Lágrima Escarlate

2 Sombras do passado


***

15 anos depois

– Olá Alícia. — Disse Marine, apreensiva, ao telefone.

Alícia amiudou os olhos e atentou para ver se havia ouvido direito. Talvez teus ouvidos tivessem lhe pregado uma peça.

– Por favor, quem é? — Perguntou para confirmar, com o coração batendo mais forte.

– Sua irmã. Não reconhece a voz? — Sorriu deliciosamente sínica.

– Marine… há quanto tempo, achei que nem se lembrava mais de mim. Não nos falamos desde… nem sabia que tinha meu telefone. — Não houve como Alícia esconder a surpresa, afinal, há mais de dezesseis anos que não falava com sua irmã, acreditava que jamais se falariam novamente.

– Bem, vasculhei seu nome na internet e consegui teu telefone. Lá tem tudo, você sabe. — Justificou.

– E qual o motivo de ter ligado?

– Olha Alícia, eu sei que talvez devesse ter lhe procurado antes, mas … ainda não é fácil para mim. — Tentou parecer constrangida.

– É bom falarmos do assunto. E você precisa superar, afinal, foi um acidente. — Passou-lhe que poderiam por uma pedra sobre o passado e talvez voltassem a ser uma família novamente. Com certeza este era o motivo da ligação de Marine.

– Alícia, não sei do que você está falando. — Investiu de sua peculiar dissimulação, suficiente para desviar de qualquer assunto que julgasse indevido ou que não quisesse comentar.

Alícia ficou ainda mais surpresa, pois tinha a certeza de que aquela ligação era para superar os problemas do passado.

– Bem… desculpe, mas já que ligou achei que era para resolvermos as pendências. Mas então esqueça e vamos começar de novo. Com você está?… Vocês? — Mudou de assunto com um sorriso sem graça.

– Estamos bem... quer dizer, não muito. É por isso estou te ligando. — Fez transparecer que estava sem jeito.

– O que houve?

– Bem, o pessoal do governo francês daqui de Marselha fizeram uma auditoria no escritório e descobriram algumas... irregularidades.

– Como assim?

– Sonegação de impostos e algumas outras coisas. Há pouca tolerância para isso, talvez tenhamos que sumir por um tempo. — Falou tranquila, como se fosse um assunto corriqueiro e desimportante.

– Talvez?! — Tentou retirar da irmã uma resposta um pouco menos vaga.

– Não! Vamos mesmo sumir. Vamos primeiro para o Brasil, depois para alguns outros países da América do sul… depois não sei. — Com sua frieza disfarçava a dificuldade em falar com a irmã, ainda mais abordar um assunto daquele.

– Há algum perigo de Wallace ser preso? — Falou sem pensar no peso daquelas palavras.

– Está preocupada com ele, Alícia?

– Não Marine... estou preocupada com vocês. — Tentou concertar.

– Desculpe, eu estou um pouco nervosa. — Dissimulou. — Estou ensaiando há dias para falar com você, não foi fácil te ligar. — Falou com voz amena e transparecendo chateada. Não era conveniente brigar com Alícia já que ia precisar dela.

– E porque ligou? Diga de uma vez. Acho que não foi só para dizer que não estão bem. — A essa altura, Alícia já desconfiava que Marine quisesse algo de dela, não precisava ser nenhuma vidente. Uma mescla de curiosidade e apreensão lhe passou pelo espírito.

– Bem, como eu disse, nós vamos ter que sumir por um tempo. Eu não sei como vai ser, então… não podemos levar Dylan conosco, ele não poderá estar conosco por um tempo… Três ou quatro meses que é o tempo que levaremos para reestabelecermos em outro país. — Silenciou imaginando a expressão da irmã. Não conseguiu deixar de sorrir para si.

– Você quer que eu fique com ele? É isso? — Estava ainda mais surpresa.

– Por favor… você sabe o quanto me custa pedir isso, mas eu não tenho a quem recorrer… — Tentou parecer o mais constrangida possível.

– Marine, eu não o conheço, eu nunca o vi… Como eu posso ficar com ele? — Alícia acostumou viver sozinha, realmente a presença do rapaz não lhe caia bem. Além de não ter nenhuma intimidade com ele. Eram praticamente estranhos.

– Alícia, eu sei que não será fácil, mas eu não tenho a quem recorrer, por isso tenho que insistir, será uns meses apenas, cinco, no máximo.

– Me diga uma coisa, Marine, ele sabe que tem uma tia?

– Bem… ainda não tive oportunidade de dizer a ele, mas eu vou falar.

– Meu Deus! Ele nem sabe que eu existo e você quer que eu cuide dele por cinco meses? — Não escondia o nervosismo, ele estava claramente impregnado na fala um tanto alterada.

– Ele já tem dezesseis anos, não precisa de tantos cuidados. — Argumentou.

– Marine, vocês vivem em um mundo muito diferente do meu, com uma cultura totalmente diferente, ele não vai se adaptar aqui, ainda que seja por cinco meses. Ele deve estar acostumado a uma vida agitada e aqui… você sabe como é. — Torcia os olhos tentando encontrar justificativas para que Marine abandonasse a ideia de lhe mandar o sobrinho. Ele seria uma encomenda indesejável.

– Alícia… apenas me diga que aceita, quanto à adaptação, ele terá que se adaptar, não há outra saída para ele… para nós. — Continuou insistindo, dissimulando constrangimento.

– Tudo bem. — respondeu após quase um minuto de silêncio remoendo seus pensamentos e desistindo de arranjar mais algumas justificativas para recusar o pedido. — Quando ele vem?

– Vai embarcar amanhã, já comprei a passagem. — Comemorou a vitória.

– O que? Sabia que eu ia aceitar? — Não escondeu a surpresa, talvez sua irmã a conhecesse mesmo muito bem.

– Não havia alternativa, eu ia ter que te convencer de qualquer jeito. — Emitiu um sorriso falso. — Já vi na companhia de aviação daqui, será próximo de onze horas de viagem com escala em Frankfurt. Ele chegará ao aeroporto às dez horas da manhã de quarta-feira.

– Ok, eu estarei lá. Que ele seja bem-vindo à Índia.

– Bom, acho que é só isso. Obrigada. — Terminou tão graciosa quanto falsa.

– Gostaria de saber como você está?! — Mas a fala de Alícia encontrou como resposta o tum tum do telefone, Marine já havia desligado. Alícia colocou o telefone no gancho devagar tendo o olhar perdido em algum móvel de seu apartamento utilitário.

***

Alícia coordenava um grupo de trabalho na Phiroze Jeejeebhoy. Era possível trabalhar em casa, já que a maioria dos negócios eram realizados pela internet e do escritório de seu apartamento em Colaba, ao sul de Mumbai, poderia perfeitamente coordenar a equipe. Ela já havia feito isto várias vezes. E iria precisar estar mesmo mais em casa, pois precisaria dar atenção ao visitante, o sobrinho que ela não conhecia. Mas os pensamentos de ter um visitante não a agradava. Se fosse algo rápido, coisa de uma semana, tudo bem, mas meses… Isso a afligia.

Ela sequer sabia como ele era. Desconhecia sua aparência; do que gostava; o que lia; o que assistia na TV. Se lembrou de quando recobrou os sentidos naquele hospital em Marselha a pouco mais de dezesseis anos, discutiu feio com Marine que a expulsou de casa e teve que seguir sozinha com a própria vida. “Mas ela estava certa, eu teria feito a mesma coisa.” Pensou.

Balançou a cabeça para espantar os devaneios e voltar aos pensamentos práticos, precisava ir ao escritório no Phiroze e preparar o pessoal para sua estadia fora do escritório. Precisava deixar a equipe ciente de que estaria alguns dias trabalhando em casa e só passaria por lá eventualmente. Isso até o sobrinho se adaptar, depois poderia, aos poucos, voltar à sua rotina de trabalho que tanto adorava.

Tomou um banho, amarrou os cabelos, colocou um longo azul com bordados brancos e pôs-se a caminho.

***

Marine desligou o telefone e se sentiu tranquila, afinal, tudo havia saído conforme ela desejava. É claro que não gostaria de ter necessitado da ajuda da irmã, já que quando expulsou Alícia de sua casa e de sua vida, prometera para si mesma que jamais a procuraria novamente, a menos que fosse para se vingar.

Mas dadas a situação do momento, teve que recorrer a ela, o que trouxe certo sentimento de humilhação e fraqueza. Esses sentimentos alimentara outro: o desejo vingança, algo que ela nunca abandonara. Uma semente que vinha crescendo em seu coração. Ter precisado da irmã foi um fermento para que crescesse ainda mais.

– Um dia lhe direi a verdade e esta será minha vingança, Alícia… um dia… — Disse para si mesma contemplando o sabor amargo do ódio, certa de que um dia sentiria o doce hálito da vingança.

***