Konoha Hotel
1 A Recepcionista
Notas iniciais
A Recepcionista
“Corre, corre, corre, só mais um pouco Sakura.”
Atravessei a rua correndo sem olhar para os lados.
— Olha a rua maluca!
— Ahh! – Grito de susto pelo barulho de pneus derrapando.
Sabe, não costumo sair sempre correndo em meio ao trânsito em uma avenida movimentada...
— Desculpa tio! – Aceno ainda sob o efeito da adrenalina.
— Maluca! – Diz o senhor enraivecido.
— Tenha um bom dia! – Grito quando o carro arranca, ainda um pouco constrangida por quase causar um acidente.
Não sou imprudente, só que hoje é um dia especial.
Estou atrasada, novamente, e isso não é muito bom para alguém como eu. Ou qualquer alguém. As contas não se pagam sozinhas no final do mês, e dou muito valor aos dois salários mínimos que me isolam da subsistência.
Já Kakashi não pensa o mesmo, e esse é o strike 2. Não quero descobrir o que acontece com o 3º.
Havia me mudado para Konoha com a Ino a pouco tempo e precisava manter aquele emprego a todo custo.
— É melhor correr... – Esse é seu Ramires, tipo de pessoa que queria pra ser meu tio. Simpático, baixinho e da vontade de abraçar.
Seu Ramires era porteiro do Hotel Konoha há muitos anos. O que, considerando a minha idade e minha experiência profissional, significava em torno de 5 anos.
Seus cabelos grisalhos denunciavam a sua idade, mas possuía uma jovialidade invejável. Nos 5 meses em que trabalho aqui nunca o vi triste ou mal-humorado.
— Bom dia seu Ramires! – Digo apressada passando pela portaria e lhe dando um sorriso simpático. – Ele já chegou? – A expectativa me consumia e eu quase suplicava uma negativa com o olhar.
— Não. Senhorita Sakura, essa passou perto! – Diz após constatar que eu estava atrasada para meu expediente em seu relógio de pulso.
Suspirei de alívio enquanto atravessava o saguão de mármore branco e observava as grandes colunas que sustentavam o andar.
Ainda ficava impressionada com amplo espaço como se fosse a primeira vez, quando vim a procura de emprego e imaginei como seria dançar pelo chão de mármore caro apenas com uma saia Havaiana ao som de Queen...
— Sakura! Mais uma dessas e você vai pedir esmola no sinal... – Saio de minhas ilusões com a voz de Tenten, uma linda morena que me ajudou quando o hóspede do 301 voltou mais cedo do trabalho, atrapalhando assim a tarde de sua esposa com o motoboy (que já é muito conhecido por aqui). Ela o prendeu no elevador enquanto eu corria uma maratona pelas escadas para evitar um homicídio.
A esposa ainda me dá ótimas gorjetas.
— Aposto que depois de um mês ganharia o dobro do seu salário. – Dizia enquanto contornava o balcão e me sentava na cadeira preta que, apesar de linda, machucava a minha bunda. – Me chamarão de “A Rainha do semáforo, um show antes do sinal abrir” – Falava enquanto gesticulava com as mãos a forma de um grande letreiro.
Gargalhamos após o péssimo vislumbre do meu futuro no meio artístico.
Eu gostava de trabalhar ali. Era mais emocionante que qualquer Reality Show, poderia escrever um livro com todas as histórias que nesses cinco meses fui testemunha e, em alguns casos, até cúmplice, que aconteceram por entre esses andares.
Gosto de pensar que somos anjos que velam pela união de bem comum. Somos responsáveis por preservar inúmeras famílias de comercial de margarina, lindas e sorridentes após muito perrengue que tivemos que passar para encobrir erros, mentiras e traições.
Talvez não seja honesto com a maioria dos outros envolvidos, mas nessa trama somos coadjuvantes, apenas ajudamos o transcorrer da história. E quando pensamos na vida dessas pessoas, o lema do Kakashi não deixa sombra para dúvida. “Somos instrumentos do grande show! Quando se perguntar se é certo ou não... apenas gire a manivela”.
Já me questionei se isso faria sentir-me culpada... mas, afinal vendemos um produto, os usuários definem seu caráter. Ajudamos desde organizar um complexo pedido de casamento a um jovem casal, até subornar e ou ameaçar funcionários de outros estabelecimentos a pedido de alguns de nossos velhos hóspedes. E no final nosso conto particular pode ser muito envolvente...
— Oh Testuda! Achei que o tamanho da sua testa poderia servir para melhor receptividade de sinal... É, acho que não – Dizia a loira que fazia uma careta enquanto estalava os dedos sem parar em frente ao meu rosto, me despertando do devaneio momentâneo, não tão raro assim.
— Ah, oi Porquinha... – Voltei meu olhar para Ino, afastando aquelas garras de meu rosto. – O que faz aqui? O abatedouro é no fim da rua. – A olhei em falsa confusão enquanto via o escarlate ganhar sua fase em meio à cólera.
— Todos esses anos e ainda não compreendi como funciona a amizade de vocês... – Viramos em direção a voz arrastada demonstrando sono. – Vem cá... ninguém trabalha aqui não? – Ele diz enquanto se escorava no balcão a minha frente e encarava o hall.
— Não Kiba, ninguém trabalha, me prostituo à noite e gostamos de sentar na recepção do hotel, jogar papo fora enquanto procuramos alvos para um possível estelionato... – Disse Tenten em tom de cinismo.
Em geral não comentamos sobre a vida pessoal dos hóspedes em público, mas isso não se aplicava ao nosso grupo.
Ou quando Tenten estava de TPM.
— Oxe. Sabe brincar não brinca! – Disse o moreno com aquele sorriso de cachorro no rosto.
Na maior parte do tempo, o que distinguia Kiba de Akamaru, seu cachorro e fiel companheiro, era apenas o filo animal.
Apesar da forma que levava a vida e os atos considerados imorais, era honesto com sigo mesmo e sabia o que era. Um pouco libertino, alguns vícios e erros na bagagem, mas um fiel amigo.
Sim, poucas coisas o diferenciavam de Akamaru.
— Já que estamos para jogar na cara hoje... Sakura, você não vai enganar Kakashi, parece que foi atropelada e sua camisa está do avesso.
Olhei para meus peitos e vi que as casas dos botões estavam amostra. Joguei meu cabelo, que já estava com a tintura rosa desbotada, para frente na tentativa de cobri-los e suspirei em resignação.
— Tenten, isso 'tá com mais cara de seca do que TPM, Neji não compareceu? – Vi minha amiga ficar ligeiramente ruborizada antes de lhe mostrar o dedo do meio ornado com um sorriso lascivo.
— E Ino! – Seu olhar a esquadrinhou de cima a baixo. – 'Cê 'tá gostosa em? Quando cansar da água de salsicha... me procura gata. – Disse rumando a portaria, onde Mirtes (Viúva, 58 anos e com fetiches por bombeiros) o devorava com os olhos, ansiosa pela manhã que o Gigolô mais requisitado de Konoha entre a classe das aposentadas viria a lhe proporcionar.
—... Ok. Depois disso acho que irei vestir minha roupa vulgar de garçonete de posto e servir caminhoneiros gordos e suados. – Disse Ino meio inerte com a cena anterior.
—... Bom trabalho. – Respondemos em uníssono para loira.
Por que ainda fico admirada com o que acontece por aqui?
oOOo
— Senhor Otávio, boa tarde! – Disse ao homem que vinha em minha direção.
Na maior parte do tempo essa era a minha função, sorrir e recepcionar.
— Oh, Sakura! Que bom que está aqui. – Disse o senhor Otávio apressado. Um homem de 37 anos com sérios problemas de sociabilidade... – Ela está vindo! Telefonou-me a pouco, disse que está na cidade. Você tem que me ajudar Sakura! – ... que acabou inventando para mãe dele que sou sua namorada.
— Certo, senhor Otávio, acalme-se! – O homem está quase subindo na bancada da recepção que estava em minha frente. – Eu vou lhe ajudar. – Lhe dou um sorriso simpático.
A primeira vez que isso me aconteceu não soube lidar muito bem com a mentira. Quase tive um ataque de pânico quando a mãe dele me questionou sobre futuros netos. Mas depois de fazer a mesma encenação três vezes por mês e com direito a aparições repentinas como essa já me sinto parte da família.
— Arigatō Sakura-san, arigatō.*
— Tudo bem, senhor Otávio, a que horas ela chega? – Questiono a fim poder me trocar e incorporar a 'Sakurinha' a tempo.
— Agora Sakura-san! Estou indo buscá-la no aeroporto. – Fico levemente surpresa. Tenho que ser rápida.
— Estarei esperando no hall senhor Otávio. – Me levanto indo em direção aos armários logo após ele sair rapidamente ainda me agradecendo. – Tenten! – A chamo do outro lado da bancada para ela assumir meu posto enquanto me dirijo ao guarda volume. Ela acena brevemente em resposta.
Tenten foi a primeira pessoa a me ajudar com o papel de namorada. Por trabalhar na recepção, estava lá quando Seu Otávio apareceu desesperado pela primeira vez. Assim como fez em todas as outras.
Como disse Kakashi, o hotel preza mesmo pelo bem estar dos clientes. Na mesma sala onde guardamos nossas coisas há uma espécie de closet, gostamos de chamá-lo de pit-stop mas, ao invés de trocarmos de pneu nós nos caracterizamos para melhor atendermos nossos hóspedes.
Olho para as araras em minha frente tentando achar uma peça específica no meio dos vários figurinos.
Já me fantasiei várias vezes. Namorada. Filha. Camareira. Advogada. Irmã... enfim, e às vezes o papel nem é feminino! Já fui o filho raquítico de alguém. Uma mentira que envolvia duas irmãs e uma herança... parece-me que o avô se apeteceu pela 'criança'.
— Tenten, eles já chegaram? – Digo enquanto sigo em direção ao pequeno local com estofados perto da recepção enquanto desamasso o vestido florido que escolhi pelo caminho.
— Esperando a mamãe do Tavinho Sakura? — Ouço a voz dizer próxima a mim.
— Não chame ele assim Uchiha! Alguém pode ouvir... – Sussurro a frase olhando o moreno em minha frente.
Regra número três: Descrição. Um motoboy chamando Seu Otávio de 'Tavinho' não pegaria bem. Agora, o motoboy Uchiha, mais conhecido como 'Entregador de orgasmos', 'Moto-boymagia' e outras pérolas, pegaria péssimo! Sim, Sasuke é o motoboy do 301. Assim como do 92, 105, 244...
— Conhece a nossa política. E por favor, apresse-se com sua entrega, os homens não ficam à vontade com sua presença no hotel...
— Que isso rosada, diz isso pelo incidente no 43? Não tenho culpa se ela gostava de gritar... e como iria saber que havia uma confraternização ao lado? – Olho indignada para o cinismo dele.
No episódio em questão, em uma das 'entregas' do Uchiha, a senhora do 43 acabou chamando a atenção de seu vizinho, que semanalmente recepciona o 'Clube de xadrez para homens de Konoha', com seus 'ruídos'.
Tive que fazer as entregas daquele andar por dois meses após a reclamação feita ao Kakashi pelo CXHK.
— Apenas seja rápido Sasuke. Não posso fazer as entregas por você no momento. – Digo enquanto procuro qualquer vestígio de que possa vir a ser considerado 'minha sogra' na portaria.
— O velho Otávio continua lhe implorando pra que seja sua namorada? Homenzinho patético... – Ele diz com uma cara enfezada para mim.
Já iria retrucar se uma voz esganiçada não houvesse chamado a minha atenção.
— Sakurinhaaaa! – A senhora rechonchuda passa em um rompante pelo hall com um vestido sóbrio e seu habitual penteado. Chega aos tropeços a minha frente e me abraça apertado.
Eu lhes apresento minha sogra!
— Oh, minha querida! Você anda se alimentando direito? Está tão magrinha! Achei que a essa altura a gravidez já tivesse lhe dado mais curvas, vem vou fazer algo com sustância pra você, meu neto não pode passar fome... – Enquanto Dona Olívia tagarelava eu tentava conter a vergonha e Sasuke, aquele cretino, segurava (muito malmente) a risada atrás de mim.
A senhora minha sogra continuava a me puxar para o elevador enquanto... acariciava minha barriga? A personalidade dela costumava não fazer jus a sua aparência, ela demonstrava mesmo ser uma pessoa séria.
Uma definição que você não conseguia manter após falar com ela.
— Dona Olivia, por favor, eu não estou gr..
— Por aqui minha flor, não vamos causar estresse desnecessário – Mas o quê? Porra, por que o Seu Otávio não está desmentindo?
— É Tavinho... nós precisamos conversar. – Digo tentando sair de todo esse constrangimento desnecessário que se seguirá de um extenso e cansativo questionário/orientação como da primeira vez em que Otávio disse que eu estava grávida. Como também disse que eu viajava com ele, o motivo de estar naquele hotel, assim como me fez chamá-lo de Tavinho.
— Tchau rosada! – Ainda ouço o Uchiha antes de ser sugada pra dentro daquele elevador que me daria direito a no mínimo duas horas de 'Cuidados de uma gestante e futura mamãe'.
Ah que ótimo!
oOOo
— Uchiha... Uchiha. Por aqui Sasuke seu porco! – As palavras não passavam de sussurros.
Eu estava amontoada dentro do pequeno armário de vassouras do zelador enquanto um Sasuke seminu tentava distinguir de onde vinha o zumbido.
— Sakura? – Não. O Batmam! A pergunta um tanto quanto idiota do moreno me fez ter vontade de espancá-lo quando ele finalmente se dirigiu ao almoxarifado.
— Entra logo seu bastardo! – Abri a porta até a metade para que ele entrasse logo e parasse de fazer estardalhaço.
— Neste lugar? Ai fede Sakur... – O puxei com certa brutalidade para dentro quando ouviu a porta do elevador ser aberta naquele andar.
— ... Senhor volto a repetir que isso não voltará a acontecer, já contatamos um técnico para consertar o problema do elevador... – Consegui distinguir a voz de Tenten enquanto ela passava com um senhor de meia idade em frente à porta.
— Tiveram que prender outro homem no elevador? – Sasuke indagou em tom jocoso.
— E você ainda acha graça seu canalha?! – Viro-me de frente para ele, da forma que o pequeno espaço entre nós permitia, lhe estapeando o peito desnudo. É, bati mesmo. – Até quando nos fará passar por isso? Vá ciscar longe deste hotel!
— Que isso chiclete, eu e você sabemos que grande parte das hóspedes têm preferência por esse hotel graças os serviços de entrega, se é que me entende.
Aquele bronco ainda teve coragem de retorquir a mim enquanto massageava o peito. Larga de frescura, nem 'tá vermelho.
— Você é nojento. – Bastei-me a dizer e virei de frente para porta. Não pude distinguir o olhar que Sasuke me enviara.
Por várias vezes as atitudes de Sasuke me confundiam.
"Claro senhor, me certificarei pessoalmente disso... ...as políticas do hotel são expr..."
— Eles já foram? – Tive um leve sobressalto quando a voz grossa e o hálito quente me atingiram o pescoço. Pude sentir o peitoral de Sasuke em minhas costas.
Ele estava muito perto.
— Dá pra se afastar? Aqui não é tão pequeno para que você precise me encoxar... – Não me atrevi a olhar para trás. Não confiava no tom que ele encontraria em minhas bochechas. – E não, se você não ficasse tão próximo talvez eu conseguisse entender o que estão falando...
— Para quê? É o roteiro de sempre. Vocês param o elevador com o chifrudo dentro, eu saio do quarto, vocês inventam uma desculpa para ele, a esposa o recebe com um sorriso enorme e todo mundo fica feliz.
O espaço entre nós voltava a diminuir à medida que Sasuke falava. Por que ele gosta de me deixar encabulada? Minhas bochechas estão formigando. Droga.
— Afasta Sasuke! – Ele me ignora e se curva para chegar ao meu pescoço. Quem te deu essas liberdades menino?
— Sakura. – Sua voz havia perdido o tom debochado. – Que cheiro é esse? – Indaga enquanto praticamente encosta o nariz na curvatura do meu pescoço.
— Você sabe o que significa espaço pessoal Sasuke? Droga, para de fungar no meu cangote! – Disse já incomodada com aquele contato enquanto o repelia mais uma vez com abonos de mão.
— Isso é cheiro de colônia masculina. Por que você está cheirando a homem Sakura? – Seu olhar não deixava o meu pescoço.
És um Cullen* e não me dissestes Uchiha?
— Eu estava no apartamento do senhor Otávio até você querer visitar outra senhora casada. – Disse sem dar muita importância para a conversa.
Estou com calor e quero sair logo desse quarto mal ventilado.
— E para fingir ser a namoradinha falsa daquele idiota ele tem que se pendurar em cima de você? – A voz de Sasuke estava um tanto mais alta que o aconselhável para alguém que estivesse se escondendo. Quer nos dedurar idiota?
— Pare de xingar os hóspedes Sasuke! E pare de me importunar com as suas perguntas... – Comecei a abrir a porta depois de terminar a frase. – Venha, eles já foram. Vamos passar no pit-stop e arranjar uma roupa pra você. Não pode deixar a recepção estando seminu.
Eu andava rápido até o elevador. Continuava com o vestido florido que usei para receber a visita de minha 'sogra'. Era um vestido que ia até um pouco acima do joelho, nada fora do usual, porém um pouco justo demais para os meus padrões. Olhei pra trás e o imbecil estava me encarando.
— Anda logo Sasuke! Alguém pode aparecer no corredor. – Minha voz estava irritadiça. As entregas de Sasuke nunca acabavam somente com a entrega.
— Estou indo 'Sakurinha' – havia certo asco na voz dele ao pronunciar o apelido.
— Pare de me chamar assim. É desnecessário... – Já estávamos dentro do elevador descendo para o térreo.
Além de pararmos o elevador frequentemente por motivos de força maior (Sasuke), ele costumava ter problemas mesmo sem interferência externa (Sasuke).
Aquele hotel era um prédio antigo. Ele mantinha as suas principais características de quando fundado. E isso incluía os elevadores. E como agora, eles eram lentos. E eu gostaria muito de mandar aquele idiota embora, encerrar o meu expediente e terminar a noite com um encontro todo romântico com a minha cama.
— Você está fedendo.
— O quê? – Fora um breve grito.
Eu não estava cheirando mal. Ou estava?
— fe-den-do – Sibilou o moreno. Sibilou? Posso estar fedida, mas o cheiro não me deixou retardada.
— Sério? Oh droga, preciso de um banho... – Falo enquanto me contorço para ver se estou mesmo mal cheirosa.
— Eu posso lhe ajudar se precisar. – E de novo aquele imbecil não conseguia preservar o meu espaço pessoal. Esse elevador é grande 'tá legal?
A porta do elevador se abre e me deparo com Tenten. Ela sai de um leve sobressalto e nos encara de uma maneira... estranha. Franze o cenho e inclina a cabeça levemente.
— Você estão se pegando? – Questiona sucinta.
Se nós o quê? É claro que não, de onde ela tirou aquilo? Sim, ele está a trinta centímetros de mim, com o rosto muito próximo do meu pescoço, e minha roupa está amarrotada por ter me revirado tanto para descobrir a origem do mau odor.
Mas isso não é o suficiente para ir tirando essas conclusões.
— O quê?! É claro que não. – Me afasto do Uchiha e pego Tenten pelo braço, fazendo-a me seguir pelo corredor. Olho para trás e Sasuke está nos seguindo.
— Tenten, eu estou fedendo? – Levanto o braço e aproximo minha axila de seu rosto. Ela me empurra bruscamente. O quê? 'Tá tão ruim assim?
— É claro que não. E tira essas coisas da minha cara. – Ela diz e depois faz uma expressão de... nojo? Ah qual é?! Ela acabou de dizer que eu não estava fedendo. – Você está até com um cheiro bom... amadeirado, sei lá. – Tenten completa com uma cara pensativa.
Não tenho tempo de xingar o Uchiha por ter me chamado de fedorenta. A morena de coques me puxa por um corredor paralelo.
— Shhh... – Ela enfia um dedo na minha cara. – Vi a senhora Olivia saindo do elevador sul. – Tenten sussurrou para mim.
Permito-me suspirar em alívio. Um meio suspiro, pois me lembro do Uchiha seminu que deixei para trás.
— Tenten! O Sasuke! – Balbucio meio esbaforida. Puxando o braço dela que me olha atravessado. Exagerei na força?
— Serve esse aqui rosada? – Me assusto com a voz de Sasuke em meu pescoço.
De novo.
Vou te dar um murro cara!
— Idiota, para de chegar de mansi.. – Não consigo terminar minha frase.
Tenten me puxa e agarro o braço do Uchiha por reflexo.
— Vamos logo! – Diz ela por fim.
Eu apenas aperto o passo. Tenho que pôr uma roupa logo nesse cara.
oOOo
– Suas roupas! – Estico para Sasuke uma calça de sarja e uma camisa cinza de algodão.
Estamos no pit-stop.
Ele aceita as roupas de bom grado e começa a se vestir na minha frente. Viro de costas.
Às vezes ele é tão desnecessário.
A porta se abre e por ela vejo passar Naruto, o cozinheiro de um restaurante japonês do hotel. Ele me sorri e torce o pescoço para ver quem estava atrás de mim.
— Teme* seu bastardo! Vá para trás do biombo. Como se atreve a trocar de roupa na frente da Sakura-chan*?! – O loiro deu alguns passos até mim e abraçou a minha cabeça. Acho que ele estava tentando me proteger.
Naruto costumava ser estranhamente adorável.
— Eu não estou nu... Apenas vestindo a minha calça. – Sasuke disse despreocupadamente.
Sim ele não estava nu, mas o moreno não costumava ter muito pudor com o seu corpo já que vivia o exibindo por entre esses corredores.
— Não importa! Sakura-chan é uma menina. – Olhou para mim quando terminou a frase. Não pude evitar sorrir para ele.
Naruto era como um irmão para mim.
Havia entrado pouco tempo depois de mim no hotel. Veio do Japão. Acho que deixou tudo para trás. A família dele não apoiava seu sonho de se tornar chefe.
— Obrigada Naru... – Digo ainda sorrindo a ele que me retribui com um sorriso enorme.
Ouço um muxoxo de Sasuke a minhas costas, mas ignoro.
A amizade dos dois era construída a base de disputas e rivalidades. Sempre achei isso muito idiota. Quem briga com um amigo? Minhas amizades sempre foram regadas a carinho.
— Testuda! Você não sabe o que aconteceu! – A porta por onde Naruto havia passado abre em um rompante. Isso aqui virou casa da mãe Joana? Aquela porca maldita. Testuda é a sua avó! – E eu ainda não sei se isso é bom ou ruim. – Ela havia caminhado até mim e empurrado Naruto que ainda me abraçava. Segurou em meus ombros e olhou profundamente em meus olhos. Sério. Ela estava quase encostando seu nariz no meu. – Eu fui demitida! – Arregalo os meus olhos no mesmo instante dando alguns passos para trás.
— O quê? ... Mas como?...Por quê?... O que você fez porca?! – Eu começava a ficar aflita.
Ino não podia perder o emprego.
Assim como eu, morreria de fome se isso viesse a acontecer. Ela trabalhava em uma lanchonete de beira de estrada. Foi o único emprego que conseguiu arrumar quando chegou à cidade. Éramos amigas há anos e resolvemos enfrentar o mundo juntas após nos formarmos.
Ela soltou-se de mim e passou a mão nos cabelos enquanto começava a andar em círculos a minha frente.
— Eu não sei. Quer dizer eu sei, mas...
Ela estacou no lugar repentinamente virando-se de frente para mim. Levantou o antebraço balançando o dedo em riste em frente ao rosto.
— Aquele porco gordo passou a mão em mim! – Ela gritou. – Eu sempre lhe disse que odeio trabalhar lá. É horrível! Todos fedem. O salário é péssimo e eu não aguentava mais. E-Eu, Ahhhhh, quando aquele nojento passou as mãos por debaixo daquele uniforme ridículo e vulgar daquela espelunca... Ahh eu soquei a cara dele Saky! E joguei a bandeja com o café e tudo mais em cima dele. E-eu nem sei o que aconteceu, eu sai dela sem olhar pra trás e... eu preciso de um abraço. – Ela dizia tudo apressadamente e quando terminou seus olhos estavam marejados.
Andei rapidamente até ela e a abracei enquanto acariciava os seus cabelos.
— Shh... Tudo bem, nós vamos dar um jeito querida. Você deveria ter chutado as bolas daquele idiota! – Ela solta um pequeno riso por entre os soluços e me afasto poucos centímetros dela para enxugar suas lágrimas. – Não se preocupe, só precisamos apertar um pouco as coisas lá em casa. Isso nem será problema já que você já sobrevive só à base de alface. – Ela me dá um tapa leve no braço. Sorrio para ela. Sua face estava um pouco corada pelo breve choro.
— Testuda idiota... – Murmura passando a mão no rosto para tirar qualquer vestígio de lágrimas. – Falta muito para acabar seu turno? Preciso de sorvete e brigadeiro.
Olho no relógio que estava na parede atrás de mim. O Uchiha havia consumido quase todo o fim de meu experiente com sua fuleragem. Acho que não faria mal em ir um pouco mais cedo para casa hoje.
— Vamos pra casa Ino. – Retorno a ela com um sorriso e me deparo com Sasuke a minha frente. Esse imbecil ainda está aqui? – Por que não foi embora Sasuke? – Questiono séria.
Ele já havia causado muito tumulto por hoje.
Sasuke levanta as mãos como sinal de rendição e sorri para mim indo até Naruto. O quê? Era pra você ir embora.
— É... Ino não é? – Diz Naruto e nós nos voltamos a ele. – Desculpa, mas não pude deixar de ouvir a conversa. Está procurando emprego, não está? Há uma vaga de garçonete no restaurante em que eu trabalho e como você já tem experiência na área eu pens...
— Ahhhh, obrigada loirinho! – Ino havia pulado em cima de Naruto. Por que ainda sou amiga dela mesmo?
— Oh, tudo bem. Não precisa agradecer 'Tebayo.* – Ele tentava retirar delicadamente ela de seu pescoço. Fui até os dois e puxei Ino de cima do rapaz. Ele me agradeceu com um sorriso.
— Vem Ino! Vamos ver a sua vaga. – A arrastei para fora do pit-stop enquanto acenava brevemente para Naruto. – Vá embora Uchiha!
— Até amanhã pra você também rosada. – Imbecil.
oOOo
— Ahh! Nem acredito que consegui uma entrevista! – Ino estava esfuziante.
Estamos com sorte, pois estão expandindo o quadro de funcionário do restaurante em que Naruto trabalha. O dono logo se dispôs a entrevistar Ino para uma possível vaga.
Falo por nós duas quando digo que foi um alívio.
— I-isso fica em que andar? – A voz delicada me chama a atenção.
Ino e eu estávamos indo até a recepção avisar a Tenten que eu sairia mais cedo. E a loira não parava de falar, animada com seu novo emprego.
A morena tímida a nossa frente desviou sua atenção de Tenten para, provavelmente, descobrir de onde vinha aquele som que mais parecia uma calopsita gritando... vulgo Ino.
— Olá! – Aceno para ela.
Ela me oferece um sorriso tímido, que a deixava ainda mais bonita. Tinha longas madeixas negras e olhos de um azul acinzentado incríveis.
— Oi. – Ela também acena.
Ino, que finalmente parou de falar, presta atenção na morena.
— Nossa, seus olhos são lindos! – Ela diz a desconhecida.
Claro, por que a primeira coisa que você deve fazer a um desconhecido é elogiá-lo. A morena fica levemente ruborizada e um tanto surpresa. Até por que é bem normal fazer essas coisas... ao menos é com a Ino.
— Oh... é, o-obrigada. – Ela agradece. Suas mãos estavam segurando a barra da saia.
Ela era muito fofa.
— Tenten. Vou sair mais cedo hoje tudo bem? – Voltei minha atenção para ela que nos observava.
Tenten sorriu e acenou em positivo.
— Pode fazer o favor de levar a Hinata até o restaurante japonês em que o Naruto trabalha? Ela será a nova funcionária. – Diz Tenten e olho para a morena com um sorriso. Ela parecia envergonhada com a atenção sobre si.
— Oh, é claro que pos...
— Vamos trabalhar no mesmo lugar! – Ino me interrompeu e segurou as mãos de Hinata junto às suas.
Eu até a repreenderia, mas a deixei expressar sua alegria. Ela conseguiu abandonar aquela 'espelunca mal cheirosa', como se referia à lanchonete, e arrumara outro emprego no mesmo dia. Eram muitas emoções.
— Você ainda não foi contratada Porca. E solte a Hinata! Ela está mudando de cor. – Hinata estava mesmo de outra cor. Como um pimentão.
A loira ofereceu um sorriso de desculpas a Hinata que começou a retomar sua cor original. Ino era meio sem noção às vezes. Vai tratando desconhecidas, como se fossem amigas da pré-escola.
— Vem Hina! Você vai adorar isso aqui. – Puxo Hinata pela mão a fim de lhe levar até o restaurante.
Quando chegamos ao elevador ele está me olhando um pouco assustada. Que foi? Fiz algo errado?
— É claro que sim! – A voz de Naruto me faz desviar o olhar de Hinata. – Seu Teme. Me pague o que deve! – Os vejo vindo em direção ao elevador. O loiro esbravejava algo para Sasuke. Sasuke? Porque esse exu* não desencarna do hotel?
— Oh, Naruto que bom que está aqui. Pode levar Hinata até o restaurante? Ela será sua colega de trabalho. – Empurro Naruto para dentro do elevador e depois gesticulo para Hinata.
Ainda vejo suas faces confusas antes de as portas se fecharem.
Viro-me para o Uchiha. Ele está com a costumeira cara de... nada.
— Sasuke! Você não trabalha aqui, não é hóspede nem bem vindo. Vá embora! – Disse enquanto o arrastava até a portaria.
Já do lado de fora do hotel, o solto.
— Eu sei que você me ama rosada. – Sasuke disse com aquele sorriso estúpido na cara. Quando é que esse encosto vai deixar a minha vida?
— Claro, Sasuke. E te amo mais ainda quando está longe do hotel. – Dou as costas para ele e escuto sua leve risada. Ignoro.
Ino me esperava entediada na portaria.
— Agora que já se despediu de seu namorado podemos ir? – Ela diz assim que chego perto. Franzo o cenho. Mas que mania chata de achar que eu e aquele bronco temos algo.
Eu em...
— Humpf. Vamos logo. – Começo a andar em sua frente. Ino me segue.
— Olha só! Está até falando como ele.
— O quê? Qualquer um fala assim Ino.
— Mas você se sente atraída por ele não sente?
— Atraída? Por ele?
— Isso, é quando você fica excitada quando o vê sem camisa e começa a imaginar como seria tocar aqueles quadradinhos enquanto ele...
— Ahh. Cale a boca Ino!
— Mas olha! Você ficou vermelha!... isso é um sinal.
— Sua bunda flácida é um sinal... sua gorda!
— Volte aqui testa de marquise! Eu vou te pegar!!!
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