Lágrima Escarlate
9 Encontro
***
Parou a um passo do menino. Por um minuto pensou no que estaria fazendo ali, pois não sabia uma palavra sequer de indiano e com certeza aquele menino não o entenderia. Ademais, ele, um apreciador das meninas de Bahamas, estava sentindo algo estranhos por um menino, uma atração que ele não sabia de onde vinha, nem o que era.
Elevou um pouco as mãos, talvez na intenção de que elas alcançassem a túnica carmim do indiano, mas recuou.
— Bellan? — Disse vacilante, se achando um bobo por estar naquela situação, perseguindo um indiano em uma festa religiosa.
O indiano se voltou à Dylan. Amiudou seus olhos negros como o repreendesse por estar ali.
— O que você quer aqui? Porque estava me olhando daquela sacada quando passei na rua? — Sua voz era hostil e fria.
Dylan se surpreendeu. Primeiramente, porque ele esperava que a fala viesse em um dialeto estranho, mas soou em um bom inglês, apenas com um leve sotaque sedutor. Além disso, o tom também foi inesperado. Dylan esperava melhor receptividade.
— Bem... eu não sei... talvez curiosidade. — Respondeu após uma fração de segundos procurando as palavras. Olhava profundo naqueles olhos negros se surpreendendo ainda mais com a beleza daquele menino.
Um sorrido sarcástico formou nos lábios do indiano, esforçando para não deixar transparecer que algumas borboletas lhe reviravam no estômago.
— Esperava um motivo mais digno, mas não me surpreende. Os estrangeiros sempre nos veem como algo inusitado mesmo, uma coisa para ser admirada. — Ainda que a fala fosse uma navalha, não demonstrou tristeza ou mágoa, apenas um certo cinismo.
— Não. Desculpe, me expressei mal. Não é esse tipo de curiosidade. — Tentou concertar a besteira que havia dito.
— E que tipo de curiosidade é então? — Passou as mãos pelo capuz, fazendo-o cair nas costas e deixando seus cabelos negros virem com algumas mechas ao rosto, adornando aquela macia pele morena.
Dylan, antes de responder, perdeu os olhos naquele belo rosto, deixando sua imaginação o levar para as profundezas dos desejos humanos.
— É que... — Em um gesto involuntário, elevou as mãos e tocou os cabelos do indiano, deixando que seus dedos chegassem até a pele macia do rosto do menino. — É que você é muito belo. Eu nunca vi uma beleza assim.
Bellan recuou discretamente a face, fazendo as mãos de Dylan ficar no vazio.
— O que você quer? Porque me seguiu? — Perguntou novamente mais sério, deixando de lado o sarcasmo.
— Bem, quando te vi, senti algo que não consigo compreender totalmente. — Cambaleava nas palavras que saíam inseguras de usa boca. — Talvez algo que nunca tenha sentido por nenhuma garota… e que eu tenho certa dificuldades em dizer… em assumir.
— Você tem uma forma romântica de descrever a curiosidade. Eu devo mesmo ser muito estranho. — Trouxe novamente o sarcasmo em meio a seu sorriso enigmático. Talvez desejasse que Dylan fosse mais claro, ou apenas quisesse torturar o moço.
— Você tenta deturpar os coisas, mas não é isso. Você sabe porque sentiu também… e não tem nada a ver com mera curiosidade. — Elevou novamente as mãos, alcançando a face de Bellan.
Desta vez não houve recuo por parte do indiano. Com um gesto não totalmente voluntário, pousou suas mãos sobre a do inglês. Por um instante a tocou, comprimindo-a contra sua própria face. Depois, um tanto brusco, interrompeu o carinho e afastou as mãos de Dylan de seu rosto.
— Não sei do que está falando. Eu apenas quis saber o motivo que levou um estrangeiro a me olhar daquele jeito e depois me seguir em meio a essa multidão. — Sorriu. — Acho que eu tenho a curiosidade que você diz não ter.
— Eu te segui pela multidão porque precisava te olhar nos olhos e sentir que teve o mesmo sentimento que tive quando te vi lá na varanda. E você me fez te seguir até aqui pelo mesmo motivo, porque para você também não foi algo normal. E não fale novamente em curiosidade, porque você sabe que não é isso. — Olhou fundo nos olhos do indiano enquanto sentia seu coração palitar como nunca havia ocorrido com nenhuma das meninas das Bahamas.
— Está enganado, eu não senti nada. Não tente colocar sentimentos onde não existem, mesmo porque eu não te conheço e você não me conhece… você não sabe nada de minha vida. — Trouxe um semblante sério, mas deixando um naco de duvida em seu sorriso. Ao menos Dylan acreditou que ele sorria.
— Se você deseja se enganar, eu não posso fazer nada. — Torceu os lábios e arqueou a sobrancelhas. — Mas o fato é que eu gostaria de te conhecer melhor. De saber quem você é. — Estava um pouco confuso pela dissonância entre o que o indiano dizia e o que o sorriso lhe passava. Seria proposital?
— Não temos nada em comum. Você é de outra realidade e não tem nada a ver comigo. Não há o que conversarmos nem temos que nos conhecer melhor. Eu apenas te olhei na sacada porque te achei… diferente. Mera curiosidade. Mas nem deveria ter olhado. Agora tenho que ir antes que eles me encontrem com você e as coisas se compliquem para nós. — Colocou novamente o capuz e fez menção em sair dali.
— Espere. — Dylan o segurou pelo ombro, fazendo-o voltar-se. — Vamos… vamos nos falar mais um pouco. Não vá ainda. — Estava ofegante, desejoso por estar mais tempo com aquele menino pelo qual estava nutrindo algo quase incontrolável e que ele não compreendia. Não totalmente.
— Você não entende… Não podemos conversar. Já estou me arriscando muito por estar aqui. Tenho que ir agora e você não me procure mais. — Deixou um riso se formar e se perder em sua face. — Finja que nunca me viu e que nunca nos falamos. — Desvencilhou-se das mãos de Dylan e saiu da penumbra à sombra da árvore, voltando novamente para o meio da multidão. Nos lábios, novamente um riso estranho.
Dylan não compreendeu o sorriso. Será que o indiano não queria mesmo o encontrar novamente? Uma incógnita nos lábios do indiano. Dylan preferiu acreditar que fosse um convite.
O inglês teve o intendo de seguí-lo e prosseguir com a conversa. Mas foi interrompido.
— Dylan.
Voltou-se e viu Alícia a alguns passos.
— Você sumiu. Eu estava te procurando. Pensei que tivesse se perdido. — Estava um tanto aflita quando se aproximou do rapaz.
— Não precisava se preocupar, eu só vim andar um pouco... conhecer as redondezas. — Limitou a responder enquanto via o indiano se perder por entre o festejo. Na mente, praguejou a chegada da tia.
— Dylan. — Alícia segurou os dois ombros do menino, cruzando com ele seu olhar. — Aquele menino que você estava conversando... não se aproxime dele. É perigoso. — Tentou ser terna, ainda que o nervosismo lhe permeasse a fala.
— E o que me impede de falar com ele? Você me diz isso, ele me diz isso, mas eu não entendo o que há de errado em eu falar com ele. — Estava transtornado mas tentou manter-se calmo devido a polidez para com a tia que acabara de conhecer. Se fosse a mãe, com certeza ele esbravejasse.
— Você é de outra cultura e não compreende a nossa. Sei que é difícil entender, mas ele tem um destino a cumprir e as pessoas da linhagem dele, que como já lhe disse são muito radicais, não permitirão que ele se desvie. — Permaneceu por um tempo olhando fundo nos olhos do sobrinho. Depois seguiu: — É importante que você fique distante dele, mesmo porque, pelo que vejo em teus olhos, o sentimento que você está tendo por ele não é uma simples curiosidade.
Dylan desviou o olhar. Estava constrangido e envergonhado por abordar aquele assunto. Ele era hétero, tinha certeza.
Certeza? Não sabia mais.
— Consegue me prometer que não vai mais procurá-lo?
— Não sei.
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