. Trocou um pedra por outra e voltou para a parede. Jogou a pedra que restou por cima de Heskan, fazendo o mesmo se virar procurando Alice na direção oposta. Percebeu que a pedra continuava no mesmo lugar e estava prestes a dormir quando sentiu algo tocar sua calda.
— Aqui está! — Disse Alice abrindo a palma de sua mão mostrando a pedra.
— Mas o que ?!? Como você conseguiu? — Perguntou Heskan perplexo.
— Apenas fiz o que você mandou, bobinho. — Respondeu Alice mostrando a língua.
— Muito bem, você completou o seu objetivo, agora vamos a segunda fase. — Disse Dragan batendo com o galho na cabeça de Alice.
— Ai! O que vamos fazer agora? — Murmurou Alice.
Dragan bateu novamente na cabeça de Alice, fazendo a mesma gritar de dor.
— Sua tarefa agora é desviar de meus golpes por um hora. Corra pequeno inseto.
***
Pôde sentir pequenas patinhas em seu peito. Abriu os olhos lentamente e sua vista estava completamente embaçada. Enxergou algo marrom e peludinho segurando algo redondo. Coçou os olhos e percebeu que era o esquilo que sempre vinha pegar comida ao redor no fim da tarde.
— Minha cabeça dói! Minha mão dói! O que aconteceu amiguinho? — Disse Adelheid para o animalzinho que olhou para a copa da árvore.
— Pelo jeito eu levei um belo tombo. Sou campeã nisso. — Sussurrou estalando os dedos, fazendo aparecer sua vassoura.
Entrou em sua cabana, retirando as roupas e seu manto negro. Sua pele era muito branca, os ombro eram pequenos e seus seios podiam ser cobertos pelas palmas das mãos. Pegou uma toalha e foi até o riacho onde se limpou e drenou seu estresse. A água estava gelada e aliviava um pouco a dor da picada. Não é qualquer dia que a macia pele da jovem era recebida com um dos mais doloridos venenos do reino de Línea. Se enxugou parte por parte e colocou uma calça de tecido leve preto, botas de couro também pretas e jogou seu manto por cima. Montou em sua vassoura e seguiu na direção leste, precisava encontrar certa pessoa.
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