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– Lafif! Lafif! Vá chamar Kabir. Abani terá nossa filha e é preciso que ele esteja aqui para fazer a consagração. Vá rápido! Ande homem! — Naman estava afoito ao ver aproximar o nascimento daquela que os astros diziam ser a reencarnação da Deusa Kali.

Lafif saiu rapidamente pelas ruas abarrotadas de pessoas, carros e vacas. Ainda que apressado, encontrava tempo para reverenciar os animais com um leve inclinar de cabeça. Mumbai efervescia naquela manhã de outono e o trafego não favorecia o apressado mensageiro.

Tendo enviado o serviçal, Naman foi até o oráculo em um canto da sala. Acendeu mais velas a algumas divindades. Depois foi até a cozinha e pegou alguns alimentos. Dispôs os produtos sobre o altar. Ofereceu-os a Brahma, Shiva e Vishnu.

Com o altar preparado, entoou um mantra delicado. Três outras senhoras acompanhavam o homem em seu cantar enquanto outras estavam com Abani no quarto. Ela sentia as dores do parto.

Naman ouvia cada vez mais forte os gritos da mulher, com espaços cada vez menores entre um e outro, tornando quase um contínuo. Seu mantra era entoado ainda com mais fervor.

Logo entrou pela porta um homem já calejado pelo tempo. Tinha longas barbas e bigodes brancos. Na testa longa e enrugada, losangos pintados em tons brancos e laranja. Na cabeça um turbante alaranjado. No corpo, uma túnica da mesma cor ia até os confins dos pés. Colares com pedrarias e sementes lhes adornavam o pescoço.

Tão logo o viu, Naman interrompeu o mantra e foi ao seu encontro.

– Namastê.

– Namastê.

Saudaram enquanto beijava um a face do outro.

– Que foi Naman? Chegou a hora de Abani? — Questionou o monge enquanto tinha as mãos de seu anfitrião envolvidas nas suas.

Os gritos da mulher eram a resposta, mas ainda assim, Naman confirmou.

– Sim, venha. — Guiou o homem e foram apressados ao quarto.

Enquanto caminhavam, ouviam os gritos da mulher se intensificarem, misturando-se ao mantra entoado pelas parteiras. Ao chegarem próximo ao cômodo, ouviram o mais forte dos gritos, seguido do leve choro de um bebê. Os dois entraram rápidos e encontraram a criança ensanguentada nas mãos de uma das mulheres, enquanto a outra estava por cortar o cordão umbilical.

Não notaram que as mulheres estavam espantadas, trocando olhares de surpresa e assombro.

A mais jovem trouxe o bebê, prostrou frente ao monge e a ele estendeu a criança. Kabir a pegou sorridente. Porém, tendo-a nos braços, seu semblante tornou tenso e aterrorizado. Começou a tremer em quase uma repulsa. Estendeu as mãos como se devolvesse a criança à mulher que encontrava inerte ajoelhada à sua frente, olhando ao chão.

Naman ficou sem entender a expressão do monge e sua alma teve princípios em afligir-se. Pensou talvez a criança ser aleijada ou portadora de alguma deformação. Aquela que viria para ser receptáculo de uma Deusa não haveria de ser imperfeita.

– Que foi, Kabir? Não é Kali? — Perguntou preocupado.

O monge voltou um olhar de assombro para Naman, sem nada responder. Depois trouxe os olhos novamente para a criança. Ficou por um tempo observando aquele ser inocente que repousava em seus braços, como se a tentasse interpretar. Em seguida, esboçou um leve sorriso e volveu a criança com carinho, aconchegando-a próximo ao coração.

– Sim, é ela, é a própria Deusa reencarnada. Mas…

– Que foi Kabir? Diga-me o que está acontecendo? Não parece plenamente feliz. — Naman tentava compreender o que estava acontecendo.

– Eu sinto a alma da grande Deusa Kali. Mas ela não está no corpo de uma menina, e sim um menino. — Voltou os olhos para o pai e sentenciou: — Você não teve uma filha, mas sim um filho.

Naman saiu de sua inércia e precipitou dobre a criança para confirmar o dito. Sua alma se apossou de terror, repulsa e vergonha. O coração pulsava descompassado e a fala lhe faltou, dando lugar a um balbucio quase inintendível.

– Como… como isso é possível? — Questionou mais para si mesmo que para o monge que o ouvia.

– Não sei, meu amigo. Mas aconteceu. Sinto a Deusa Kali encarnada no corpo deste menino. Talvez uma provação.

– Não é possível que uma alma feminina esteja no corpo de um menino. Eu não posso aceitar. Se ele é um varão, teria que ser a alma de um Deus. — Deu alguns passos atrás, como se negasse algo que julgou ser uma anomalia, algo que não compreendia.

– Não convém a nós questionamos os desígnios dos Deuses, caro amigo. A nós, cabe carregar os fardos que eles nos impõem. — Repreendeu um tanto severo, ainda que ele mesmo não aceitasse totalmente o que estava presenciando. Jamais havia visto aquilo em toda sua vida dedicada à religião.

– E o que devo fazer, Kabir? — Perguntou desolado.

– De alguma forma transgredida, a Deusa Kali está entre nós. — Respondeu o monge. — O que os astros diziam foi cumprido. Agora cabe a você e sua família resguardar esta criança como manda nossa lei.

Com a criança ele foi até o altar. Lá chegando, levantou o menino o mais alto que suas forças já gastas permitiram e iniciou a consagração.

– Brahma, Shiva e Vishnu, a vós será dedicado este menino que carrega a alma da Deusa Kali. Ela seguirá todos os preceitos de nossa religião e jamais se desviará do caminho até que assuma seu lugar à frente de nosso clã. Deverá se chamar Bellan, pois enfrentará suplícios que só o ferro e o fogo são capazes de suportar. — Concluiu.

Entoou depois um mantra que deveria ser seguido por Naman, mas este não teve forças ou concentração para cantá-lo.

Depois de finda a consagração, entregou a criança ao pai.

– Lembre-se, a Deusa só se manifestará quando o menino completar dezesseis anos, até lá deve seguir os mandamentos de nossa religião e se manter virgem até o ritual de passagem, quando ocupará o posto de líder de nosso clã. Nada pode o fazer desviar deste caminho.

– Nada o desviará. — Disse Naman. Ainda que sentisse uma grande rejeição por aquele menino, teria que se dedicar a ele como mandam os princípios do Hindu.

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