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No outro dia após um banho relaxante e um tanto demorado, encontrou a mesa com o café da manhã já posta.

Foi recepcionado por uma Alícia sorridente ao traje típico indiano. Ele quase desacreditava que nela corria o legítimo sangue inglês tal a integração com os costumes locais.

Naquela manhã, ela trazia uma blusa ramada com tons fortes de vermelho e laranja e uma saia longa com predominância azul entre alguns adornos durados. Os cabelos adornados por uma tiara prateada. Pingente ao centro da testa.

Ele se sentiu um pouco constrangido, já que estava com seu pijama listrado já surrado pelo tempo.

Por um momento ele ficou a observar os encantos daquela mulher, até que deu atenção para o fato de ela já lhe ter puxado a cadeira para que sentasse. Sorriu e foi-se ao acento.

A mesa, muito bem posta por sinal, foi descrita pela tia. O cardápio indiano contava com tofu, lentilhas, salsicha vegetariana, torrada com banana e batata assada com alecrim. O toque inglês, para satisfazer o sobrinho, contava com salsichas, bacon, ovos, cogumelos e batatas fritas. Um jarro de chá estava à mesa.

— Espero que não seja meus hábitos alimentares que fez com que você tivesse com esta expressão não muito animada... — Ela disse.

— Não, nem pense nisso. Deve estar uma delícia e não precisa se preocupar com o cardápio inglês, podemos ficar só no indiano, já estou me acostumando. Se estou abatido é porque talvez não tenha dormido bem. — Se serviu com algumas batatas assadas, deixando de lado o bacon que tanto apreciava.

— Desculpe, mas… não dormiu bem por conta do menino? — Desviou os olhos da mesa e os pousou em Dylan, cuidando para que a voz não transmitisse repreensão.

— Bem… talvez seja… não sei. — Estava um pouco acabrunhado já que não se sentia à vontade nem consigo mesmo com aquele assunto, quanto mais com a tia.

Ela sentiu o desconforto do menino.

— Você tem certeza que não é homossexual, Dylan? Os olhares que trocou com aquele menino me deixaram com a pulga atrás da orelha. — Continuou a se servir como se não desse muita importância ao assunto.

— Você tem algum problema com isso, Alícia?

— A homossexualidade não é aceita pelos indianos, Dylan. Até pouco tempo era crime. Ainda hoje é punida.

— Desculpe, mas não perguntei o que os indianos acham. Perguntei o que você acha. — Não conseguiu conter certa irritação.

— Bem… Eu não acho ser crime, mas também não acho natural. O homem foi feito para a mulher e vice-versa. — Foi direta e não poliu palavras.

Dylan quase engasgou com a torrada. Esperava que o sangue inglês deixasse a tia um pouco mais receptiva para esse assunto, mas viu que a Índia, como ele já havia notado, tinha supremacia sobre os conceitos de Alícia.

— Nós não compartilhamos do mesmo pensamento. Eu não vejo mal algum em alguém se interessar por outro do mesmo sexo. Não consigo imaginar que o amor ou o desejo possa estar aprisionado em um corpo. — Retrucou tentando não parecer rude, ainda que a raiva lhe consumisse os pulmões.

— Você diz isso, mas não se assume… — Riu sínico.

— Eu não me interesso por pessoas do mesmo sexo… nunca interessei. — Ele falou rude, sem disfarçar a voz.

Ela ficou um tempo o observando. Duelaram com o olhar.

— Não espere encontrar respaldo para este pensamento aqui na Índia. Ele não encontrará eco. Eu ainda entendo o seu pensamento, mas nos nativos daqui, nem isso encontrará. — Ela falou, amenizando um pouco o semblante. — Mas ainda não respondeu a minha pergunta sobre ser ou não gay.

— Bem, eu nunca me senti atraído por nenhum menino, apenas meninas. — Seu íntimo ignorou o que sentira pelo indiano. Depois concluiu: — Isso deve querer dizer alguma coisa.

— E o que sentiu por Bellan então?

— Eu… Eu não sei. — Limitou a dizer, permeado por uma imprecisão de sentimentos que não conseguia identificar nem aceitar totalmente, já que lhe eram desconhecidos até o momento.

Alícia escorreu suas mãos até uma das mãos de Dylan e a envolveu. Deixou o semblante ameno.

— Então esqueça qualquer coisa que tenha sentido, não quero que nada de mal lhe aconteça. — Disse terna.

Dylan encontrou os olhos da tia e esboçou um leve sorriso, ainda que sabia não poder fazer o que Alícia pedia. Sentimentos não são apagados ao bel prazer da razão.

Depois, comeram em silêncio. Ele apenas conseguia pensar no menino que conheceu na noite anterior e na breve conversa que teve com ele. Desejava o encontrar novamente.

Depois foi para o quarto e ali passou a manhã toda envolvo com seu computador. Conversou com alguns amigos falando sobre o quanto era estranho aquele país e seus habitantes. Nada mencionou sobre o menino que conheceu.

A tarde veio e ele foi à varanda observar o sol que brilhava fervoroso. Lá fora o mesmo alvoroço do dia anterior. Ele não se conformava. Carros, pessoas e vacas disputando o mesmo espaço. E buzinas, muitas buzinas.

Nas janelas dos edifícios, infindas toalhas e lençóis pendurados. Ele não compreendeu se seria para secar ao sol ou eram enfeites, já que a cidade toda parecia estar enfeitada para as festividades.

Em uma rua próxima, ele viu algumas pessoas enfeitando o asfalto com pétalas e pó colorido. Pensou que talvez seria bom ver aquilo de perto. Quem sabe não encontraria o indiano.

Deixou a sacada e encontrou a tia limpando os móveis da salas.

— Alícia… pensei em dar uma volta por aí… conhecer as redondezas.... — Disse esboçando um leve sorriso.

— Tudo bem. Só não se afaste muito, vá que você se perda por aí. — Continuou limpando a imagem de Brahma, à qual uma vela era mantida acesa.

Antes ele foi até o quarto e tirou o pijama que estava vestindo. Colocou um jeans, um tênis de solado baixo e a camiseta do Green Day, sua favorita.

Desceu as escadas e, ao chegar na calçada, parou um pouco, absorvendo a paisagem que ainda o assustava.

Uma legião de vendedores, transeuntes, carros, vacas. Podia jurar que viu também alguns ratos.

Tomou fôlego e entrou em meio à multidão ensandecida.

Enquanto caminhava, vendedores lhe ofereciam tapetes, comidas e animais. Ele nem dava atenção, apenas seguia seu caminho.

Atravessou a rua com o devido cuidado para não ser atropelado por algum veículo ou pisoteado por algum animal. Logo chegou ao outro lado e caminhou pela calçada, chegando até a rua que ele havia visto da sacada.

Ela estava mais calma. Não havia trânsito ali. Era menor que as outras, parecia mais uma viela secundária e estreita.

Alguns homens, muitas mulheres e algumas crianças cobriam o chão com pó e serragens coloridas. Desenhavam círculos e outras formas geométricas. As pessoas falavam descontroladamente, ainda que Dylan não entendesse uma só palavra.

Vez ou outra, as falas cessavam e um mantra era entoado enquanto as pessoas continuavam a desenhar ao chão. Ele notou que aquela decoração fazia parte de um ritual minucioso.

Com o cuidado para não atrapalhar a cerimônia, seguiu andando pela estreita calçada.

Olhos curiosos vinham sobre ele, afinal, suas características eram muito diferente dos indianos que decoravam o chão.

As mulheres usavam vestes coloridas. Os poucos homens usavam calça larga e camisa simples e longas. Exceto alguns que Dylan identificou como monges, vestidos com túnicas coloridas e turbantes na cabeça.

Alheio aos olhares ele seguiu seu caminhar, observando os desenhos. Porém, as gravuras estavam longe de tomarem sua maior atenção. Na realidade, ele olhava entre as pessoas, buscando um indiano específico entre eles.

Não demorou muito e ele encontrou o que procurava. Viu, um pouco adiante, Bellan de cócoras distribuindo serragem colorida em um desenho ao chão.

O indiano usava uma túnica branca de linho fino até pouco além dos joelhos. Trajava também uma calça branca e uma sandália simples. Um cachecol colorido descia pelo pescoço, indo até a altura da cintura.

Um sorriso discreto apareceu na face de Dylan. O coração deu batidas mais fortes e algumas borboletas insistiram em visitar seu estômago.

Como lhe foi recomendado pela tia e pelo próprio Bellan, ele não se aproximou. Recostou no muro de uma das casas e ali ficou, na esperança de ser visto. Porém, se Bellan o viu, foi muito discreto.

Depois de mais de uma hora ali recostado, vendo o indiano levantar e sentar diversas vezes sem olhar em sua direção, ele viu Bellan se afastar.

Sem pôr em dúvidas o que deveria fazer, e com exímia discrição, o seguiu margeando a calçada. Era preciso encontrá-lo novamente. Ao menos mais uma vez.

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