Lágrima Escarlate
3 Tabu
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Marine sempre foi controladora. Controlava Alícia quando morava com ela, controlava o marido, controlava o filho. Era inadmissível que perdesse as rédeas de sua vida e tivesse que recorrer à sua irmã e isso a deixava com muita raiva de si mesma.
Porém, deixou de lado os pensamentos e foi até o computador para distrair um pouco. Estava envolta às notícias passageiras e desimportantes, quando ouviu a porta abrir. Era Dylan, conhecia bem a forma de cada um entrar em casa. Abandonou seu precário entretenimento e desceu para falar com o filho.
Chegou na cozinha e lá estava o rapaz procurando algo na geladeira. Ficou observando-o por um momento recostada no batente da porta.
– Estou ainda em fase de crescimento. Além disso as meninas me dão trabalho, então, tenho que manter as forças. — Riu notando que Marine trazia sua iônica expressão de reprova, fitando-a com seus olhos verde escuro, quase castanhos.
– Pegue algo para comer e venha até o escritório, precisamos conversar. — Ordem inquestionável, ele bem sabia
O autoritarismo era marcante da mãe. Ela sempre se mantinha um tanto distante, sem muitas carícias ou risos. Dylan julgava que provavelmente o comportamento frio fosse por ela ter crescido sozinha, já que era filha única e os pais morreram quando ainda jovem. Pessoas que vivem sem pais e irmãos tendem mesmo a ser assim, frios e distantes.
Com Wallace ela era um pouco mais carinhosa. Às vezes Dylan os pegavam rindo e participava um pouco com eles. Mas não raramente a mãe dava uns toque sutis de que o menino estava sendo inconveniente, e como ele que tinha um tato fino para as entrelinhas, os deixavam a sós. Ele gostava que os dois se davam bem e de certa forma, ele também se dava muito bem com eles. Ainda que um tanto incompatível com a mãe, tinha uma grande admiração por ela.
– Uau! No escritório. Deve ser algo sério. Vai me deserdar? — Mas a fala solta não encontrou resposta. Marine já havia se retirado.
Não preocupou com o assunto e continuou a arrumar o lanche tranquilamente. Após um tempo, chegou ao escritório e se pôs à mesa, colocando sobre ela um copo de café com leite, porções de bacon e algumas fritas. Estava sem camisa, deixando desnudo seu tórax e braços bem delineados
Marine estava a balançar na cadeira atrás da mesa saboreando um cigarro em uma cigarrilha de ouro. Depois de uma tragada, pouso o cotovelo à mesa, elevou a cabeça e esbaforiu uma longa nuvem de fumaça.
– Outro dia notei um clima entre seus amigos... Oliver e Raul… achei estranho…
– É, eles estão namorando. Algum problema com isso? — Demonstrou certo irritamento com a insinuação inconveniente.
– Acho esquisito, mas fazer o que, cada um tem suas opções… Mas tudo bem, eu só comentei para ganhar tempo e encontrar as palavras para começar o assunto que te chamei aqui. — Deu outra tragada.
Apesar de ela tentar se mostrar constrangida, Dylan a notou extremamente tranquila. Senhora de si como sempre fora.
– Palavras não é algo que costuma lhe faltar, senhora Lefevre. — Incitou-a com o sobrenome para parecer uma autarquia de melhor gabarito. — Mas eu lhe ajudo. É sobre os perrengues que vocês estão tendo no escritório? Pelas conversas que tem pelos cantos com meu pai vejo que as coisas não andam bem. — Jogou à boca algumas porções de bacon e fritas, já logo acompanhadas de um gole de café com leite.
– É... você puxou a mim, é esperto. — Trouxe um riso um tanto sínico — Sim, estamos com alguns problemas e por conta disso você vai ter que passar uns dias fora. — Fixou no filho para medir-lhe a expressão.
– Eu vou passar uns dias fora?! Que legal, vou estar sozinho? Eu nunca viajei sozinho. — Comentou com sorriso sarcástico — Bahamas! Eu gosto de lá. Lá tem meninas bonitas com seios grandes e eu sempre pego elas.
– Calma mocinho, não é uma viajem de férias. E você não vai estar sozinho. — Fitou fundo os olhos do filho.
A fala lhe soou um tanto repreensiva.
– Uhmmmm, então terei um guarda-costas, ou uma babá, quem sabe.
– Você adora uma ironia…
– Tenho a quem puxar.
– Mas agora falando sério. Você vai estrar com sua tia. — Olhou profundamente o filho para ver sua expressão. Ela sabia que iria causar certo espanto ao garoto, afinal, ele não fazia a mínima ideia de que tinha uma parente desse grau.
– O que? — Ficou sério. — Até onde eu sei tanto você é filha única e meu pai só tem dois irmãos. Que história é essa de tia? — Deixou os comestíveis por sobre a mesa e se na boca alguma coisa tivesse, por certo teria engasgado.
– É, eu nunca te falei dela, mas eu tenho uma irmã e antes que você pergunte, nossa história não vem ao caso agora. — Falou decidida e não dando espaço para replicações. Ela realmente não queria falar daquele assunto que tanto a desagradava. — O fato é que você vai estar com ela por uns dias… meses.
– E como ela é? Onde mora? — Esticou o corpo por sobre a mesa, como se fosse subir nela para estar o mais próximo possível de sua mãe na tentativa de arrancar dela as palavras.
– Se chama Alícia, mora em Bumbai, na Índia. — Respondeu calma enquanto sentia o prazer da fumaça lhe queimar a garganta e ser aspergida pelas narinas, parecendo degustar a ansiedade do filho.
– O que? Você quer que eu vá para Índia e com uma mulher que eu nem conheço? — Não conseguia esconder a ansiedade. — Nem meninas tem lá, elas usam burca.
– Burca são as muçulmanas, as indianas usam sari. — Falou rindo da ironia do filho. — Mas como eu disse, você não vai estar de férias e nem todo lugar que você vai é para pegar garotas. Vai estar com Alícia até que eu e teu pai concertamos as coisas, depois você nos encontra e retomamos nossa vida. — Ajeitou-se na cadeira e descansou o corpo para trás, cruzando as pernas entre mais uma tragada.
– Mãe, eu não conheço muito da Índia, mas sei que é um lugar atrasado e eu não vou me adaptar em um lugar daqueles, onde as pessoas andam em vacas. — Tentou se apegar nas justificativas possíveis para escapar das intenções da mãe
Ainda se fosse as Bahamas...
– Meu Deus, eles não andam em vacas lá. E Bumbai é uma cidade evoluída, você vai se dar bem. — Balançou a cabeça em reprova à falsa ignorância do filho.
Ele pensou por um tempo, tentando assimilar as ideias. Sabia que seria muito difícil convencer a mãe a não o mandar para lá. Quando ela vinha com uma ideia, já havia tomado todas as providências para que obtivesse êxito em colocá-la em práica. Alícia apenas o observava. Talvez risse em seu interior
– Esta minha tia, eu nem a conheço. Como ela é? Como é a vida dela lá?
– Eu não sei dela Dylan. Não sei da aparência, não sei como vive. Só sei que é mais nova que eu. Ela tem 36 anos, deve ter cabelos pretos e provavelmente ainda muito bonita.
– De onde apareceu? Que foi que aconteceu? Como é isso… me explique. — Quis compreender. Tentou que Marine o fizesse compreender. E ele se angustiava ainda mais observando o semblante calmo e seguro da mãe. Ela com certeza não o ajudaria em nada para elucidar os fatos.
– Bem, nós vivemos juntas por um tempo, depois nos perdemos. A vida quis assim. Mas não quero falar sobre isso, não vem ao caso. — Insistiu em encerrar o assunto. — Além do mais não há outro jeito mesmo. A passagem já está comprada e você viaja amanhã. — Dylan conhecia bem o tom de voz. Não havia o que fazer para mudar a situação.
– Porque vocês brigaram?
– Bobagem, meu filho. Tivemos problemas com herança, ela não aceitou muito bem os termos. E você me conhece, eu faço tempestade em um copo d'água. — Riu docemente, impossível de dar dúvida à sua fala. — Mas nada importante. — Concluiu.
Dylan conhecia muito bem sua mãe. Sabia quando um assunto não a agradava e tinha certeza que falar de sua irmã era algo muito indesejável para ela. Ele não iria conseguir aprofundar no assunto. A curiosidade o corroía. Talvez o pai pudesse elucidar as coisas. Mesmo sabendo que ele nunca fora muito propenso em falar de algo que desagradasse Marine, não custava tentar.
– E meus amigos? Oliver, Raul, Nicole, Jaque...? — Tentou protelar mais uma vez, na vã ilusão de que sua mãe pudesse lhe trazer uma luz sobre suas agonias. — E quando vocês acertarem as coisas, será em outro país? Eu nunca mais voltarei aqui? Minha nossa mãe, quanta coisa.
– Dylan. — Disse sóbria e pausadamente, arqueando o corpo para mais próximo ao menino para que tua fala fosse convincente e segura. — Sei que está tudo meio atropelado, mas eu sempre acertei as coisas e dessa vez não vai ser diferente. Você já tem maturidade para compreender, afinal, é muito maduro para tua idade e consegue sim fazer este sacrifício por um tempo. Eu o farei ser o mais breve possível, tem minha promessa. — Concluiu com seu peculiar sorriso sedutor.
O rapaz ficou por um tempo sem nada dizer, talvez tentando encontrar mais argumentos para desfazer as pretensões de sua mãe. Passou as mãos em seus cabelos castanho claro e depois perguntou:
– E meu pai? O que acha disso? — Ele já sabia a resposta.
– Ele está de acordo comigo. — Expressou segura, balançando-se na cadeira enquanto outra nuvem de fumaça branca subia ao teto.
– Claro, ele sempre está de acordo com você… todos estão. — Concluiu desolado. Ainda que ele apreciasse o domínio de Marine, acabava frustrado por nunca a fazer mudar de ideia.
– Ele está de acordo porque sabe que eu estou com a razão; que faço as cosas certas e procuro sempre o que é melhor para nós. — Comentou com a autoridade peculiar, tentando passar tranquilidade. — Agora vá tomar banho e depois almoçar, se é que vai conseguir depois dessas porcarias que comeu. Eu vou sair, não o acompanharei.
Dylan ficou por um tempo sem nada dizer contemplando sua mãe. Ela trazia no semblante seu riso enigmático. Às vezes ele pensava ser sarcástico, de escárnio mesmo. Às vezes pensava ser a expressão de alguém superior, que sabe o que faz e tem as decisões acertadas a tomar. Ele a tinha como uma rainha inabalável.
– Índia e uma tia… Meu Deus. — Com um leve riso na face, levantou da cadeira enquanto a mãe apagava o cigarro em uma cigarreira de prata.
Dylan deixou o escritório e sua mãe. Ainda meio atordoado, foi para o seu quarto tomar um banho e digerir as últimas notícias. Ele, que preveria os ares e as garotas das Bahamas, ir para a Índia não poderia ser mesmo agradável, ainda mais para passar lá cinco meses. Além do mais, com uma tia que ele não conhecia e, até há poucos instantes, sequer sabia que existia.
De qualquer modo, envolto em seus pensamentos correu o dia. Falou com alguns amigos pelo computador para contar as novidades, a outros telefonou e, com alguns, os mais íntimos, combinou de sair à noite para uma despedida mais louvável.
Sua mãe a tarde toda não esteve em casa, desde a conversa que teve antes do almoço que não a via mais. Mas na realidade ele desejava ver o pai. Talvez Wallace pudesse lhe trazer algo novo sobre a misteriosa tia.
Ao cair da noite, ouviu a porta abrir. Ele estava atento. Marine e Wallace chegavam do escritório. Ela ia para o longo banho com seus sais e suas ervas o pai estaria no escritório inteirando das últimas notícias nos jornais. Momento propício para falar com o senhor Lefevre.
Esperou por uns minutos até que a mãe entrasse no banho e desceu ao escritório. Lá possivelmente estaria o pai. Chegou e encontrou o homem de meia idade sentado na poltrona atrás da escrivania. Wallace olhou ao rapaz com expressão desconcertada. Por certo ele sabia o assunto que viria à baila.
– Olá papai?
– Papai? — Replicou com um sorriso disfarçando certo nível de constrangimento — Boa coisa não há de vir.
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