Kraus Rostova No 02
7 Nos eixos
Notas iniciais
A aliança sobre o criado-mudo me trouxe esperança, alegria e ao mesmo tempo me preencheu com um sentimento de medo, que foi tomando aos poucos todo o âmago do meu ser. Daquele dia em diante, eu entraria em um inferno sem precedentes na minha vida. Reddington havia desaparecido misteriosamente e sem deixar nenhum rastro. O homem que eu havia confiado e me entregado, simplesmente me devastou e me abandonou depois de mostrar uma faceta de amor, carinho e proteção; quando na verdade tudo se tratava de uma farsa. Uma enorme quantia havia sido transferida para a minha conta naquele mesmo dia. Quando me deparei com tal fato, a minha raiva cresceu mil vezes mais.
Passamos cerca de seis meses em busca de qualquer caminho que levasse até ele. Misteriosamente, depois disso, quando a direção do FBI já ia decidindo por acabar com a força-tarefa, passamos a receber informações misteriosas, das quais não tínhamos como rastrear suas origens. Lá no fundo, sabíamos que era Red quem estava plantando as migalhas e nos fazendo ir atrás de cada vestígio. Continuamos a prender bandidos em vários cantos do mundo. Muitas pessoas que nem imaginávamos que fizesse parte de esquemas corruptos e perigosos. Eu percorri lugares recônditos e cheios de escória humana, que se vestia desde trapos, a roupas finas e elegantes; e tudo me fazia pensar que ele estava ali, em algum lugar, me observando.
Dois anos se passaram, e Alice crescia e se tornava cada vez mais a minha fonte inesgotável de amor. Tinha os olhos azuis de cor forte, iguais aos meus; mas o olhar era exatamente igual ao de Reddington. E assim os dias se seguiam e as lembranças não me deixavam. Passei a frequentar o psiquiatra, na esperança de conseguir uma saída para o buraco que ele havia deixado em mim. Eu me sentia feliz quando estava com a minha filha, mas longe dela, era como se eu perdesse o chão. A tristeza batia e eu fui me tornando uma pessoa impaciente no trabalho. Chegando a quase perder o controle em algumas situações. Enfim, elas não vêm ao caso.
Aos três anos, Alice entrou na escola. Foi também o período em que o grande nevoeiro que estivera sobre mim, começou a se dissipar. A coisa mais linda que eu vi na vida, foi o seu primeiro dia de aula. Confesso que me emocionei quando a deixei sob os cuidados da professora. Minha menina, com aquela linda mochila nas costas, com sua lancheirinha e aquele olhar confuso, que fez meus olhos se encherem de lágrimas. Fiquei imaginando qual seria a reação do Red se estivesse ali naquele momento mágico. Censurei meus pensamentos sobre ele.
Aquele filho da mãe.
Eu sequer conseguia praguejar algo mais forte sobre ele. Seja lá onde ele estivesse. Assim, o tempo foi novamente deslizando sobre os dias. O outono chegou e o aniversário de Aram foi se aproximando. Combinamos algo nunca feito antes: um aniversário surpresa. Saiu tudo nos seus devidos conformes, e coitado, caiu aos prantos quando viu toda a festança preparada em sua casa. Morri de rir com um comentário feito por Ressler:
— Tenho certeza que ele trocaria todos os presentes por um beijo da Samar.
Donald tinha razão, e confesso que torcia para os dois darem certo, em algum momento. Todos beberam o suficiente nessa noite. Em um determinada horra, decidi parar e ir embora. Havia deixado Alice sob os cuidados de uma babá, mas senti que se continuasse a beber, a tristeza tomaria conta de mim. Quando estava de saída, me surpreendi com Ressler, que se ofereceu para me levar até em casa. Bom, ele estava tão bêbado quanto eu, mas acabei aceitando a arriscada carona. Ao chegar à frente da minha casa, ele me acompanhou até a porta. Em um dos momentos quase tropecei, e ele me segurou. Eu já sabia das reais intenções de Ressler, pois ele já havia deixado isso bem claro para mim, por várias vezes.
Ele aproveitou o momento e me segurou pela cintura. Eu não havia tido nenhum homem desde Red. Mas a carência e a bebida contribuíram para que eu retribuísse as investidas de Ressler. Acabamos nos beijando e entramos em casa. Dispensei a babá e dei uma última olhada em Alice, que dormia feito um anjo. Depois disso fui para o quarto com Donald e nós transamos. Não é algo que mereça detalhes, mas merece um ressalte: não houve um momento sequer que eu não lembrasse somente do Red.
Apesar de tudo, Donald se tornou um grande companheiro para mim. Não éramos um casal, mas tínhamos uma boa relação, um sobre o outro. Ele tentava conversar comigo sobre as correntes que ainda me prendiam ao passado, mas eu evitava. No entanto, ele permaneceu do meu lado, mesmo correndo o risco de um retorno absurdo de Reddington. Sim, porque era isso que eu esperava que acontecesse, cedo ou tarde. Era a velha chama da esperança que ainda queimava dentro de mim, e parecia que não ia apagar nunca.
Houve uma noite de sábado que estávamos todos sentados no chão da sala. Alice mostrava seus brinquedos a Ressler, e por alguns instantes, eu imaginei o Red ali naquela situação. Imediatamente, censurei meus pensamentos. Não era Raymond que estava ali, era Donald. E ele não havia me abandonado em momento algum.
E assim, quatro anos se passaram desde que Raymond Reddington abandonara Alice e eu.
...
Depois de ser resgatado, Red foi levado até a mansão de um dos seus associados, no sul da Itália. Giuseppe Pietro era um forte e fiel sócio de Raymond, e tinha sido o responsável pela missão de resgate do homem. Reddington havia se tornado prisioneiro, há uma semana, de forma proposital para conseguir informações valiosas. E também para evitar que a embarcação atracasse no porto da Grécia, e conseguisse ser útil nos transportes de mercadorias para os criminosos do Cabal. Todas as pistas jogadas nos últimos anos, para o FBI, haviam sido repassadas por ele. Mesmo de longe e escondendo-se nas sombras, ele estivera sendo útil. Contudo, havia agido de forma paulatina, para não chamar atenção de Kraus.
Naquela tarde, Red estava sentado e um barbeiro particular de Giuseppe fazia sua barba.
—Eu não entendo porque essa operação quase kamikaze, Reddington. Disse Giuseppe, que estava sentado a uma poltrona, no mesmo cômodo, e limpava uma espingarda.
— Não há muito que entender, Pietro. Saiba que você receberá uma quantia gigantesca pela sua fidelidade a mim.
— Do jeito que seus planos seguem, eu espero que você transfira esse dinheiro antes de morrer.
Naquele instante, os dois caíram na risada.
— Não se preocupe. O dinheiro estará na sua conta antes do fim do dia.
Naquele momento, Red se levantou e passou a toalha no rosto. Ele já estava de volta as suas impecáveis vestes de sempre. Giuseppe se aproximou dele e deu-lhe um aperto de mão.
— Eu confio em você, Raymond.
Red sorriu e retribuiu o aperto de mão.
— Vejo você em breve, Pietro.
Naquele momento, ele pegou seu casaco, seu chapéu de cor azul escura e seguiu rumo à porta da sala. Logo em seguida, saiu da mansão e se deparou com uma BMW de cor prata. Diante do veículo, Dembe o aguardava.
— Dembe!
Cumprimentou Red, dando-lhe um abraço. Logo em seguida, os dois entraram no carro e seguiram rumo ao aeroporto onde o jatinho de Reddington o aguardava.
— Você tem recebido minhas informações, Raymond? Questionou
— Sim, Dembe. Recebi todas. Cada foto, cada detalhe... Respondeu Red olhando para a janela ao lado, e observando a relva verde dos belíssimos campos italianos. – Está na hora de voltar e colocar tudo nos eixos.
— Enquanto a Kraus? Questionou Dembe em tom de preocupação.
— Kraus irá para um lugar providenciado sob medida para ele: uma cova bem funda e úmida.
Fale com o autor