Red respirou fundo, engoliu o nó preso em sua garganta e levantou-se. Ficou um tempo desnorteado, mas pegou o celular em seu bolso e ligou para Dembe.

— Dembe, bom dia. Preciso que esteja aqui o mais rápido.

— Ok, Raymond.

Ao encerrar a ligação, Red foi até o berço de Alice e observou sua filha que dormia de bruços. Ele se aproximou e deu um beijo na frágil cabecinha da criança. Um filme passou diante dos seus olhos e as lágrimas começaram a cair. Ele se ergueu novamente, deu as costas e saiu do cômodo. Foi até o outro quarto, onde Elizabeth ainda dormia. Ele se aproximou da agente, que de lado na cama, e a observou por alguns segundos. Ele deslizou delicadamente a mão pela lateral do corpo de Lizzie. Por último, se inclinou sobre ela e também lhe deu um beijo na testa.

—Me perdoa, Lizzie, por favor. Sussurrou ele, a fim de evitar que a agente acordasse.

Logo depois, ele colocou a mão no bolso e tirou a pequena caixa preta, que continha a aliança comprada de presente para Elizabeth. Ele depositou o objeto sobre o criado-mudo; depois virou as costas e saiu do quarto. Com o peito dilacerado, Red estava deixando sua família para trás. Kraus Rostova não era alguém que ele poderia simplesmente matar e nada acontecer. Ele era um dos grãos- mestres do Cabal. Não era o tipo de criminoso com quem se mexe e sai ileso. A morte de alguém como ele, poderia desencadear uma série de eventos sobre o seu assassino. Red não poderia fazer algo do tipo, pois refletiria em Elizabeth e Alice. Ele já sofrera uma dor no passado, que o tinha mudado para sempre. Não aguentaria sentir aquilo de novo. A dor era mortal e o ódio era algo que consumia a carne, transformando seu “hospedeiro” em uma espécie de morto-vivo, que anseia somente por sangue e vingança. Em parte, isso era tudo que ele mais queria.

Quando saiu da casa, ele sentiu o sol bater em seu rosto. O ar ainda fresco da manhã entrou em suas narinas, e ele fechou os olhos por alguns instantes. Quando tornou a abri-los, viu que Dembe estava parando o veículo. Ele desceu a pequena escadaria, cruzou a calçada e entrou no carro.

— Para onde, Raymond?

— Para o meu jatinho.

Os dois seguiram para o local ordenado por Red. Quando chegaram ao aeroporto, onde Red mantinha seu avião particular, Dembe parou e desceu do carro. Nesse momento, Red, que também já havia desembarcado do veículo, se aproximou dele.

— Meu amigo, nessa viagem não será preciso que você vá comigo.

Dembe lançou um olhar confuso sobre Red.

— Algum problema, Raymond?

— Digamos que seja o momento de esperar a poeira baixar.

— Enquanto Elizabeth e Alice?

Naquele momento, Red tirou um envelope do bolso do casaco e entregou para Dembe.

— Transfira todo o dinheiro dessa conta para a conta de Elizabeth Keen. Dentro tem um cheque para você.

Dembe segurou o envelope e o guardou.

— A sua missão agora se resume a observar Elizabeth e Alice, de longe. O FBI não poderá saber do meu paradeiro.

Dembe assentiu e Red deu-lhe um forte abraço de gratidão. Logo depois, embarcou no avião. Durante a viagem, Red tomou várias doses de whisky. Houve um momento em que ele sentiu que a bebida havia deixado-lhe um pouco bêbado. Somente aquilo para fazê-lo sentir-se um pouco relaxado, porque no momento, somente angústia e tristeza que preenchiam o seu peito.

...

Enquanto isso, a quilômetros dali, Elizabeth abria os olhos lentamente. Virou-se para o lado e viu que Red já não estava lá. Procurou saber que horas eram e foi naquele momento que ela viu uma pequena caixinha. Abriu-a e viu uma linda aliança. Ela sorriu e levou a mão à boca. Imediatamente pegou o celular para ligar para Red, mas o número havia deu indisponível. Ela tentou falar também com Dembe, mas uma mensagem avisara que o número também estava indisponível. Por algum motivo, Lizzie sentiu que algo estava errado. O sorriso sumiu dos seus lábios. Respirou e disse a si mesma:

Relaxe, Lizzie.Tenha calma!

...

Red seguia em seu avião rumo ao sul da Inglaterra. Lá, havia uma casa aonde ele raramente ia, mas esse seria o momento ideal para confinar-se lá por algum tempo. A música que ecoava pelos alto-falantes do avião, o fez encarar o vazio, recordando-se das lembranças de Lizzie. Do sorriso dela; do jeito como ela segurava Alice em seus braços. Sua consciência estava a mil e pesava feito chumbo. Ele apoiou a cabeça na mão direita, enquanto a outra segurava o copo de whisky.

— Era preciso isso, Raymond. Sussurrou ele para si mesmo. – Era preciso, mesmo que isso faça de você um monstro... Não que eu nunca tenha sido.

I see (Eu vejo)
A spider web and it's me in the middle (Uma teia de aranha, e sou eu no meio dela)
So I twist and turn (Então, eu me contorço e viro)
Here am I in my little bubble (Mas aqui estou eu em minha pequena bolha)
Singing out, I never meant to cause you trouble (Eu nunca quis te causar problemas)
I never meant to do you wrong (Eu não pretendia magoá-la)
Ahh, well if I ever caused you trouble (bem, se eu alguma vez lhe causei problemas)
Oh no I never meant to do you harm (não, eu nunca pretendi te fazer mal)
They spun a web for me (Eles teceram uma teia para mim)

Naquele mesmo dia, Red chegou à casa situada em Bournemouth. A propriedade ficava em uma região campestre. Ao redor, campos imensos de relva verde. O tempo estava chuvoso e com muita névoa. Por causa do fuso horário, já estava quase anoitecendo. Quando ele entrou na casa, observou a mobília antiga por um bom tempo. Estava tudo devidamente conservado, pois ele mantinha um empregado cuidando sempre do local. Era uma residência grande, que ele comprara muitos anos atrás. Naquele momento, um homem franzino entrou na sala.

— Sr. Reddington, tomei conhecimento pouco tempo depois, que o senhor já havia chegado a Bournemouth. Ainda não tive como preparar algo para o senhor.

Red colocou o chapéu sobre uma mesa e encarou o homem com um sorriso.

— Não se preocupe, Jerry. Está tudo bem.

Naquele momento, Red ia dando as costas para o homem, mas girou nos calcanhares e voltou a encará-lo.

— A propósito, Jerry, quanto tempo faz que você não visita a sua família?

— Há bastante tempo, senhor.

Red assentiu de forma séria.

— Pois tire um tempo de férias. Vá ver seus pais idosos e não se preocupe, em breve precisarei de você de volta aqui. Cuidarei de transferir um valor significativo, em sua conta, para que você desfrute do seu período de recesso.

Naquele momento, Jerry assentiu.

— Tudo bem, Sr. Raymond. Muito obrigado.

O homem deu as costas e saiu da sala. Red encheu um copo com bebida e se aproximou da janela, observando os pingos de chuva que batiam no vidro. Enquanto tomava a bebida a pequenos goles, ele colocou a mão direita no bolso. Pensamentos dançavam em sua mente, por isso ele não conseguia identificar qual seria o próximo passo.

Kraus, você será um homem morto. Não importa quanto tempo eu leve para conseguir isso. Pensou.